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Por que os povos antigos deformavam a cabeça?


- Artigo atualizado no dia 3 de agosto de 2019 -

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          Da Austrália até a Patagônia, há milhares de anos era muito comum a prática de modelação do crânio. Sabe aquele crânio cilíndrico mostrado no filme "Indiana Jones e a Lenda da Caveira de Cristal" (2008)? De fato, quando as pessoas encontraram pela primeira vez esses crânios com formatos estranhos, alguns começaram a acreditar que eram de alienígenas que conviviam entre os povos antigos. Bem, depois que descobriram a existência de povos contemporâneos que faziam essa modelação (até hoje existem grupos que a fazem, especialmente na África), o mito meio que perdeu o sentido. Mas qual é o porquê dessa tradição corporal?
 
Deformações cranianas de grupos modernos; na foto do centro, podemos ver uma criança no processo de deformação

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           Muitos antropólogos estudam esses modelamentos artificiais de crânio e diversas questões ainda permanecem em aberto. Mas já existem várias explicações sugestivas do porquê isso ocorria tão comumente a partir de 45 mil anos atrás (período de tempo mais antigo onde foram achados registros dessa prática). Para começar, é preciso entender que modelar um crânio não é algo que pode ocorrer em qualquer momento da vida. O crânio de um adolescente ou de um adulto é algo muito rígido para ser deformado. Esse processo precisa ocorrer bem cedo na infância, quando o osso craniano está ainda bem macio. Aplicando pressões na superfície craniana a longo prazo (parecido com o processo de correção dos dentes feito pelos aparelhos dentários), através de faixas firmemente amarradas ou outras ferramentas, a parte de cima da cabeça pode assumir diversas formas no decorrer do crescimento da criança. Mas como isso foi primeiro descoberto pelos povos primitivos, fica apenas na especulação. Alguns pesquisadores acreditam que, por acidente, muitas crianças tinham o crânio deformado devido às estruturas usadas para amarrá-las às costas das mães, as quais permitiam que essas últimas se locomovessem sem ter que ficar carregando os filhos (mãos livres). Observando o fenômeno, diversos grupos humanos teriam começado a deformar o crânio de maneira consciente. E qual seria o bendito motivo para isso?

Métodos de deformação craniana

         Sim, é um processo extremamente perigoso. Se for aplicada uma pressão excessiva no crânio, o cérebro pode sofrer danos mortais, levando à uma rápida morte. Isso foi observado diversas vezes em expedições arqueológicas, onde diversas crianças mortas foram encontradas em cemitérios antigos, com marcas de deformação forçada. Portanto, devia existir fortes motivos para essa prática existir, algo que compensasse os riscos. Bem, as explicações propostas entre os acadêmicos englobam desde fatores culturais até estratégias de sobrevivência. Começando pelos motivos culturais, podemos citar os povos que viviam na região hoje englobada pelo Peru, aqui na América do Sul. Eles tinham uma forte hierarquia social, e mantinham a prática de modelação craniana. Pode ser que, para diferenciar o nível social de importância entre os membros da sociedade (ricos, pobres, líderes, curandeiros, etc.), as cabeças era modeladas em formas distintas. Como é um procedimento impossível de ser desfeito, não teria como alguém deixar de diferenciar um "cidadão" do outro, já que se torna óbvia a sinalização visual. Corroborando essa hipótese, diversos tipo de formatos cranianos já foram encontrados quando uma mesma sociedade era analisada.

            Já na hipótese associada com melhores chances de sobrevivência, podemos citar que na região conhecida hoje como Patagônia, aqui na América do Sul, a grande maioria dos povos que ali viviam não possuíam uma organização social avançada ou uma área geográfica fixa de desenvolvimento. Eles eram, basicamente, grupos nômades e expansionistas. Como um mesmo povo costumava se dividir em grupos para facilitar a conquista de novas áreas, adotar formatos diferenciados de cabeça poderia ser um fator decisivo de reconhecimento entre indivíduos, evitando confrontos desnecessários e mantendo os inimigos bem discriminados.

A forma cilíndrica era a mais comum nos procedimentos de modelação craniana

          Como a modificação artificial de crânio é irreversível e deliberadamente realizada por adultos nas crianças, essa prática claramente reflete um investimento notável de tempo e de esforços para alcançar a identidade morfológica visada. E diferente de outros tipos de modificações corporais, a prática não está associada com qualquer outro conhecido rito de passagem, tornando-a indelevelmente um símbolo de identidade social, independente do objetivo final (sobrevivência ou status social).

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   CRÂNIOS DA EUROPA MEDIEVAL

         Um estudo recentemente publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (Ref.5) trouxe uma hipótese bastante curiosa para explicar crânios alongados encontrados na Bulgária e na Romênia durante a época conhecida como o Período das Migrações, a qual se expandiu do final da Antiguidade até o início da Idade Média, marcando uma profunda transformação cultural. Nesse período, o Império Romano gradualmente se dissolveu e massivas migrações principalmente de povos Germânicos, como os Goths, Alamanni, Gepids e Longobards, passaram a ser bem comuns.

