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O desaparecimento das abelhas

  

          As abelhas surgiram há 130 milhões de anos, em uma época que éramos ainda pequenos roedores peludos. Importantes agentes polinizadores, elas evoluíram das nossas conhecidas vespas, quando algumas destas começaram a guardar um pouco de pólen em pseudo bolsas, para uma alimentação extra. Mas, hoje, as abelhas estão desaparecendo misteriosamente, principalmente na Europa e nos EUA. E isso é gravíssimo.

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    ABELHAS E A POLINIZAÇÃO

           Antes da existência de insetos polinizadores, as plantas angiospermas (e algumas gimnospermas) arriscavam tudo no vento. Acabavam gastando enormes quantidades de energia para produzir massivas quantidades de pólen (1), na esperança de que, ao acaso, alguns deles caíssem no órgão sexual feminino da mesma espécie vegetal. Então, quando os insetos voadores começaram a transportar esse pólen (o qual ficava agarrado aos seus corpos no encontro com as flores), a proliferação das árvores e plantas explodiu exponencialmente, e os investimentos passaram a ser focados em flores vistosas e perfumes cada vez mais atrativos aos seus novos parceiros.

           As abelhas, as quais evoluíram das vespas por meios ainda não muito bem entendidos (a aferição é incerta, porque fósseis de insetos são muito difíceis de serem preservados, já que não possuem ossos calcificados, e, sim, um exoesqueleto orgânico facilmente vítima da decomposição), trouxeram uma vantagem única no processo de polinização: com as bolsas, elas carregavam muito mais pólen. A quantidade extra serve para alimentar as abelhas, suas larvas e a rainha na colmeia. Já na maior parte dos outros insetos, a alimentação costuma ser mais individual, onde as larvas são deixadas por conta própria e possuem uma outra dieta. O comportamento social das abelhas permitiu que o fluxo de pólen entre as flores aumentasse de forma inigualável, facilitando muito a reprodução das plantas frutíferas.

Os polinizadores mais eficientes do planeta, onde até a nossa agricultura é diretamente dependentes deles para alcançar bons números de produção

          Hoje existem mais de 25 mil espécies de abelhas no mundo catalogadas, com muitas outras para serem descobertas. E esses insetos não são importantes para os humanos apenas na manufatura do mel, sendo, como já indicado, as principais polinizadoras no ambiente natural e na agricultura.


     ABELHAS DESAPARECENDO

          A crucial importância das abelhas vem preocupando diversas partes do mundo, em majoritário na Europa e América do Norte, onde diversas espécies desses insetos estão desaparecendo, causando  prejuízos incalculáveis, especialmente na Inglaterra e nos EUA. O declínio das populações de abelhas nessas regiões é alarmante, e os governos na União Europeia já começaram, em anos recentes, a tomar providências na tentativa de salvar esses importantes polinizadores.

          Os pesticidas são um dos principais suspeitos, e alguns já foram proibidos no território europeu. Entre eles, 7 são considerados realmente letais às abelhas: imidacloprid, clothianidin, thiamethoxam, fipronil, clorpyriphos, cypermethrin e deltamethrin (nomes em inglês). A monocultura, desmatamento, parasitas, doenças, má nutrição, fatores genéticos e as mudanças climáticas também parecem ter um papel muito danoso. A monocultura e o desmatamento, por exemplo, estão intimamente ligados com a má nutrição desses insetos, especialmente por diminuir a variedade de flores para a alimentação das abelhas, onde estas tiram importantes proteínas e lipídios do néctar, sendo que esses nutrientes variam enormemente de uma espécie de flor para outra. Investimentos pesados estão sendo feitos para a descoberta de todas as causas da morte desses insetos, para a solução das prováveis causas já conhecidas e para a adoção de medidas no intuito de induzir um rápido crescimento das populações de abelhas nas áreas mais afetadas pelas taxas de declínio.

           O principal processo de perda das populações das abelhas é conhecido, cientificamente, por CCD (Desordem de Colapso da Colônia, na tradução da sigla em inglês), o qual se caracteriza pelo abandono da colmeia pela maioria das abelhas operárias, deixando para trás a rainha, abelhas imaturas (larvas e outras em desenvolvimento) e bastante alimento. Grande parte da população, com isso, acaba morrendo. Esse é um fenômeno natural, porém o mesmo aumentou de forma brusca nas últimas décadas. Como dito acima, diversos fatores podem estar relacionados com o CCD, mas não existe ainda um consenso de mecanismo ou causa, podendo estarem todos relacionados. Entre 2007 e 2013, cerca de 10 milhões de colmeias no mundo foram perdidas, em sua maioria, para essa desordem, o dobro do normal.

