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Cogumelos mágicos podem ser a solução da depressão?

- Atualizado no dia 1 de maio de 2021 -

 
          Corroborando evidências de estudos prévios, um estudo clínico de alta qualidade mas de pequeno porte publicado no periódico The New England Journal of Medicine (Ref.1) encontrou que a psilocibina - um dos principais alucinógenos encontrados nos chamados 'cogumelos mágicos' e que atua como um receptor agonista de serotonina - é tão ou mais efetiva no tratamento da depressão quanto um bem estabelecido medicamento antidepressivo (escitalopram). Com base em resultados secundários do estudo, os pesquisadores concluíram que a psilocibina parece ser uma melhor opção em relação ao escitalopram para o tratamento de quadros depressivos.

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   COGUMELO MÁGICO

          O composto psicodélico psilocibina é o éster fosforilado do seu metabólito, psilocina (4-OH-N,N-dimetiltriptamina). Psilocibina e psilocina ocorrem naturalmente em mais de 200 espécies de fungos do filo Basidomycota, os quais são coletivamente chamados de "cogumelos mágicos".  

          A história da psilocibina começa com o sacerdote Franciscano Espanhol Bernardino de Sahagún quem viajou até o México ("Nova Espanha") em 1529 e ali conduziu extensivos estudos etnográficos. Ele aprendeu Nahuatl, a linguagem Asteca (1), e gastou mais de 50 anos estudando as crenças Astecas, cultura e história. Seu trabalho de maior destaque é a compilação Historia general de las cosas de la Nueva Espãna (História Geral das Coisas da Nova Espanha), com destaque para o manuscrito Florentine Codex, consistindo de 2400 páginas organizados em 12 livros, com cerca de 2500 ilustrações. Nesse códex, Sahagún repetidamente faz referência ao termo teononácatl, "Carne de Deus", os sagrados cogumelos da Mesoamérica.

(1) Leitura recomendadaAstecas, Sacrifícios Humanos e os Espanhóis

           A existência desses cogumelos era muito controversa, inclusive negada por alguns, e foi debatida até 1936, quando Roberto Weitlaner foi capaz de obter espécimes desses fungos. Esses espécimes foram encaminhados para a Universidade de Harvard, EUA, mas acabaram se decompondo tanto que não puderam mais ser identificados. Dois anos mais tarde, sua noiva, e dois outros colaboradores, conseguiram participar de uma cerimônia de cogumelo em Huautla (México) e fornecer detalhes do evento. Ainda em 1938, Richard Evans Schultes, que também estava em Huautla, obteve espécimes de três espécies de cogumelos sagrados que foram eventualmente identificados como as espécies Psilocybe caerulescens, Panacolus campanulatus, e Stropharia cubensis. Investigações mais detalhadas foram, infelizmente, interrompidas por causa da Segunda Guerra Mundial.

          A história continua em 1952, quando o banqueiro e micólogo amador R. Gordon Wasson e sua esposa Valentina Pavlovna Wasson receberam uma carta trazendo o artigo de um jornal que citava Shultes discutindo o uso ritualístico dos cogumelos pelos Mesoamericanos no século XVI. Intrigado com a questão, Wasson, então, fez várias viagens para o México na busca dos tais cogumelos. Em uma viagem para a cidade de Huautla de Jiménez, em Oaxaca, em junho e julho de 1955, Wasson e o fotógrafo Allan Richardson foram permitidos de participar de um ritual de cogumelo com a curandeira Maria Sabina.

          A viagem de Wasson e suas experiências foram exploradas em uma matéria publicada no dia 13 de maio de 1957 na revista Life Magazine, com o título "Seeking the Magic Mushroom" ("Procurando o Cogumelo Mágico"). Essa matéria introduziu os cogumelos psicoativos para uma ampla audiência pela primeira vez, ajudando a popularizar o termo 'cogumelo mágico'.