         Datadas em 500 d.C - na sua maioria -., ossadas humanas foram desenterradas de 41 cemitérios de locais arqueológicos do início do período medieval, em uma região próxima de seis modernas cidades ao sul da atual Alemanha (Bavária), ao longo do Rio Danúbio. As escavações ocorreram no final da década de 1960. Até pouco tempo atrás, poucas pistas existiam sobre suas identidades e o porquê da presença de misteriosos crânios alongados entre as ossadas - apesar de existir evidências de crânios artificialmente alongados na Europa datando do século II, a quantidade encontrada nesses cemitérios era maior do que o normal.

         Nisso, uma equipe de pesquisadores resolveu sequenciar o DNA de ossos oriundos de seis desses cemitérios. Para isso, houve uma comparação do material genético de pequenos fragmentos ósseos entre si e aquele das populações modernas ao longo da Europa e da Ásia. Os resultados mostraram que o DNA de 9 homens e de 11 mulheres dos 22 indivíduos com crânios normais tinha uma grande similaridade com o material genético das populações modernas da Europa central e do norte, onde a maioria tinha genes para cabelos loiros e olhos azuis - as exceções eram 2 mulheres com ancestralidade Grega/Anatoliana . Porém, o DNA de 9 mulheres que apresentavam crânio alongado e de 1 mulher dos 5 crânios com apenas suspeita de deformação (4 mulheres e 1 homem) diferia mais do que substancialmente. O material genético dessas mulheres era mais próximo do DNA das populações no sudeste da Europa, mais especificamente da Bulgária e da Romênia, carregando genes para cabelos pretos e olhos escuros.


          De acordo com os autores do novo estudo, isso sugere que essas mulheres tinham seus crânios alongados por motivo de alianças políticas, ou seja, criadas de forma especial para chamar ainda mais a atenção dos indivíduos de povos distantes - somando-se aos diferenciados cabelos e olhos escuros - e terminando por serem oferecidas em casamentos arranjados.

          A hipótese ainda não é bem aceita pela comunidade acadêmica. Alguns citam inclusive que os crânios deformados poderiam ser um acidente na infância - com os crânios dos bebês sendo alongados acidentalmente quando esses ficavam descansando em superfície duras de madeira ou quando eram amarrados para transporte (como já mencionado). Porém, como contra-argumento, os pesquisadores citam que seria muita coincidência, já que quase todas as mulheres com crânio alongados são do sudeste Europeu e em meio a diversos outros crânios normais de indivíduos comuns do centro e norte Europeu - e mais: apenas mulheres.

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   PERÍODO DA GRANDE MIGRAÇÃO

          A prática das deformações cranianas artificiais possui antigas raízes na Eurásia, parecendo ter emergido de forma independente em múltiplas localizações. Evidências arqueológicas sugerem que a prática foi introduzida na Europa Central em larga escala a partir da migração dos Hunos (antiga confederação Eurasiática de nômades ou seminômades equestres) a partir do século IV. Nesse sentido, segundo um estudo publicado no periódico PLOS ONE (Ref.6), pesquisadores encontraram evidências de que as pessoas na Croácia durante os séculos V e VI, e possivelmente associadas aos Hunos, podem ter usado modificações cranianas para indicar afiliações culturais.

          A conclusão veio depois da análise de três esqueletos humanos datados em 415-560 d.C. - durante o Período da Grande Migração (um tempo de significativo movimento e interação de várias culturas Europeias) - e escavados em 2013 na região Croata de Osijek. Dois dos esqueletos mostraram dramáticas deformações no crânio, onde um deles foi alongado obliquamente e o outro foi comprimido e elevado. É a mais antiga evidência arqueológica de uma Deformação Craniana Artificial na Croácia.



          Todos os esqueletos eram de indivíduos do sexo masculino com idades entre 12 e 16 anos no momento da morte, todos eles estavam sofrendo de má nutrição e aparentemente estavam associados aos Hunos ou a tribos Germânicas. Análises genéticas sugerem os indivíduos com crânios modificados possuíam ancestralidade de diferentes regiões Asiáticas, um do Oriente Próximo e o outro da Ásia Oriental. O esqueleto sem deformações cranianas possuía ancestralidade de Europeus Ocidentais. Nesse sentido, os pesquisadores suspeitam que durante a maior interação inter-cultural na Grande Migração, essas deformidades cranianas tinham o propósito de distinguir diferentes grupos pertencentes a diferentes culturas e regiões.

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   CONCLUSÃO

           Se pararmos para pensar, modificações corporais são procedimentos comuns até hoje para diferenciar os grupos, tanto na nossa sociedade moderna, quanto em tribos nativas ainda existentes. Piercings, tatuagens, tingimento de cabelos, entre diversas outras reformulações do corpo servem para mostrar quem nós somos, e a qual grupo pertencemos. Deformar a cabeça pode ser algo até estranho e agressivo para muitos de nós hoje, mas provavelmente os povos antigos achariam muitas figuras da sociedade moderna também bem estranhas. Imagina apresentar um Marilyn Manson da vida para os Antigos. Ou eles fugiam desesperados ou tomavam ele como um Deus... (Risos).

Crânios deformados pertencentes à cultura Paracas, povo antigo que vivia na região do Peru

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.bbc.com/earth/story/20151119-the-people-who-reshaped-their-skulls
  2. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/aman.12332/full
  3. http://dx.doi.org/10.1002/ajpa.22832
  4. http://dx.doi.org/10.4067/S0717-73562008000100005
  5. http://www.pnas.org/content/early/2018/03/06/1719880115
  6. https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0216366