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O Efeito Mona Lisa na Mona Lisa é um mito


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          O Efeito Mona Lisa é um fenômeno de ilusão óptica e cognitiva amplamente conhecido e cientificamente comprovado. Basicamente, é um efeito referente à impressão de que os olhos de uma pessoa retratada em uma imagem parecem seguir o espectador à medida que este se move em frente à imagem. No entanto, por mais irônico que seja, dois pesquisadores da CITEC (Cognitive Interaction Technology), na Universidade de Bielefeld, Alemanha, demonstraram que esse efeito não ocorre com a mais famosa pintura de Leonardo da Vinci - 'Mona Lisa' - a qual justamente deu nome e fama ao efeito. O achado foi publicado esta semana no periódico i-Perception (Ref.1).

  • OBS.: A parte inicial deste artigo explora a história e curiosidades sobre a Mona Lisa. No tópico 'EFEITO MONA LISA?', o novo estudo é explorado.

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   MONA LISA

          Sorrindo atrás de um vidro a prova de balas, a pintura conhecida como La Gioconda na Itália, La Joconde na França, e Mona Lisa no resto do mundo, recebe cerca de 6 milhões de visitantes todos os anos. Com mais de 500 anos de idade, a pintura, feita pelo gênio Leonardo di ser Piero da Vinci (1452-1519) - um diversificado intelectual, cientista e artista símbolo máximo da Renascença -, retrata uma jovem mulher de identidade incerta à frente de uma misteriosa paisagem.



          Sem sombra de dúvida, a enigmática Mona Lisa é uma das mais conhecidas, valorizadas e influentes obras de arte já realizadas na história humana. A icônica pintura é considerada ser o retrato de Lisa Gherardini, a esposa de um rico comerciante de seda em Florença, Itália, chamado de Francesco del Giocondo, este o qual teria comissionado o Leonardo da Vinci a produzir o retrato em comemoração ao nascimento do filho do casal, Andrea, em 1502. 'Mona' seria uma derivação de 'Monna' Lisa, o qual, por sua vez, seria uma derivação na época de 'Madonna' Lisa (= mia donna; minha senhora). Apesar das evidências serem inconclusivas, a crença geral é que o trabalho da pintura teve início em 1503, e continuado até 1506-1507. Subsequentemente, a pintura teria sido levada para a França em 1516, completada lá, e, então, passou a enfeitar a corte do Rei Francis I até que fosse permanentemente exposta no Louvre em 1797, a partir da Revolução que transformou a Grande Gallerie do Louvre no Musée Central des arts, onde as grandes obras pertencentes à realeza Francesa se tornaram propriedade comum do povo Francês.


          Apesar de ser um modesto quadro, sem referências simbólicas políticas ou retratando cenas de guerras, a Mona Lisa atrai fortemente a atenção do público, de artistas, de médicos e de cientistas. Antes não tanto valorizada, a Mona Lisa foi ganhando década após década, especialmente no século XX, enorme apreciação, devido ao crescente culto ao Leonardo, ao reconhecimento das técnicas inovadoras usadas na obra, e aos mistérios que giram em torno da jovem retratada e da incerta história por trás da pintura. Qual o motivo do sorriso de Lisa? Existe uma dualidade de emoções em seu rosto? Lisa possuía um problema médico expresso na obra? Por que Leonardo decidiu ficar com a pintura e não entregou para o contratante? É realmente o retrato de Lisa Gherardini, ou de Isabella d´Este, a grande patrona das artes? A paisagem atrás da modelo é real ou apenas uma visão artística? A pintura foi ou não finalizada?


   AMBIGUIDADE

          Um dos aspectos de maior atração ao quadro é a apontada ambiguidade de emoções na expressão do rosto de Lisa. Geralmente é apontado uma co-existência de felicidade e de tristeza. No entanto, um estudo publicado em 2017 na Scientific Reports (Ref.3), mostrou que a expressão da Lisa é quase sempre percebida positivamente (feliz), revelando-se triste apenas em determinadas circunstâncias de estímulo visual. Para essa conclusão, os pesquisadores manipularam a curvatura da boca no rosto de uma foto da pintura como uma potencial fonte de ambiguidade e estudaram como uma ampla variação de faces mais felizes ou mais tristes influenciava a percepção. Apesar dos resultados sugerirem uma não-ambiguidade referente aos extremos feliz e triste, variações dessas duas emoções no espectro podem ainda gerar uma sensação de ambiguidade.


   PROBLEMA MÉDICO?