           Mais tarde, ainda em 1957, a família Wasson foi acompanhada em uma nova expedição pelo micólogo Francês Roger Heim, quem identificou vários dos cogumelos "mágicos" como pertencentes ao gênero Psilocybe. Heim foi capaz de cultivar os cogumelos na França e enviou uma amostra de 100 gramas de matéria orgânica seca da espécie Psilocybe mexicana para análise conduzida pelo notório químico de produtos naturais Albert Hofmann, responsável pela descoberta dos efeitos do LSD em 1943. Após testar 2,4 g do cogumelo em si mesmo e conduzir uma série de análises químicas, Hofmann conseguiu identificar, isolar e cristalizar o componente ativo, nomeando-o de psilocibina. Análises químicas subsequentes também identificaram outro componente minoritário no extrato do cogumelo: psilocina.



   COGUMELOS NO BRASIL
 
          Dentro do gênero Psilocybe, quatro são as espécies mais conhecidas: P. cyanescens, P. cubensis, P. mexicana, P. tampanensis. A maior diversidade de espécies encontra-se no México e na América do Sul, principalmente no Brasil e no Chile. Porém existem espécies como o Psilocybe cyanescens, que podem ser encontradas em regiões temperadas. Os cogumelos desse gênero, além de referenciados como "cogumelos mágicos" ou teonanácatl (“Carne de Deus”), recebem vários outros nomes como: honguitos, hongos, humito, e no Brasil são mais conhecidos como cogumelo-do-estrume, ou ainda cogumelo-de-chá. Seu habitat é geralmente associado a esterco bovino, porém este pode estar presente em estrume de qualquer outro animal.

            No Brasil a espécie mais conhecida é o Psilocybe cubensis, sendo facilmente encontrado em pastos de gado, por crescerem no esterco após períodos de chuva. O Psilocybe cubensis, pode ser ingerido de maneiras diferentes: in natura (quando são colhidos diretamente da natureza), ingestão de cápsulas com os cogumelos desidratados e moídos (método que visa disfarçar o gosto do fungo) e por meio da imersão em água quente (mais conhecido como chá de cogumelo ou chá alucinógeno). 


           Existem fungos cujos corpos frutíferos são muito similares, ao Psilocybe spp. e que podem ser venenosos, como é o caso do Gallerina autumnalis, sendo assim deve-se ter muito cuidado na identificação.


   EFEITOS PSICOATIVOS

          Os níveis de psilocibina e de psilocina em um número de espécies de cogumelos conhecidos de serem usados recreativamente e em rituais variam de 0,1% a quase 2% (massa seca). A dose média oral de psilocibina é de 4-8 mg, a qual induz os mesmos sintomas do consumo de quase 2 g de massa seca da espécie Psilocybe mexicana. No geral, possui efeitos semelhantes aos do LDS, como a estimulação de receptores de serotonina centrais. Esta substância é descrita como tendo uma baixa toxicidade, não causando vícios físicos e sendo relativamente segura para a saúde, sendo que a hospitalização após o consumo de cogumelos Psilocybe sp. raramente é necessário. Os efeitos da psilocibina tipicamente duram de 2 a 6 horas.

            Após o consumo, o efeito é dependente do usuário, podendo alterar a percepção da visão e do tato, além de o indivíduo poder apresentar uma maior sociabilização, sensação de insights, e experiência de pensamentos abstratos profundos, assim como efeitos negativos ou “bad trip”, onde o individuo pode sentir ansiedade, medo, confusão mental, tontura, desmaios e diminuição dos reflexos.

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          É importante ressaltar nesse ponto que após a ingestão do cogumelo ou do composto isolado, a psilocibina é rapidamente desfosforilada a psilocina. Em outras palavras, a psilocibina é essencialmente uma pró-droga para a psilocina, esta a qual é o real composto ativo in vivo. A psilocina, e não a psilocibina, é um agonista dos receptores corticais de serotonina, e hoje já é bem aceito que é esse tipo de receptor - em particular o receptor de serotonina 2A (5-HT2A), no caso da psilocibina - é o responsável por mediar os efeitos alucinogênicos da psilocina e de outros psicodélicos, como a dimetiltriptamina (DMT) (2), o ácido lisérgico dietilamida (LSD). 

