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O que é um Corno Cutâneo?

Figura 1. (A) Paciente exibindo um corno cutâneo. (B) Tomografia computadorizada sem evidência de calcificação ou envolvimento ósseo subjacente.

          Um homem de 86 anos de idade apresentou-se ao serviço de neurocirurgia com rebaixamento do nível de consciência e hematomas subdurais bilaterais. Durante o exame, observou-se um grande corno cutâneo próximo à região temporal esquerda que, segundo informações, havia se desenvolvido de forma relativamente rápida, em um período de seis meses. 

          A lesão consistia em uma projeção cônica de cor castanho-escura, com 6,5 cm de comprimento e 3,5 cm de circunferência máxima. Apresentava consistência endurecida e estava aderida apenas à pele. Sua superfície era lisa no ápice e rugosa próximo à base, onde havia sulcos longitudinais e projeções avermelhadas e dolorosas à palpação. A projeção em si era relativamente indolor (Fig.1A).

          Não havia linfadenopatia local. Tomografia computadorizada - realizada para investigar o rebaixamento do nível de consciência, e não como exame de rotina para cornos cutâneos - não revelou evidências de calcificação ou comprometimento ósseo subjacente (Fig.1B).

           Após receber alta da unidade de neurocirurgia, ele passou pela excisão da lesão e pela realização de enxerto cutâneo pela cirurgia plástica. O exame histológico confirmou tratar-se de um carcinoma de células escamosas - um tipo de câncer de pele - moderadamente diferenciado com características de queratoacantoma.

           O caso foi descrito e reportado em 2011 no periódico British Journal of Oral and Maxillofacial Surgery (Ref.1).


   CORNO CUTÂNEO - Sinal de potencial alerta

           O termo corno cutâneo (cornu cutaneum) é a designação morfológica para uma projeção tipicamente cônica, acentuadamente hiperqueratótica e similar ao corno ou chifre de certos animais mamíferos, que pode se associar tanto a lesões benignas quanto a malignas. O diagnóstico primário, na maioria dos casos, é sugerido pelo aspecto e pelo curso clínico das lesões, que podem ser únicas ou múltiplas, de coloração branca, castanha ou amarelada, com formas retilíneas ou curvilíneas (reto ou curvo e torcido), e variar de alguns milímetros até vários centímetros de comprimento - nesse último caso denominados "cornos cutâneos gigantes" (Ref.2). Esse tipo de lesão acomete, comumente, regiões do corpo expostas ao sol, especialmente a face.


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           Histopatologicamente, as lesões podem ser classificadas de acordo com o padrão celular da base do corno cutâneo em: benignas, pré-malignas e malignas (Ref.3). As lesões malignas apresentam, em geral, consistência mais endurecida na sua base, devido ao processo inflamatório. A ocorrência de uma lesão maligna em outro local do corpo do paciente aumenta, consideravelmente, a probabilidade de que a base do corno cutâneo apresente alteração pré-maligna ou maligna.

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> É importante realçar que o termo 'corno cutâneo' não indica nenhum diagnóstico patológico específico, uma vez que o "corno" pode se desenvolver sobre uma ampla gama de lesões subjacentes. E válido também esclarecer que, diferente de reais cornos de animais, o corno cutâneo manifestado em humanos é constituído apenas de queratinócitos cornificados, com ausência de uma estrutura óssea.

> A porção cônica do corno cutâneo é composta predominantemente por queratina compacta, enquanto a base da lesão representa a região de atividade mitótica, o que pode indicar uma condição benigna, maligna ou pré-maligna. Queratina é a mesma proteína encontrada nos fios capilares e nas unhas.

> O primeiro caso formalmente documentado de corno cutâneo remonta à descrição, feita em 1588, de uma idosa galesa chamada Margeret Gryffith. Sua condição e a subsequente exploração em circos que lucravam com anomalias médicas deram origem, na cultura popular, à expressão "pessoas com cornos". Somente em meados do século XVII essa ideia equivocada foi refutada pelo anatomista dinamarquês Thomas Bartholin, que descreveu essas formações córneas como um tumor tecidual originado na superfície da pele. Ref.4

> Os cornos cutâneos podem ser sintomas de diferentes doenças, como ceratose actínica (a causa mais comum de cornos), carcinomas de células escamosas, melanoma lentigo maligno, verruga vulgar, ceratose seborreica, molusco contagioso ou sarcoma de Kaposi.

