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Qual a relação entre baratas e asma?


- Atualizado no dia 8 de outubro de 2021 -

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         As baratas, sem sombra de dúvidas, são um dos seres mais odiados e temidos do mundo pelos humanos. Porém, além das pessoas se preocuparem com possíveis contaminações que esses insetos podem trazer para o ambiente doméstico, especialmente aos alimentos armazenados em armários, existe outro problema bem mais preocupante fomentado por infestações desses animais: alergias. Sim, componentes alergênicos das baratas podem representar um grande risco para as pessoas, principalmente crianças com asma e em regiões urbanas.

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   MUNDO DAS BARATAS

         Antes de tudo, é importante deixar algo bem claro: as baratas são seres injustiçados. Costumamos considerá-las inimigas mortais e vários possuem uma avassaladora fobia desses insetos, mas poucos sabem que as baratas representam um grupo de animais extremamente diversificado e importante na natureza. Aqui no Brasil, quando falamos em baratas, logo vem na cabeça aquela clássica barata marrom, de tamanho médio e que adora passear pelos nossos banheiros. Chamada de barata-americana (Periplaneta americana), ela é uma das mais comuns do mundo, mas é apenas uma espécie dentro de pelo menos 4800 espécies conhecidas de baratas no nosso planeta!

Existem milhares de espécies de baratas, englobando cores diversas, formatos diversos, tamanhos que podem ir de alguns poucos milímetros até 9,7 cm de comprimento e 20 cm de envergadura de asas (no caso, a espécie Megaloblatta longipennis), e variados nichos ecológicos

        Habitando todos os continentes, com exceção dos polos Ártico e Antártico, esses insetos representam a ordem Blattaria (ou Blattodea) e se apresentam nas mais diversas formas, cores e tamanhos. Dentro dessas quase 5 mil espécies, apenas 30 delas, ou 1% delas, possuem tendências de virarem pestes. E dentro dessas 30, apenas entre 3 e 5 delas são predominantes nos centros urbanos. Bem, e como nenhuma barata é um vetor específico de doenças letais, são venenosas, ou representam um real perigo imediato para nós, ainda é pouco entendido porque temos tanto medo delas (!). Porém, é plausível que as baratas mais comuns no meio de convívio humano possam contaminar os alimentos que comemos com bactérias diversas e outras sujeiras, já que comem de tudo e passam por todos os lugares. Mas isso também pode ser afirmado em relação às formigas, moscas e outros animais.


   BARATAS E ALERGIAS

          Apesar de representarem apenas uma pequena parte da diversidade de baratas no mundo, aquelas consideradas pestes urbanas são uma grande preocupação de saúde pública, e não especificamente por causa de higiene. Proteínas derivadas da saliva, material fecal, secreções variadas, pele descamada e restos de baratas mortas constituem fortes componentes alergênicos que podem induzir uma hipersensibilidade mediada pelo imunoglobulina E (IgE) e desordens alérgicas. Estimativas sugerem que entre 17% e 41% da população Norte-Americana possui algum tipo de alergia às baratas, e os componentes alergênicos desses insetos são encontrados em cerca de 85% dos lares no país. E o maior problema dessa história envolve aqueles afetados pela asma, especialmente crianças.

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          A asma, uma das doenças crônicas mais comuns em todo o mundo, é uma síndrome complexa, com diferentes fenótipos clínicos em adultos e em crianças. É uma doença inflamatória crônica das vias aéreas, cuja causa ainda não é completamente esclarecida. Como resultado da inflamação, as vias aéreas são hiperresponsivas e contraem-se facilmente em resposta a uma ampla gama de estímulos. Essa alteração pode causar tosse, sibilos, dispnéia e opressão torácica. O estreitamento das vias aéreas é usualmente reversível, mas, em alguns asmáticos, a obstrução ao fluxo aéreo pode ser irreversível.

           A exacerbação da asma é mediada pela exposição a alérgenos em ambientes internos, e existe evidência de que nem todo alérgeno afeta as crianças igualmente. A exposição às baratas e aos seus componentes alergênicos (Bla g 1-8, Per a 1-2, vitelogenina, entre outros antígenos) resultam frequentemente em severas manifestações asmáticas e é um dos principais contribuintes para a morbidade associada à asma. Apesar de não totalmente esclarecido os mecanismos, essa exposição aumenta as respostas proliferativas de células-T e induz resposta IgE a consideráveis baixos níveis expositórios do que poeira gerada por cupins e alergênicos associados a gatos. Somando-se a isso, os componentes alergênicos das baratas ativam extensa mitofagia (degradação seletiva de mitocôndrias via autofagia) nas células epiteliais bronquiais humanas e no tecido pulmonar de pacientes asmáticos, processo mediado pelo caminho de oxidação CaMKII e que leva a danos inflamatórios (Ref.14).          