(2) Leitura recomendadaO consumo de ayahuasca é prejudicial? Qual o potencial terapêutico?

           Os psicodélicos reduzem a estabilidade e a integridade de redes neurais bem estabelecidas, e simultaneamente reduzem o grau de segregação entre essas redes. A alteração psicodélica-induzida na conectividade cerebral é caracterizada por uma sincronização de redes sensoriais funcionais e desintegração de redes associativas. Existe também evidência in vivo de aumento da complexação dendrítica, promoção de crescimento da espinha dendrítica, estimulação da formação de sinapses no córtex, e fortalecimento de sinapses excitatórias no hipocampo, e crucialmente associadas com o processamento de recompensa e emoções.  Todos esses efeitos estão associados à plasticidade neuronal.

          Nesse sentido, os psicodélicos levam a um estado cerebral onde existe um maior repertório de conjuntos de conectividade que se formam e se fragmentam ao longo do tempo. Psicodélicos não simplesmente fazem o cérebro mais aleatório, mas ao invés disso, após a organização normal ser interrompida, conexões fortes e topologicamente de longo alcance funcional emergem que não estão presentes no estado normal do cérebro.

           Os agentes psicodélicos já mostram aumentar a sugestibilidade e seus efeitos psicológicos são assumidos de serem contexto-dependentes. Em outras palavras, o conteúdo e qualidade subjetiva da experiência psicodélica é influenciada pelas memórias e percepções do indivíduo, e pelo grau ao qual o ambiente é acolhedor no momento da administração do agente.

          Como resultado, a psilocina induz estados profundamente alterados de consciência, incluindo distorções transientes e dose-dependentes na experiência subjetiva do eu próprio, fenômeno chamado de 'dissolução de ego' e caracterizado pela redução da consciência auto-referencial que define a consciência normal despertada. 

          Nesse caminho, existe grande potencial da psilocina e de outros psicodélicos no tratamento de várias condições psiquiátricas caracterizadas por distorções da auto-experiência, incluindo ansiedade, depressão e vícios (ex.: dependência química). É sugerido inclusive que essas substâncias podem ajudar a diminuir o comportamento criminal (3). 

(3) Leitura recomendada: Novo estudo sugere que drogas psicodélicas podem diminuir o comportamento criminal

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   PSILOCINA E DEPRESSÃO

          Importantes transtornos depressivos afetam aproximadamente 10% da população no Reino Unido e nos EUA, e mais de 300 milhões de pessoas ao redor do mundo, trazendo sérios prejuízos para a vida dos pacientes, e sendo muito custosos à sociedade. É estimado que o risco relativo de morte por todas as causas é 1,7 vezes maior em indivíduos com depressão em relação ao público em geral (4), e, apenas nos EUA, o fardo econômico anual devido aos transtornos depressivos é estimado ser de US$210 bilhões.

(4) Leitura recomendadaMitos e esclarecimentos sobre o suicídio 

          Inibidores seletivos da recaptação de serotonina são a primeira linha de tratamento para esses transtornos, no entanto, esses fármacos levam várias semanas para funcionar e, em alguns pacientes, não induzem uma resposta. Aproximadamente 30% a 50% dos pacientes não respondem completamente e 10-30% dos pacientes são considerados resistentes ao tratamento, resultando em efeitos que, na média, são apenas modestamente maiores do que o efeito placebo. Além disso, os efeitos do tratamento com esses antidepressivos geralmente duram apenas alguns dias a, no máximo, 2 semanas, e estão associados a sérios potenciais efeitos colaterais (idealização suicida, declínio do desejo sexual, e ganho de peso), e ainda requerem administração diária.

