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Beijo de língua parece transmitir gonorreia


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         Em 2016, em torno de 87 milhões de pessoas foram diagnosticadas com gonorreia, a doença bacteriana sexualmente transmitida que mais vem apresentando resistência aos antibióticos. Para piorar, atualmente estamos testemunhando um aumento nas taxas de gonorreia e, até agora, ninguém entende o porquê.

          Nesse sentido, dois recentes estudos - um publicado no periódico Sexually Transmitted Infections (Ref.1) e o outro publicado no The Lancet Infectious Diseases (Ref.2) e apresentado esta semana no encontro anual da Sociedade Internacional para Pesquisas em Doenças Sexualmente Transmissíveis -, trouxeram novas fortes evidências corroborando a hipótese de que uma rota de transmissão está sendo ignorada para essa doença: beijo de língua. A conclusão é baseada na análise de milhares de homens na Austrália e em modelos teóricos de transmissão.

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   GONORREIA

           A gonorreia é uma doença causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae, sendo disseminada primariamente pelo sexo vaginal, oral e anal desprotegido. Daqueles infectados - bastante comum entre jovens de 15-24 anos -, cerca de 1 em cada 10 homens heterossexuais e mais de 3 em cada 4 mulheres e gays não apresentarão sintomas facilmente reconhecíveis. A gonorreia uretral é sintomática em, no mínimo, 90% dos casos afetando os homens, seguindo um período de incubação de alguns dias. Sintomas são incomuns no reto (<10%) e raros na região orofaríngea (<10%). Entre os sintomas, podemos citar um grosso corrimento verde ou amarelo dos órgãos sexuais, dor ao urinar e periódicos sangramentos.




           A nível populacional, a prevalência de gonorreia uretral - infecção bacteriana na uretra do pênis - é rara (~0,4%) porque os sintomas se desenvolvem rápido e levam o indivíduo infectado a procurar mais rapidamente tratamento.

           A infecção pode atingir os órgãos genitais, o reto e a garganta. Se não tratada, a doença pode levar à infertilidade, doença inflamatória pélvica, pode aumentar suas chances de contrair ou transmitir o HIV (1) e, em raros casos, pode se espalhar para o sistema circulatório sanguíneo e para as juntas, levando a gravíssimas complicações.  A infecção pode também ser passada para o bebê durante a gravidez.

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(1) Leitura recomendada: Mais do que confirmado: HIV indetectável é intransmissível


          Desde a década de 1980, essa bactéria vem evoluindo uma agressiva e contínua resistência aos antibióticos, obrigando o abandono de vários desses medicamentos como primeira linha de tratamento - penicilina, tetraciclina, ciprofloxacino e, mais, recentemente, a cefixima. Atualmente, o tratamento padrão envolve a combinação de duas drogas: a ceftriaxona injetável e a azitromicina oral.

          A N. gonorrhoeae ainda não é amplamente resistente à ceftriaxona, mas duas cepas já isoladas - H041 e F89 - já se mostraram totalmente resistentes a esse antibiótico. Além disso, um homem Britânico recentemente foi infectado com uma super-bactéria dessa espécie que, até o momento, não conseguiu ser detida com nenhum antibiótico (2). Teme-se que, em breve, a gonorreia possa se tornar uma doença intratável. Só nos EUA, são cerca de 800 mil casos anuais da doença, e 78 milhões estimados ao redor do mundo. O último relatório da OMS (2019) coloca que mais de 1 milhão de pessoas são infectadas diariamente com quatro infecções sexualmente transmissíveis (gonorreia, tricomoníase, sífilis e clamídia), e com a gonorreia respondendo por 24% desses casos.

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(2) Para saber mais, acesse: O que são as superbactérias e a resistência bacteriana?


          Nesse sentido, torna-se mais do que importante reforçar medidas de prevenção à doença, em especial o uso de camisinha durante as relações sexuais. Mas o reconhecimento de uma possível nova rota de transmissão antes ignorada está no meio de um acalorado debate acadêmico.

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   BEIJO DE LÍNGUA

          Um estudo publicado em maio deste ano no periódico Sexually Transmitted Infections e realizado por pesquisadores Australianos, foi o primeiro a trazer evidências empíricas dando suporte ao beijo de língua (saliva) como uma importante rota de transmissão para a gonorreia orofaríngea entre homens bissexuais e gays. Até o momento existia apenas um modelo matemático sugerindo que a saliva era uma rota de transmissão da bactéria N. gonorrhoeae.

           Para avaliar se a gonorreia infectando a garganta poderia ser passada via beijo de língua, ou se apenas via relações sexuais, os pesquisadores reuniram informações de novos e recorrentes pacientes gays e bissexuais obtidas de um grande serviço público de saúde sexual em Melbourne (Melbourne Sexual Health Clinic), Austrália, entre 2016 e 2017. Foram cerca de 11442 homens convidados a realizarem uma breve pesquisa sobre suas práticas sexuais com parceiros do sexo masculino ao longo dos últimos três meses (prévios à pesquisa). Práticas íntimas foram categorizadas como beijo sem sexo, sexo sem beijo, e beijo com sexo. 3677 pesquisas completas de 3091 homens foram incluídas na análise final.

