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Quando devo castrar meu cão ou gato? Especialistas levantam alertas

 

          Em muitos países, especialmente nos EUA e em grande parte da Europa, a prática de castração em cães e gatos se tornou rotineira. Só nos EUA, é estimado que 85% dos cães e 82% dos gatos em ambientes domésticos são castrados. A castração é frequentemente requisitada pelos donos desses animais, mas pode ser realizada como parte de políticas públicas de controle populacional (ex.: obrigatoriedade em centros de adoção) ou como intervenção cirúrgica de emergência para o tratamento de graves condições de saúde, como torção testicular ou piometra (acúmulo de pus no útero). Benefícios da castração incluem em especial uma efetiva medida de controle populacional, reduzindo o número de cães e gatos abandonados nos centros urbanos. Por outro lado, e menos conhecido, a remoção das gônadas desses animais pode resultar em potenciais e sérios prejuízos à saúde, e, no caso dos cães, efeitos adversos fortemente dependem da idade, sexo e linhagem canina. 

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   CASTRAÇÃO - RISCOS E BENEFÍCIOS

          A gonadectomia, ou popularmente referida como 'castração', é um procedimento comum em vários países como um meio de controlar a reprodução de cães e gatos, reduzir doenças sexualmente transmissíveis, amenizar comportamentos sexo-específicos e até, potencialmente, aumentar a longevidade do animal. Porém, apesar do procedimento ter sido amplamente normalizado em várias sociedades e países, uma das maiores questões da prática veterinária é justamente se um animal de estimação deve ou não ser castrado. A resposta para esse problema é altamente complexa, contraditória e pode ter implicações tanto positivas quanto negativas para a saúde do animal.


   BENEFÍCIOS

          Cães e gatos são animais multíparos com curto período de gestação, com o potencial de produzir vários filhotes que alcançam a maturidade sexual aos 6 meses de idade. Esses fatores, associados com a falta de responsabilidade dos donos contribuem para o abandono e crescimento descontrolado das populações desses animais. Nesse sentido, a principal pressão social para a realização da castração reside na prevenção da superpopulação de cães e gatos abandonados. Realizada antes da maturidade sexual ou adoção, a castração é atualmente a melhor solução viável, em termos de custo-benefício, para contornar o problema. 

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> IMPORTANTE: Excesso populacional de cães e gatos pode também impor pressão negativa nas populações de outros animais no meio urbano e no meio rural. Enquanto que gatos, por exemplo, podem ajudar a controlar pestes urbanas (ex.: ratos), esses mesmos felinos podem caçar em excesso espécies de aves, mamíferos e répteis, levando a desequilíbrios ecológicos e mesmo riscos de extinção. De fato, cães e gatos representam, globalmente, uma das causas mais comuns de mortalidade antropogênica para aves e mamíferos, atualmente ameaçam de extinção 430 espécies (predação por gatos) e 145 espécies (predação por cães), e estão ligados à extinção de 63 espécies (Ref.2). 

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          Além de efetivo controle populacional, a castração - e a associada remoção dos testículos (orquiectomia) ou ovários (ovariectomia) - pode também trazer outros benefícios para cães, gatos e seus donos, em termos comportamentais e de saúde, devido à dramática redução nos hormônios gonadais (andrógenos e estrógenos). Níveis plasmáticos de hormônios gonadais/sexuais começam a cair dentro de horas após remoção das gônadas, apesar dos níveis de hormônio estimulante folicular (FSH) e de hormônio luteinizante (LH) aumentarem após a castração devido à perda do efeito de feedback negativo sobre a pituitária anterior. Hormônios sexuais geralmente agem como moduladores comportamentais: não causam comportamentos mas influenciam a probabilidade de comportamentos particulares ocorrerem.

- GATOS (machos): Em gatos do sexo masculino, comportamentos reprodutivos (ex.: urina para marcar território e agressão sexual) são reduzidos ou eliminados pela castração. Machos castrados podem exibir menos comportamentos de risco, como vagar pelas ruas e telhados e lutas, portanto reduzindo o risco de acidentes. A castração também reduz o risco do vírus da imunodeficiência felina (FIV) - o qual é comumente transmitido por feridas causadas por arranhões e mordidas -, previne neoplasia (!) testicular, e reduz a incidência de abcessos, asma e gengivite (nesses últimos três casos, se o procedimento é realizado antes dos 5,5 meses de idade). 

