Escabiose | Qual parasita causa sarna humana?
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| Figura 1. (A-C) Alterações cutâneas no corpo da paciente. Em (D), achados microscópicos de raspados cutâneos da paciente. |
Uma mulher de 56 anos de idade com artrite reumatoide compareceu à clínica de dermatologia relatando um quadro de erupção cutânea extremamente pruriginosa com dois meses de evolução. Nos quatro anos anteriores, ela vinha utilizando tofacitinibe e metotrexato - fármacos imunossupressores - para o tratamento da artrite. Ao exame físico, observaram-se grandes áreas de pele eritematosa com escamas, crostas e fissuras profundas (setas) no tórax, braços e pescoço (Fig.1A), bem como no abdome, nas nádegas e nas coxas (Fig.1B). Alterações cutâneas semelhantes foram observadas nas mãos - com preservação das unhas -, além de deformidades nas articulações dos dedos decorrentes da artrite reumatoide (Fig.1C). O exame microscópico de raspados cutâneos revelou numerosos ácaros e ovos (Fig.1D).
A análise histopatológica de uma amostra de biópsia de pele também demonstrou a presença de ácaros no estrato córneo. Estabeleceu-se o diagnóstico de escabiose crostosa.
A escabiose crostosa é uma forma grave da sarna ou escabiose que afeta mais comumente indivíduos imunocomprometidos. A condição pode ser erroneamente diagnosticada como eritrodermia, psoríase ou dermatite atópica. A escabiose crostosa é altamente contagiosa, e todas as pessoas expostas a um indivíduo infectado devem receber tratamento. O manejo da escabiose crostosa inclui terapia sistêmica com ivermectina associada a um agente tópico.
O tratamento foi iniciado e, no acompanhamento realizado uma semana depois, observou-se uma redução na gravidade dos sintomas.
O caso foi reportado e descrito no periódico New England Journal of Medicine (Ref.1).
Escabiose
A escabiose ou sarna humana é uma infestação cutânea intensamente pruriginosa causada por ácaros da família Saecoptidae, particularmente a variante Sarcoptes scabiei var hominis. O parasita se enterra na pele e causa coceira intensa. Outras variantes de S. scabiei também estão envolvidas com a etiologia da doença, como a S. s. var. canis e a S. s. var. suis. Essas variantes são normalmente responsáveis pela pseudoescabiose, condição autolimitada e considerada não transmissível de pessoa para pessoa (Ref.4). Em casos raros, a S. s. var. canis pode adaptar-se ao hospedeiro humano, causando surtos de escabiose em pacientes imunossuprimidos.
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> A escabiose também pode ser conhecida com outros nomes, do tipo: sarna, coruba, jareré, pereba, pira, quiquita.
> Ácaros são um grupo muito diverso de aracnídeos do clado Acari, incluindo representantes parasitas. Sugestão de leitura: Qual é o maior ácaro conhecido?
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A forma de transmissão ocorre por contato direto com doentes, roupa de cama e relações sexuais. A sarna é transmitida primariamente com contato pele-com-pele prolongado. A reprodução do parasita é produzida exclusivamente pela fêmea fecundada, já que o macho morre após a cópula. Esta penetra na epiderme, fazendo um túnel subcórneo, com a progressão noturna de 2 a 3mm/dia; seu ciclo vital é de 15 a 30 dias, durante o qual elimina cerca de 40 a 50 ovos, morrendo em seguida. Cada ovo origina, em 03 a 05 dias, uma larva hexápode (seis pernas) que se transforma em ninfa (octópode) e, finalmente, chega a fase adulta. O ciclo biológico do ovo ao ácaro adulto dura, em média, 15 dias. O período de incubação é de 3 a 4 semanas, quando aparecem lesões e erupção pruriginosa ou então de 1 ou 2 dias, nos casos de reinfecção dos pacientes que se alergizarem.
As lesões são em forma de vesículas, pápulas ou pequenos sulcos, nos quais os ácaros depositam seus ovos. As áreas preferenciais da pele onde se visualizam essas lesões são: regiões interdigitais, punhos (face anterior), axilas (pregas anteriores), regiões periumbilical, sulco interglúteo, órgãos genitais externos nos homens. Em crianças e idosos, podem também ocorrer no couro cabeludo, nas palmas e plantas. O prurido é intenso - causando distúrbios severos no sono - e ocorre por dois mecanismos: um alérgico e outro mecânico, isto é provocado pela progressão do parasita, a qual se faz especialmente à noite, como consequência do calor do leito, não se trata somente de um fenômeno biológico de noctividade do parasita.
