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Os suplementos termogênicos são uma boa escolha?



          Os produtos termogênicos são bastante populares entre as pessoas que buscam uma perda rápida de peso (gordura corporal). O uso de suplementos com esse fim tem aumentado exponencialmente nos últimos anos, sendo que diversas substâncias usadas nas suas formulações foram proibidas pelas agências de saúde ao redor do mundo, por causa do abuso praticado tanto pelos consumidores quanto pelas empresas de suplemento. Esses produtos termogênicos são vendidos como milagrosos na queima de gordura, prometendo resultados incríveis mesmo na ausência de uma boa dieta ou atividades físicas. Porém, quando analisamos mais de perto esses suplementos, os benefícios são poucos e os riscos são muitos.

           O efeito termogênico nada mais é do que o aumento de temperatura corporal resultado da produção de energia no metabolismo humano que não é aproveitada pelo corpo para a produção de ATP (1), nosso principal combustível celular. Os seres vivos sempre desperdiçam uma parcela de energia gerada durante a queima/fermentação de substratos energéticos (carboidratos, proteínas e gorduras, por exemplo). Essa energia livre acaba aumentando a temperatura corporal, em um grau que dependerá de grupo para grupo de organismos. Os répteis, por exemplo, não desperdiçam quase nada dessa energia, possuindo um corpo ´frio´, e, por isso, sua termo-regulação é feita através do ambiente à sua volta, de forma direta (um lagarto em repouso, para se esquentar, por exemplo, precisa de um bom banho de Sol). Já os mamíferos, conseguem converter bastante energia dos substratos energéticos para o aquecimento do corpo e, por isso, conseguem manter uma temperatura corporal sempre alta e constante (endotérmicos) (2). De qualquer forma, a termogenia é a energia gasta para o aumento da temperatura corporal, ou, em outras palavras, é uma energia livre não aproveitada pelo corpo para os seus processos metabólicos diretos (dependentes do ATP). Portanto, quanto maior o desperdício energético, maior é o consumo calórico do corpo para se manter e, por isso, a termogenia é diretamente associada ao emagrecimento.

       Existem três formas principais da termogenia acontecer:

1. Aumento do metabolismo: Em todo processo metabólico do corpo, parte da energia envolvida é perdida na forma de calor, gerando aquecimento do corpo. Por isso tremer o corpo de frio ou fazer atividades físicas geram um bom aumento de temperatura. O aumento do metabolismo pode ser tanto basal como por esforço físico, este último exemplificado acima. O metabolismo basal é a energia gasta pelo seu corpo em repouso, a qual alimenta as batidas do coração, funcionamento do cérebro, divisões celulares, etc., sendo, de longe, a mais dispendiosa para o corpo;

2. Impedimento da produção de ATP: Certos princípios ativos e proteínas (no caso humano, a termogenina) aumentam o desaparelhamento de oxidação fosforilativa na mitocôndria (nossa organela central de produção energética), o que desregula o transporte de elétrons na cadeia mitocondrial e impede a produção de adenosina trifosfato (ATP) a partir da adenosina difosfato (ADP). A energia que seria usada nessa conversão de ADP para ATP é, então, liberada na forma de calor, contribuindo para o aumento da temperatura corporal. Esse é o mecanismo principal que permite os mamíferos e aves manterem sua temperatura corporal constante;

3. Tecido Adiposo Marrom (ou Gordura Marrom): É um tecido adiposo especial no nosso corpo que induz a uma maior queima, espontânea, de gorduras e outros substratos energéticos, sem nem ao mesmo necessitar de gasto calórico pelo corpo na forma de regime alimentar ou exercícios físicos. Nos bebês, a porcentagem de gordura marrom no corpo é bastante alta, já que eles não conseguem tremer ou buscar um modo rápido de se protegerem do frio, ou seja, a gordura marrom faz o trabalho de aquecê-los. Esse tecido age também através do mecanismo de impedimento da produção de ATP a partir de grandes quantidades de termogenina e mitocôndrias. Além disso, ele é altamente vascularizado para permitir a maior quantidades de oxigênio possível para a produção energética aeróbica.