- GATOS (fêmeas): Gatos do sexo feminino não-castrados possuem sete vezes maior risco de desenvolver tumores mamários do que gatos castrados. Mesmo com um risco 50% menor do que aquele observado em cadelas, a maioria dos tumores mamários nesses felinos são malignos, e a maior parte são carcinomas com infiltrados locais e frequentemente resultando em metástase. Castração antes de 1 ano de idade está associada com um risco 86% menor de desenvolvimento desse tipo de tumor nos gatos.

- CÃES (machos): Em cães do sexo masculino, a castração pode reduzir comportamentos sexuais indesejáveis, como marcação com urina, vadiagem na rua e monta. Hiperplasia benigna prostática comumente ocorre em cães não-castrados com mais de 5 anos de idade e sequelas como prostatite, abcessos, e problemas urinários e de defecação podem requerer intervenção cirúrgica, implicando em maior morbidade. Castração resulta na redução de células epiteliais secretórias, diminuindo o tamanho da próstata e tornando esse órgão menos suscetível a infecções. Além disso, neoplasia testicular é comum em cães não castrados, e pode ser prevenida por castração.

- CÃES (fêmeas): Piometra é uma condição hormônio-mediada caracterizada por hiperplasia endometrial e uma subsequente infecção bacteriana secundária. Essa é uma condição comum entre cães do sexo feminino com uma idade mais avançada, geralmente ocorrendo 4-6 semanas após o período de cio. Apesar da ovariectomia ser curativa, a taxa de mortalidade desse procedimento cirúrgico visando tratar a condição pode ser tão alta quanto 17%. A castração nas cadelas também previne tumores ovarianos e uterinos, reduz o risco de neoplasia mamária, previne prolapso vaginal e elimina problemas associados à gravidez comuns em algumas linhagens (ex.: distocia). Também válido para os machos, o risco de transmissão de tumores venéreos é reduzido com a castração. Em termos comportamentais, a castração pode reduzir comportamentos associados com as estações do ano (vadiagem, agressão entre fêmeas, marcação de urina, etc.) e pseudogravidez (a qual pode incluir agressão).

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(!) Neoplasia é uma lesão constituída por proliferação celular anormal, descontrolada e autônoma, em geral com perda ou redução de diferenciação, em consequência de alterações em genes e proteínas que regulam a multiplicação e a diferenciação das células. Neoplasias podem ser benignas ou malignas (câncer).

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          Outro benefício associado à castração em cães e gatos é o aumento de longevidade. Aliás, em humanos (Homo sapiens), castração em indivíduos do sexo masculino também parece aumentar de forma significativa a longevidade. Para mais informações: Por que as mulheres vivem mais do que os homens?


   MALEFÍCIOS

          Malefícios associados ao procedimento de castração podem ser divididos naqueles de curto prazo e de longo prazo. A curto prazo (horas, dias, semanas), temos riscos associados ao próprio procedimento cirúrgico, como dor e hemorragia, excreções vaginais, lactação, inflamação de feridas, atraso de cicatrização, síndrome do remanescente ovariano, entre outros. No geral, o procedimento de castração é seguro, mas possíveis complicações devem ser informadas ao dono. Essas complicações podem ser dramaticamente minimizadas pela seleção apropriada de pacientes, uso de protocolos anestésicos seguros e eficientes, experiência do cirurgião, aplicação de técnicas e preparações cirúrgicas minimamente traumáticas, e monitoramento minucioso do paciente (ex.: controle adequado de dor no pós-operatório).