            Entre 60 e 80% das crianças asmáticas de áreas urbanas são sensíveis aos componentes alergênicos das baratas, e existe uma forte associação entre a severidade da asma em crianças e a presença das baratas em casa, especialmente em termos de hospitalização e persistência de chiado pulmonar. Visitas aos hospitais dobram quando crianças asmáticas são expostas a um ambiente doméstico onde existe significativa circulação de baratas (Ref.15). E o efeito de sensibilização alergênica das baratas em relação à asma parece ser maior inclusive do que aqueles causados pelos restos/dejetos de ácaros ou alergia a animais domésticos como gatos. 

           De fato, existe ampla evidência de que, entre os alérgenos ambientais, os antígenos das baratas possuem o maior impacto no quadro asmático, particularmente em termos de ataques severos (Ref.). Exposição de crianças ao antígeno Bla g 1 (>2U/g), uma proteína do intestino de baratas do gênero Blatella, resulta em uma probabilidade quatro vezes maior de hospitalização do que em crianças expostas a múltiplos outros alérgenos comuns de ambientes domésticos. Além disso, existe evidência de que crianças expostas, cronicamente, a níveis relativamente altos (>2U/g) de componentes alergênicas desses insetos possuem uma chance quase 36 vezes manifestarem asma. Outras doenças respiratórias também estão fortemente associadas - no progresso e grau de intensidade - às baratas, como a rinite alérgica.


As baratas possuem vários componentes alergênicos (antígenos) nos seus corpos que disparam, agravam e/ou ajudam a instalar um quadro de asma nas pessoas, principalmente nas crianças

          E o problema das reações alérgicas induzidas por baratas é que os componentes de gatilho são complexos e muitos possuem uma expressão diferenciada de paciente para paciente (ex.: enquanto alguns terão alta sensibilidade ao antígeno/proteína Bla g 3, outros indivíduos alérgicos às baratas podem não manifestar sintomas relevantes a essa proteína específica). Nesse sentido, uma mistura de proteínas alergênicas provenientes de partes diversas do corpo desses insetos causam reações únicas em cada pessoa, ou seja, possuem uma interação variável com os anticorpos IgE (relacionados com as crises alérgicas) e de reatividade com células-T, com ausência de um componente imunodominante (Ref.3). Isso sem contar que são várias as espécies de baratas, complicando ainda mais a situação (apesar de serem poucas as que costumam infestar os centros urbanos).           

          Atualmente, a melhor forma de combater reações alérgicas barata-induzidas no ambiente doméstico é reduzindo a quantidade circulante desses insetos. Redução da exposição de asmáticos às baratas é crucial para uma melhora na qualidade de vida desses indivíduos. Se você testemunha baratas com frequência na sua casa, especialmente de dia, isso é um sinal que, provavelmente, existem muitas delas na sua propriedade ou em locais próximos. Diversos são os meios para o controle populacional de baratas em ambientes internos, e medidas simples podem ser citadas:

1. Uma melhor limpeza da casa, evitando deixar vestígios de comida espalhados e armazenando o lixo doméstico em lugares bem fechados;

2. Eliminar qualquer tipo de fonte de água se acumulando de maneira desnecessária na casa, como pequenos vazamentos de canos e locais muito úmidos;

3. Tampe fendas e rachaduras na casa, onde estes insetos possam alugar de moradia;

4. Evite deixar entulhos e bagunças de objetos dentro de casa, os quais servirão de excelentes moradias/esconderijo para elas;

5. Use armadilhas para atraí-las e aprisioná-las, reduzindo o número delas em sua casa;

6. Em casos mais extremos, use pesticidas, mas tomando cuidado para não exagerar e evitando comprar produtos muito tóxicos. O cuidado deve redobrar na presença de animais domésticos e crianças. É recomendado pedir ajuda profissional. Iscas inseticidas ("isca mata baratas" no caso) - uma intervenção barata, com baixa toxicidade e amplamente disponível - tem mostrado bons resultados na eliminação sustentada de baratas no ambiente doméstico e com melhora nos sintomas da asma em crianças (Ref.17).