A coceira intensa pode causar infecções secundárias (ex.: bactérias Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes) ao danificar a barreira cutânea. Mas é importante ressaltar que prurido não é um sintoma obrigatório da sarna. Além disso, nas primeiras 4-6 semanas, a infestação é geralmente assintomática.
O tratamento para escabiose pode ser feito por medicação tópica e sistêmica, sendo necessário que se oriente em relação aos cuidados de troca de roupas hospitalares. Uma das medicações sistêmicas para o tratamento do paciente infectado é a Ivermectina, via oral, de acordo com peso e medicação tópica usual de Permetrina a 5% creme por seis noites seguidas.
As medidas preventivas são uma combinação de sistemas e práticas colocadas em seu lugar em laboratórios de biociência para evitar o uso de patógenos e toxinas perigosos para uso malicioso, bem como por agentes alfandegários e gerentes de recursos agrícolas e naturais para impedir a disseminação desses agentes biológicos.
Apesar de eficazmente tratável, um atraso no diagnóstico leva muitas vezes ao contágio e infestação dos contatos, o que dificulta a contenção dos surtos. Com maior prevalência em regiões tropicais e países de baixa renda, Surtos são comuns em locais de aglomeração como presídios, escolas e campos de refugiados. É considerada uma doença tropical negligenciada.
> Anualmente, é estimado que mais de 200 milhões de pessoas são afetadas pela sarna ao redor do mundo. Ref.5
> A escabiose crostosa (previamente conhecida como sarna norueguesa) é uma forma rara, muito contagiosa e transmitida pelo contacto direto com a pele. A escabiose crostosa caracteriza-se por lesões crostosas hiperqueratósicas disseminadas que podem exceder 1 cm de espessura. É causada pela multiplicação desenfreada de ácaros na pele, resultando em milhares ou até mesmo milhões de espécimes. Coceira pode estar ausente ou reduzida em grande parte dos casos por fatores diversos ligados à doença ou à condição do paciente, incluindo perda de sensibilidade sensorial. Infecções bacterianas secundárias são comuns e pode até mesmo resultar em mortalidade.
> O outro subtipo de escabiose, que parece ser o mais grave, é a escabiose bolhosa (também denominada erupções semelhantes ao penfigoide bolhoso), com sintomas atípicos que mimetizam o penfigoide bolhoso, porém com sinal de Nikolsky negativo. Na escabiose bolhosa, os ácaros ou suas secreções podem provocar alterações ou a liberação do antígeno do penfigoide bolhoso, desencadeando uma resposta imunológica e resultando na produção de anticorpos contra a zona da membrana basal, tal como ocorre no penfigoide bolhoso. Outra explicação é que o próprio ácaro pode atuar como um antígeno que apresenta reação cruzada com o antígeno do penfigoide bolhoso, estimulando a produção de autoanticorpos.
> A transmissão por meio de contato breve, como apertos de mão e exames médicos, é rara, uma vez que geralmente requer de 15 a 20 minutos. O risco de transmissão é significativamente maior em indivíduos com carga parasitária elevada, particularmente nos casos de escabiose crostosa, em que milhões de ácaros estão presentes na pele; a transmissão pode ocorrer mesmo com contato de curta duração com esses pacientes. Além disso, a transmissão também pode ocorrer por meio de escamas que se desprendem desses pacientes.
> A transmissão de outras variantes ou subespécies de S. scabiei de animais para humanos é rara, sendo a transmissão a partir de cães a mais comum.
REFERÊNCIAS
- Sun et al. (2025). Crusted Scabies. NEJM, 393: e8. https://doi.org/10.1056/NEJMicm2503141
- Coutinho et al. (2020). Medidas de prevenção e controle de escabiose: revisão integrativa da literatura. Research, Society and Development, v. 9, n. 10, e1119108360. http://dx.doi.org/10.33448/rsd-v9i10.8360
- Davanco et al. (2024). Escabiose: aspectos gerais e a importância no reconhecimento e tratamento precoces. Diagn tratamento, 29(1): 5-10.
- Talaga-Ćwiertnia et al. (2021). "Sarcoptes Infestation. What Is Already Known, and What Is New about Scabies at the Beginning of the Third Decade of the 21st Century?" Pathogens 10(7), 868. https://doi.org/10.3390/pathogens10070868
- Uzun et al. (2024). Clinical practice guidelines for the diagnosis and treatment of scabies. International Journal of Dermatology, 63(12):1642–1656. https://doi.org/10.1111/ijd.17327