           Já os riscos de longo prazo são menos discutidos e esclarecidos. Estudos nas últimas duas décadas têm apontado que a perda de hormônios gonadais podem resultar em várias sequelas ao longo de meses ou anos após a cirurgia, como aumento da incidência de obesidade, incontinência urinária, desordens endócrinas, condições ortopédicas, cânceres diversos, e mudanças comportamentais e cognitivas deletérias. Os mecanismos responsáveis por esses problemas podem ser a falta de feedback negativo dos hormônios gonadais sobre a pituitária e o hipotálamo, resultando em níveis suprafisiológicos de LH, ou mesmo a perda da ação direta dos hormônios sexuais em várias funções fisiológicas importantes. Esses impactos podem variar de acordo com a linhagem, tamanho, sexo e idade do procedimento de castração.

- GATOS: A castração reduz significativamente a taxa metabólica dos gatos e engajamento em atividades físicas sexualmente fomentadas, portanto aumentando o risco de obesidade. Além disso, gatos castrados são quase 9 vezes mais prováveis de desenvolver diabetes Tipo 2 comparado com gatos não-castrados. Especificamente em machos, existe evidência limitada de maior risco para condições urinárias, como doença do trato urinário inferior; uma idade precoce de castração, no entanto, pode reduzir esse risco. É ainda incerto ou não evidente um aumento de risco no desenvolvimento de cânceres para gatos castrados. Existe também um aumento significativo e persistente nos níveis de LH nos gatos castrados, mas é incerto ainda os efeitos a longo prazo sobre a saúde do animal (Ref.6).

- CÃES: A incidência de múltiplas condições neoplásticas e não-neoplásticas têm sido reportadas de aumentarem em cães castrados de ambos os sexos, como osteosarcoma, linfoma e carcinoma, assim como neoplasias sexo específicas, como neoplasia prostática e tumores de células redondas. No entanto, é válido lembrar que algumas neoplasias podem aumentar de incidência em cães castrados devido ao aumento de longevidade. No caso de condições não-neoplásticas, temos problemas ortopédicos, como maior risco para o desenvolvimento de displasia do quadril, doença do ligamento cruzado cranial e atraso no fechamento de placas ósseas em crescimento (dependente de hormônios gonadais no período pré-puberdade). Problemas urinários podem ocorrer com castração antes da puberdade, e, assim como gatos, existe um significativo maior risco de obesidade devido a mudanças metabólicas e aumento do apetite; obesidade também aumenta o risco de doenças ósseas. 

          E enquanto mudanças comportamentais - afetando comportamentos sexualmente dismórficos - são geralmente favoráveis em gatos, nos cães uma mudança positiva pode não ocorrer ou mesmo ser deletéria, incluindo aumento da agressividade (contrário à crença popular) e de ansiedade, apesar desses possíveis efeitos deletérios parecerem ser mais específicos para algumas linhagens caninas, dependentes da idade de castração e ainda suportados por evidências limitadas ou conflitantes. Nos cães do sexo feminino, existe limitada evidência de efeitos detrimentosos da castração em tarefas espaciais, cognitivas e de sinalização humana (Ref.4). 

           Sobre os efeitos adversos ou benéficos da castração sobre o sistema imune de cães e gatos, estudos ainda são limitados (Ref.4). Riscos de aumento no risco de cânceres para gatos castrados não são conhecidos ou evidentes. 

          No balanço dos efeitos benéficos e adversos, especialistas fortemente recomendam castração pré-pubertária em gatos (Ref.3). Gatos são reprodutores efetivos e difíceis de serem controlados sem a castração, e geralmente exibem comportamentos de significativo risco quando não estão castrados. Além disso, o procedimento cirúrgico de castração é seguro quando feito de forma adequada, e possui risco muito baixo de sérias complicações. Recomenda-se que os gatos estejam vacinados antes da castração, ou seja, o procedimento deve ser feito idealmente a partir de 12-16 semanas de idade. Nos últimos anos têm sido também fortemente recomendado que a castração de gatos seja feita de forma precoce, ou seja, quando o gato alcançar uma massa corporal de 1 kg, geralmente por volta dos 4 meses de idade (Ref.3, 7). A castração precoce, além de comprovadamente segura, oferece vantagens em relação à castração tradicional (~6 meses de idade), incluindo mais rápida recuperação e socialização.