> Fatores de risco para o corno cutâneo incluem radiação, irritação crônica e papilomavírus humano. Embora a patogênese exata do corno cutâneo seja desconhecida, presume-se que o envelhecimento celular, o fotodano e a subsequente disfunção epitelial contribuam para a sua manifestação. Essa hipótese é corroborada por achados que apontam a exposição solar e a idade avançada como as comorbidades mais comuns em pacientes com cornos cutâneos.

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          A faixa etária mais acometida pelo corno cutâneo é acima de ~50 anos de idade (meia-idade), em ambos os sexos.

          As áreas corpóreas em que se observa mais comumente o aparecimento de cornos cutâneos são as regiões superiores da face e próximas às orelhas. Ocorrem também em couro cabeludo, membros superiores, tronco, membros inferiores e pênis, ainda que em menores proporções. Além da superfície cutânea, pode também ocorrer na superfície mucosa, como tecidos orais (Ref.5).

 

Figura 2. Paciente de 34 anos de idade, do sexo masculino, com um corno cutâneo de ~12 cm de comprimento no abdômen que vinha evoluindo lentamente ao longo de 25 anos. A lesão era dura e indolor. Nas fotos: visão frontal (A) e lateral (B) do corno cutâneo. Ref.6

 

Figura 3. (A) Paciente de 61 anos de idade com um corno cutâneo gigante de 10-11 cm na cabeça. Nenhuma lesão pré-maligna ou maligna estava associada com a condição. (B) Corno cutâneo após remoção cirúrgica. Nenhuma recorrência foi observada após 1 ano de acompanhamento. Ref.7

 

Figura 4. (A) Paciente de 83 anos de idade, sexo feminino, com um corno cutâneo na bochecha esquerda. A lesão possuía aproximadamente 4 cm de comprimento e 1,5 cm de diâmetro na base. Análise histológica mostrou uma combinação de células escamosas epiteliais e detritos queratinizados associados à lesão. (B) Lesão cirurgicamente removida. Ref.8
 

Figura 5. Paciente de 61 anos de idade, sexo masculino, com um corno cutâneo no dedão (hálux) da mão direita, associada a um carcinoma de células escamosas. Ref.9

          A conduta utilizada para o tratamento do corno cutâneo é a exérese cirúrgica seguida de avaliação histopatológica, para confirmação de diagnóstico específico. Essa forma de intervenção, além de ser um tratamento imediato, considera a possibilidade de que exista, na base, uma lesão pré-maligna ou maligna com tendências evolutivas, cuja exérese - procedimento cirúrgico de remoção total ou parcial de um tecido, órgão ou lesão do corpo - deve ocorrer da maneira mais conservadora possível, garantindo-se uma margem suficiente de segurança.


Leitura recomendada:


REFERÊNCIAS

  1. Akram et al. (2011). Cutaneous Horn: Case Report. British Journal of Oral and Maxillofacial Surgery, 49 (1), 73–75. https://doi.org/10.1016/j.bjoms.2009.09.019
  2. Al-Sulaiti et al. (2026). Gigantic cutaneous horn: A case report and review of literature. Academic Medicine & Surgery. https://doi.org/10.62186/001c.155408
  3. Mantese et al. (2010). Corno cutâneo: estudo histopatológico retrospectivo de 222 casos. Anais Brasileiros de Dermatologia, 85(2). https://doi.org/10.1590/S0365-05962010000200005
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK563280/
  5. Fallieri et al. (2021). Corno cutâneo nos tecidos orais: relato de caso e revisão da literatura.  Jornal Brasileiro de Patologia e Medicina Laboratorial, 57: 1-6. https://doi.org/10.5935/1676-2444.20210032
  6. Das et al. (2023). Unraveling the Enigma: A Report on a Rare Case of Cutaneous Horn, an Extraordinary Dermatological Occurrence. Cureus, 17;15(7):e41987. https://doi.org/10.7759/cureus.41987
  7. Starnoni et al. (2020). Factors related to delayed treatment: A case report of a huge cutaneous horn and review of the literature. Annals of Medicine and Surgery, Volume 60. https://doi.org/10.1016/j.amsu.2020.11.016
  8. Pham et al. (2026). Giant Cutaneous Horn of the Cheek: A Case Report. Case Reports in Medicine. https://doi.org/10.1155/carm/5977603
  9. Michels, T. C. (2025). A Digital Cutaneous Horn published in The American Journal of Medicine, Vol.138, Issue 1, pp.e5-e6. https://doi.org/10.1016/j.bjoms.2009.09.019