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Sangramento na gengiva pode ser um sinal de baixos níveis de vitamina C no corpo

          Novo estudo de revisão publicado no periódico Nutrition Reviews encontrou uma significativa associação entre tendência de sangramento gengival e hemorragia retinal com baixos níveis de vitamina C. O achado corrobora evidências prévias e alerta contra a generalização de quadros de sangramento gengival como sinal exclusivo de gengivite e baixa higiene bucal.

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   VITAMINA C E SAÚDE

           A vitamina C (ácido ascórbico) é um nutriente essencial para os humanos que deve ser consumido de forma regular para prevenir deficiências. Manutenção da reserva corporal de vitamina C é dependente do consumo via dieta, eficiência de absorção, reciclagem e reabsorção renal desse nutriente. Concentrações de vitamina C no sangue e tecidos são estritamente controladas através de transportadores sódio-dependentes de vitamina C (SVCTs). Diferentes tecidos e órgãos possuem necessidades e, consequentemente, concentrações variáveis para essa vitamina. Tecidos com as mais altas concentrações da vitamina C incluem o cérebro, adrenais e glândulas pituitárias. Isso reflete uma das principais funções desse micronutriente, a qual é agir como um cofator para uma família de metaloenzimas biossintéticas e regulatórias, incluindo aquelas envolvidas na síntese de catecolaminas e hormônios peptídicos. Em especial, a vitamina C é bem estabelecida de atuar na otimização das funções imunológicas.

           Estudos mais recentes têm também indicado que a vitamina C atua na regulação genética e epigenética via enzimas que regulam a transcrição de genes e a metilação do DNA e de histonas (1). Como resultado, a vitamina C possui o potencial de regular milhares de genes no corpo e, portanto, interfere de forma pleiotrópica na saúde humana e no desenvolvimento de doenças.

(1) Leitura recomendadaEpigenética, Plasticidade Fenotípica e Evolução Biológica

          Historicamente, o consumo recomendado de micronutrientes tem sido baseado na quantidade total diária suficiente para prevenir doenças secundárias à deficiência. Porém, quantidades maiores até um certo limite podem ser o ideal para o organismo. Deficiências em micronutrientes diversos é comum ao redor do mundo, mesmo em países desenvolvidos, devido a dietas quantitativamente e/ou qualitativamente inadequadas. 

          No caso da vitamina C, um consumo de 100-200 mg/dia mantém as concentrações em um status adequado a saturado de 50-75 µmol/L, enquanto que um consumo diário de 40-45 mg/dia é suficiente para a prevenção de doenças associadas à deficiência. Quando as concentrações caem para um estado de hipovitaminose (<23 µmol/L), sintomas de insuficiência de vitamina C se tornam aparentes, como fatiga, letargia e mudanças de humor (ex.: irritabilidade e depressão). Pessoas com hipovitaminose C estão em alto risco de desenvolverem deficiência nessa vitamina (<11 µmol/L), colocando-as em risco de desenvolverem escorbuto, uma condição clínica fatal se deixada sem tratamento.

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   SANGRAMENTO GENGIVAL 

          De acordo com a Associação Dental Americana (Ref.2), se sua gengiva sangra com facilidade (ex.: durante a escovação dental), isso é um forte sinal de que sua higiene bucal pode estar baixa, indicando um possível quadro de gengivite - um estágio inicial de doença periodontal (infecção dos tecidos ao redor dos dentes, causado por um acúmulo de placa bacteriana). E isso, de fato, pode ser verdade. Outros fatores de risco para o desenvolvimento de gengivite incluem genética, gravidez, diabetes, certos medicamentos (ex.: esteroides) e uso de tabaco.

          Porém, de acordo com um estudo de revisão sistemática e meta-análise publicado esta semana no periódico Nutrition Reviews (Ref.3), e realizada por pesquisadores da Universidade de Washington, EUA, outra causa sendo negligenciada para o sangramento da gengiva é deficiência ou hipovitaminose de vitamina C. Para essa conclusão, os pesquisadores analisaram 15 testes clínicos em 6 países, englobando 1140 participantes saudáveis, e dados de 8210 residentes Norte-Americanos.

          Os resultados das análises mostraram que o sangramento das gengivas após leve toque de instrumentos externos (ex.: escova de dente), ou tendência de sangramento gengival, e também sangramento nos olhos, ou hemorragia retinal, estavam associados com baixos níveis de vitamina C na circulação sanguínea (<28 μmol/L). Prevalência tanto de hemorragia retinal quanto da tendência de sangramento gengival mostraram aumentar mesmo dentro da faixa protegendo contra escorbuto (11-28 μmol/L). Nesse sentido, os pesquisadores encontraram que aumentar o consumo diário de vitamina C nos indivíduos com baixos níveis de vitamina C no plasma ajudou a reverter os problemas de sangramento.

          Para pessoas com com níveis de vitamina C no plasma sanguíneo acima de 48 μmol/L, suplementação não surtiu efeito de qualquer extensão na reversão da tendência de sangramento gengival.

          Segundo os pesquisadores, apesar do estudo de revisão não comprovar causa e efeito, a coincidência desses problemas hemorrágicos com os baixos níveis de vitamina C - e reversão do quadro hemorrágico após suplementação - pode refletir uma patologia sistêmica microvascular que é reversível com o aumento do consumo diário desse micronutriente. Esse quadro de hemorragia sistêmico pode inclusive afetar seriamente outros órgãos, como cérebro, coração e rins.

           Os pesquisadores recomendaram um consumo de alimentos não-processados ricos em vitamina C, como laranja, kiwi e acerola. No caso da pessoa não conseguir ingerir esses alimentos, eles recomendaram suplementação de 100 a 200 miligramas diários de vitamina C. Indivíduos sob dietas muito restritivas, como a paleodieta e dieta cetônica, estão em considerável risco de estarem com baixos níveis de vitamina C.

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          A associação entre sangramento gengival e níveis de vitamina C foi reconhecida há mais de 30 anos. De fato, dois estudos de co-autoria do ex-reitor da Escola de Odontologia da Universidade de Washington, Paul Robertson, publicados em 1986 e 1991, identificaram o sangramento gengival como um marcador biológico para os níveis de vitamina C. No entanto, de acordo com os autores do novo estudo, essa conexão foi de alguma forma perdida nos debates acadêmicos.

          Generalizar qualquer sangramento na gengiva como sinal de gengivite e acreditar que aumentar a higiene bucal é a solução do problema, pode acobertar um deletério caso de hipovitaminose, com o potencial de aumentar o risco para derrames. 


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. https://www.mdpi.com/2072-6643/12/7/2008/htm
  2. https://www.mouthhealthy.org/en/az-topics/g/gingivitis
  3. https://academic.oup.com/nutritionreviews/advance-article-abstract/doi/10.1093/nutrit/nuaa115/6124136