            Já no caso dos cães, a castração pré-pubertária é ainda alvo de muito debate acadêmico. Estudos têm sugerido um risco para vários tipos de cânceres e desordens articulares 2-4 vezes maior em cães castrados em relação a cães não-castrados. Para os donos e seus cães, é essencial que cada caso seja analisado de forma individual, determinando-se a mais apropriada estratégia de castração baseada na linhagem canina, estilo de vida, temperamento, expectativas de longevidade, risco de neoplasias e preferências do cliente. Segundo alguns especialistas (Ref.4), devido ao crescente acúmulo de evidências de significativos efeitos adversos da castração sobre a saúde canina, outros métodos de controle populacional deveriam ser considerados, como vasectomia e histerectomia - procedimentos cirúrgicos que tornam o animal estéril mas preservam as gônadas.

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            Aliás, em várias nações Europeias, como a Noruega, a castração em cães é percebida como uma mutilação desnecessária, e o procedimento acaba sendo estritamente controlado e até mesmo proibido por medidas legais (Ref.9).


   QUANDO DEVO CASTRAR MEU CÃO?

           Em um estudo publicado em 2020 no periódico Frontiers in Veterinary Science (Ref.10), baseado em uma análise de 35 linhagens caninas conduzida ao longo de 10 anos e englobando dados clínicos veterinários acumulados (15 anos) para milhares de cães, encontrou que riscos adversos associados à castração variam dramaticamente dependendo da linhagem canina. 

           Em específico, os pesquisadores investigaram se o status de castração, idade da castração e/ou sexo do cão afetava os riscos de cânceres e de desordens articulares entre diferentes linhagens. As desordens articulares analisadas incluíram displasia do quadril, fratura do ligamento cruzado cranial e displasia cotovelar. Os cânceres analisados incluíram linfoma, hemangiossarcoma, ou câncer das paredes dos vasos sanguíneos. 

          Na maioria das linhagens caninas analisadas, o risco de desenvolver esses problemas não foi afetado pela idade da castração. Por outro lado, os pesquisadores encontraram que a vulnerabilidade das desordens articulares estava relacionada ao tamanho corporal: linhagens caninas de pequeno porte, em geral, não mostraram ter esses problemas, enquanto a maioria das linhagens de maior porte tendem a tê-los quando castrados. Duas exceções notáveis foram observadas em duas linhagem de grande porte: Lébrel Irlandês e Dogue Alemão, os quais não mostraram estar, aparentemente, associados com um aumento de risco para desordens articulares quando castrados, independentemente da idade.

           No caso de cânceres, os pesquisadores encontraram que o risco de incidência era relativamente baixo, independentemente se castrados ou não, especialmente em cães de pequeno porte. No entanto, em duas linhagens de pequeno porte - Boston Terrier e Shih Tzu - foi observado um significativo aumento de risco para cânceres com a castração. Para linhagens de maior porte, o aumento de risco variou bastante dependendo do sexo e da idade de castração.

          Geralmente, o procedimento de castração é feito em cães com cerca de 6 meses de idade, inclusive aqui no Brasil. Com base nos achados do estudo, os pesquisadores sugeriram mudanças na escolha de idade para a cirurgia nas seguintes linhagens caninas analisadas: 

- Boiadeiro-Australiano: Em fêmeas, foi encontrado um significativo maior risco (+13%) de desordens articulares com a castração realizada antes dos 6 meses de idade. Portanto, para fêmeas, recomendou-se que o procedimento ocorra apenas a partir de 6 meses de idade.

- Pastor-Australiano: Um possível significativo maior aumento de risco para cânceres em fêmeas castradas aos 6-11 meses e aos 2-8 anos sugere que a castração deva ocorrer antes dos 6 meses de idade.

- Beagle: Para machos castrados aos 6-11 meses de idade, foi encontrado um aumento de 13% no risco de desordens articulares. Nesse sentido, os pesquisadores recomendaram que a castração nos machos seja feita após 1 anos de idade.

- Boiadeiro de Berna: Machos castrados antes dos 2 anos de idade estavam associados com um significativo aumento de ~20% no risco para desordens articulares. Os pesquisadores recomendaram que a castração seja feita bem além dos 2 anos de idade.

