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Picadas de cobras: descaso da saúde pública



           A equipe dos Médicos Sem Fronteiras está clamando por mais atenção do mundo para um dos problemas de saúde pública mais desprezados pelas organizações e governos internacionais: as picadas venenosas desferidas por cobras. Os métodos de tratamento usados hoje são antigos, não existe avanço em pesquisas relacionadas e o número de acidentes fatais só vem crescendo todos os anos.

            É estimado que, anualmente, ocorram em torno de 5 milhões de picadas de cobras, entre as quais mais de 100 mil pessoas acabam morrendo. Além disso, próximo de 3 milhões dessas pessoas, durante o mesmo período de tempo, sofrem graves danos por causa das picadas, e cerca de 400 mil acabam ficando desfiguradas, desabilitadas e desmembradas (especialmente nas pernas), entre outros danos permanentes, devido ao veneno necrosante produzido por um grande número desses répteis. As cobras peçonhentas são a segunda maior causa animal de mortes humanas no planeta, perdendo apenas para os mosquitos (estes transmitem diversas doenças, especialmente a malária). Somente na África Sub-Sariana, estima-se que ocorram mais de 314 mil picadas de cobras, com 7,3 mil mortes e 6 mil amputamentos resultantes.

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          O tratamento hoje para o envenenamento ofídico consiste na administração intravenosa de um soro contendo anticorpos específicos contra o veneno de uma certa espécie de cobra. O processo de produção desse soro remonta do século 19, descoberto pelo bacteriologista Albert Calmette e otimizado pelo pesquisador brasileiro Vital Brazil. Nele, pequenas doses não letais do veneno da cobra visada são injetadas em um animal de grande porte (cavalo, na grande maioria das vezes). Decorrido um certo período de tempo, o animal produz os anticorpos contra o veneno injetado, os quais ficam circulando em seu sangue. Assim, uma boa quantidade de sangue é retirada dele (sangria), centrifugado, filtrado, e os anticorpos separados para a feitura do soro antiofídico. Aqui no Brasil, por exemplo, são produzidos seis soros:


- Antibotrópico = contra acidentes de jararacas
- Anticrotálico = contra acidentes de cascavel
- Antilaquético = contra acidentes de surucucu
- Antielapídido = contra acidentes de cobra-coral
- Anticrotálico-botrópico = contra acidentes com cascavéis e jararacas
- Antibotrópico-laquético = contra acidentes com jararacas e surucucus


              Mas se existem soros antiofídicos para diversos tipos de cobras, por que existem tantas mortes e danos graves pelo mundo? O fato dos tratamentos disponíveis dependerem da administração de um soro em um hospital, pode ser algo inútil para quem está, por exemplo, se aventurando no meio da selva. Isso sem contar que grande parte das picadas ocorre em áreas rurais, ou seja, mais isoladas em termos de infraestrutura tecnológica. E ainda temos o fato de que a picada venenosa deixa a vítima progressivamente mais fraca, dificultando ainda mais sua chegada ao um hospital ou posto de saúde. Além disso, temos um grande agravante: qual antídoto aplicar? Se a pessoa não souber qual cobra o picou, ou não tiver levado o espécime para o centro de saúde, a escolha do soro torna-se um problema. Existem soros que cobrem várias espécies, mas não todas.

           O ideal seria a descoberta de novos medicamentos possíveis de serem feitos em larga escala e que pudessem ser levados como uma aspirina pelas pessoas, além de possuírem um amplo efeito sobre os mais variados tipos de peçonha. Assim, caso algum acidente ocorresse, um medicamento já estaria em mãos para ser aplicado ou ingerido. O problema é que as pesquisas nessa área não recebem quase nenhum investimento. Muitos medicamentos promissores não vão para a frente porque quase ninguém se interessa em patrociná-los Alguns pesquisadores estão até organizando ´crowdfundings´ para ver se conseguem verba. Essa falta de interesse inclusive gera profissionais despreparados para lidar com pacientes envenenados por cobras, aumentando as taxas de mortalidade ou sérios danos.