          Várias hipóteses médicas já adereçaram a pintura de Leonardo nas últimas décadas. Entre as várias propostas, o sorriso assimétrico de Lisa seria o resultado de uma hipofunção assimétrica dos músculos da face; uma forma de paralisia facial conhecida como Paralisia de Bell teria impedido da Vinci de finalizar a obra, porque o rosto da modelo seria instável; em 1991 foi proposto que ela era hemiplégica, sofrendo de perda de massa cerebral, e por isso a postura de Lisa: ela não poderia sentar-se de outra maneira; também em 1991, propuseram que a leve excrescência ou nódulo no canto do seu olho esquerdo era devido a um excesso de colesterol no corpo; e mais tarde problemas dentários começaram a ser apontados como causa da sua singular expressão facial. 

          Em 2004, a pintura novamente atraiu a atenção dos médicos quando um time de reumatologistas e endocrinologistas apontaram para a presença de potenciais anormalidades cutâneas em Lisa, sugerindo a presença de uma desordem lipídica. Em setembro de 2018, em um estudo publicado na Mayo Clinic Proceedings (Ref.4), médicos Norte-Americanos propuseram que Lisa possuía hipotiroidismo pós-parto. Essa condição primeiro explicaria:

- a coloração amarelada da pele da modelo, comum de ocorrer no hipotiroidismo por causa de danos no processo de conversão hepática do caroteno em vitamina A, resultando em um excesso de deposição desse pigmento na pele; no entanto, esse amarelado na obra pode ser resultado de envelhecimento da tinta;

- o véu negro que se encontra pendurado no que parece ser uma grande testa indica uma linha de cabelo retrocedendo, além dos fios parecerem mais finos. Essa última observação é reforçada pela completa falta de sobrancelhas, dando mais suporte ao diagnóstico de hipotiroidismo;

- o pescoço insinua um pronunciado inchaço indicando bócio;

- o xantelasma no canto medial esquerdo do olho poderia indicar uma hiperlipidemia secundária;

- o inchaço no dorso da mão direita pode ser um xantoma ou um lipoma, consequente de uma provável dislipidemia metabólica sistemática frequentemente notada em estágios avançados de hipotiroidismo.

       Durante o período da Renascença, hábitos Italianos de alimentação, baseados em cereais, tubérculos e legumes, com a presença de pouca carne e alimentos marinhos, aliados com as constantes fomes geradas pela escassez de alimentos, favoreciam uma deficiência na ingestão de iodo e, consequentemente, facilitavam o desenvolvimento de hipotireoidismo. Estudos sugerem que entre populações no sul da Itália a doença chegava a afetar quase 60% da população nessa época. Era comum inclusive pessoas com a tireoide claramente inchada sendo retratadas em famosas pinturas da Renascença Italiana.
       

   ROUBO DA MONA LISA

          Em 21 de Agosto de 1911 o quadro foi roubado e ficou desaparecido por 2 anos! Em 1913 ele foi encontrado e a matéria de capa do Le Petit Parisien, de 13 de Dezembro de 1913, trouxe o anúncio do achado com o título 'La Joconde est Retrouvée' ('A Mona Lisa foi encontrada'). Destacado da matéria do jornal, podemos também ver as impressões digitais e fotos obtidas do responsável pelo roubo, durante sua prisão, o Italiano Vincenzo Peruggia.




   CÓPIA VALIOSA

          No Museo del Prado, em Madri, Espanha, desde 1819, temos uma Mona Lisa muito similar ao quadro de da Vinci. Durante décadas a pintura foi considerada uma cópia de pouco valor. Porém, após sua restauração em 2012 e análises mais detalhadas, essa "cópia" mostrou-se a mais antiga réplica da pintura de Leonardo. Aliás, investigações científicas de ambas as obras após a restauração, via raio-X e infravermelho, fortemente sugerem que a versão de Prado tenha sido realizada simultaneamente por um estudante de da Vinci no mesmo estúdio onde foi iniciada a pintura de Mona Lisa. Entre os aprendizes de Leonardo, a autoria mais provável fica entre Salaì ou Francesco Melzi.


          Nesse sentido, um estudo publicado em 2015 (Ref.5) demonstrou que a paisagem pintada atrás de ambas as obras definitivamente não era real, e, sim, de um quadro colocado atrás da modelo sendo retratada. Também foi mostrado nesse estudo um zoom de 10% presente nos objetos paisagísticos na obra de Prado, indicando que o aprendiz estava posicionado mais próximo do quadro de paisagem do que o seu mestre.

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   EFEITO MONA LISA?