- Border Collie: Significativo maior risco de um ou mais cânceres foi encontrado tanto para fêmeas quanto para machos (+11%) quando a castração ocorria aos 6-11 meses de idade. Os pesquisadores recomendaram que o procedimento seja feito após o cão completar 1 ano de idade.

-Boston Terrier: Um significativo risco 5-7% maior para o diagnóstico de um ou mais cânceres foi encontrado nos machos castrados antes de 11 meses de idade, indicando que a cirurgia deveria ser feita após 1 ano de idade.

- Boxer: Para machos foi observado um significativo aumento de 15% no risco de câncer quando a castração era realizado antes dos 2 anos de idade; no mesmo cenário, um aumento de até 9% foi observado nas fêmeas. Nesse sentido, o procedimento nessa linhagem, para ambos os sexos, deveria ser feito após os 2 anos de idade.

- Cocker Spaniel: Em machos castrados antes dos 6 meses de idade, o risco para desordens articulares aumentou significativamente (+10%) vezes; em fêmeas castradas entre 1 e 2 anos de idade, o risco aumentou significativamente em 17% para o diagnóstico de tumor de células mastocitárias. Nesse sentido, a castração deveria ocorrer em machos e em fêmeas após 6 meses e após 2 anos de idade, respectivamente.

- Collie: Um aparente maior risco de câncer e de incontinência urinária nas fêmeas castradas antes de 6 meses e aos 6-11 meses, respectivamente, suporta a recomendação de castração nas fêmeas após 1 ano de idade.

- Welsh Corgi (Pembroke e Cardigan): Aumento observado de 15% no risco de desenvolvimento de desordens do disco intervertebral nos machos castrados antes da idade de 6 meses. Portanto, a idade ideal para castração nos machos deveria ser após 6 meses.

- Doberman: Dados limitados sugerindo aumento no risco de câncer nos machos castrados apontam para uma castração segura após 1 anos de idade. Nas fêmeas, significativo maior risco de incontinência urinária e possível maior risco de desordens articulares sugerem que a castração deveria ocorrer após 2 anos de idade.

- Springer Spaniel Inglês: Possível maior risco de incontinência urinária sugere que a castração nas fêmeas deveria ser feita com pelo menos 1 ano de idade.

- Pastor-Alemão: Risco até 13-15% maior para desordens articulares - e maior risco para incontinência urinária específico para fêmeas - sugere que a castração tanto em machos quanto em fêmeas deveria ser feita após os 2 anos de idade.

- Golden Retriever: Em machos castrados antes de 6 meses de idade e aos 6-11 meses, foi observado um significativo aumento de 20% e de 6% no risco para desordens articulares, respectivamente, e um pequeno aumento para o risco de um ou mais cânceres. Em fêmeas castradas antes de 6 meses de idade e aos 6-11 meses, foi observado um significativo aumento de 14% e de 6% no risco de desordens articulares, e um significativo aumento de 6% e de 12% no risco de um ou mais cânceres, respectivamente; além disso, foi observado um significativo aumento de 9% no risco de cânceres em fêmeas castradas com 1 ano de idade e aos 2-8 anos de idade. Nesse sentido, para machos, a castração deveria ocorrer após 1 ano de idade. Para as fêmeas, castração não deveria ser feita ou então realizada com 1 ano de idade e o dono ficar vigilante para a manifestação de tumores malignos.

- Lébrel Irlandês: Significativo aumento 17% no risco para câncer em machos castrados com 1 ano de idade. Os pesquisadores sugeriram que a castração deva ser feita nos machos dessa linhagem após 2 anos de idade.

- Labrador Retriever: Significativo risco ~6-7% maior para uma ou mais desordens articulares sugerem que a castração deveria ocorrer após 6 meses de idade para machos e após 1 ano de idade para fêmeas.

- Poodle Miniatura: Machos castrados aos 6-11 meses de idade estão associados com um aumento de 9% no risco de desordens articulares, refletindo especificamente ruptura do ligamento cruzado cranil, enquanto nenhum problema do tipo foi observado em cães não castrados. Os pesquisadores recomendaram que machos deveriam ser castrados apenas quando completassem pelo menos 1 ano de idade.