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          Existem também estudos clínicos avaliando a eficácia de imunoterapias alergênicas como alternativas ao controle de pragas, essa última estratégia difícil de ser implementada com sucesso em várias regiões do mundo, principalmente naquelas de baixa renda (Ref.18).Porém, elaborar tratamentos imunoterapêuticos visando atenuar reações alérgicas às baratas é uma tarefa muito difícil, porque alergênicos específicos desses insetos não podem ser generalizados (ausência de antígenos dominantes).


   ALERTA COM INALADORES DE ASMA

          Em um relato de caso publicado em 2019 no periódico Current Allergy & Clinical Immunology (Ref.20), uma menina de 6 anos de idade foi encaminhada para um hospital na Cidade do Cabo, África do Sul, diagnosticada com uma asma de difícil controle, a qual tinha escalado substancialmente por motivos desconhecidos. Desde os 3 anos de idade, ela foi submetida a numerosas visitas hospitalares de emergência por causa das exacerbações de asma. As medicações da paciente na última visita incluíam budesonida (800 microgramas/dia), salbutamol (quando necessário) e, mais recentemente, havia sido adicionado um spray intranasal de corticoesteroide e Montelucaste para o tratamento de uma persistente e severa rinite alérgica.

          A família da paciente morava em um populoso subúrbio da Cidade do Cabo. A mãe descreveu o interior da casa como 'úmido', como pouca ventilação e com pouca luz solar entrando no quarto.

          No exame médico, foi observado uma tendência de crescimento e antropometria normais da paciente. Sinais clássicos de rinite alérgica foram notados. Análise do peitoral revelaram hiperinflação com chiados polifônicos expiatórios e difusos, e prolongada expiração.

           Por causa da recente piora da paciente em seu quadro asmático, e aparente dificuldade de controle dos sintomas com os medicamentos sendo administrados, os médicos estavam pensando em adicionar um agonista-β2 de longa ação ao corticoesteroide inalado. Porém, ao examinarem o interior do inalador da paciente (Figura 1), uma pequena ninfa de barata-Alemã saiu de dentro da câmara de dosagem (Figura 2), indicando a provável causa do "difícil controle" da asma e da rinite alérgica na paciente.


          De fato, após limpeza do inalador e medidas para eliminar o inseto da casa da paciente, os sintomas dessa última melhoraram dramaticamente dentro de um mês, incluindo as funções pulmonares.


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> ASMA é a doença crônica mais prevalente entre as crianças, e, a cada ano, e o número de casos vêm aumentando de forma acentuada ano após ano. Nos últimos anos, a asma tem afetado, anualmente, em torno de 300 milhões de pessoas no mundo, resultando em cerca de 400-500 mil mortes/ano (Ref.19). Entre diversos fatores endógenos e ambientais que disparam ou pioram o problema, as baratas são consistentemente apontadas como uma das principais preocupações*. Com a população humana cada vez mais 'urbanizada', a exposição às baratas aumenta dramaticamente e por isso as medidas de controle e supressão desses insetos dentro do ambiente doméstico precisa ser cada vez mais reforçada.

*Em 2018, um estudo Norte-Americano concluiu que a obesidade é um fator de grande importância para o desenvolvimento de asma nas crianças. Os pesquisadores responsáveis pelo estudo encontraram que quase um quarto (23-27%) dos casos de asma na infância estão diretamente associados com a obesidade. Para mais informações, acesse: Obesidade está fortemente associada com a asma nas crianças

*Exposição a antibióticos também tem sido associada com um maior risco para o desenvolvimento de asma. Para mais informações, acesse: Maior risco de problemas crônicos de saúde com o uso de antibióticos em crianças muito novas

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(!MEDO DE BARATAS. Ainda não é muito bem entendido o porquê das pessoas nos centros urbanos, de um modo geral, temerem tanto as baratas. Seria instinto, aprendizado ou ambos? Bem, a fobia dos insetos como um todo é compreensível, já que muitos são venenosos, picam/mordem dolorosamente e/ou são transmissores de doenças epidêmicas/fatais. Mas as baratas, mesmo não possuindo nenhuma dessas características, são odiadas e temidas de uma forma totalmente desproporcional. Os mosquitos, por exemplo, os animais mais mortais do planeta depois do ser humano, por transmitir diversas doenças fatais, não nos causa medo algum, apenas um incômodo caso eles fiquem zanzando em volta de nós.

