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Síndrome de Estocolmo é um mito ou um real diagnóstico psiquiátrico?

Figura 1. Nesta foto liberada pela polícia Sueca, três dos quatro reféns e o sequestrador Clark Olofsson, em pé à direita, são observados dentro de um banco em Stockholm, em 27 de agosto de 1973, pouco antes da polícia invadir e prender os criminosos. 

           Na manhã do dia 23 de agosto de 1973, Janne Olsson, um homem de 32 anos de idade que havia escapado da prisão, andou armado com uma submetralhadora até a Praça de Norrmalmstorg, em Estocolmo, Suécia, e entrou no banco Sveriges Kreditbanken. Dentro do banco, Olsson disparou várias vezes com sua arma, ferindo um policial, e, então, tomou quatro atendentes como reféns. Ele demandou em troca da libertação dos reféns uma quantia equivalente a mais de US$700 mil, um carro de fuga e a liberação do seu colega de prisão, Clark Olofsson, este o qual estava servindo pena por roubo armado e envolvimento no assassinato de um policial. E, de fato, as autoridades Suecas atenderam às demandas, liberando Olofsson - que se juntou a Olsson dentro do banco -, entregando a quantia exigida e até mesmo colocando à disposição do sequestrador um Ford Mustang azul.

           Porém, as autoridades se recusaram a atender outra demanda de Olsson: deixar o banco com os reféns para garantir passagem segura de fuga. Negociações, então, entraram em um impasse e os sequestradores se recusaram a sair de dentro de um cofre de 3,3 x 14,3 m, onde estavam com os reféns (Fig.1). Nesse contexto e ambiente, é reportado que os reféns desenvolveram uma forte ligação de simpatia e afeição com os sequestradores. No segundo dia, reféns e sequestradores já se tratavam pelo primeiro nome e interagiam amistosamente entre si; os reféns começaram a temer mais a polícia do que os criminosos e não queriam mais ser resgatados. Ainda segundo os relatos, mesmo quando ameaçados com dano físico, os reféns ainda viam compaixão nos sequestradores e se sentiam protegidos. Um dos reféns é inclusive citado dizendo: "Esse é o nosso mundo agora... dormindo neste cofre para sobreviver; quem ameaçar este mundo é o nosso inimigo".  

            Na noite do dia 28 de agosto, após mais de 130 horas, a polícia conseguiu jogar gás lacrimejante dentro do cofre, e os sequestradores rapidamente se renderam. A polícia pediu para os reféns saírem primeiro, mas os quatro se recusaram, protegendo os sequestradores até o fim. Uma das reféns, Kristin Enmark, inclusive gritou: "Não, Jan [Janne] e Clark vão primeiro - vocês vão atirar neles se nós formos!" Na porta do cofre, os sequestradores e os reféns se abraçaram, se beijaram e apertaram as mãos. À medida que a polícia cercava e prendia os criminosos, duas das mulheres mantidas reféns choraram: "Não machuquem eles - eles não nos machucaram." E Enmark gritou para Olofsson já algemado: "Clark, eu verei você de novo!"

           A aparente e forte ligação emocional e afetiva entre os reféns e os sequestradores deixou o público e a polícia perplexos. A polícia inclusive investigou se Enmark tinha planejado o roubo junto com Olofsson. Em entrevistas subsequentes, os reféns também pareciam confusos sobre o evento.

          Desde então, psiquiatras e a mídia começaram a chamar o estranho fenômeno de "Síndrome de Estocolmo", fazendo referência à ligação positiva e identificação emocional que reféns podem desenvolver com seus sequestradores. Esse termo ganhou imensa popularidade, enraizando-se na cultura popular, no judiciário e em mídias diversas, e sendo citado inclusive em um número de trabalhos acadêmicos como se fosse uma real síndrome ou fenômeno. Aliás, ao longo dos anos, o termo começou também a ser usado em um número de estudos para descrever relações de clara diferença de poder entre as partes além daquelas limitadas a "sequestradores e reféns", incluindo violência doméstica - especificamente mulheres presas a homens abusivos -, assédio sexual no ambiente de trabalho, abuso infantil e até soldados envolvidos em combates (Ref.2-4).