          Um número de estudos clínicos randomizados conduzidos nos últimos anos têm mostrado que o uso alternativo de psilocibina para o tratamento de depressão e ansiedade é promissor (Ref.7-9), mesmo em casos de indivíduos resistentes aos tratamentos farmacoterápicos (5). Indivíduos sofrendo com depressão reportam também um aumento na 'aceitação' e 'conexão' com o mundo após o tratamento com psilocibina (Ref.10). Além disso, a psilocibina (e seu metabólito bioativo psicolicina) não se mostra viciante e está associada a efeitos colaterais não-adversos, como leve-a-moderada dor de cabeça e desafios emocionais que são limitados ao período das sessões terapêuticas. Nesse último caso, a administração de psilocibina apenas necessita ser feita uma a duas vezes para efeitos de considerável longo prazo.

(5) Leitura recomendadaCogumelos mágicos podem "resetar" o cérebro de pacientes com depressão

          Em 2016, em um estudo publicado no Lancet Phisicology (Ref.11), um pequeno grupo de voluntários, todos diagnosticados com depressão intratável, foram tratados com o concentrado de psilocibina, com cada sessão sendo acompanhada por música clássica e suporte psicológico. Todos os 12 participantes (seis mulheres, seis homens), tiveram grande recuperação do quadro de depressão depois do tratamento, sendo que 5 deles permaneceram livres da depressão após 3 meses de acompanhamento.

            Em um estudo clínico randomizado publicado em 2020 no periódico JAMA Psychiatry (Ref.12), e envolvendo 24 participantes com transtorno depressivo, os pesquisadores investigaram os efeitos terapêuticos de duas sessões de psilocibina (sessão 1: 20 mg/70 kg; sessão 2: 30 mg/70 kg). A psilocibina administrada no contexto de psicoterapia de suporte (aproximadamente 11 horas) produziu rápidos, grandes e sustentados efeitos antidepressivos que duraram até 4 semanas e com significativos benefícios persistindo por mais de 4 semanas. Os efeitos terapêuticos reportados foram aproximadamente 2,5 vezes maior do que aqueles resultantes de psicoterapia e mais de 4 vezes maior do que os efeitos encontrados em tratamentos de depressão psicofarmacológicos.

          No novo estudo clínico - randomizado, duplo-cego, controlado -, publicado no NEJM (Ref.1), os pesquisadores resolveram comparar os efeitos antidepressivos da psilocibina com o  fármaco escitalopram, um inibidor seletivo da recaptação de serotonina, e representativo dos atuais antidepressantes usados nesse sentido, em termos de segurança e de eficácia. No total, foram 59 participantes com depressão moderada-a-severa e de longo prazo, os quais foram divididos em dois grupos: 30 receberam duas doses separadas de 25 mg de psilocibina em um intervalo de 3 semanas mais 6 semanas de um comprimido diário de placebo (grupo psilocibina) ou duas doses separadas de 1 mg de psilocibina em um intervalo de 3 semanas mais 6 semanas de escitalopram diário oral (grupo escitalopram). Todos os participantes receberam suporte psicológico e tinham idade média de 41 anos.

          Os resultados primários - baseados em uma análise de 6 semanas - não mostraram diferença significativa entre os dois grupos quanto aos efeitos antidepressivos estimulados, mas os resultados secundários foram mais favoráveis ao uso de psilocibina, apesar de não conclusivos. Nenhum efeito adverso sério foi observado nos dois grupos. No grupo da psilocibina o efeito adverso mais comum reportado foi dor de cabeça dentro de 24 horas após a administração da substância.

           Estudos clínicos de maior porte continuam ainda sendo necessários para estabelecer a psilocibina como uma efetiva terapia visando quadros de depressão, mas as evidências acumuladas até o momento são mais do que sugestivas.

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   EFEITOS PSICODÉLICOS SÃO NECESSÁRIOS?

