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Por que os povos antigos deformavam a cabeça?


- Artigo atualizado no dia 14 de fevereiro de 2018 -

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          Da Austrália até a Patagônia, há milhares de anos era muito comum a prática de modelação do crânio. Sabe aquele crânio cilíndrico mostrado no filme "Indiana Jones e a Lenda da Caveira de Cristal?" (2008). Sim, quando as pessoas encontraram pela primeira vez esses crânios com formatos estranhos, alguns começaram a acreditar que eram de alienígenas que conviviam entre os povos antigos. Bem, depois que descobriram a existência de povos contemporâneos que faziam essa modelação (até hoje existem grupos que a fazem, especialmente na África), o mito meio que perdeu o sentido. Mas qual é o porquê dessa tradição corporal?
 
Deformações cranianas de grupos modernos; na foto do centro, podemos ver uma criança no processo de deformação



           Muitos antropólogos estudam esses modelamentos artificiais de crânio e diversas questões ainda permanecem em aberto. Mas já existem várias explicações hipotéticas do porquê isso ocorria tão comumente a partir de 45 mil anos atrás (período de tempo mais antigo onde foram achados registros dessa prática). Para começar, é preciso entender que modelar um crânio não é algo que pode ocorrer em qualquer momento da vida. O crânio de um adolescente ou adulto é algo muito rígido para ser deformado. Esse processo precisa ocorrer bem cedo na infância, quando o osso craniano está ainda bem macio. Aplicando pressões nele (parecido com o processo de correção dos dentes feito pelos aparelhos dentários), através de faixas firmemente amarradas ou outras ferramentas, a parte de cima da cabeça pode assumir diversas formas no decorrer do crescimento da criança. Mas como isso foi primeiro descoberto pelos povos primitivos, fica apenas na especulação. Alguns pesquisadores acham que, por acidente, muitas crianças tinham o crânio deformado devido à estruturas usadas para amarrá-los às costas das mães, as quais permitiam que ela se locomovesse sem ter que ficar  carregando o filho (mãos livres). Observando o fato, diversos grupos humanos teriam começado a deformar o crânio de maneira consciente. E qual o bendito motivo?

Métodos de deformação craniana

         Sim, é um processo extremamente perigoso. Se for aplicada uma pressão excessiva no crânio, o cérebro pode sofrer danos mortais, levando à uma rápida morte. Isso foi observado diversas vezes em expedições arqueológicas, onde diversas crianças mortas foram encontradas em cemitérios antigos, com marcas de deformação forçada. Portanto, devia existir fortes motivos para essa prática existir, algo que valesse os riscos. Bem, as explicações vão desde culturais até de sobrevivência. Começando pelas culturais, podemos citar os povos que viviam na região hoje englobada pelo Peru, aqui na América do Sul. Eles tinham uma forte hierarquia social, e mantinham a prática de modelação craniana. Pode ser que, para diferenciar o nível social de importância entre os membros da sociedade (ricos, pobres, líderes, curandeiros, etc.), as cabeças era modeladas de maneira distinta. Como é algo impossível de ser desfeito, não teria como alguém deixar de diferenciar um "cidadão" do outro. Para embasar bem essa hipótese, diversos tipo de formatos cranianos foram encontrados quando uma mesma sociedade era analisada.

            Já na região conhecida hoje como Patagônia, a grande maioria dos povos que ali viviam não possuíam uma organização social forte ou uma área fixa de desenvolvimento. Eles eram, basicamente, grupos nômades e expansionistas. Como um mesmo povo costumava se dividir em grupos para facilitar a conquista de novas áreas, adotar formatos bem diferenciados de cabeça poderia ser um fator decisivo de reconhecimento entre indivíduos, evitando confrontos desnecessários e mantendo os inimigos bem discriminados.