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            O conceito inicial da síndrome de Estocolmo é atribuído ao Dr. Nils Bejerot, um especialista psiquiatra que acompanhou in situ o trabalho da polícia no sequestro de 1973 (Ref.5). E, na época, Bejerot descreveu a síndrome como uma vontade de autopreservação da vítima, argumentando também que mulheres seriam particularmente vulneráveis à condição por tenderem a ter uma ligação emocional ou sexual com criminosos [homens] vigorosos e jovens (Ref.5). Mesmo sem qualquer sólido suporte científico e base inicial em apenas um único evento, o termo síndrome de Estocolmo acabou ganhando bastante momento midiático na década de 1970 - um processo alimentado pela grande repercussão internacional do sequestro de 1973. No final das décadas de 1970 e início da década de 1980, o termo acabou entrando também na literatura acadêmica. A alegada síndrome chegou inclusive a ser descrita como uma "regressão Freudiana" - um mecanismo de defesa do ego que protegeria o indivíduo de danos físicos e desintegração em situações traumáticas e com risco de morte.

            A verdade é que a "síndrome de Estocolmo" não está incluída em qualquer sistema de classificação internacional de psiquiatria. Na última atualização da Classificação Internacional de Doenças (ICD-11), a categoria mais relevante nesse sentido é a 'Problemas associados com eventos danosos ou traumáticos', onde temos incluído a Reação Aguda ao Estresse (Ref.6):

Reação aguda ao estresse refere-se ao desenvolvimento de sintomas transientes emocionais, somáticos, cognitivos ou comportamentais como resultado de exposição a um evento ou situação (de curta ou longa duração) de natureza horrível ou ameaçadora (ex.: desastres naturais ou antropogênicos, combate, acidentes sérios, violência sexual, assalto). Sintomas podem incluir sinais autonômicos de ansiedade (ex.: taquicardia, suor, rubor), confusão, atordoamento, tristeza, ansiedade, raiva, desespero, hiperatividade, inatividade, reclusão social ou estupor. Esses sintomas tipicamente aparecem dentro de horas a dias seguindo o evento estressante, e geralmente começam a desaparecer dentro de alguns dias após o evento ou seguindo a remoção da situação ameaçadora, quando isso é possível. Em casos onde o fator estressante é contínuo ou sua remoção não é possível, sintomas podem persistir mas são geralmente muito reduzidos dentro de aproximadamente 1 mês à medida que a pessoa se adapta à mudança de situação.

             Trabalhos acadêmicos com alguma relevância sobre a "síndrome de Estocolmo" são escassos e esparsos, e a maioria baseada em limitados relatos de caso com pouca referência de como a alegada síndrome foi diagnosticada e pouca - ou nenhuma - informação sobre a significância desse diagnóstico para o tratamento das vítimas. Vários critérios de diagnóstico já foram propostos, mas nenhum cientificamente validado ou útil (Ref.7). A "síndrome de Estocolmo" é raramente mencionada em papers revisados por pares, e frequentemente essas menções desviam do tópico 'sequestro'. Na maioria dos casos de sequestros onde existe aparente ligação afetiva entre sequestradores e vítimas, a mídia acaba fazendo o diagnóstico de "síndrome de Estocolmo" e não especialistas em estudos devidamente publicados em periódicos relevantes.

            Piora a questão o fato de sequestros serem crimes relativamente infrequentes, tornando uma avaliação científica de situações específicas nesses eventos muito difícil. Existiriam grupos mais ou menos vulneráveis à alegada síndrome? Idade e sexo das vítimas é um fator relevante como já sugerido?

           Aliás, nesse último ponto, um estudo publicado em 2015 chegou inclusive a sugerir que 'síndrome de Estocolmo' foi uma resposta machista para culpabilizar as vítimas pela falha das autoridades e especialistas [homens] em lidar com sequestro de 1973, justificando a ineficácia das ações masculinas "racionais e controladas" do governo e das forças policiais com um fenômeno psiquiátrico feminino "irracional e incontrolável" (Ref.5). A proteção do "Estado masculino" teria falhado porque uma crise psicológica feminina teria rejeitado essa proteção. De fato, descrições psiquiátricas na época tentavam sexualizar a alegada síndrome, com foco na figura feminina como vulnerável à presença ameaçadora de "homens jovens e dominadores" - apesar de um dos reféns de 1973 afetados pela alegada síndrome ter sido um homem (Sven Säfström).

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           Uma revisão sistemática de 2018 sobre a síndrome de Estocolmo encontrou evidência limitada de que a condição pode ser uma resposta instintiva universal de sobrevivência em situações ameaçadoras e abusivas diversas (Ref.8). Porém, a autora da revisão realçou que existe uma grande escassez de estudos empíricos e dados científicos para a caracterização e estabelecimento de uma síndrome específica, e que nenhum critério validado de diagnóstico tem sido descrito.

