YouTube

Artigos Recentes

'Luta ou Fuga' não é disparado pela adrenalina, mas pelo seu osso


Compartilhe o artigo:



           Quando nos deparamos com uma situação de perigo (predador ou uma súbita ameaça), todos sabem o que ocorre: o coração dispara, a respiração acelera, a pupila é dilatada e mais glicose é liberada no corpo para nos preparar para lutar (maior agressividade) ou para fugir. Essa é uma resposta aguda ao estresse compartilhada por quase todos os vertebrados e conhecida como "luta ou fuga". As mudanças fisiológicas associadas com essa resposta sempre foram pensadas serem engatilhadas, pelo menos em parte crucial, pelo hormônio adrenalina, porém, um novo estudo publicado no periódico Cell Metabolism (Ref.1) derrubou essa ideia, ao mostrar que o real protagonista nessa história é o nosso esqueleto.

- Continua após o anúncio -



   ADRENALINA 

          Primeiro isolada e identificada no início do século XX, o hormônio adrenalina - também chamado de epinefrina - é produzido nas glândulas adrenais e é melhor conhecida pelos farmacologistas como uma substância que possui profundos efeitos no sistema cardiovascular. Em geral, os efeitos da administração exógena de adrenalina sobre o sistema cardiovascular são similares à estimulação do nervo simpático.




          De fato, a adrenalina possui poderosos efeitos dose-dependentes sobre o sistema cardiovascular. Injeções intravenosas de adrenalina rapidamente produzem um forte efeito vasopressor como um resultado de profunda vasoconstrição, um aumento no ritmo e na força de contração do coração, automaticidade celular miocardial aumentada, broncodilatação, aumento do ritmo respiratório e redistribuição de sangue em direção ao cérebro, coração e musculatura esquelética, e longe da pele, rins e intestino. Isso justifica o uso de adrenalina em tratamentos de emergência nos hospitais, como para a fibrilação ventricular aguda e para a parada cardíaca.

           No entanto, é válido mencionar que a adrenalina não é de grande importância para a manutenção da homeostase cardiovascular.

          Além do seu papel no sistema cardiovascular, a adrenalina, junto com o hormônio pancreático glucagon, participa da resposta contra-regulatória à hipoglicemia, aumentando a concentração plasmática de glicose ao promover glicogênese e ao reduzir a absorção desse carboidrato pelo tecido musculoesquelético.

          Por causa dos seus poderosos efeitos cardiovasculares e interferência no metabolismo de glicose, e maior liberação durante momentos de perigo imediato, a adrenalina foi sempre pensada de ser essencial na orquestra de efeitos levando o animal à situação de lutar ou fugir pela sua vida frente ao perigo.

- Continua após o anúncio -



   LUTA OU FUGA

          A resposta aguda ao estresse (RAE) é um processo fisiológico fortemente conservado no curso evolucionário que visa manter ou restaurar a homeostase em animais encarando um perigo imediato. Tal perigo produz um aumento na temperatura e no gasto de energia corporal, maior ritmo cardíaco, dilatação da pupila, respiração mais rápida, entre outras manifestações.

          O sistema nervoso simpático que libera catecolaminas (adrenalina, noradrenalina, etc.) nos órgãos periféricos foi sempre considerado ser o mediador principal da RAE nos vertebrados. Em adição, hormônios glucocorticoides circulantes emergem durante um RAE, sugerindo que um mediador endócrino do RAE pode existir. Como esteroides, hormônios glucocorticoides agem principalmente, apesar de não exclusivamente, no nível transcricional e precisam de horas para regular processos fisiológicos, algo que parece inconsistente com a necessidade de uma resposta imediata.

          Isso sugere que outros hormônios, possivelmente peptídicos, podem mediar a RAE.

- Continua após o anúncio -



   OSTEOCALCINA

          Apesar da fama da adrenalina, um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Columbia, EUA, e publicado esta semana na Cell Metabolism, mostrou que os vertebrados ósseos (clado Euteleostomi, o qual engloba os peixes e tetrápodes) não conseguem produzir os efeitos do 'luta ou fuga' sem o esqueleto. Os pesquisadores encontraram em ratos e em humanos que, quase imediatamente após o cérebro reconhecer perigo, esse último instrui o tecido ósseo a liberar na corrente sanguínea o hormônio osteocalcina, o qual é necessário para a RAE.