          Entre os vários atrativos que cercam a Mona Lisa, o assim chamado 'Efeito Mona Lisa' é um dos mais citados. Nesse efeito, o espectador relata a sensação de estar sendo perseguido pelos olhos estáticos no rosto de uma foto ou de uma pintura à medida em que se move em frente à ela. O efeito é real, cientificamente demonstrável, mas dois pesquisadores da Universidade de Bielefeld, Dr. Gernot Horstmann e Dr. Sebastian Loth, este último especialista em movimentos dos olhos e atenção, surpreendentemente não conseguiram notar esse efeito na obra do século XVI que deu justamente a inspiração para o nome do efeito.

"Pessoas são muito boas em avaliarem quando estão ou não sendo olhadas por outras pessoas", disse Dr. Gernot, em entrevista para o jornal da Universidade (Ref.7). "Pessoas podem sentir que elas estão sendo olhadas tanto de fotos quanto de pinturas - se a pessoa retratada olha direto para a frente fora da imagem, ou seja, em um ângulo de observação de 0°. Com uma leve inclinação no ângulo de visão, você ainda pode sentir como se estivesse sendo observado. Isso é percebido como se a pessoa retratada estivesse olhando para sua orelha, e corresponde a cerca de 5° de uma distância visual normal. Mas à medida que o ângulo aumenta, você não mais teria a impressão de estar sendo observado pelo retrato."

"Curiosamente, nós não precisamos estar bem em frente da imagem em ordem de ter a impressão de estarmos sendo seguidos pelos seus olhos, mesmo se a pessoa retratada na imagem estiver olhando diretamente para a frente", disse o Dr. Sebastian (Ref.7). "Essa impressão emerge se nós ficamos à esquerda ou à direita e a diferentes distâncias da imagem. A sensação robusta de estarmos sendo observados é precisamente o efeito Mona Lisa. Porém, esse efeito, apesar de existir e ser demonstrável, não parecia existir na Mona Lisa quando eu e meu colega de pesquisa observamos o quadro."

          Para esclarecer a questão, ambos os pesquisadores recrutaram 24 participantes para olharem para a Mona Lisa em uma tela de computador e relatarem a direção do olhar no rosto da pintura. Os participantes se sentaram em frente ao monitor e uma régua simples foi posicionada entre eles e a tela em diferentes distâncias. Os participantes, então, indicaram onde o olhar da Mona Lisa encontrava a régua. Em ordem de testar se características individuais do rosto da Mona Lisa influenciavam a percepção dos participantes, os pesquisadores utilizaram 15 diferentes seções do retrato - começando da sua cabeça inteira até apenas seus olhos e nariz. Cada imagem foi mostrada três vezes em ordens aleatórias. No meio das avaliações, os pesquisadores também mudaram a distância da régua a partir da tela do monitor. Foram coletados mais de 2000 medições, e quase todas elas indicavam que o olhar de Lisa não era direto, mas na direção do lado da mão direita dos participantes.





"Os participantes do nosso estudo tiveram a impressão que o olhar da Mona Lisa estava direcionado para o lado da mão direita deles. Mais especificamente, a média do ângulo de observação encontrado foi de 15,4°," disse Dr. Gernot. "Portanto, fica claro que o termo 'Efeito Mona Lisa" é nada mais do que um erro. O efeito ilustra o forte desejo de ser olhado e de ser o centro de atenção de alguém, ser relevante para alguém, mesmo se você não conhece a pessoa."

          Na conclusão do estudo, os pesquisadores reforçaram que o efeito Mona Lisa existe, mas não emerge da pintura que inspirou o nome. Provavelmente as pessoas que já experimentaram esse efeito em outras imagens extrapolaram a experiência para a Mona Lisa sem realmente confirmarem se ele existia na obra (assumiram que a famosa pintura tinha que tê-lo), e ajudaram a fomentar o mito até o ponto em que o nome do efeito ganhou a homenagem do valioso quadro de Leonardo.



REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://journals.sagepub.com/doi/pdf/10.1177/2041669518821702 
  2. https://academic.oup.com/hwj/article-abstract/51/1/1/706426
  3. https://www.nature.com/articles/srep43511#results 
  4.  https://www.mayoclinicproceedings.org/article/S0025-6196(18)30579-2/pdf
  5. https://search.proquest.com/openview/3a215cdbc0ada750b3823bfe97798221/1?pq-origsite=gscholar&cbl=40798
  6.  https://www.mitpressjournals.org/doi/abs/10.1162/LEON_a_00980
  7. https://ekvv.uni-bielefeld.de/blog/uninews/entry/myth_of_mona_lisa_s