- Poodle: Um aumento significativo de 23% no risco de câncer (especificamente linfoma/linfossarcoma) observado em machos castrados. A recomendação é para que a castração seja feita nos machos após os 2 anos de idade.

- Rottweiler: Machos castrados aos 6-11 meses e fêmeas castradas antes de 6 meses de idade estavam associados com aumentos significativos de 14% e de 26%, respectivamente, no risco de desordens articulares. Os pesquisadores recomendaram que os machos sejam castrados após 1 ano de idade e que as fêmeas sejam castradas após 6 meses de idade.

- São Bernardo: Enquanto desordens articulares foram observadas em apenas 6% das fêmeas não-castradas, em todas as fêmeas castradas antes de 6 meses de idade manifestaram desordens articulares. Os pesquisadores recomendaram que a castração seja feita apenas após 6 meses de idade nas fêmeas.

- Pastor-de-Shetland (Sheltie): Significativo maior risco de incontinência urinária sugere que as fêmeas talvez só devam ser castradas a partir de 2 anos de idade.

-Shih Tzu: Um significativo aumento de 7%  no risco de câncer com a castração aos 6-11 meses de idade e um significativo aumento de 18% para a castração com 1 ano de idade suportam que as fêmeas deveriam ser castradas apenas a partir de 2 anos de idade.

- West highland white terrier (Westie): Talvez esperar até 1 anos de idade para castrar fêmeas devido a um aumento no risco de incontinência urinária. 

          Para as seguintes linhagens caninas, o balanço de riscos e benefícios parece suportar livre preferência para a idade de castração, independente da idade e do sexo: Pastor-Australiano, Buldogue (!), Cavalier King Charles Spaniel, Chihuahua, Dachshund, Jack Russell Terrier, Maltese, Schnauzer miniatura, Zwergspitz ("Lulu-da-Pomerânia"), Poodle Toy, Pug (!) e Yorkshire Terrier.

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(!) Importante lembrar que as linhagens Pug, Buldogue Francês e Buldogue Inglês enfrentam diversos outros problemas não associados com a castração, devido às deformações corporais presentes nesses animais. Para mais informações: Conscientização: É preciso desestimular a demanda por cães braquicefálicos 

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          No caso do Dogue Alemão, apesar de, aparentemente, inexistir maiores riscos de efeitos adversos com a castração em qualquer idade, os pesquisadores recomendaram que o mais prudente seria a castração após 1 ano de idade, devido ao grande tamanho corporal e à fisiologia do desenvolvimento muscular tardio; a mesma recomendação se aplica ao São Bernardo e ao Lébrel irlandês fêmea.

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          Em um segundo estudo subsequente publicado pelos mesmos autores no periódico Frontiers in Veterinary Science (Ref.11), foram analisados os mesmos parâmetros de risco para cães de linhagens misturadas (ex.: vira-latas), com base em diferentes categorias de massa corporal. Para cânceres, não foi observado significativo aumento de risco com a castração, independente da idade e do sexo. Porém, para desordens articulares, foi observado um significativo aumento de risco - até 20% maior e comumente em um nível 3 vezes maior - para cães com mais de 20 kg quando castrados antes de 1 ano de idade. Portanto, para linhagens caninas misturadas, seria prudente esperar o cão completar 1 ano de idade antes da castração.

            Os dois estudos reforçam evidências prévias de que a castração em cães deve ser avaliada de forma individual - considerando-se especialmente o sexo, a idade e a linhagem canina -, evitando-se seguir recomendações generalizadas. Existe também a possibilidade de escolha por intervenções cirúrgicas mais delicadas e precisas de esterilização sem a necessidade de remoção das gônadas.

            Para cães que já foram castrados e sofrem de várias condições adversas de saúde que podem estar relacionadas à perda dos hormônios gonadais, não existe um tratamento padrão associado a terapias hormonais exceto para o tratamento de incontinência urinária (envolvendo estrógenos conjugados, estriol, agonistas GnRH, dietilestilbestrol ou imunização GnRH); a restauração de continência urinária ocorre via redução das concentrações de LH nas fêmeas castradas.