Agrotóxicos: provavelmente, o maior dos inimigos

           Nos EUA não está sendo diferente. É estimado que  um quarto da comida americana depende das abelhas para chegar ao prato dos cidadãos. A Casa Branca começou a colocar em prática, desde 2014, planos para aumentar a população destes insetos que, no último inverno, teve uma queda demográfica de 23%, em uma crise só não pior do que a enfrentada na Europa (alguns países por lá já estão sofrendo uma redução maior do que 50% da população de abelhas!). Entre os pacotes de ajuda, estão incluídos 8 milhões de dólares para a construção de novos criadouros ecológicos de abelhas e diminuição drástica no uso de determinados pesticidas. É estimado que 15 bilhões de dólares da economia norte-americana sejam fruto direto da polinização das abelhas na agricultura, sem contar a produção de mel. Ao redor do mundo, estima-se que esse valor gire em torno de 200 bilhões de dólares.

Algumas estimativas sugerem que dois terços dos alimentos vegetais que chegam à sua mesa dependem da polinização dos insetos, especialmente das abelhas; isso sem contar os animais de criação que dependem dos vegetais para se alimentarem, como o gado e aviários

           De acordo com levantamentos, mais de um terço (alguns estimam dois terços) de todos os alimentos plantáveis no mundo são polinizados por insetos (2), sendo as abelhas as principais responsáveis.

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   AGIR É A PALAVRA!

          Quando pensamos que mais do que 90% de todas as plantas selvagens existem por causa dos insetos polinizadores, temos que rever a questão trágica das abelhas sob um ponto de vista emergencial. E não é só dos governos mundiais o papel de proteção. Cada um de nós pode contribuir para a causa. Plantando árvores e plantas que ajudem as abelhas a se alimentarem, além de evitar o uso de pesticidas, são medidas individuais que podemos adotar no nosso dia-a-dia.

         Evitem também destruir colmeias de forma desnecessária. Abelhas não são animais agressivos, só atacando se forem atacadas. Se o Brasil também for atingido por essa crise (em adição às inúmeras outras) não adiantará chorar o mel derramado. E com previsões de que até 2050 a produção de alimentos precisará aumentar em 60% para atender a demanda mundial, caso as tendências de crescimento da nossa população e do atual consumo alimentar continuem as mesmas, precisamos ficar realmente preocupados com o bem-estar das abelhas.


(1) O pólen é formado por diversos grãos minúsculos produzidos pelas flores das angiospermas (e por algumas gimnospermas) onde são encontrados os gametas, os quais irão fecundar o óvulo do aparelho reprodutor feminino dessas plantas. O pólen contém uma grande quantidade de proteínas de alto valor biológico (16 a 40 % da sua massa)  que possuem todos os aminoácidos conhecidos, assim como numerosas vitaminas, principalmente as vitaminas C e PP, sendo a principal fonte de alimentação das abelhas. O pólen é, inclusive, utilizado como suplemento alimentar por diversas pessoas.

(2) Não são apenas os insetos os animais polinizadores na natureza. Pássaros, morcegos, macacos, entre outros, também são importantes auxiliares na reprodução das angiospermas ( plantas que produzem flores e frutos).

NOTA: As culturas de alimentos de primeira necessidade ( tubérculos como a batata, arroz, feijão e soja, por exemplo), caracterizados por serem de fácil estoque, não são tão afetadas pela ação das abelhas.

ATUALIZAÇÃO (04/10): Nas regiões montanhosas do Colorado, EUA, especialmente na parte chamada de Rockies, as abelhas gigantes (as famosas Bumblebee, em inglês), muito comuns por ali, estão ficando com a língua menor por causa do aquecimento global!

        Essas grandes abelhas possuem línguas grandes para conseguir atingir os longos tubos das flores típicas dessas áreas, ganhando, na competitividade, das outras abelhas menos avantajadas. Mas por causa das mudanças climáticas, devido ao aquecimento global, as plantas com flores de tubo longo estão sofrendo e ficando mais escassas, dando lugar a flores mais abertas. Com isso, outras espécies de abelhas são encorajadas a ir às montanhas do Rockie e tentar dominar o local. A teoria mais aceita é que, como grandes abelhas com grandes línguas possuem um gasto de manutenção de vida maior e sua língua gigante não é mais um vantagem, mutações que dão origem dentro da espécie à variedades com língua menor estão conseguindo fincar raízes no território, além de atrair um número grandes de outras espécies menores.

