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O que sabemos sobre os misteriosos casos de hepatite em crianças?

 - Atualizado no dia 15 de maio de 2022 -


Esta semana a Organização Mundial de Saúde divulgou um total acumulado de 348 casos reportados de uma misteriosa hepatite atingindo crianças. Os casos foram reportados em 21 países, com 26 crianças requerendo transplante de fígado; 15 países reportaram 5 ou menos casos (Ref.1). Os primeiros 10 casos foram anunciados em 5 de abril de 2022, na Escócia, envolvendo crianças novas (idades variando de 11 meses até 5 anos de idade) e previamente saudáveis. Porém, é importante esclarecer que esses casos de hepatite, mesmo com etiologia ainda desconhecida, não estão associados com as vacinas contra a COVID-19.

No Brasil, o Ministério da Saúde está investigando ao menos sete casos, ainda sem confirmação (Ref.2).

Evidências epidemiológicas, laboratoriais e informações clínicas são ainda limitadas. Adenovírus são importantes suspeitos e têm sido detectados no sangue ou plasma para vários dos casos, mas em baixas cargas virais. Porém, partículas virais de adenovírus não foram ainda identificadas nas amostras de tecido hepático das amostras analisadas e, portanto, a co-ocorrência desse tipo de infecção viral pode ser mais uma coincidência do que um fator causal. Nenhum estudo clínico ainda foi conduzido e devidamente publicado sobre a questão.

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A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), braço da OMS na Américas e Caribe, descreveu com detalhes em um comunicado o que já se sabe sobre a hepatite e seus casos graves relatados em vários países.


1- O que é a hepatite aguda?

A síndrome clínica entre os casos identificados é a hepatite aguda (inflamação do fígado de forma abrupta) com enzimas hepáticas acentuadamente elevadas. O adenovírus foi detectado em pelo menos 74 casos; em 18 casos, testes moleculares identificaram a presença do adenovírus F tipo 41 e em 20 foi identificada a presença do SARS-CoV-2. Além disso, em 19 houve uma coinfecção por SARS-CoV-2 e adenovírus. 

Os vírus comuns que causam hepatite viral aguda (vírus da hepatite A, B, C, D e E) não foram detectados em nenhum desses casos. Viagens internacionais ou conexões em outros países não foram identificados como fatores da doença. Sua real causa ainda está sob investigação pela OMS.


2- Quais são os sintomas e o tratamento?

Muitos casos de hepatite aguda apresentaram sintomas gastrointestinais, incluindo dor abdominal, diarreia e vômitos e aumento dos níveis de enzimas hepáticas (aspartato transaminase (AST) ou alanina aminotransaminase (ALT) acima de 500 UI/L), além de icterícia e ausência de febre. 

O tratamento atual busca aliviar os sintomas, manejar e estabilizar o paciente se o caso for grave. As recomendações de tratamento podem ser aprimoradas assim que a origem da infecção for determinada.


3- Por que o surto de hepatite em crianças é considerado incomum? É devido ao adenovírus?

Em muitos casos, a infecção por adenovírus foi detectada nas crianças afetadas, e a ligação entre os dois está sendo investigada como uma das hipóteses para a causa da doença.

O adenovírus é um vírus comum que pode causar sintomas respiratórios, vômitos e diarreia, e, no geral, a infecção por tais vírus é de duração limitada e não evolui para quadros mais graves. Houve casos raros de infecções graves por adenovírus que causaram hepatite em pacientes imunocomprometidos ou transplantados, por exemplo. No entanto, as crianças infectadas eram anteriormente saudáveis.


4- O surto pode estar relacionado às vacinas contra COVID-19 ou com a própria COVID-19?

Com base nas informações atuais, a maioria das crianças relatadas com a hepatite aguda não recebeu a vacina contra COVID-19, descartando uma ligação entre os casos e a vacinação neste momento. Em alguns casos relatados, foi detectada a presença do vírus SARS-CoV-2, e esta é uma das linhas de investigação junto com outras, como o adenovírus. Notavelmente, entre os casos reportados no Reino Unido, 72% testaram positivo para adenovírus, em particular o adenovírus 41F.

"Com base nas informações atuais, a maioria das crianças relatadas com a hepatite aguda não recebeu a vacina contra Covid-19, descartando uma ligação entre os casos e a vacinação neste momento. Em alguns relatos, foi detectada a presença do vírus SARS-CoV-2, e esta é uma das linhas de investigação junto com outras, como o adenovírus", descreveu a OMS em comunicado sobre o assunto. 

"Não há evidências de qualquer ligação com a vacina contra o coronavírus. A maioria dos casos são de crianças que têm menos de 5 anos e são jovens demais para receber a vacina", informou a Agência Nacional de Saúde do Reino Unido (UKHSA) (Ref.3), responsável por notificar os primeiros casos da misteriosa hepatite. O SARS-CoV-2 foi detectado em 24 do total de casos relatados no Reino Unido.

Um artigo-comentário recentemente publicado no periódico The Lancet (Ref.4) propôs uma hipótese relacionado o SARS-CoV-2, o adenovírus 41F e uma resposta imune superantígeno-exacerbada. Segundo a hipótese, crianças infectadas com o SARS-CoV-2 podem criar um reservatório do vírus no trato gastrointestinal, e essa persistência viral pode levar à liberação repetitiva de proteínas virais ao longo do epitélio intestinal, implicando em ativação imune. Essas repetitivas ativações imunes podem ser mediadas por um superantígeno associado à proteína spike do SARS-CoV-2 e semelhante à enterotoxina B estafilocócica, engatilhando ampla e não-específica ativação de células-T. Em crianças infectadas com um adenovírus (41F), respostas imunes induzidas por esse vírus podem ser exacerbadas por superantígenos produzidos por um reservatório de SARS-CoV-2, levando a uma excessiva produção da citocina IFN-γ e apoptose IFN-γ-mediada de hepatócitos (e subsequente hepatite). Esse fenômeno é, de fato, observado em experimentos com ratos envolvendo a enterotoxina B.


5- O que os pais podem fazer para proteger as crianças? 

O mais importante é ficar atento aos sintomas, como diarreia ou vômito, e aos sinais de icterícia – quando a pele e a parte branca dos olhos ficam amareladas. Nestes casos, deve-se procurar atendimento médico imediatamente.

A OPAS recomenda ainda o uso de medidas básicas de higiene, como lavar as mãos e cobrir a boca ao tossir ou espirrar para prevenir infecções, que também podem proteger contra a transmissão do adenovírus.


6- Que medidas são recomendadas para prevenir a propagação da doença?

Neste momento, a recomendação aos países é manterem-se informados, monitorarem e notificarem os casos. 


REFERÊNCIAS

  1. https://www.paho.org/en/documents/acute-severe-hepatitis-unknown-origin-children-10-may-2022 
  2. https://butantan.gov.br/noticias/hepatite-aguda-em-criancas-nao-tem-relacao-com-vacinas-contra-covid-19-diz-oms 
  3. https://butantan.gov.br/covid/butantan-tira-duvida/tira-duvida-noticias/entenda-o-que-e-a-hepatite-misteriosa-em-criancas-seus-sintomas-e-por-que-ela-e-perigosa
  4. Brodin & Arditi (2022). Severe acute hepatitis in children: investigate SARS-CoV-2 superantigens. The Lancet Gastroenterolgy & Hepatology. https://doi.org/10.1016/S2468-1253(22)00166-2