           A proporção daqueles com gonorreia orofaríngea foi um pouco acima de 6%, e para gonorreia anorretal e uretral foi um pouco abaixo de 6% e quase 3% respectivamente. Quase todos os homens (95%) tinham beijado de língua seus parceiros; 70% tinham apenas beijado seus parceiros; e apenas um pouco acima de 38% tiveram apenas sexo com os parceiros. Em torno de 1 em cada 4 homens (981; próximo de 27%) tiveram todas as três categorias de sexo nos três meses prévios.

          Apenas 52 (1,4%) tinham apenas beijado seus parceiros durante esse período. Mas a proporção desses homens testando positivo para a gonorreia orofaríngea foi maior do que foi para aqueles que tiveram sexo sem beijo.

           Em todos os casos, os homens tiveram uma média de 4 parceiros beijo-exclusivos, 1 parceiro sexo-exclusivo, e 5 parceiros beijo-sexo. Um maior número de parceiros beijo-exclusivos ou beijo-sexo estavam associados com uma maior probabilidade de teste positivo para a gonorreia orofaríngea.

          Após levar em conta potenciais co-fatores de risco, os pesquisadores mostraram que as chances para um teste positivo para a gonorreia orofaríngea era 46% maior entre homens que tiveram 4 ou mais parceiros beijo-exclusivos, e 81% maior entre aqueles com 4 ou mais paceiros beijo-sexo, comparado com os homens que não tiveram parceiros ou apenas 1 parceiro nessas categorias.

         Com essa primeira evidência empírica, os pesquisadores resolveram desenvolver, em um segundo estudo publicado no periódico The Lancet, dois modelos de transmissão de gonorreia com base em um modelo matemático previamente estabelecido e em dados clínicos e epidemiológicos para a infecção no pênis, orofaringe e região anorretal: modelo peniano e modelo orofaríngeo. No modelo orofaríngeo, onde beijo de língua entra como uma importante rota de transmissão, a região da orofaringe pode transmitir gonorreia para - ou adquirir gonorreia - a orofaringe dos parceiros sexuais, pênis e ânus através de contato direto ou via saliva.

          Analisando os modelos, os pesquisadores argumentaram que os dados epidemiológicos e comportamentais existentes melhor se encaixavam com o modelo orofaríngeo. Além do modelo matemático corroborativo prévio, os argumentos se apoiaram, principalmente, em três observações:

- a nível populacional, a prevalência de gonorreia uretral é muito baixa para explicar a alta incidência de infecções orofaríngea e anorretal;

- os pesquisadores apresentaram estudos onde a detecção da bactéria N. gonorrhoeae foi positiva na saliva em parte significativa (8-67%) de pacientes com gonorreia orofaríngea. Um estudo em específico reportado analisou 1312 homens em relações homoafetivas frequentando uma clínica de saúde sexual: 69% deles usavam saliva como lubrificante para o sexo anal e, após levar em conta co-fatores de risco, incluindo uso de camisinha, os pesquisadores encontraram um aumento de risco para a gonorreia anal associado com a saliva;

- a correlação entre atos sexuais (beijo, sexo oral, sexo anal, uso de saliva, etc.) é tão alta que qualquer estudo epidemiológico que não mede todos esses fatores tenderá a ter excessiva incerteza em seus resultados. Ou seja, esses estudos por si só não conseguem refutar a hipótese da transmissão via saliva.

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  QUAL É A FORÇA DA EVIDÊNCIA?

           Como o primeiro estudo foi do tipo observacional e o segundo teórico (simulação de modelos), ainda não é possível determinar causalidade, ou seja, é incerto se o beijo de língua é de fato uma rota de transmissão para a gonorreia. Além disso, existem relevantes limitações, como o fato dos participantes analisados no estudo observacional representarem apenas homens não-heterossexuais. Mas os resultados dos estudos fortemente sugerem que sim. Mais estudos precisam ser realizados para que o achado possa ser confirmado.

          Segundo um dos autores principais de ambos os estudos, Professor Kit Fairley da Universidade de Monash, a comunidade global de saúde sexual precisa reconhecer que os casos de gonorreia estão em ascensão e que deveria existir um aumento no alerta dos riscos de transmissão associados com o beijo de língua. "Entender como essa doença é transmitida é chave para se entender como controlá-la. Se a transmissão via beijo de língua é uma importante rota de transmissão, então é fundamental investigar novos métodos de controle, como enxaguantes bucais anti-bacterianos", disse Fairley em entrevista para o jornal da Universidade (Ref.3). O pesquisador também cita no estudo que uma redução no uso de saliva como lubrificante tanto no sexo heterossexual quanto no sexo homossexual pode ajudar a reduzir o risco de transmissão.

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   POR QUE ESSA RELAÇÃO NÃO HAVIA ANTES SIDO LEVANTADA?

          Os pesquisadores apontaram que a gonorreia orofaríngea só passou a ser notada pela comunidade médica com significativa importância a partir de 2009, e mesmo assim em estudos bastante limitados. Porém, há alguns anos já existia a hipótese da transmissão via saliva, mas sem dados empíricos de qualquer natureza para testá-la.



REFERÊNCIA CIENTÍFICA
  1. https://sti.bmj.com/content/early/2019/04/16/sextrans-2018-053896
  2. https://www.thelancet.com/journals/laninf/article/PIIS1473-3099(19)30304-4/fulltext
  3. https://www.eurekalert.org/pub_releases/2019-07/mu-hka071619.php