        Os suplementos termogênicos encontrados hoje no mercado visam os dois processos descritos acima, sendo que os mesmos contêm substâncias que aumentam a intensidade dessas duas vias de produção de calor, desperdiçando uma energia que iria ser estocada ou usada pelo corpo e obrigando este a gastar mais calorias para compensar o desperdício. Entre essas substâncias, podemos destacar quatro delas que possuem relevância clínica na termogênese extra: cafeína, efedrina, clenbuterol e 2,4-Dinitrofenol. A cafeína e a efedrina são, de longe, os mais utilizados como termogênicos, mas o clembuterol vem também ganhando uma grande e preocupante notoriedade. Existem também termogênicos não-estimulantes do sistema nervoso central (efedrina e cafeína são estimulantes) que possuem ínfima eficácia, como o chá verde, café verde, capsaicina (substância de ardência da pimenta), flavonoides e isoflavonas (presente em vegetais como a soja). Como o efeito termogênico desses últimos são irrisórios, eles não serão foco da discussão.


     EFICÁCIA E RISCOS

         Tudo é lindo e maravilhoso na teoria, só que na prática, as coisas começam a ficar nebulosas. Todos os suplementos termogênicos vêm acoplados com riscos que superam um benefício mínimo, porque ou as doses necessárias para um bom efeito termogênico são muito altas ou são substâncias muito tóxicas com o seu uso não aprovado pelas agências de saúde. E esse ´bom´ é um valor muito modesto. Todos os produtos comerciais contendo essas substâncias possuem uma eficiência que varia entre 2 e 5% na perda de gordura corporal além do que você estaria perdendo caso não estivesse usando os mesmos. E, para chegar próximo do já pequeno ´5%´ é necessário um perigoso abuso. Podemos resumir, baseando-se nas evidências clínicas e estudos de revisão, as quatro substâncias anteriormente citadas:

1. Cafeína: Em doses moderadas, não ultrapassando o limite recomendado pelas agências de saúde de 400 mg diários, não existe efeito significativo na termogenia e perda de peso. Apenas em doses muito altas, ao redor de 1000 mg, os efeitos começam a surgir, modestos, mas surgem. Não é preciso dizer que diversos efeitos adversos podem ser acompanhados com o abuso, como insônia, desidratação (3), problemas cardíacos, danos gastrointestinais, desordens de ansiedade, palpitações, dores fortes de cabeça, super estimulação do sistema nervoso (´intoxicação por cafeína´), falha/descoordenação motora, entre outros;

2. Efedrina: Sua venda, agora, é proibida devido aos diversos efeitos colaterais relatados com o abuso dessa substâncias, os quais já levaram a casos de óbitos. Em quantidades abaixo de 20 mg diárias, os efeitos colaterais são toleráveis, mas o efeito termogênico é muito baixo. Para uma maior termogenia, é necessário doses bem acima disso, as quais desencadeiam diversos efeitos colaterais sérios, como insônia, tontura, perda de de apetite, alterações de humor entre outros. Para super dosagens (o que muitos fazem), as consequências podem englobar vertigem, taquicardia, hipertensão, fortes tremores, alucinações e até mesmo fatalidades.

3. Clenbuterol: Essa é uma substância de uso veterinário e como broncodilatador em doenças específicas (asma, por exemplo), nunca liberada oficialmente para humanos no que tange a perda de peso ou melhoramento atlético. Apesar disso, muitos fisiculturistas e outros atletas amadores/profissionais usam e abusam do clenbuterol para ´queimar o corpo´, aproveitando do seu efeito termogênico*. Indo na onda, várias pessoas não-atletas também usam a substância para o emagrecimento. Sem controle, ela é altamente tóxica, com dosagens acima de 120 microgramas sendo consideradas como abuso. Efeitos colaterais incluem forte nervosismo, tirotoxicose, taquicardia, problemas cardíacos (casos registrados de infarto), hipertensão, náusea prolongada e vômitos recorrentes.

4. 2,4-dinitrofenol: Esse é o menos conhecido e o mais perigoso, sendo considerado um real veneno. Essa substância teve um breve sucesso durante a década de 1930, mas logo foi banida devido aos vários casos de morte com o seu uso para a perda de peso. Essa substância possui um forte poder termogênico e, diferente dos outros três acima, ela age como um eficiente inibidor da produção de ATP, fazendo com que uma grande quantidade de energia seja liberada como calor, esquentando imensamente o corpo. Em abuso, essa termogenia leva a um sério aumento da temperatura corporal, ficando fácil ocorrer uma fatalidade. Na verdade, ele é tóxico em qualquer quantidade, tendo diversos efeitos colaterais mesmo em baixas concentrações, como danos no sistema nervoso, lesões na pele e problemas cardiovasculares. Outro grave e mais comum ainda efeito colateral é em induzir o desenvolvimento de cataratas. Bem, se considerarmos que ele é um pesticida, não é preciso dizer mais nada. Mesmo assim, alguns fisiculturistas usam a substância para queima rápida de gordura antes de competições, algo estúpido e criticado bastante pela maioria dos profissionais nesse esporte.

