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Por que o sal é iodado?




          Quando em 1950 cerca de 20% da população do Brasil estava com bócio, o Ministério da Saúde em conjunto com a ANVISA tiveram que agir com urgência. Um método efetivo sendo usado no mundo estava surtindo bastante efeito positivo: a adição de sais de iodeto no sal de cozinha. Assim, em 1953, passou a ser obrigatório, e subsidiado pelo governo, a iodização do sal de cozinha.

           E por que a iodização? O elemento iodo é fundamental para o bom funcionamento da tireoide, uma glândula em forma de borboleta localizada na região anterior do pescoço. Ela é uma das maiores glândulas do nosso corpo e seus dois hormônios (T3 - triiodotironina - e T4 - tiroxina) agem em quase todos os tecidos do organismo, regulando o crescimento das crianças e adolescentes, ciclos menstruais, peso, funções cerebrais, controle emocional, movimentação dos órgãos internos, entre diversos outros. Quando a tireoide não está funcionando bem, ela passa a liberar hormônios em excesso (hipertiroidismo) ou em deficiência (hipotiroidismo). No hiper, diversas funções no corpo passam a funcionar rápido demais, onde o coração dispara, o intestino fica mais solto do que o normal, dormir fica difícil e a agitação geral  aumenta muito. No hipo, ocorre o contrário, onde tudo no corpo da pessoa começa a ficar mais lento: o intestino prende, o coração bate mais devagar, indisposição em fazer movimentos físicos, raciocínio mental despenca, etc. Em ambas as situações, a tireoide sofre um aumento descomunal de tamanho, caracterizando o bócio.



           Entre outros fatores, o hipo e hipertiroidismo é causado pela falta e o excesso na ingestão de iodo, respectivamente. E existem agravantes: se o iodo é consumido em quantidades insuficientes durante a gestação, poderá ocorrer má formação do feto e nascimento prematuro; se for durante as primeiras fases de desenvolvimento da criança, podem ocorrer danos irreversíveis nas suas funções cerebrais e capacidades psicomotoras. Por ser muito raro na crosta terrestre (o iodo é um elemento bem pesado, e quanto maior o peso atômico, mais raro), a ingestão ideal dele pode ser comprometida entre a população. Na verdade, pode vir a pergunta: então, como os antigos sobreviviam se até na nossa sociedade moderna é difícil conseguir o iodo a partir da alimentação?

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            Mas aí é que está, porque antigamente nossa dieta era mais carnívora, envolvendo mais pescados, leites e ovos. Na era moderna do homem, passamos a nos alimentar mais de cereais e plantas que não possuem quantidades boas de iodo, além da alimentação ter ficado cada vez mais pobre nutricionalmente. Algumas exceções existem, como o povo que vive em regiões costeiras, alimentando-se muito de frutos do mar (contêm, naturalmente, iodo), conseguindo uma quantidade excelente desse elemento. Antes da adição de iodo no sal de cozinha, principalmente na forma de iodeto de potássio (KI), era muito comum encontrar alguém com bócio. E por quê o sal de cozinha?

Estado um pouco avançado do bócio

         Por dois motivos, o sal de cozinha é o vetor de iodo escolhido pelos órgãos de saúde. O primeiro é o baixo, mas amplo consumo desse produto pela população. Como dito anteriormente, caso exista um abuso no consumo de iodo, o bócio também será gerado. O corpo humano precisa de apenas entre 90 e 150 microgramas de iodo por dia (aumentando a demanda conforme a idade). Em mulheres grávidas, a exigência é entre 220 e 290 microgramas. Ou seja, uma colher de chá cheia de iodo é o suficiente para toda a vida. Mas como o corpo não consegue armazenar iodo, este elemento precisa ser ingerido em pequeníssimas quantidades todos os dias. Por isso o sal é perfeito, porque as pessoas consomem pouco dele. Caso outros alimentos fossem escolhidos, um abuso na ingestão de iodo seria facilmente alcançável (1). E o excesso de iodo causa diversos outros problemas no corpo, além do hipertiroidismo. Além disso, a tecnologia de adição desse elemento no sal de cozinha é barata e bastante simples. Porém, um aviso importante é saber que, no momento de abertura do pacote de sal de cozinha, por degradação e sublimação, o iodo é perdido gradativamente. Portanto, deixe o sal/iodo em estoque fechado, e longe da luz (degradação fotoquímica) e temperaturas altas (favorece a sublimação e reações de oxidação). As quantidades de iodo colocadas no sal são sempre maiores do que a necessidade das pessoas, já prevendo essas perdas.