   RELATO DE CASO (EXEMPLO)

          Em um relato de caso publicado em 2021 no periódico Topics in Companion Animal Medicine (Ref.12), pesquisadores descreveram um cão macho de 1 ano de linhagem misturada sofrendo de sobrepeso (27,7 kg) e apresentando vários problemas de saúde impactando de forma negativa sua vida. O cão foi adquirido em um abrigo de animais com uma idade estimada de 7 meses e, previamente à adoção, foi castrado. No período da adoção, o cão demonstrava comportamento normal. Dentro de 5 meses seguindo a adoção-castração, seu comportamento gradativamente mudou para altos níveis de ansiedade ao redor de estranhos (manifestada como latidos, tremores, cauda entre as pernas, olhos muito abertos e evasão). Além disso, o cão ganhou peso muito rapidamente e ficou manco no membro pélvico direito, com o problema localizado na articulação coxofemoral; nesse contexto, o cão mancava após exercícios, não conseguia mais pular, relutava em correr ou se exercitar vigorosamente, entre outras limitações.

          Aos 13 meses de idade, radiografias de ambos os quadris revelaram acetabular raso bilateral e uma cabeça femoral direita deformada. Uma dieta de restrição calórica e suplemento diário concentrado de ômega-6 e ômega-3 foram recomendados, porém sem eficácia. Aos 20 meses de idade o cão estava com uma massa corporal de 31,8 kg e os mesmos problemas físicos e comportamentais. Vários outros tratamentos foram testados, incluindo administração do antidepressante fluoxetina, mas sem sucesso, com a massa corporal alcançando um máximo aos 26 meses de idade (32,4 kg).

           Aos 46 meses de idade, sem significativas melhoras, terapia de reposição hormônio-gonadal foi iniciada, através da administração exógena de cipionato de testosterona, em um regime visando alcançar níveis sustentados e normais de testosterona observados em um cão similar não-castrado (1,2-2,2 ng/mL). Para alcançar um nível normal de hormônio LH, um implante com liberação do agonista GnRH foi aplicado. 

           Dentro de 45 dias após o início da terapia hormonal, a massa muscular do cão aumentou de forma notável, especialmente nas pernas traseiras e no quadril, e a mobilidade melhorou de forma significativa. O cão passou a correr e a pular como outros cães saudáveis que também residiam na casa. A massa corporal foi estabilizada em ~28 kg. Enquanto que o cão continuava expressando ansiedade e evasão frente a estranhos, a intensidade dessas respostas comportamentais foi reduzida. Após 12 meses, as melhoras clínicas se sustentaram, mas os níveis de hormônio LH aumentaram (19 ng/mL), e significativo aumento de massa corporal foi observado (32,5 kg aos 66 meses de idade) indicando necessidade de trocar o implante.

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          O relato de caso exemplifica como castração feita sem qualquer avaliação de riscos e benefícios pode ser deletéria, englobando problemas que vão além de riscos para problemas físicos de saúde. O relato também fornece evidência (limitada) de suporte para terapias de reposição hormonal para cães castrados enfrentando efeitos colaterais adversos.


   OBESIDADE E CASTRAÇÃO

          Existe forte associação entre castração e suscetibilidade ao sobrepeso e à obesidade em cães e gatos. Andrógenos (ex.: testosterona) são hormônios anabólicos, os quais promovem aumento no consumo alimentar e na massa muscular, enquanto estrógenos são catabólicos, reduzindo o consumo alimentar e a massa corporal. Ambos os hormônios são dramaticamente reduzidos após o procedimento de castração, já que são produzidos quase que exclusivamente nas gônadas. Talvez mais importante, mudanças nos níveis de atividades físicas com o declínio desses hormônios é um fator crucial para o ganho (adiposo) de peso. Existe também limitada evidência de que a castração pode também afetar outros hormônios associados ao apetite (ex.: grelina, leptina, adiponectina, entre outros).  