          Apesar da proposta de que estados alterados de consciência são necessários para a ação terapêutica dos psicodélicos, evidências recentes sugerem que os efeitos antidepressivos da psilocibina - associados a uma plasticidade neural no hipocampo - são independentes dos efeitos psicodélicos da substância, estes últimos disparados, por exemplo, com a interação específica da psilocina com o receptor de serotonina 2A (Ref.13). 

          Em testes clínicos realizados até o momento, o paciente tratado com psilocibina permanece sob os cuidados de um guia, este o qual mantém a pessoa calma e reassegurada durante a experiência psicodélica, a qual inclui, como já mencionado, alucinações, percepção alterada de tempo e espaço, e intensos encontros emocionais e "espirituais". Essa experiência é muito poderosa e pode mudar a vida do paciente, mas também pode ser muito forte para algumas pessoas e mesmo deletéria ou não-adequada.

           Além disso, outras barreiras previnem o uso terapêutico de compostos psicodélicos. Por exemplo, existe receio de especialistas de que a experiência psicodélica pode promover psicose em pessoas que são predispostas a severos transtornos mentais, como transtorno bipolar e esquizofrenia, drasticamente limitando os grupos clínicos a indivíduos sem marcadores genéticos de risco para esses transtornos e sem histórico familiar no mesmo sentido. 

           E isso sem contar os custos para o tratamento com psilocibina, onde o paciente precisa se afastar por vários dias do trabalho para se preparar e mergulhar na experiência psicodélica, necessitando de um caro acompanhamento privado e em um espaço reservado.

          Se os efeitos psicodélicos não forem realmente necessários para a ação benéfica de compostos como a psilocibina - independentes, por exemplo, da plasticidade neural observada -, um amplo espectro de indivíduos podem se beneficiar com fármacos derivados ou análogos de psicodélicos que apenas exerçam efeitos visando o transtorno sofrido, sem necessidade de se afastar do trabalho ou da sua casa, e diminuindo dramaticamente os custos do tratamento. De fato, já existem estudos com resultados promissores nesse sentido, incluindo a descoberta de um análogo psicodélico não-alucinógeno que mostrou significativos benefícios terapêuticos antidepressivos em ratos e após uma única administração (Ref.14). 


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   ALERTA: USO RECREATIVO

          Aqui é válido lembrar que os potenciais efeitos terapêuticos da psilocibina sendo investigados estão em um contexto de uso medicinal, em ambiente controlado e sob supervisão de profissionais de saúde. Além disso, esse agente psicodélico é administrado sob doses controladas e de forma isolada. O uso recreativo e indiscriminado dessa substância, especialmente a partir de cogumelos, pode representar perigo para os usuários em um número significativo de casos.

          Depois de consumida, na maioria das vezes a partir de cogumelos, o efeito da psilocibina no corpo começa depois de cerca de 20 minutos e dura por quase 6 horas, onde o indivíduo passa a ter alucinações (nem sempre boas) e não consegue diferir realidade de fantasia. Não é preciso dizer o quão isso é perigoso se não feito em um ambiente seguro e supervisionado. E se as doses não forem moderadas, ataques de pânico e outros efeitos colaterais danosos podem ocorrer. Lembre-se que os efeitos dos psicodélicos são contexto-dependentes. Além disso, a busca por cogumelos que contenham a psilocibina pode ser perigosa se feita sem regularização ou grande experiência, já que é difícil diferir cogumelos venenosos dos comestíveis. É altamente recomendável que pessoas despreparadas não se arrisquem tentando coletar esses fungos por conta própria.

          No Brasil, os indivíduos que utilizam cogumelos mágicos compram mais de terceiros do que cultivam para o consumo próprio, o que acaba não acarretando em problemas levando em consideração que aqui no país as substâncias psilocibina e psilocina puras se encontram na lista de substâncias controladas, enquanto cogumelos em sua forma natural não.

