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Deve-se evitar dormir logo após um traumatismo craniano?




         É bem comum ouvirmos que nunca se pode deixar uma pessoa dormir depois uma forte contusão na cabeça, para caso tenha ocorrido um Traumatismo Crânio-Encefálico (TBI). Supostamente, se deixarmos a pessoas dormir, ela poderá entrar em um coma. Mas será que isso é verdade?

        O Traumatismo Crâncio-Encefálico é causado por alguma ação externa que causa uma repentina lesão no tecido cerebral. Só nos EUA, entre 1,6 e 3 milhões casos de TBI são estimados de ocorrerem todos os anos. Aqui no Brasil, temos mais de 150 mil casos pelo mesmo período. As causas podem incluir:

1. Forte pancada na cabeça, resultado de uma acidente de carro ou ataque violento, por exemplo. O traumatismo pode ser fechado (quando não ocorre ruptura do crânio) ou aberto (quando ocorre ruptura do crânio - através de um tiro, por exemplo);

2. Rápida desaceleração ou aceleração, onde não há golpe direto no crânio, mas o cérebro ´sacode´ violentamente dentro da cabeça, causando lesões em veias e fibras conectivas. Acidentes de carro quando a pessoa está com o cinto de segurança entram nessa categoria;

3. Mudança brusca de pressão no ambiente, onde bolhas de ar podem ser formadas no sangue e causarem danos no cérebro. Mal funcionamento de locais com ar pressurizado, como em aviões, podem ser a causa;

         Independente da causa, lesões ocorrem no cérebro, e podem variar em sua gravidade dependendo da força causal do dano. Os traumas, então, podem ser classificados em suaves, moderados e graves. Se houve, ou não, perda de consciência inferior a 30 minutos, estamos, provavelmente, na faixa do suave/moderado. Caso esteja acima de 30 minutos, estamos, provavelmente, no quadro mais grave. Mas não é necessário existir um desmaio para o diagnóstico da gravidade da situação. Após a perda de consciência, ou não, os seguintes sintomas podem vir seguidos, em maior ou menor intensidade:

1. Problemas de memória;

2. Cansaço;

3. Dores de cabeça;

4. Tontura;

5. Mudanças cognitivas e problemas de concentração;

6. Depressão;

7. Irritabilidade, e outras mudanças de humor/comportamento;

8. Problemas durante o sono;

9. Visão dupla;

10. Sensibilidade à luz;

         Os sintomas mais comuns estão indicados em 2, 5, 7 e 8. Além dos listados, outros podem surgir, em diferentes graus, dependendo do trauma infringido. Esses sintomas não necessariamente significam que os danos estão se complicando, apenas fazem parte, na maioria das vezes, do processo normal de recuperação do cérebro. Eles podem durar dias, semanas ou meses, sendo comum a total recuperação entre 3 e 6 meses. A maior parte dos TBI ocorrem em jovens entre 15 e 24 anos, e cerca de 80% deles são suaves. Nessa faixa de idade, claro, atividades de risco, sem a mínima análise responsável das consequências são bem frequentes.

   AFINAL, PODE-SE DORMIR OU NÃO?

         Bem, mas a pergunta inicial ainda não foi respondida: é perigoso deixar uma pessoa dormir depois de uma forte contusão na cabeça ou outros quadros típicos de uma TBI? Não, não existe base científica por trás dessa preocupação. Normalmente, uma pessoa com TBI se sentirá muito cansada (um dos principais sintomas listados) e tenderá a querer dormir com mais frequência. Na verdade, o correto é priorizar muito o descanso do paciente, evitando que ele vá trabalhar ou fazer atividades exaustivas depois do acidente. Pesquisas já mostraram que o tempo de recuperação pode dobrar ou triplicar caso o descanso não seja priorizado. O cansaço é justamente um sintoma gerado pelo corpo para induzir a pessoa a buscar um descanso restaurador e diminuir o estresse, o qual só piora o prognóstico. Se uma pessoa dormir depois de uma forte contusão, isso é até benéfico, independente se foi após uma perda de consciência ou não. Mas procure um atendimento médico o mais rápido possível para um diagnóstico do trauma sofrido e recomendações de tratamento indicados pelo profissional de saúde. Evitar o uso de bebidas alcoólicas e drogas também é fundamental para uma melhor recuperação do paciente.

O sono e descanso são essenciais para a recuperação de um traumatismo encéfalo-craniano
  
       Essa história do ´dormir depois de uma contusão leva ao coma´ deve ter surgido dos raros casos conhecidos como ´Intervalo de Lucidez´. Neste, a pessoa sofre um desmaio provocado pela TBI, perdendo a consciência, e, logo depois, acorda se sentindo muito bem. Mas, do nada, perde novamente a consciência por causa de hemorragias internas no cérebro. Nessa situação, é preciso sair correndo para um hospital Pronto-Socorro, porque isso é um quadro grave. Mas a pessoa não vai ´dormir´ ou sente-se sonolenta, ela desmaia do nada (observação: esse tipo de desmaio não significa que a pessoa entrou em coma). Aliás, a proibição de dormir logo após pancadas fortes, ou incidentes do tipo, na cabeça nem mesmo é mencionado nos guia de saúde.

           É bom lembrar que nem toda contusão na cabeça irá resultar em uma TBI. Como ainda não existem exames que deem um diagnóstico rápido e confiável de lesões de danos no cérebro, apenas a observação do paciente pelo médico irá ser capaz de diagnosticar a extensão do trauma sofrido. Ressonâncias magnéticas podem ajudar, mas não conseguem distinguir qualquer tipo de dano cerebral, especialmente se o mesmo for mínimo. Sempre procure um hospital depois de uma forte pancada na cabeça, especialmente se houver um desmaio ou se o atingido for uma criança. Algo que parece não ter tido maiores consequências pode se tornar um sério problema depois, principalmente se for seguido dos sintomas listados acima.

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ATUALIZAÇÃO (07/01/17): E pesquisadores do National Institute of Nursing Research in Bethesda, Maryland, mostraram que um teste de sangue poderá predizer quando um jogador que sofre de concussão (danos no cérebro seguidos de um traumatismo craniano, normalmente havendo perda de consciência) poderá voltar para os treinos e campo.

De acordo com a pesquisa, foi descoberto uma proteína, conhecida como ´tau´, que fica presente em maiores níveis 6 horas após a concussão naqueles que demoram mais tempo para se recuperar totalmente. Obtendo-se uma relação entre tempo de recuperação e a quantidade dessa proteína no sangue, acaba sendo possível realizar um teste sanguíneo procurando a tau e seus níveis de concentração.

Só nos EUA, cerca de 3,8 milhões de concussões ligadas ao esporte são tratados por especialistas na área. O exame de sangue além de otimizar os prognósticos ainda poderá impedir que atletas mintam sobre seu estado físico apenas para poder voltar mais rapidamente a jogar. Não será possível mais mentir com a tau sendo monitorada.

Referência: Science



Artigo relacionado: Como amenizar, naturalmente, uma dor de cabeça?


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1.  http://www.mentalhealth.va.gov/docs/tbi.pdf
  2.  http://www.cdc.gov/traumaticbraininjury/recovery.html
  3.  http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19968047
  4. http://www.cenepe.com.br/duvidas-frequentes/saudes-doencas/traumatismo-cranioencefalico/ 
  5. http://www.nhs.uk/conditions/concussion/Pages/Introduction.aspx
  6. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26929626
  7. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23099139
  8. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23330993
  9. http://www.nhs.uk/conditions/Subdural-haematoma/Pages/Introduction.aspx
  10. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4453625/
  11. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3359788/
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