Qual é o significado histórico do Gigante de Cerne Abbas?
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| Figura 1. O Gigante de Cerne Abbas, Dorset, Inglaterra. |
O Gigante de Cerne é uma enorme figura (geoglifo) de um homem nu, gravada em giz no chão de uma encosta acima do vilarejo de Cerne Abbas, no sudeste da Inglaterra (Fig.1). A figura possui quase 60 metros de altura (!), com uma clava na mão direita sendo brandida e com o braço esquerdo estendido. Seus pés estão voltados para a direita, como se estivesse caminhando. Sua cabeça calva tem formato de lágrima, com olhos, sobrancelhas, nariz e boca. Em seu torso nu estão representados um pênis ereto, mamilos, costelas, um cinto e um umbigo; este último parece ter sido incorporado ao pênis em 1908, tornando seu falo mais proeminente agora do que era originalmente.
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> Geoglifos são grandes desenhos ou temas criados no solo através da manipulação de pedras, cascalho ou terra. Os motivos para a criação de geoglifos são múltiplos e, às vezes, pouco esclarecidos. Alguns podem ter sido usados para pastorear e capturar animais, outros podem ter tido significado ritualístico e outros ainda podem ter servido como marcadores de fronteiras e rotas.
(!) Fontes diversas fornecem valores diferentes em relação à altura do Gigante de Cerne, mas a maioria aponta que a figura possui ~55 m de altura.
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Desde a sua criação, o desenho têm sido preservado visível por dois métodos:
• esfregando o giz para limpá-lo de detritos e vegetação excessiva;
• ou, de forma mais trabalhosa, trazendo giz de outros locais e compactando-o nas trincheiras.
Evidências arqueológicas apontam que o gigante mantido visível em grande parte por meio de limpezas, com exceção de duas grandes aplicações de giz; somente nas últimas décadas a reaplicação regular de giz - a cada 7 ou 10 anos - se tornou o método preferido de manutenção.
Nesse último ponto, existia um longo debate sobre quando exatamente a figura teria sido feita, com alguns sugerindo que era pré-histórica e outros sugerindo um período bem mais recente (século XVII, como um insulto a Oliver Cromwell). Porém, um estudo de 2021 (Ref.1), utilizando luminescência opticamente estimulada (1) junto com análises ambientais de solo, apontaram que a figura foi provavelmente feita no início da Idade Média, em algum momento entre 700 e 1100 d.C. As estimativas de datação também apontaram que houve substancial reaplicação de giz seguindo a feitura inicial do gigante. A origem medieval da figura é condizente com a forma "de gota" do rosto representado, a qual é também observada em outras artes Anglo-Saxônicas do século VII d.C. (Fig.2).
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| Figura 2. (A) Rosto do Gigante de Cerne. (B) Rosto no "cetro" de Sutton Hoo, início do século VII, Suffolk, Inglaterra. Ref.2 |
Nesse contexto, um compreensivo estudo de 2024 (Ref.2) concluiu que o Gigante de Cerne inicialmente foi criado como uma representação de Hércules - para marcar um ponto de encontro para os exércitos da Saxônia Ocidental - e depois sendo reinterpretado por monges locais como Santo Eadwold.
O Gigante de Cerne traz várias características artísticas que fazem referência histórica à Hércules. A clava em uma das mãos - com ~36 m de comprimento - é a pista mais óbvia. Ao longo dos milênios e séculos, o maior e mais célebre herói da mitologia Greco-Romana tem sido comumente retratado em pinturas e esculturas empunhando uma clava (Fig.3). Hércules, ao longo da história, tem sido também tipicamente retratado em movimento, como em Cerne, e com traços destacando as costelas, a linha inferior do estômago e a nudez. Além disso, comumente Hércules era retratado com uma clava de madeira no braço direito e um manto de pele de leão no braço esquerdo - esse último talvez presente na gravação original do Gigante de Cerne e depois sendo removido durante as restaurações.
O pênis ereto na imagem é atípico, mas existem exemplos de imagens itifálicas de Hércules, particularmente da Britânia, incluindo estatuetas encontradas na região de Colchester (Fig.4), Londres e Verulamium - de uma época de domínio de Roma sobre a Bretanha. E esse detalhe notável se encaixa com a figura mitológica de Hércules: a queda mortal do grande herói foi marcada por ganância, raiva, orgulho e luxúria.
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| Figura 4. Estatueta de Hércules, Colchester, Inglaterra. Foto: Helen Gittos. |
Hércules continuou sendo uma figura cultural bem conhecida durante toda a Idade Média. Assim como no passado clássico, ele permaneceu um personagem sobre o qual as opiniões variavam. Em um extremo, ele era uma figura semelhante a Cristo, que derrotou a morte, venceu o guardião do submundo, Cérbero, e foi rejuvenescido ao comer maçãs da árvore das Hespérides. Em outro extremo, ele era uma personificação do vício - marcado por promiscuidade e inundado pela raiva (sob influência de Hera) a ponto de matar a própria esposa e as filhas. E às vezes era retratado de forma mais ambivalente como um herói mortal, não um deus, cujos grandes feitos podiam ser emulados apesar de sua depravação.