   LIGAÇÃO TRAUMÁTICA OU APAZIGUAMENTO?

            Um estudo mais recente publicado no periódico European Journal of Psychotraumatology (Ref.9) argumentou que o termo "síndrome de Estocolmo" e sua descrição deviam ser abandonados por falta de suporte científico e devido ao impacto negativo nas vítimas sobreviventes. Os autores do estudo sugeriram substituir o termo por "apaziguamento", um termo que pode ser explicado através de um modelo biopsicológico - no caso, Teoria Polivagal - para descrever como sobreviventes podem parecer emocionalmente conectados com seus sequestradores ou abusadores para efetivamente se adaptarem a situações com risco de morte ao acalmar o ofensor. Nesse sentido, diferente do que é sugerido na definição comum de síndrome de Estocolmo, reféns ou vítimas não exibem real ligação afetiva com os ofensores e, sim, comportamentos automáticos que buscam prevenir respostas agressivas e violentas dos ofensores.

            Na visão tradicional, o Sistema Nervoso Autônomo divide-se em apenas duas partes: simpático e parassimpático. O simpático refere-se à mobilização, ao preparar o organismo para entrar em ação. O Parassimpático tem a função de acalmar o organismo, de relaxar, descansar, digerir. Na Teoria Polivagal, desenvolvida pelo pesquisador Dr. Stephen Porges na década de 1990 (Ref.10), o sistema parassimpático subdivide-se em sistema vagal ventral (responsável pelo descanso, relaxamento, digestão, apaziguamento e importantes funções em interações sociais) e sistema vagal dorsal (responsável pela resposta de imobilização) (Fig.2). O sistema dorsal é primitivo no processo evolutivo, com o sistema ventral emergindo como uma inovação em mamíferos sociais, incluindo humanos.

Figura 2. Esquema das subdivisões no sistema nervoso autônomo segundo a teoria polivagal.


             Segundo a teoria polivagal, na presença de determinado perigo ou estímulo ameaçador, recorremos a um tipo de resposta hierarquizada. Por exemplo, o sistema ventral (o sistema adquirido mais recentemente em termos evolutivos), sistema que regula estruturas primárias de interações sociais (ex.: expressões faciais, entonação da voz, etc.), pode ser o primeiro a ser acionado. Se este sistema não produzir a resposta necessária à gestão do perigo, pode entrar em ação o sistema simpático (fugir ou lutar, ação) (!). Finalmente, perante falha de ambos os sistemas anteriores em lidar adequadamente com a ameaça, é então é acionado o sistema de defesa mais antigo, o dorsal (responsável pela imobilização, "congelar frente ao perigo"), onde o indivíduo pode também potencialmente colapsar ou desligar.

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(!) Interessante apontar que NÃO é a adrenalina o hormônio que engatilha a ação "fuga ou luta". Entenda: 'Luta ou Fuga' não é disparado pela adrenalina, mas pelo seu osso
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          No caso de situações associadas à síndrome de Estocolmo, quando estamos encarando uma ameaça de morte, circuitos fundacionais de sobrevivência com origem no tronco cerebral - o qual regula órgãos no corpo através do sistema nervoso autônomo - toma controle, movendo o sistema nervoso para um estado defensivo que suplanta comportamento intencional e interações sociais conscientes, iniciando uma cascata de respostas defensivas autônomas. Esse estado autônomo de defesa desvia atividade neural de estruturas cerebrais de mais alto nível resultando em redução na capacidade de resolver problemas, limitado processamento cognitivo, e substituição de intencionalidade e formas autênticas de socialidade com estratégias defensivas.

            Como produto desse processo neural autônomo de defesa, temos a dissociação. No estado dissociado, processamento inconsciente reduz a capacidade do indivíduo de perceber que está em uma situação onde sua vida está em risco. Quando um indivíduo dissocia, seu mais alto nível de pensamento sofre disrupção e as funções autônomas do sistema nervoso tomam controle para otimizar a regulação de sistemas corporais através do sistema nervoso autônomo, mesmo durante situações com risco de morte.

             Em períodos estendidos de cativeiro (ex.: reféns) ou sob ameaça, um indivíduo pode funcionar em um estado dissociado, permitindo tolerância ao intolerável.

