YouTube

Artigos Recentes

Masturbação antes do treino de musculação melhora a performance e ganhos musculares?


 

          Em fóruns de redes sociais e entre praticantes de musculação, tem sido especulado e discutido se atividade sexual (incluindo masturbação) poucas horas antes do treino pode trazer melhoras de performance e ganhos em termos de hipertrofia muscular. A lógica por trás dessa hipótese é baseada em um alegado aumento na testosterona livre ou da razão entre testosterona livre e cortisol subsequente aos efeitos agudos da atividade sexual. Porém, quais as evidências científicas por trás dessa alegação? Para tentar responder essa questão, um estudo clínico piloto publicado no final de 2021 foi o primeiro e único até o momento a investigá-la, com resultados suportando apenas em parte a hipótese.

- Continua após o anúncio -


          Hormônios como a testosterona são propostos de atuarem de forma decisiva no desenvolvimento de performance física e no crescimento muscular. Testosterona é conhecida de promover efeitos anabólicos nos músculos esqueléticos ao estimular a biossíntese de proteína e modificar o conteúdo de fibras musculares. Em humanos, 98% da testosterona total é ligada a proteínas de transporte, como globulinas ligadoras de hormônios sexuais (SHBG) e albumina, enquanto até 2% da testosterona total pode ser encontrada na sua forma biologicamente ativa (testosterona livre). Em contraste à testosterona total, apenas a testosterona livre e seu metabólico dihidrotestosterona (DHT) são capazes de interagir com o receptor androgênico (AR) intracelular, portanto promovendo efeitos anabólicos. Além da testosterona, o glicocorticoide cortisol também atua de forma crucial no metabolismo e na homeostase energética, sendo secretado pelo córtex adrenal e regulado pelo eixo hipotálamo-pituitário-adrenal. 

          Cortisol possui profunda influência na musculatura esquelética humana, e estudos têm sugerido que um aumento na concentração de cortisol pode ter um efeito negativo na concentração de testosterona total. Existe também uma correlação positiva entre níveis de testosterona livre e de cortisol após o exercício físico; treinamento excessivo de musculação pode levar a um aumento nos níveis de cortisol que pode (ou não) ser prejudicial às adaptações musculares. No geral, a testosterona é um hormônio anabólico (promovendo síntese proteica e crescimento do tecido muscular), enquanto o cortisol é um hormônio catabólico (promovendo quebra proteica e decomposição do tecido muscular) (Ref.2). Em termos de hipertrofia muscular, portanto, pode ser alegado que um maior nível de testosterona livre em relação ao nível de cortisol é preferível.

-----------

> É relevante mencionar que níveis adequados de cortisol são necessários para um ótimo trabalho muscular, integrando sinalizações catabólicas e anabólicas. Durante o exercício físico, o cortisol aumenta a disponibilidade de substratos metabólicos, protege o tecido muscular da atividade imune e mantém a integridade vascular. Além disso, o cortisol está envolvido em adaptações que preparam o corpo para uma próxima série de exercícios físicos e que reduzem efeitos deletérios no tecido muscular no pós-exercício (Ref.3).

-------------

          Quando coito e masturbação são analisados em relação ao efeito dessas atividades sexuais sobre respostas hormonais agudas, estas são associadas principalmente com a liberação de endorfinas, dopamina, oxitocina e prolactina. Após o orgasmo, o níveis de prolactina aumentam, enquanto os níveis de oxitocina e de dopamina diminuem significativamente. Porém, os efeitos da atividade sexual sobre as concentrações dos hormônios testosterona (total e livre), estrógenos, cortisol e luteinizante (LH) são ainda pouco esclarecidos na literatura acadêmica. Evidência limitada sugere que durante os 60 minutos pós-masturbação ou coito, nenhuma mudança é observada nas concentrações de testosterona total. Por outro lado, evidências também limitadas sugerem que as concentrações de testosterona livre são influenciadas tanto pela atividade sexual quanto pela excitação sexual, e que estímulo sexual visual em específico aumenta as concentrações de testosterona total.

- Continua após o anúncio -


          Para melhor esclarecer essa questão, cientistas Alemães em um estudo clínico randomizado publicado no periódico Basic and Clinical Andrology (Ref.1), recrutaram 8 jovens adultos do sexo masculino com idade média de 27 anos, altura média de 1,8 metro e massa corporal média de 88 kg. Todos os participantes - recrutados da Universidade Cologne Alemã do Esporte, Alemanha - eram saudáveis, sem restrições médicas, eram atletas de força altamente avançados (>150% da massa corporal suportada no supino e >120% da massa corporal suportada no agachamento), não usavam esteroides anabolizantes (!), não usavam suplementos nutricionais e não estavam sob medicamentos. Além disso, todos treinavam >4 vezes por semana, estavam comprometidos em um relacionamento amoroso e não possuíam histórico de disfunção sexual.

(!) Leitura recomendadaEsteroides anabólicos: Alto risco para doenças cardiovasculares, dano testicular persistente e COVID-19

          Os participantes foram divididos aleatoriamente em três grupos, onde mudanças nas concentrações hormonais foram monitoradas após a masturbação com estímulo visual (grupo ativo), estímulo visual sem masturbação (grupo visual) e nenhum engajamento sexual (grupo passivo). Todos os participantes no dia da intervenção foram submetidos à mesma dieta e controlados para vários possíveis cofatores de interferência, incluindo proibição de consumo alcoólico, de atividade física e de atividade sexual nas 48 horas prévias ao experimento. Para detectar mudanças cinéticas nas concentrações de hormônio ao longo do dia de intervenção, 8 mL de sangue venoso e amostras de saliva foram coletados em 9 diferentes pontos temporais.

