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Atirar para o alto pode matar alguém no chão?



       Aqui no Brasil, o ato de atirar para o alto (1) é um crime grave, inafiançável, compreendendo uma pena entre 2 e 4 anos de prisão. Mesmo sendo um ato comum o ´tiro de advertência´, feito tanto pela polícia civil/militar quanto pelo exército, essa ação é altamente não recomendada, pelo menos não pelo método que utiliza reais disparos. Mas quando uma bala de munição cai da sua posição terminal de alcance vertical, existiriam reais preocupações quanto à sua capacidade de dano?

       No momento de um disparo, uma bala pode alcançar velocidades superiores a 800 m/s (algo próximo de 3 vezes a velocidade do som, ou Mach 3). Devido às características de rotação e densidade da bala (formada, basicamente, de ligas de chumbo), essa alta velocidade implica em sérios danos ao alvo direto. Quando se atira para o alto, a bala começa a perder energia cinética devido ao atrito com o ar e à gravidade terrestre puxando-a para baixo. Desse modo, em um certo ponto da trajetória (posição terminal) ela para completamente, caindo de volta com a aceleração exclusiva da gravidade. Nesse ponto existe uma confusão por parte das pessoas em geral.

Atirar para o alto é não é nada seguro

         Depois de ser expulsa do cano da arma devido à explosão da pólvora e expansão rápida dos gases produzidos, a bala percorre uma distância vertical próxima de 3 quilômetros, se formos assumir uma velocidade acima de 800 e abaixo de 900 m/s (algo em torno de 3000 km/h), a ação da gravidade e a resistência do ar. Essa viagem total dura cerca de 50 segundos (18 para ir e 32 para voltar, aproximadamente). Isso tudo considerando um disparo à nível do mar e na atmosfera normal da Terra. Se o disparo para o alto fosse feito no vácuo, o alcance de subida seria bem maior e demoraria quase 3/4 a mais do tempo para ir e voltar (onde este tempo seria dividido igualmente na ida e na volta), tudo isso considerando a ausência de resistência do ar. Com isso podemos perceber que a interação de atrito com o gás atmosférico muda bastante a dinâmica de movimento do projétil. Como mencionado, o tempo de descida da bala no ar é bem maior do que o de subida porque o atrito com os gases atmosféricos freia a bala de modo que esta alcança uma velocidade constante em um determinado momento da queda livre.  Além disso, o movimento de descida acaba sendo diferente daquele exercido logo após o disparo.

           Com o vácuo, a bala subiria e desceria com a mesma velocidade, atingindo igual poder mortal nos momentos de disparo e final de queda. Ou seja, você teria quase 100% de certeza que acabaria morrendo se a bala disparada para o alto caísse na sua cabeça. Porém, com o ar envolvido, a bala subiria com alta velocidade até parar, e, no meio da sua trajetória de descida, seria radicalmente freada pelo atrito, terminando em uma velocidade que não mais passaria a ter aceleração devido à gravidade. Estudos já mostraram que é preciso uma velocidade de cerca de 61 m/s de um projétil balístico padrão (isso muda, logicamente, com o peso da bala e sua ponta de perfuração; vamos assumir aqui calibres medianos, com uma ponta mais arredondada) para causar fratura óssea ou penetrar o crânio. E, agora, respondendo à pergunta inicial, sim, o dano causado por uma bala em queda pode ser fatal.

Com ou sem resistência, o perigo de graves ferimentos e morte são altos caso a bala atinja alguém na queda

         Testes já mostraram que a velocidade terminal alcançada por projéteis balísticos, considerando o equilíbrio entre atrito atmosférico e gravidade, pode ir de 90 m/s até 275 m/s (próximo de 1000 km/h). Ser acertado com um pedaço de ´chumbo´ a 1000 km/h é algo longe de ser desprezado. Uma pesquisa compreendendo 7 anos, entre 1985 e 1992 nos EUA (Ref.2), mostrou que 77% das balas caídas que, por má sorte, atingiram pessoas inocentes, acertavam a cabeça, ombros e coluna. E a taxa de mortalidade nesses casos era de 32%! Esses infortúnios são mais comuns em áreas de guerra ou em campos de treinamento do exército, onde saraivadas de tiros para o alto são uma forma bastante recorrente de comemoração, mas bastante irresponsável também. Soldados usam, normalmente, capacetes protetores, e acabam ficando mais protegidos. Porém, diversos casos já foram reportados de membros do exército americano, por exemplo, que acabaram tendo uma bala alojada no corpo devido aos disparos de comemoração. Além disso, balas disparadas com um certo ângulo (não verticais), tendem a ser ainda mais perigosas na queda.

Tiros em ângulos tendem a ser ainda mais perigosos, devido à ajuda da resistência do ar nesta situação

            Portanto, se você possui uma arma de fogo pessoal (o que é longe do recomendado) tente evitar dispará-la para o alto, independente do motivo, especialmente se for apenas como forma de comemoração. Existe boas chances de um adulto sair com vida se uma delas resolver acertar alguém durante a queda livre, mas e se o alvo for uma criança ou bebê? Além do mais, é crime grave. E outra: a vítima pode ser você mesmo.

(1) Assim como em qualquer lugar público, independente da direção do disparo, desde, claro, que não seja uma tentativa de crime, onde, nesse caso, a penalidade judicial é bem mais grave.

Observação: Se o tiro for dado em altitudes maiores, o dano é ainda maior, já que a bala atravessará, tanto na ida quanto na vinda, camadas cada vez mais rarefeitas de ar (poucas moléculas de gás), o que diminui a força de atrito.

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1572346109000348
  2. http://journals.lww.com/jtrauma/Abstract/1994/12000/SPENT_BULLETS_AND_THEIR_INJURIES__THE_RESULT_OF.23.aspx
  3. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0003497506008319 
  4. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4443299/
  5.  http://link.springer.com/article/10.1007/s00068-013-0323-1#/page-1
  6. http://www.injuryjournal.com/article/S0020-1383%2812%2900050-2/abstract