          É comum o uso do "cogumelo mágico" para realizar uma viagem psicodélica. Apesar do princípio ativo responsável pelas alucinações e outros efeitos mentais não ser considerado viciante ou tóxico para o cérebro, fígado, entre outros órgãos - como mencionado anteriormente -, os especialistas continuam fazendo alertas quanto ao uso indiscriminado.

           Durante as "viagens", estas as quais podem ser 'ruins' ou 'boas' ('bad trip' ou 'good trip'), muitos riscos comportamentais podem vir acompanhados. Segundo um estudo publicado no Journal of Psychopharmacology (Ref.15), entrevistando 1993 indivíduos que reportaram consumo de psilocibina, encontrou que 10,7% dos entrevistados que tiveram uma 'viagem ruim' durante o uso da substância, ou do cogumelo contendo a substância, relataram que colocaram a si mesmo e a outras pessoas em perigo; cerca de 2,6% disseram que agiram violentamente ou agressivamente; e 2,7% disseram que procuraram ajuda médica. Entre os entrevistados, e o mais grave é que 5 deles que tinham já quadros anteriores de ansiedade, depressão e pensamentos suicidas, disseram ter tentado, enquanto sob efeito da droga, se suicidarem.

           Podemos citar o notável caso de um homem de 33 anos de idade que, minutos após consumir cogumelos alucinógenos pela primeira vez, ficou em um estado agitado e pulou do segundo andar de uma loja, morrendo com o impacto. A fatalidade ocorreu em outubro de 2005, em Dublin, Irlanda, sendo descrita em detalhes no periódico Journal of Forensic Sciences (Ref.16). A vítima era saudável e sem histórico psiquiátrico.

          Os alucinógenos sintéticos podem causar riscos físicos imediatos e maiores. Por exemplo, o ecstasy (psicodisléptico metanfetamínico) pode causar desidratação e levar à morte. Inicialmente sintetizado pela Merck para ser um moderador de apetite, o ecstasy - 3,4- metilenodioximetanfetamina (MDMA) -, além de efeito alucinógeno, provoca efeitos estimulantes como o aumento da frequência cardíaca, da pressão arterial, boca seca, náusea, sudorose e euforia. Em longo prazo provoca alterações do humor e do sono A intoxicação causa um estado de excitação e altera a homeostase termal do corpo, podendo levar a desidratação intensa e rabdomiólise, inclusive com óbito.

          Por isso é preciso cuidado quando alguém generaliza que alucinógenos são seguros. O ideal é o uso medicinal da psilocibina, sob supervisão de profissionais e controle de doses.

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   NÃO INJETE PSILOCIBINA NA VEIA!

           Apesar dos cogumelos mágicos serem tipicamente consumidos pela via oral durante o uso recreativo e em contextos ritualísticos, existem reportes anedóticos - especialmente na internet - e médicos de indivíduos injetando psilocibina e mesmo chá de cogumelo diretamente na circulação sanguínea, algo mais do que perigoso.

           Em um relato de caso publicado em dezembro de 2020 no periódico Journal of the Academy of Consultation–Liaison Psychiatry (Ref.17), um homem de 30 anos de idade com transtorno bipolar deu entrada no departamento de emergência de um hospital - com a ajuda de familiares - após ter fervido um cogumelo mágico em água, filtrado a mistura com um tecido de algodão, e injetado intravenosamente a solução resultante. Nos dias seguintes à injeção, o paciente desenvolveu letargia, mal-estar, diarreia, icterícia e hematêmese (vômito com sangue). No hospital, sua saturação de oxigênio estava em 92%, taxa cardíaca de 100, e pressão sanguínea de 75/47. O paciente também apresentava mucosas secas, leve cianose nos lábios e na cama dos dedos, pele amarelada, região abdominal sensível (dor) ao toque e estava agressivamente confuso.