           Encarando uma situação onde não é possível fuga imediata ou possibilidade de luta - como os quatro reféns no sequestro de 1973, em Estocolmo -, alguns indivíduos podem expressar um tipo de "engajamento super social" no estado dissociado e sob controle parassimpático que pode permitir efetiva interação harmoniosa (co-regulação) com o agente de ameaça e acalmá-lo. Esse processo, mediado pelo sistema vagal ventral, seria o que os autores do novo estudo chamam de apaziguamento. A habilidade inata de apaziguar requer inibição do excitamento simpático - que engatilharia perigosas defesas do agente de ameaça - e ao mesmo tempo capacidade de emitir pistas comportamentais e faciais de calma e engajamento social ao agente da ameaça. Essa inibição do sistema simpático pode também impedir que a vítima fuja mesmo durante chances para tal - como também comumente reportado para casos associados à síndrome de Estocolmo.

            Se o ofensor começa a se sentir seguro com a vítima via apaziguamento, então existe a possibilidade do sistema nervoso do ofensor ser acalmado e receber sinais de segurança emitidos pela vítima, resultando em menos violência, raiva e lesões.

          Isso explicaria os casos onde existe aparente ligação afetiva intencional entre reféns e sequestradores ou entre vítimas de abuso e abusadores. O termo apaziguamento enfatiza a assimetria na relação e a estratégia adaptativa para regular e acalmar o ofensor, portanto minimizando potencial danos e abuso contra a vítima. E não seria uma síndrome, apenas uma forte tática inata de sobrevivência.

           De fato, estudos sobre sequestros têm mostrado que um estado regulado e calmo dos reféns pode aumentar as taxas de sobrevivência.

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          Esclarecer respostas inconscientes do corpo a situações de grande perigo e estresse é importante não apenas sob o aspecto científico como também para a imagem e recuperação da saúde mental das vítimas de sequestros, tráfico humano e violência doméstica. A principal e errônea mensagem passada pela "síndrome de Estocolmo" é que mulheres vítimas de extrema violência podem conscientemente se 'apaixonar' pelos abusadores e ofensores, uma noção que pode prevenir ativo suporte de membros familiares e amigos às vítimas sobreviventes e alimentar deletério sentimento de vergonha nessas últimas.



REFERÊNCIAS


  1. https://www.intervention101.com/2013/08/
  2. Bachand & Djak (2018). Stockholm Syndrome in Athletics: A Paradox. Children Australia , Volume 43 , Issue 3 , pp. 175 - 180. https://doi.org/10.1017/cha.2018.31
  3. Rahme et al. (2020). Does Stockholm Syndrome Exist in Lebanon? Results of a Cross-Sectional Study Considering the Factors Associated With Violence Against Women in a Lebanese Representative Sample. Journal of Interpersonal Violence, 088626051989733. https://doi.org/10.1177/0886260519897337
  4. Hurley & Morganson (2022). An empirical examination of sexual harassment and Stockholm syndrome in relation to essential and non-essential workers during the COVID-19 pandemic.  Journal of Sexual Aggression, An international, interdisciplinary forum for research, theory and practice, Volume 29. https://doi.org/10.1080/13552600.2022.2053889
  5. Åse, C. (2015). Crisis Narratives and Masculinist Protection. International Feminist Journal of Politics, 17(4), 595–610. https://doi.org/10.1080/14616742.2015.1042296
  6. https://icd.who.int/en
  7. Namnyak et al. (2007). “Stockholm syndrome”: psychiatric diagnosis or urban myth? Acta Psychiatrica Scandinavica, 0(0), 071120024945001. https://doi.org/10.1111/j.1600-0447.2007.01112.x
  8. RIZO-MARTINEZ, Lucía Ester (2018). The Stockholm syndrome: a systematic review. Clínica y Salud, vol.29, n.2, pp.81-88. https://dx.doi.org/10.5093/clysa2018a12
  9.  Bailey et al. (2023). Appeasement: replacing Stockholm syndrome as a definition of a survival strategy. European Journal of Psychotraumatology, Volume 14, Issue 1. https://doi.org/10.1080/20008066.2022.2161038
  10. Bailey et al. (2023). Appeasement: replacing Stockholm syndrome as a definition of a survival strategy. European Journal of Psychotraumatology, Volume 14, Issue 1. https://doi.org/10.1080/20008066.2022.2161038
  11. https://carlacarvalho.pt/teoria-polivagal-a-ciencia-da-conexao-e-da-seguranca/