Durante o século IX d.C., houve um renascimento de interesse na figura mitológica de Hércules e em um período quando Dorset estava sendo atacado pelos exércitos Vikings (2). Esse interesse atingiu seu provável ápice durante o reinado de Carlos II de França - também chamado de Carlos, o Calvo -, Rei da Frância Ocidental de 840 d.C. até a sua morte. Em específico, o trono de madeira de Carlos II é decorado na frente com cenas dos doze trabalhos de Hércules, nos quais o corpo de Hércules foi destacado e enfatizado por meio de douramento (Fig.5). Hércules também aparece como uma constelação no frontão no topo do trono.
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| Figura 5. Trono de Carlos o Careca, século IX d.C., Basílica de St. Peter, Cidade do Vaticano. |
Pelo menos desde o século X d.C., Cerne estava sob o domínio dos Ealdormen (alto funcionário real na Inglaterra Anglo-Saxônica) das Províncias Ocidentais, os principais Thegns (aristocratas e guerreiros de elite da Inglaterra Anglo-Saxônica) do rei no sudoeste. A localização topográfica do Gigante - bem visível de longe na paisagem - e sua proximidade a importantes rotas são características de um tipo especial de ponto de encontro anglo-saxão. Os ataques Vikings em áreas próximas, o acesso a abundante água doce e os suprimentos disponíveis pelo estado local faziam esse ponto de Cerne um lugar ideal para reunir os exércitos saxões ocidentais, tendo o poderoso Hércules como pano de fundo.
Então, em meados do século XI d.C., os monges que veneravam no mosteiro ao pé da Colina do Gigante o reimaginaram como uma imagem de seu santo, Eadwold, referindo-se implicitamente ao Gigante nas leituras que faziam em seu dia festivo.
No texto In natale sancti Edwoldi - de um manuscrito do século XII d.C. - existem 8 lições que apresentam Eadwold como irmão de Edmundo, rei da Ânglia Oriental por volta de 855–869/70, que foi venerado como mártir após sua morte pelas mãos do Grande Exército Viking. Segundo as lições, Eadwold recebeu a oferta do trono após a morte do irmão, mas repudiou sua herança real para assumir a vida de um eremita itinerante. Ao fazê-lo, recebeu uma visão divina de um local desconhecido chamado Fons argenteus [Fonte de Prata], onde poderia alcançar o isolamento eremítico desejado. Na quinta lição, Eadwold é descrito segurando um cajado e no topo de penhasco inclinado, junto com outras descrições paisagísticas que fortemente apontam para o Gigante de Cerne.
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| Figura 7. Lições de Santo Eadwold, c. 1150, Sherborne (?), Inglaterra. Ref.2 |
Essa foi uma das muitas maneiras pelas quais o gigante teria sido reinterpretado ao longo dos séculos: de Hércules a eremita. E é provável que o gigante tenha sido intencionalmente reimaginado pela comunidade monástica local. Primeiro, a partir do século X d.C., atitudes negativas em relação à figura de Hércules se tornaram mais dominantes. Somando-se a isso, o reconhecimento do gigante como um símbolo do milagre de Santo Eadwold seria uma forma da comunidade monástica de ter controle das relíquias de Eadwold.
"A identidade do Gigante já era passível de reinterpretação. Os monges de Cerne não teriam retratado seu santo padroeiro nu se o estivessem esculpindo do zero, mas não hesitaram em adotá-lo como uma imagem de Eadwold para seus próprios fins. O Gigante é amado e preservado há muito tempo, e essas reidentificações continuam até os dias atuais", comentou em entrevista Thomas Morcom, pesquisador da Universidade de Oslo e um dos autores do estudo de 2024 (Ref.3).
Leitura recomendada:
- (1) Como calcular a idade dos fósseis e da Terra?
- (2) Vikings: A Era Subestimada da Sociedade Nórdica
REFERÊNCIAS
- https://www.bajr.org/cerne-giant-surprise-date/
- Morcom & Gittos (2024). The Cerne Giant in Its Early Medieval Context. Speculum, Volume 99, Number 1. https://doi.org/10.1086/727992
- https://www.history.ox.ac.uk/article/cerne-abbas-giant-has-the-mystery-of-the-chalk-hill-figure-been-solved
- https://www.ebsco.com/research-starters/religion-and-philosophy/hercules-classical-mythology
- https://www.metmuseum.org/art/collection/search/401055
- Goudie, A. (2025). Geoglyphs, Landscape Heritage of the World with Google Earth, (179-187). https://doi.org/10.1007/978-3-031-95555-6_11
- https://www.theguardian.com/uk-news/2026/may/28/rechalking-cerne-giant-dorset-national-trust-climate-emergency
- https://www.stone-circles.org.uk/stone/cerne.htm