Naja naja é uma das espécies de cobras peçonhentas mais perigosas da Ásia, sendo uma das principais responsáveis pelos acidentes na Índia; mesmo assim, ela é muito utilizado pelos famosos encantadores de cobras indianos, além de ser um animal sagrado e protegido pelas leis do país

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           Outro gravíssimo problema é o fechamento de indústrias para a produção de antídotos devido justamente à falta de investimentos de compra. Recentemente, a companhia francesa farmacêutica, Sanofi Pasteur, anunciou que o último lote do FAV-Afrique, um antídoto polivalente que cobre 10 tipos de cobras (entre as quais estão as mais perigosas da África), expirará no início de junho de 2016. A Sanofi, a única que produzia o FAV, tinha parado sua produção em 2014. Segundo a empresa, o custo de produção do antídoto é caro, as condições de armazenagem são caras, o seu prazo de validade é curto e é um medicamento muito sensível às mudanças de temperatura, precisando de uma contínua refrigeração. O custo é alto e os lucros são baixos, porque os governos da África não querem comprá-lo em grandes quantidades e com um preço bom. Custos com o armazenamento desses produtos também entram nas contas do descaso, principalmente a constante e necessária refrigeração.

           Olha o absurdo! Por causa de de uma questão de lucro, um importante salvador de vidas irá deixar de existir ano que vem! Outras empresas farmacêuticas, como a Pfizer e a Behringwerke, também seguiram o mesmo passo. E a vergonhosa situação também gera outra triste consequência: a produção de antídotos de reduzida qualidade, estes os quais podem ajudar a comprometer a saúde da vítima sendo tratada.

A temida Mamba-Negra é a espécie mais perigosa da África, devido à sua extrema agressividade e velocidade de ataque; um animal desses, em uma única investida, pode aplicar até 12 picadas, injetando veneno suficiente para matar dezenas de pessoas; se o tratamento com soro não for feito às pressas, as chances de morte são de quase 100%; para se ter uma ideia, mesmo com a aplicação do soro, as chances de morte ainda ficam próximas da casa dos 50%

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           Bem, agora é que vem o fato mais triste. Muitos devem estar se perguntando o porquê da falta de investimentos e o excesso de descaso das indústrias/governos com essa grave questão de saúde pública. A explicação é simples e vergonhosa. As picadas de cobras são um grande problema das áreas tropicais, englobando, em majoritária parte, as regiões da África e sudeste da Ásia, principalmente nas áreas rurais. Esses locais concentram, em grande maioria, as populações mais pobres do mundo. Infelizmente, picada de cobra não é um problema que atinge os países desenvolvidos, os quais estão em regiões quase livres desses acidentes. Por que investir em pobre, não é mesmo? Eles não vão dar lucro, só prejuízo, como foi claramente esboçado pela Sanofi. O mesmo ocorre com a Malária, a qual também só atinge áreas tropicais, principalmente na África.

            Entre 2000 e 2011, por exemplo, dos 756 novos medicamentos lançados no mercado, apenas 4 visavam a Malária, mesmo ela sendo um dos maiores ceifadores de vida no mundo. Em 2010, essa doença matou algo estimado em 1133000 pessoas, sendo que 90% dos casos ocorreram na África. E em 2013, mais de 198 milhões foram infectados, com um criança morrendo a cada minuto no continente. Se o problema de saúde pública não atinge os países ricos, como a Aids e a obesidade, pouca coisa é feita. Daqui a pouco só teremos placebos disponíveis para tratar o lado negligenciado do mundo. E além da saúde, a pobreza e miséria nas áreas mais miseráveis só tende a se agravar, porque muitas pessoas, quando afetadas por essas doenças ou ataques de animais peçonhentos, acabam ficando desabilitadas para continuarem trabalhando ou acabam morrendo e deixando para trás filhos/família em maior necessidade.

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            E não é apenas os humanos que sofrem com a problemática envolvendo as peçonhas ofídicas. Por causa do descaso de saúde pública, os gigantescos prejuízos causados pelas picadas de cobra acabam afetando negativamente a visão da população em relação a esses animais. Várias pessoas, especialmente aquelas que habitam regiões muito atingidas pelas picadas, acabam tendo ódio das cobras e não mostram-se nem um pouco dispostas em ajudar na conservação de inúmeras espécies, pelo contrário, buscam matar o maior número possível. Assim como ocorre com os tubarões, a má fama acaba sendo outro perigoso inimigo a ser lidado pelos grupos e agências de conservação ambiental. E o pior é que esses répteis são extremamente importantes para o equilíbrio ecológico e até para a economia humana. As populações de vários roedores, por exemplo, são controladas, em grande parte, pelas cobras e, sem elas, plantações de cereais e grãos teriam uma redução substancial de rendimento com o estouro populacional desses animais.