          Medições dos cientistas mostraram que as línguas das bumblebees estão diminuindo cerca de 0.61% todos os anos, e já possuem 3/4 do tamanho original, se formos comparar com 40 a 50 anos atrás. Isso é para as pessoas verem que o aquecimento global é real e possui um alto poder de modificação ambiental. No caso dessas abelhas, o mal não é muito grande, mas as flores de tubos longos vão diminuir muito mais, tanto pelo aquecimento quanto pela falta de abelhas de línguas grandes para polinizá-las. É provável que elas sumam das montanhas do colorado daqui há alguns anos. (Ref.15)

O aquecimento nas áreas montanhosas do Rockie estão modificando as abelhas de lá, uma prova da fragilidade desses importantes insetos

ATUALIZAÇÃO (13/04/16): E o estado de Maryland, EUA, está dando um importante passo na luta pela conservação das abelhas. Uma lei estadual está quase sendo aprovada no intuito de proibir o uso de neonicotinóides, uma classe de pesticidas suspeita de causar graves danos às populações de abelhas, além de outros animais, como as aves. Existem inúmeras evidências científicas contra o uso da substância, mas ainda assim ela é liberada em todo o território norte-americano. Na Europa, diversos países possuem restrições quanto ao seu uso. É esperado que outros estados sigam o exemplo de Maryland caso a lei entre em vigor. (Ref.16)

 ATUALIZAÇÃO (09/07/16): Aqui na América do Sul, algumas espécies de abelhas também estão com sérios problemas de conservação, como a espécie Bombus bellicosus e algumas do gênero Melipona. No Brasil, a Bombus bellicosus parece já ter sido extinta em algumas áreas do Sul do país. No geral, estamos vendo um declínio nas populações de abelhas no nosso continente também, o qual é causado, principalmente, pela urbanização descontrolada. Mas as causas desconhecidas dos declínios a nível mundial também estão atuando aqui. (Ref.17)

ATUALIZAÇÃO (20/08/16): Mesmo sem confirmações conclusivas e consensuais sobre a intensidade dos danos que os inseticidas com neonicotinoides estão fazendo às abelhas, cientistas continuam pedindo que medidas mais severas de limitações de uso sejam impostas a esses produtos, como forma de ação preventiva (Ref.18). Somando-se a isso, um estudo publicado em julho deste ano mostrou que o composto clotianidina, um representante da classe dos neonicotinoides, causa efeitos colaterais negativos na nutrição das abelhas, especialmente na capacidade de acumulação glicogênica e lipídica no corpo desses insetos. Isso pode levar a graves prejuízos para os operários e para a rainha na colmeia. (Ref.19)

ATUALIZAÇÃO (29/08/16): Um estudo feito na Nova Zelândia, mostrou que os serviços de polinização das abelhas possuem um valor anual para o país de 1,96 bilhões de dólares. Possíveis declínios previstos nas populações desses insetos no país podem representar, nos próximos anos, perdas econômicas anuais entre 295 e 728 milhões de dólares. (Ref.20) 

ATUALIZAÇÃO (04/09/16): Até mesmo na China, um dos países com o maior número de abelhas do mundo e possuindo mais de 8 milhões de colônias desses insetos monitoradas, já existem suspeitas de que certas espécies, como representantes da Bombus spp. e Apis spp., estejam em risco de conservação. Pesquisadores pedem que a atenção para o problema do declínio das populações de abelhas seja endereçado ao mundo todo, e não apenas à Europa e aos EUA.
(Ref.21)

ATUALIZAÇÃO (10/10/17): Pesticidas neonicotinóides presentes no mel do mundo inteiro


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. http://bumblebeeconservation.org/
  2. http://www.nrcs.usda.gov/wps/portal/nrcs/detail/national/plantsanimals/pollinate/?cid=stelprdb1263263
  3. http://www.fs.fed.us/wildflowers/pollinators/documents/ConsMgmtNABumbleBees.pdf
  4. http://www.usda.gov/wps/portal/usda/usdahome?contentid=2014/06/0130.xml
  5. http://dnr2.maryland.gov/wildlife/Pages/habitat/wabees.aspx
  6. https://www.whitehouse.gov/sites/default/files/microsites/ostp/Pollinator%20Health%20Strategy%202015.pdf
  7. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20536823
  8. http://www.theguardian.com/environment/2013/jul/30/buzzfeeds-bees-colony-collapse-disorder
  9. http://www.nature.com/ncomms/2015/150616/ncomms8414/full/ncomms8414.html?WT.mc_id=GOP_NATCOMMS_1506_CROPPOLLINATION_OA
  10. http://www.annualreviews.org/doi/abs/10.1146/annurev.ento.53.103106.093454
  11. http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract?fromPage=online&aid=851276&fileId=S0030605307001597
  12. http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.3896/IBRA.1.49.1.02
  13. http://www.apidologie.org/articles/apido/full_html/2009/03/m09032/m09032.html
  14. http://www.pnas.org/content/113/28/E4035.short
  15. http://www.sciencemag.org/news/2015/09/warming-world-has-shrunk-bee-tongues
  16. http://thinkprogress.org/climate/2016/04/08/3767856/maryland-passes-bee-bill/  
  17. http://lib.ugent.be/fulltxt/RUG01/002/275/101/RUG01-002275101_2016_0001_AC.pdf
  18. http://pdxscholar.library.pdx.edu/open_access_etds/2988/
  19. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4944152/
  20. https://peerj.com/articles/2099/
  21. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0006320716302038