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Miíase furunculóide causada pela larva da mosca-tumbu em uma criança de 3 anos de idade



           Um garoto de 3 anos de idade foi apresentado ao departamento de emergência com um histórico de 5 dias de um progressivo e dolorido inchaço no escalpo. O paciente tinha recentemente retornado da Austrália seguindo férias de 3 meses no Leste Africano. Ele estava sistematicamente bem, sem nenhum registro médico preocupante. Pouco antes da apresentação hospitalar, um aparente movimento foi notado na ponta da lesão, e uma única larva tinha sido expressa e removida pela mãe do paciente.


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           Exame laboratorial revelou um inchaço furuncular não-flutuante de 10 milímetros (mm) sobre o occipício (parte ínfero-posterior da cabeça), e com uma ponta cicatrizada (crosta) de 5 mm de espessura. Não existiam outras lesões, ou outro aspecto clínico relevante. A larva, trazida pela mãe do paciente, tinha 18 mm de comprimento e ainda estava móvel, como observado no vídeo abaixo.



           A larva foi identificada como pertencente à mosca-tumbu (Cordylobia anthropophaga), também conhecida como mosca da manga, mosca-tumba, mosca-putzi ou mosca da larva da pele. É uma espécie de mosca comum na África Central e Oriental, e um parasita de grandes mamíferos durante o estágio larval.


          A mosca-tumbu é uma causa comum de miíase furunculóide (ou furuncular) na África Subsaariana. As fêmeas dessa espécie deposita seus ovos sobre superfícies no solo, e a larva eclode sobre o contato com o calor corporal de mamíferos, se enterrando subsequentemente dentro do tecido subcutâneo do hospedeiro. Uma única ou múltiplas lesões furunculares, cada uma contendo uma única larva, se desenvolve com prurido (persistente coceira) e dor associados. Os espiráculos respiratórios podem se tornar visíveis no poro central do furúnculo à medida que a larva amadurece. Uma reação inflamatória ao redor da lesão progride até que a larva alcance maturidade 8-12 dias após a infecção inicial. O ciclo de vida é comparativamente mais curto do que aquele da mosca da espécie Dermatobia hominis (!), a outra causa comum de miíase furuncular. Nesse sentido, a identificação da espécie correta pode ser útil para determinar a probabilidade de lesões adicionais se tornarem mais aparentes.

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          O tratamento da miíase furunculóide é a remoção física da larva, algo que pode ser auxiliado pela obstrução da lesão (bloqueio respiratório) com parafina líquida visando induzir a larva a emergir. No caso do paciente em questão, um curso completo com o antibiótico cefalexina foi feito para tratar infecções bacterianas secundárias, e recuperação completa foi alcançada.


(!) MIÍASE: É uma infecção com o estágio larval de moscas em geral. Várias espécies de moscas em vários gêneros podem causar miíase em humanos. O agente primário de miíase em humanos é a mosca da espécie D. hominis, esta a qual primeiro deposita seus ovos em um mosquito que se alimenta de sangue de mamíferos. Os ovos depositados são fixados com uma substância similar a uma cola. As larvas eclodem quando o mosquito vetor está se alimentando em um mamífero, e penetram ativamente na cavidade subdérmica por 5-10 semanas, respirando através de um buraco na pele do hospedeiro. As larvas maduras emergem da lesão e caem no chão, formando uma pupa e dando origem a uma nova mosca adulta cerca de 1 mês depois. A infecção com a larva da D. hominis é popularmente conhecida como berne. Em infestações com larvas dos gêneros  Cochliomyia e Wohlfahrtia, a larva se alimenta do hospedeiro durante uma semana, e podem migrar da camada subdérmica para outros tecidos do corpo, frequentemente causando extremos danos no processo.


   MIÍASE E QUEIJO CAZU MARZU

          O queijo Cazu Marzu (literalmente 'Queijo Podre'), encontrado quase que exclusivamente na ilha da Sardinia, Itália, é, sem sombra de dúvidas, um prato peculiar.

           Como ele é feito? O queijo, depois de manufaturado do leite da ovelha (pasteurizado ou cru), é colocado em um ambiente escuro e aberto para... atrair moscas! Sim, então esses insetos (no caso, a espécie Piophila casei) botam ovos neles, nascem as larvas, e estas começam a comer o queijo, principalmente sua gordura, por cerca de 2 semanas, aumentando a fermentação do alimento e o deixando bem macio e com um sabor único. E quando as larvas estão bem crescidinhas, é hora de saborear a delícia: um queijo vivo, lotado de larvas! 



          E outra curiosidade, se já não bastasse a história toda: as larvas, quando incomodadas, pulam feito loucas, alcançando distâncias de até mesmo 15 cm! Por isso, é recomendado comer esse queijo com a proteção de óculos, para elas não colidirem com os seus olhos! Alguns retiram as larvas para comer, e muitos outros comem elas mortas, usando o seguinte método: pegam pedaços do queijo e o amarram em um saco plástico; com a falta de oxigênio, as larvas começam a pular para fora do queijo, emitindo barulhos característicos; quando os sons cessam, o lanche está pronto!

          O queijo ficou por décadas ilegal para venda na União Europeia, por ordens sanitárias (Lei N°. 238/1962). Nesse período era encontrado com altos preços no mercado negro. Mas depois acabou sendo meio que liberado, por alegações de ser uma alimento 'tradicional' da ilha de Sardinia e que existiam métodos higiênicos de o produzirem. Isso se somou ao fato de vários outros alimentos serem produzidos direta ou indiretamente por insetos, como o mel. De qualquer forma, mesmo com métodos alegadamente higiênicos para a produção do queijo, ainda sua legalidade é ainda bastante questionada.

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         Nesse último ponto, temos um notável caso de miíase acidental alertando para o perigo de ingerir as larvas vivas com o queijo. Em 2009, no periódico Microbiologia Medica (2), uma mulher de 48 anos apresentou-se ao hospital com uma dor no estômago muito forte que duravam horas e até mesmo prejudicava seu sono. Seu marido, um médico, chegou a administrar o medicamento Ranitidina (usado no tratamento de úlceras e esofagite), mas sem qualquer efeito. A paciente reportou que chegou a encontrar na sua saliva três larvas com comprimento de 3 a 4 milímetros, as quais foram identificadas em laboratório como larvas da mosca P. casei. Tratamento com Albendazol (um vermífugo e anti-parasitário) resolveu o problema.


          A paciente tinha um histórico de ingestão de queijo Cazu Marzu, provavelmente a origem das larvas que a infectaram.

          As larvas dessas moscas resistem à ação de sucos gástricos e às enzimas digestivas do estômago, passando para o intestino e podendo causar irritação nas paredes intestinais. Essas larvas também podem penetrar na parede estomacal ou intestinal, causando náusea, vômitos, dor epigástrica e/ou abdominal, às vezes diarreia (com ou sem sangue).


(1) Reporte do caso: https://www.jpeds.com/article/S0022-3476(19)30654-7/fulltext 


REFERÊNCIAS