          Maior infraestrutura médica, maior disponibilidades de antídotos - e busca contantes por outros mais eficazes -, e amplas campanhas de conscientização da população sobre como prevenir as picadas, são passos essenciais para proteger tanto os humanos quanto as cobras. E isso tudo só será alcançado quando o egoísmo humano for realmente vencido pela causa humanitária.

OBSERVAÇÃO: Eu usei os termos 'peçonhento' e 'veneno' na feitura do texto, mas o certo seria referir-se às cobras apenas como animais peçonhentos e que inoculam uma peçonha. Animais venenosos, e que produzem veneno, não possuem estruturas inoculatórias (ferrões, presas, etc.) para aplicar ativamente a toxina, como as rãs venenosas (1). O veneno apenas faz parte do corpo. Animais peçonhentos inoculam ativamente a toxina (peçonha) no seu alvo, como as serpentes e escorpiões. Usei uma junção dos termos no texto para facilitar o entendimento durante a leitura.

(1) Com exceção de duas espécies recentemente descobertas. Para mais informações, acesse: Rãs peçonhentas!

ESPÉCIE MAIS PEÇONHENTA DO MUNDO

A Taipan-Continental é a espécie mais peçonhenta do mundo; uma única picada entrega peçonha suficiente para matar mais de 100 homens adultos; habita algumas regiões da Austrália, mas raramente causa acidentes em humanos por não ser uma espécie agressiva e abundante

 ESPÉCIE MAIS PERIGOSA DO MUNDO
 

A também australiana Taipan-Litorânea, diferente da Taipan-Continenatal, é extremamente agressiva, e ataca sob qualquer movimentação suspeita no seu território e, por isso, mesmo sendo a 6° mais peçonhenta, ela figura como a mais perigosa do mundo, junto com a Mamba-Negra; a taxa de mortalidade geral é de 80% das vítimas, mas, sem tratamento, a taxa chega a  ser próxima de, virtualmente, 100%


 ESPÉCIE MAIS PEÇONHENTA DO BRASIL

Micrurus sp., uma das diversas variedades de Cobra-Coral espalhadas pelo mundo, é a nossa mais peçonhenta cobra; apesar disso, é responsável por apenas 1% dos casos de picada de cobra no Brasil, por ser tímida e viver em áreas afastadas das ocupadas por humanos

ESPÉCIE MAIS PERIGOSA DO BRASIL

A Jararaca é a mais perigosa do Brasil, devido à sua abundância, agressividade e grande habilidade de camuflagem; cerca de 87% dos acidentes com cobras no nosso país é devido a elas; apesar disso, sua peçonha é relativamente fraca, e o índice de morte não passa de 0,25%; porém, se não tratado o envenenamento, danos sérios no organismo podem ocorrer

ATUALIZAÇÃO (24/12/16): E uma excelente notícia! Pesquisadores conseguiram sintetizar complexas nanopartículas que se ligam fortemente às proteínas PLA2 encontradas em diferentes estruturas na peçonha das cobras. Isso pode dar origem a um antídoto universal de baixo custo e que não precisa de maiores cuidados de armazenamento, como refrigeração, diminuindo ainda mais os gastos. Unindo grande eficiência e preços baixos, essas nanopartículas poderão salvar milhares de pessoas todos os anos. Além disso, a mesma estratégia pode ser usada para outros animais peçonhentos, como os escorpiões. (Ref.12)


Artigo Relacionado:  Malária: o grande inimigo mundial


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1.  http://www.scientificamerican.com/article/snakebite-antivenom-development-is-stuck-in-the-19th-century-what-s-next/
  2. http://www.scielo.br/pdf/qn/v36n10/11.pdf
  3. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22393615
  4. http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736%2812%2960034-8/abstract
  5. http://web.archive.org/web/20150111055930/http://www.avru.org/?q=general/general_mostvenom.html
  6. http://www.msf.org.br/ 
  7. http://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.0030150
  8. https://jvat.biomedcentral.com/articles/10.1186/1678-9199-20-7
  9. https://jvat.biomedcentral.com/articles/10.1186/1678-9199-19-27
  10. http://journals.plos.org/plosntds/article?id=10.1371/journal.pntd.0002162
  11. http://ethnobiomed.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13002-016-0092-0
  12. http://www.sciencemag.org/news/2016/12/antivenom-made-nanoparticles-could-eventually-treat-bites-any-snake