           Com base nas evidências científicas acumuladas até o momento, aponta-se que o risco aumentado de obesidade após a castração não é motivado apenas pelo aumento no consumo alimentar mas principalmente pela redução da demanda energética (reduzido metabolismo e reduzido nível de atividade física). Em gatos, a potencial obesidade pós-castração é também acompanhada com um elevado risco para diabetes tipo 2.

           Portanto, para prevenir ganho excessivo de gordura corporal, os donos de cães e gatos castrados devem dar atenção especial à dieta desses animais e incentivar atividades físicas exaustivas (ex.: permitir que o cão corra livre pelo jardim ou propriedade), de acordo com as orientações de profissionais veterinários. Entre recomendações gerais relativas ao consumo de macronutrientes para cães e gatos castrados (Ref.4): 

- Proteínas: Recomenda-se aumentar o consumo proteico, fator que pode ser especialmente importante em cães machos devido à drástica redução no nível de testosterona. Além disso, maior quantidade de proteína pode aumentar a saciedade, ajudando a prevenir o consumo calórico excessivo.

- Gorduras: As gorduras são nutrientes energeticamente densos, portanto recomenda-se que o consumo de alimentos gordurosos seja reduzido. No entanto, é extremamente importante respeitar o mínimo requerido desse nutriente para cães e gatos.

- Carboidratos: Cães e gatos não precisam consumir carboidratos na dieta. Reduzir ao máximo o consumo de carboidratos é, portanto, recomendado, dispensando-se uma fonte de energia que não é essencial para esses animais.

- Fibras: Recomenda-se aumentar o consumo de fibras, as quais podem ser úteis na promoção de saciedade e na redução da densidade energética dos alimentos.

> Para vitaminas e minerais, não existe atualmente recomendação no sentido de alterar os níveis desses micronutrientes para cães e gatos castrados.

          Importante mencionar, um estudo de 2019 conduzido na Dinamarca (Ref.13), analisando um total de 268 cães (20,5% acima do peso ideal), encontrou que o risco para obesidade ou sobrepeso só era aumentado de forma significativa com a castração em cães machos. Para as fêmeas, os pesquisadores encontraram significativa predisposição para a obesidade ou sobrepeso independentemente do status de castração. Donos com sobrepeso ou obesos também representaram um fator de risco para obesidade ou sobrepeso nos seus cães.

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   CONCLUSÃO

          Castração é um procedimento amplamente disseminado para cães e gatos, e uma medida efetiva de controle populacional. Para gatos, enquanto existe ainda dúvidas sobre efeitos adversos de longo prazo, o procedimento é fortemente recomendado após completa vacinação, independentemente do sexo e da idade, mas recomenda-se que a castração seja feita idealmente de forma precoce (~4 meses de idade). Para cães, uma análise individual com balanço de riscos e benefícios é recomendada, levando-se em conta principalmente a linhagem canina, o porte, a idade e o sexo. Devido ao risco aumentado de obesidade pós-castração, atenção especial deve ser dada à dieta de cães e gatos castrados. Por fim, apesar de mais custosos, existem procedimentos cirúrgicos alternativos de esterilização que preservam as gônadas desses animais, e podem ser preferíveis em muitos casos, em particular nos cães.


> ATENÇÃO: Qualquer importante decisão visando a saúde do seu animal de estimação deve ser feita junto a um profissional veterinário responsável. Este artigo apenas fornece informações gerais sobre o tema, com fins de conscientização e divulgação científica.


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. Oberbauer et al. (2019). A Review of the Impact of Neuter Status on Expression of Inherited Conditions in Dogs. Frontiers in Veterinary Science. https://doi.org/10.3389/fvets.2019.00397
  2. Rebolo-Ifrán et al. (2021). Cat and dog predation on birds: The importance of indirect predation after bird-window collisions. Perspectives in Ecology and Conservation, Volume 19, Issue 3, Pages 293-299. https://doi.org/10.1016/j.pecon.2021.05.003
  3. Yates & Leedham (2019). Prepubertal neutering in cats and dogs. In Practice, 41(7), 285–298. https://doi.org/10.1136/inp.l5007
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