           Análises laboratoriais revelaram trombocitopenia, hiponatremia, hipercalemia, hipocloremia, hipocalcemia, insuficiência renal aguda, lesão hepática aguda e marcadores de danos e anomalias cardíacas. O paciente foi encaminhado para a unidade de tratamento intensivo (UTI) com falha em múltiplos órgãos, com subsequente choque séptico e falha respiratória, requerendo intubação no segundo dia de hospitalização.

          Culturas laboratoriais confirmaram bacteremia (Brevibacillus) e fungemia (Psilocybe cubensis), ou seja, fungos e bactérias se disseminando na circulação sanguínea. A espécie de fungo (P. cubensis) que estava crescendo no sangue do paciente era justamente do cogumelo que ele injetou na veia. Após 22 dias internado, o paciente ainda estava sob tratamento intensivo no momento da publicação do relato de caso.

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   CONCLUSÃO

           O princípio ativo encontrado nos cogumelos mágicos (particularmente o gênero Psilocybe) apresenta baixa toxicidade, não tem potencial de causar danos cerebrais, mentais ou físicos, nem de causar adicção, uso compulsivo ou abuso. Além disso, a psilocibina tem um grande potencial para tratamento de pacientes com depressão resistente a tratamentos farmacológicos convencionais, com significativa melhora na sintomatologia depressiva em um menor espaço de tempo e com efeitos prolongados, mesmo em poucas doses. Essa melhora também se manifesta em outros transtornos mentais, como a ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo e abuso de drogas. Essas melhoras não podem ser dissociadas da experiência mística/psicodélica associada ao uso agudo e pós agudo, que causam sensação de paz, plenitude e reflexões sobre o "eu interior".

          Porém, o uso recreativo precisa ser feito com cuidado, especialmente quando realizado a partir da ingestão de cogumelos mágicos, já que se preparado de maneira errônea, consumido sem supervisão responsável, ou se colhido o cogumelo errado, o individuo pode sofrer uma série de efeitos indesejados, culminando inclusive em óbito. De qualquer forma, sabe-se que dentre todas as drogas atualmente conhecidas, a psilocibina é a que menos leva os indivíduos a procurar auxilio hospitalar se feito de forma responsável e em um ambiente seguro e acolhedor. Mas ainda assim é preciso cuidado porque as viagens nem sempre são boas e podem engatilhar psicose em indivíduos geneticamente suscetíveis.


   REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2032994
  2. Nichols, D. E. (2020). Psilocybin: from ancient magic to modern medicine. The Journal of Antibiotics. doi:10.1038/s41429-020-0311-8
  3. SOUZA, J. L. B. A psilocibina e o seu potencial terapêutico em saúde mental. 2019. 50 f. Monografia (Graduação em Enfermagem) – Faculdade de Farmácia, Odontologia e Enfermagem, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2019.
  4. FARIA, Jéssica Ferreira. FUNGOS ALUCINÓGENOS: Uma revisão sobre o Psilocybe sp. e a substância Psilocibina. 2017. TCC-Pós-Graduação em Microbiologia - Universidade Federal de Minas Gerais.
  5. https://www.nature.com/articles/s41386-020-0718-8
  6. https://www.nature.com/articles/s41386-020-0694-z
  7. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S016517811930811X
  8. https://link.springer.com/article/10.1007/s00213-017-4771-x
  9. https://www.mdpi.com/2227-9059/8/9/331
  10. https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0022167817709585
  11. http://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366%2816%2930065-7/abstract
  12. https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/article-abstract/2772630
  13. https://www.pnas.org/content/118/17/e2022489118
  14. https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(21)00374-3
  15. https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/0269881116662634
  16. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/1556-4029.13982
  17. Giancola NB, Korson CJ, Caplan JP, McKnight CA, A “trip” to the ICU: intravenous injection of psilocybin, Journal of the Academy of Consultation–Liaison Psychiatry (2021), doi: https://doi.org/10.1016/j.jaclp.2020.12.012