"Em vertebrados ósseos [peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos], a resposta ao estresse agudo não é possível sem a osteocalcina", disse um dos autores do estudo Gérard Karsenty, PhD do Departamento de Genética e Desenvolvimento da Universidade de Columbia (Ref.3). "Isso completamente muda o modo como pensamos a resposta ao estresse agudo."

          Previamente ao novo estudo, o mesmo time de pesquisadores tinha revelado há cerca de uma década que o esqueleto liberava osteocalcina, hormônio o qual viaja ao longo da corrente sanguínea para afetar as funções biológicas do pâncreas, do cérebro, dos músculos e de outros órgãos. Uma série de estudos subsequentes mostraram que a osteocalcina ajuda a regular o metabolismo ao aumentar a habilidade das células de absorver glicose, melhora a memória, e ajuda os animais a correrem mais rápido com maior resistência. Nesse sentido, surgiu a suspeita: será que esse hormônio também afeta a resposta aguda ao estresse?

          Para responder essa questão, os pesquisadores apresentaram ratos à urina de predadores e a outros agentes de estresse, e observaram as mudanças na corrente sanguínea desses roedores. Dentro de 2 a 3 minutos, eles viram os níveis de osteocalcina dispararem. Do mesmo modo, ao realizar experimento similar com seres humanos, os pesquisadores encontraram que o nível desse hormônio também se elevava quando os participantes eram expostos a situações de estresse.

         Quando os níveis de osteocalcina aumentavam, o ritmo cardíaco, a temperatura corporal e os níveis de glicose sanguínea também aumentavam nos ratos à medida que a RAE emergia.

          Em contraste, quando ratos geneticamente modificados para serem incapazes de produzir osteocalcina ou terem os receptores desse hormônio eliminados, eram colocados em frente ao perigo, a resposta de reação não era forte. Esses ratos teriam uma vida curta no meio selvagem.

          E, para sedimentar de vez a proposta teórica, os pesquisadores injetaram diretamente osteocalcina em ratos saudáveis e não-modificados. Resultado? Uma RAE era disparada mesmo sem ameaça em volta.

          A osteocalcina permite a manifestação de uma robusta e dramática resposta ao estresse ao sinalizar os neurônios parassimpáticos pós-sinápticos a inibirem suas atividades, deixando portanto o tônus simpático sem oposição.



          Estudos futuros irão investigar se outros órgãos além do tecido ósseo atuam de forma também determinante no efeito 'luta ou fuga'. Mecanismos bioquímicos mais detalhados da atuação da osteocalcina nesse processo também serão alvos de futuros estudos.

- Continua após o anúncio -



   ADRENALINA NÃO É NECESSÁRIA PARA O 'LUTA E FUGA'

           O impactante novo achado também explica o porquê de animais sem glândulas adrenais e pacientes humanos com tais glândulas danificadas (não capazes de produzir adrenalina e outros hormônios adrenais) conseguirem desenvolver uma resposta aguda ao estresse. Nesse sentido, esses casos seriam marcados por uma genética que favorece a produção de uma maior quantidade de osteocalcina.

"Isso nos mostra que níveis circulantes de osteocalcina são suficientes para disparar a resposta aguda ao estresse", disse Karsenty. "Se você pensar nos ossos como algo que evoluiu para proteger o organismo do perigo - o crânio protege o cérebro de traumas, o esqueleto permite vertebrados escaparem de predadores, e ainda os ossos no ouvido nos alertam de algo se aproximando - as funções hormonais da osteocalcina começam a fazer sentido."

           Considerando que os ossos evoluíram como um meio para os animais escaparem de perigos diversos, os pesquisadores do novo estudo trabalharam com a ideia inicial de que o sistema ósseo também estaria envolvido na resposta aguda ao estresse, ativada na presença de perigo. E, de fato, a hipótese parece ter se confirmado.



REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1550413119304413?via%3Dihub 
  2. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26896587 
  3. https://www.cuimc.columbia.edu/news/bone-not-adrenaline-drives-fight-or-flight-response