A forma cilíndrica era a mais comum

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   CRÂNIOS DA EUROPA MEDIEVAL

         Um estudo recentemente publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (Ref.5) trouxe uma hipótese bastante curiosa para explicar crânios alongados encontrados na Bulgária e na Romênia durante a época conhecida como o Período das Migrações, a qual se expandiu do final da Antiguidade até o início da Idade Média, marcando uma profunda transformação cultural. Nesse período, o Império Romano gradualmente se dissolveu e massivas migrações principalmente de povos Germânicos, como os Goths, Alamanni, Gepids e Longobards, passaram a ser bem comuns.

         Datadas em 500 d.C - na sua maioria -., ossadas humanas foram desenterradas de 41 cemitérios de locais arqueológicos do início do período medieval, em uma região próxima de seis modernas cidades ao sul da atual Alemanha (Bavária), ao longo do Rio Danúbio. As escavações ocorreram no final da década de 1960. Até pouco tempo atrás, poucas pistas existiam sobre suas identidades e o porquê da presença de misteriosos crânios alongados entre as ossadas - apesar de existir evidências de crânios artificialmente alongados na Europa datando do século II, a quantidade encontrada nesses cemitérios era maior do que o normal.

         Nisso, uma equipe de pesquisadores resolveu sequenciar o DNA de ossos oriundos de seis desses cemitérios. Para isso, houve uma comparação do material genético de pequenos fragmentos ósseos entre si e aquele das populações modernas ao longo da Europa e da Ásia. Os resultados mostraram que o DNA de 9 homens e de 11 mulheres dos 22 indivíduos com crânios normais tinha uma grande similaridade com o material genético das populações modernas da Europa central e do norte, onde a maioria tinha genes para cabelos loiros e olhos azuis - as exceções eram 2 mulheres com ancestralidade Grega/Anatoliana . Porém, o DNA de 9 mulheres que apresentavam crânio alongado e de 1 mulher dos 5 crânios com apenas suspeita de deformação (4 mulheres e 1 homem) diferia mais do que substancialmente. O material genético dessas mulheres era mais próximo do DNA das populações no sudeste da Europa, mais especificamente da Bulgária e da Romênia, carregando genes para cabelos pretos e olhos escuros.


          De acordo com os autores do novo estudo, isso sugere que essas mulheres tinham seus crânios alongados por motivo de alianças políticas, ou seja, criadas de forma especial para chamar ainda mais a atenção dos indivíduos de povos distantes - somando-se aos diferenciados cabelos e olhos escuros - e terminando por serem oferecidas em casamentos arranjados.

          A hipótese ainda não é bem aceita pela comunidade acadêmica. Alguns citam inclusive que os crânios deformados poderiam ser um acidente na infância - com os crânios dos bebês sendo alongados acidentalmente quando esses ficavam descansando em superfície duras de madeira ou quando eram amarrados para transporte (como já mencionado). Porém, como contra-argumento, os pesquisadores citam que seria muita coincidência, já que quase todas as mulheres com crânio alongados são do sudeste Europeu e em meio a diversos outros crânios normais de indivíduos comuns do centro e norte Europeu - e mais: apenas mulheres.

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   CONCLUSÃO

           Se pararmos para pensar, modificações corporais é algo comum até hoje para diferenciar os grupos, tanto na nossa sociedade moderna, quanto em tribos nativas ainda existentes. Piercings, tatuagens, tingimento de cabelos, entre diversas outras reformulações do corpo servem para mostrar quem nós somos, e em qual grupo pertencemos. Até mesmo estilos de roupas. Deformar a cabeça pode ser algo até estranho e agressivo para muitos de nós hoje, mas talvez os povos antigos poderiam achar muitas figuras da nossa sociedade bem mais estranhas. Imagina jogar um Marilyn Manson no meio desses povos...Ou eles fugiam desesperados ou tomavam ele como um Deus...( Risos!)

Crânios deformados pertencentes à cultura Paracas, povo antigo que vivia na região do Peru

Artigo relacionado: Existem raças humanas?


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.bbc.com/earth/story/20151119-the-people-who-reshaped-their-skulls
  2. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/aman.12332/full
  3. http://dx.doi.org/10.1002/ajpa.22832
  4. http://dx.doi.org/10.4067/S0717-73562008000100005
  5. http://www.pnas.org/content/early/2018/03/06/1719880115