          Após duas coletas de sangue, os participantes foram levados para salas separadas e ali mantidos por 15 minutos, onde ou se masturbaram com a ajuda de um estímulo visual (filme pornográfico), ou receberam apenas um estímulo visual sexual ou não receberam nenhum estímulo. Todos no grupo ativo foram obrigados a alcançar o clímax (orgasmo e ejaculação). Nos grupos ativo e visual, os participantes foram instruídos a escolherem um filme pornográfico de acordo com suas necessidades pessoais.

          Após análise das amostras coletadas antes e depois da intervenção nas salas isoladas, os pesquisadores encontraram que a estimulação visual (p < 0,05) e, em maior efeito, a masturbação (p < 0,01) tiveram significativo impacto positivo nas concentrações de testosterona livre em comparação com o grupo passivo. De fato, a queda circadiana da concentração de testosterona livre foi significativamente atenuada pela estimulação visual e, mais ainda, pela masturbação. Por outro lado, os pesquisadores não conseguiram observar mudança significativa na razão entre testosterona livre e cortisol.

          Com base nos achados, os pesquisadores concluíram que uma única atividade sexual na forma de masturbação antes do treino de musculação não necessariamente irá provocar um maior nível de adaptações testosterona-mediadas em termos de crescimento muscular ou de mudanças no conteúdo de fibras musculares. No entanto, eles também realçaram ser incerto se contínuas e repetidas secreções de testosterona livre via estimulação sexual em combinação com o treino de musculação ao longo de um período de tempo (médio e longo prazo) são capazes de melhorar os parâmetros de hipertrofia muscular.

          Além dos efeitos agudos da estimulação sexual, os pesquisadores também concluíram, com base nas mudanças hormonais deflagradas pelo ciclo circadiano, que o mais efetivo horário para o treino de musculação é no início da noite, onde a razão TL/C (testosterona livre/cortisol) parece ser a mais alta; de fato, estudos prévios têm mostrado que o nível de cortisol alcança um pico durante a manhã e é lentamente reduzido ao longo do dia, alcançando o menor nível ao redor da meia-noite (Ref.3). Por outro lado, enquanto estudos prévios têm sugerido que um maior nível de força é alcançado durante o período noturno, ganhos hipertróficos não têm sido observados de diferirem de forma significativa independentemente do horário do dia no qual o treino é realizado (Ref.4). Além disso, os pesquisadores no novo estudo realçaram que vários fatores fisiológicos e psicológicos, como motivação, também atuam de forma importante nesse contexto, e não apenas o horário do treino. Por exemplo, se o início da noite estiver associado a um maior nível de estresse na rotina de um indivíduo, isso resultará em um maior nível de cortisol e, consequentemente, em uma menor razão TL/C.

          O estudo foi limitado por uma série de fatores, incluindo pequeno número de participantes, ausência de indivíduos do sexo feminino e uso de dois tipos de amostragem (sanguínea e salivar) para medir diferentes parâmetros hormonais: testosterona livre e cortisol na saliva, e testosterona total no sangue (apesar de ser reportado uma alta correlação entre os níveis desses hormônios no sangue e na saliva). Além disso, outros hormônios não foram medidos, como estrógenos, estes os quais interagem com as concentrações de testosterona e possuem efeitos sobre o metabolismo na musculatura esquelética.

- Continua após o anúncio -


   CONCLUSÃO

          Estimulação sexual visual e masturbação parecem, de fato, aumentar significativamente os níveis de testosterona livre. Porém, a razão entre testosterona livre e cortisol não parece ser afetada por esse tipo de estimulação, tornando incerto se efeitos hipertróficos positivos são obtidos com masturbação ou outro tipo de atividade sexual antes do treino de musculação. Isso é complicado pelo fato das evidências ainda continuarem limitadas.

-----------

> Relevante mencionar que ervas e suplementos nutricionais amplamente promovidos como estimuladores da produção endógena de testosterona ("T-Boosters"), como o famoso Tribulus terrestris, não possuem sólido suporte científico de eficácia, e muitos são comprovadamente ineficazes. Para mais informações, acesse: Ervas e suplementos para aumentar a testosterona?

------------


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. Isenmann et al. (2021). Hormonal response after masturbation in young healthy men – a randomized controlled cross-over pilot study. Basic and Clinical Andrology 31, 32. https://doi.org/10.1186/s12610-021-00148-2
  2. Bailey et al. (2021). Influence of Training-induced Testosterone and Cortisol Changes on Skeletal Muscle and Performance in Elite Junior Athletes. American Journal of Sports Science and Medicine, Vol. 9, No. 1, 13-23. 
  3. Kraaemer et al. (2020). Growth Hormone(s), Testosterone, Insulin-Like Growth Factors, and Cortisol: Roles and Integration for Cellular Development and Growth With Exercise. Frontiers in Endocrinology. https://doi.org/10.3389/fendo.2020.00033
  4. Grgic et al. (2019). The effects of time of day-specific resistance training on adaptations in skeletal muscle hypertrophy and muscle strength: A systematic review and meta-analysis. Chronobiology International, Volume 36, Issue 4. https://doi.org/10.1080/07420528.2019.1567524