Fonte: Instagram do Saber Atualizado/https://instagram.com/jeanoliveirafit/

           Esse é o motivo de eu estar sempre condenando as dietas extremistas. Muitos, quando estão de dieta ou atletas de musculação, gostam de cortar completamente o sal de cozinha ou o light (este também é iodado) da alimentação. Nessa situação, caso não exista a ingestão concomitante de alimentos ricos em iodo, como frutos do mar, gemas e leite, a ingestão ideal de iodo é comprometida. Ainda mais em programas de dieta malucos, onde tudo é restringido. Além disso, o sódio é importantíssimo para diversas funções celulares do corpo, especialmente a transmissão de impulsos nervosos. Cortar esse íon de tudo é bem prejudicial, assim como o seu excesso. Aí, vem problemas de cansaço e desregulação total no corpo, e a pessoa fica se perguntando o porquê. E, com isso, vem aquele preconceito contra as dietas. Não, você não está fazendo dieta nenhuma, está apenas se alimentando mal. Qualquer extremismo é prejudicial. Dieta não deveria significar apenas corte de alimentos e, sim, uma reeducação alimentar. E o mais importante: você deve gostar dela, para durar por tempo vitalício.

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REFORÇANDO:  Existem outras causas para o hipotiroidismo e hipertiroidismo. A falta ou excesso de iodo são apenas duas delas.

(1) CURIOSIDADE: entre 1955 e 2000, depois da implantação da iodização, a prevalência de jovens (6 a 14 anos) com bócio diminuiu de 20,7% para 1,4%, com o limite internacional aceito de 5%. Durante esse período, apesar dos excelentes resultados, também houve uma crítica ao Brasil, porque o governo estava diminuindo as quantidades de iodo adicionadas no sal devido ao consumo cada vez maior de sal de cozinha pelo povo. Ou seja, para não haver excesso na ingestão de iodo pela população, foi-se diminuindo gradativamente as adições. O máximo de sódio recomendado pela OMS (2) é de 6 gramas de sal de cozinha, e a população brasileira, até hoje, apresenta uma média de consumo de 12,5 gramas! E a crítica veio daí: não era para o governo diminuir as adições de iodo, e, sim, incentivar a população à ingerir menos sal de cozinha (NaCl), nossa principal fonte de sódio (Na+). Estamos prevenindo um problema mas alimentando outro.

(2) A recomendação ideal da OMS para o consumo de sódio (Na+), atualmente, é de cerca de 2 gramas, equivalente a cerca de 5 gramas de sal de cozinha. Isso, claro, depende das suas atividades diárias. Um atleta, por ingerir mais água e suar mais, precisa de mais. Alguém muito sedentário, precisa de menos. A OMS também recomenda a ingestão de mais potássio pela população.

Sal light: sal de cozinha onde existe a substituição de 50% do sódio (Na+) pelo potássio (K+). Obs.:Todo tipo de sal precisa estar iodado. Caso testemunhe algum sal não iodado, denuncie.

IMPORTANTE: não é para exagerar na ingestão de sal! Um consumo mínimo, aliado. ou não, a outras fontes de iodo (leites, iogurtes, gema de ovo, frutos do mar, soja  e as pequenas quantidades encontradas encontradas nos vegetais e carnes em geral) já são suficientes. Morangos e cerejas são alimentos vegetais, além da soja, que possuem boas quantidades de iodo.

Texto relacionado: Sódio e a hipertensão

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.endocrino.org.br/tireoide/
  2.  http://www.anvisa.gov.br/divulga/public/boletim/41_04.pdf
  3. http://dab.saude.gov.br/docs/eventos/2a_mostra/defici%C3%AAncia_iodo.pdf 
  4. https://ods.od.nih.gov/factsheets/Iodine-HealthProfessional/
  5. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0004-27301998000600009&script=sci_arttext
  6. http://europepmc.org/abstract/med/7085204