Alguns especialistas sugerem que o modo como as baratas se movimentam, de forma muito rápida (são um dos seres mais rápidos do planeta, considerando seu tamanho) e imprevisível, aliado ao fato de serem insetos, disparam uma grande apreensão em nós. Somando-se a isso, esses insetos são mestres em se esconder por toda a casa, o que fere nossa "privacidade" e, provavelmente, o fator 'surpresa' na aparição da barata também pode ajudar no medo. Além disso, pode existir um nojo das baratas devido ao aspecto oleoso dos seus corpos e ao cheiro ruim produzido quando são esmagadas, já que seus corpos acumulam bastante ácido úrico, o mesmo responsável pelo cheiro forte da nossa urina. Por fim, como as baratas possuem hábitos noturnos e gostam de ficar em lixões e banheiros, inevitavelmente associamos esses insetos com coisas temerosas (criaturas da noite) e contaminações. 
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CURIOSIDADE: Meio uma lenda urbana, muitas pessoas acreditam que as baratas são muito resistentes ou imunes à radioatividade, já que é frequentemente alegado na mídia popular que esses insetos são um dos únicos animais no planeta que sobreviveriam a um holocausto nuclear. Mas as baratas, no geral, possuem um nível de resistência à radiação apenas 5 vezes maior do que aquela observada na nossa espécie (Homo sapiens). Pode parecer muito, mas diversos animais possuem uma resistência muito maior, e nós somos muito frágeis à radioatividade. As baratas, se expostas a uma boa dose de radiação oriunda de reações nucleares, morrem na hora. A grande capacidade de sobrevivência das baratas - em termos populacionais - faz referência à sua alta capacidade de reprodução e adaptação ambiental.


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4212211/
  2. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/all.12827/pdf
  3. Pomés et al. (2021). IgE and T Cell Reactivity to a Comprehensive Panel of Cockroach Allergens in Relation to Disease. Frontiers in Immunology, 11:621700. https://doi.org/10.3389/fimmu.2020.621700
  4. http://link.springer.com/article/10.1007/s11882-014-0428-6
  5. http://online.liebertpub.com/doi/abs/10.1089/ped.2015.0517
  6. Cockroach Allergy, Respiratory Allergic Diseases and ItsImmunotherapy 
  7. http://ijms.sums.ac.ir/index.php/IJMS/article/view/2565
  8. https://www.michigan.gov/documents/MDA_Roaches_79992_7.pdf
  9. http://www.jacionline.org/article/S0091-6749(12)02646-2/abstract
  10. http://www.niehs.nih.gov/health/topics/agents/allergens/cockroaches/index.cfm 
  11. Hisbello S. Campos (2007). Asma: suas origens, seus mecanismos inflamatórios e o papel do corticosteróide. Revista Brasileira de Pneumologia Sanitária, v.15, n.1., ISSN 1982-3258. http://scielo.iec.gov.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1982-32582007000100007
  12. http://www.bbc.com/earth/story/20160926-cockroaches-are-not-radiation-proof-and-most-are-not-pests 
  13. http://time.com/4403068/cockroaches-bugs-insects-fear/
  14. Zhang et al. (2021). CaMKII oxidation regulates cockroach allergen–induced mitophagy in asthma. Journal of Allergy and Clinical Immunology, 147(4), 1464–1477.e11. https://doi.org/10.1016/j.jaci.2020.08.033
  15. Werthmann et al (2021). Knowledge, attitudes, and practices concerning cockroach exposure among caregivers of children with asthma. BMC Public Health 21, 1485. https://doi.org/10.1186/s12889-021-11497-y
  16. Rabito et al. (2021). Cockroach exposure and perceived stress interact to predict clinical outcomes in childhood asthma. BMC Pulm Med 21, 83. https://doi.org/10.1186/s12890-021-01447-0
  17. Rabito et al. (2017). A single intervention for cockroach control reduces cockroach exposure and asthma morbidity in children. Journal of Allergy and Clinical Immunology, 140(2), 565–570. https://doi.org/10.1016/j.jaci.2016.10.019 
  18. Rudman et al. (2021). National Institute of Allergy and Infectious Diseases Inner City Asthma Consortium. Development of nasal allergen challenge with cockroach in children with asthma. Pediatr Allergy Immunol. 32(5):971-979. https://doi.org/10.1111/pai.13480
  19. Asher et al. (2020). “Trends in worldwide asthma prevalence.” European Respiratory Journal, 2002094. https://doi.org/10.1183/13993003.02094-2020
  20. Pietr J. de Waal et al. (2019). A classic case of difficult-to-control asthma … or is it? the proof is in the inhaler. Current Allergy & Clinical ImmunologyVol. 32, No. 1. https://hdl.handle.net/10520/EJC-15b6178362