        Vendo agora o balanço de riscos e benefícios, fica claro que os termogênicos não passam de uma furada, os quais irão apenas arrancar dinheiro do seu bolso e possivelmente trazer prejuízos para o seu corpo. Ora, três deles já são proibidos de venda, sobrando apenas a cafeína, a qual só mostra algum poder termogênico em concentrações absurdas e perigosas. E mesmo com os banimentos, muitos produtos de suplementos alimentares ainda contêm efedrina, e até clenbuterol, em sua composição. O FDA (Administração de Drogas e Alimentos nos EUA) já barrou vários desses produtos devido ao uso de substâncias ilegais nas formulações. Sim, porque como o efeito termogênico é mínimo, muitas empresas de suplementos alimentares acabam colocando altas dosagens de cafeína e substâncias ilegais para provocar algum efeito visível de perda de peso, desrespeitando qualquer ética devida ao consumidor.


    CONCLUSÃO

          Ainda não existe no mercado um termogênico seguro e com uma boa eficiência, ao contrário do que os rótulos falsos empregados por diversas propagandas enganosas insistem em dizer. Pesquisas mais recentes focam em buscar, além de drogas mais seguras de termogenia, métodos que visem o tecido adiposo marrom nos adultos, crianças e adolescentes. Um aumento na proliferação ou ativação da gordura marrom pode ser bem promissor e levar a ótimos resultados de termogenia para tratar a obesidade. Infelizmente, nenhum medicamento ou técnica medicinal ainda consegue manipular esse tecido de forma efetiva, sendo apenas uma esperança futura. Hoje, ao invés de jogar dinheiro fora e arriscar a saúde à toa usando os termogênicos, vale MUITO mais a pena praticar atividades físicas e promover uma reeducação alimentar. Comparado com o efeito desses dois métodos combinados, os termogênicos não são nem auxiliares de tão ofuscados que se tornam. Aliás, os exercícios físicos são incitadores termogênicos muito mais fortes do que qualquer dose dos suplementos vendidos para esse fim.

(1) ATP é uma molécula que contém 3 fosfatos, onde a quebra de ligação entre eles libera energia e a formação de ligação entre eles consome energia. Assim, as células armazenam energia formando ligações de fosfato (por exemplo, adicionando um fosfato no ADP para ele se transformar em ATP) e quebram essas ligações para recuperar a energia armazenada de forma infinitamente mais rápida, direcional e eficiente do que se fossem aproveitar diretamente a energia da queima de substratos energéticos. Por isso, quando é impedida a formação de ATP, grande parte da energia é perdida dentro da célula na forma de calor.

(2) Claro, os mamíferos também possuem outras formas eficientes de conservarem a temperatura corporal, como a presença de um grosso tecido adiposo (péssimo condutor de calor) e pelos abundantes que servem como um cobertor.

(3) Expliquei melhor sobre esse assunto aqui: Cafés e chás nos desidratam?

*Não existem testes clínicos provando ou desaprovando a eficácia dessa substância como um termogênico, já que a mesma não deveria ser usada para esse fim. Aqui fica a palavra dos fisiculturistas de que ela funciona. Além disso, muitos acham que ela promove efeitos anabólicos e anti-catabólicos na musculatura humana, sendo que isso só é verdade no caso de animais, mais especificamente no gado, através de mecanismos não muito bem compreendidos.

Artigo relacionado: Café verde e as promessas de emagrecimento


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21951333
  2. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1463-1326.2006.00608.x/abstract
  3. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18089946
  4. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16652130
  5. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20142827
  6. http://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/00043335.htm
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  8. http://www.fda.gov/animalveterinary/products/approvedanimaldrugproducts/foiadrugsummaries/ucm054881.htm
  9. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24138104
  10. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21415733
  11. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3651299/
  12. http://www.fsis.usda.gov/Oa/background/clenbute.htm?redirecthttp=true
  13. http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMcibr0809610
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  15. http://webarchive.nationalarchives.gov.uk/20150624093026/http://www.food.gov.uk/news-updates/news/2012/5371/dnp-warning#.UXZBuJWTAYM
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