YouTube

Artigos Recentes

O que é endometriose?

 
          Uma mulher de 26 anos apresentou-se ao hospital com recorrente hemoptise (tosse com sangue) coincidindo com seus ciclos menstruais. Tomografia computacional (CT) sem contraste dos pulmões da paciente mostrou um nódulo cavitário com uma aparência fosca no lobo inferior direito (Fig.1). Uma resseção toracoscópica vídeo-assistida foi realizada. Análise histopatológica mostrou glândulas endometrióticas e estroma, confirmando o diagnóstico de endometriose torácica. Após intervenção cirúrgica, a paciente ficou livre de sintomas nos próximos 2 anos de acompanhamento.

- Continua após o anúncio -


   ENDOMETRIOSE

          Endometriose é uma condição benigna, comum e estrógeno-conduzida, sendo caracterizada pela presença de glândulas semi-endometriais e estroma (tecido conjuntivo vascularizado de suporte) fora da cavidade uterina. É estimado que a endometriose afeta aproximadamente 5-10% das mulheres em idade reprodutiva, porém algumas evidências sugerem uma taxa de incidência significativamente maior (10-15%). Nessa população, 12% são estimadas de experienciar endometriose de órgãos não-reprodutivos, referido como endometriose extragenital. A condição se manifesta mais comumente enxertada dentro da cavidade peritoneal, e o mais comum local de endometriose fora da cavidade abdominal-pélvica é dentro da cavidade torácica. 



          A manifestação histológica da endometriose ocorre de três principais modos: (1) como implantes superficiais sobre a superfície peritoneal, classificada como superficial ou peritoneal; (2) cistos ovarianos chamados de endometriomas ; ou (3) lesões profundas que infiltram a superfície peritoneal em mais do que 5 milímetros, as quais são classificadas como endometriose profunda. Endometriomas ovarianos ocorrem em 17-44% dos pacientes diagnosticados com endometriose.

          A patofisiologia da endometriose origina-se de um amplo espectro de fatores genéticos e influências ambientais (ex.: epigenética). O risco de endometriose para parentes de primeiro grau aumenta em até 10,2% contra 0,7% em um grupo de controle (Ref.3), mas genes e fatores epigenéticos revelados até o momento, coletivamente, explicam apenas 5% da variância (Ref.4). Outros fatores como estresse oxidativo, resistência a apoptose, desregulação imunológica (Ref.5) e expressão aberrante de cadeias longas de RNA não-codificante (lncRNAs) (Ref.6) também parecem contribuir significativamente para essa doença. Mais recentemente, níveis relativamente baixos de testosterona durante o desenvolvimento fetal têm sido fortemente ligados, em parte, à emergência da endometriose, em um contexto evolutivo de seleção natural favorecendo maior fecundidade a nível populacional do Homo sapiens - algo que explicaria a alta prevalência da condição na população humana (Ref.7). 

          Nesse caminho, existem duas principais hipóteses relativas ao desenvolvimento da endometriose: 

- A primeira hipótese propõe que a endometriose é causada por 'fluxo retrógrado', quando a mucosa uterina (endométrio) flui para trás através das trompas de Falópio no abdômen, em vez de deixar o corpo pela vagina. Isso faria com que células endometriais se estabelecessem fora do útero. Porém, pelo menos 90% das mulheres expressam algum grau de menstruação retrógrada, e apenas uma pequena parte desenvolve a condição. Além disso, não explica manifestação da endometriose em partes distantes do corpo, como a cavidade torácica. Ou seja, esse fenômeno sozinho não pode ser responsável pelo estabelecimento da doença.

- A segunda hipótese propõe que tecido endometrial ectópico pode ser derivado de células do sistema reprodutivo feminino (duto Mülleriano) manifestando diferenciação alterada, migração ou ambos, durante o desenvolvimento uterino. Essa hipótese pode explicar lesões ectópicas em locais diversos do corpo além da cavidade peritoneal, assim como casos extremamente raros da condição em indivíduos do sexo masculino (dada à presença dos dutos Müllerianos no início do desenvolvimento fetal). Porém, a validade geral dessa hipótese é ainda desconhecida.



 

         A endometriose frequentemente resulta em dor pélvica crônica e severa, dispareunia e fertilidade alterada, mas também pode incluir comumente dismenorreia (cólica menstrual), disuria (dor ao urinar) e fatiga crônica. Estima-se que a endometriose é responsável por 50-80% dos casos de dor pélvica em mulheres e adolescentes e que 30-50% das mulheres com a condição possuem problemas de infertilidade (Ref.10-11). Os sintomas emergem e, para muitas mulheres, se intensificam durante um número de estágios críticos de vida, como na adolescência e no período de gravidez. Nesse último ponto, existe evidência sugerindo um risco aumentado de parto prematuro para mulheres com endometriose (Ref.12). Existe também limitada evidência sugerindo um maior risco de câncer de ovário, de tireoide e minimamente (apenas 4% maior risco) de câncer de mama em mulheres com a condição (Ref.13).

          Endometriose dentro do parênquima pulmonar ou sobre o diafragma e superfícies pleurais produz um espectro de manifestações clínicas e radiológicas, incluindo pneumotórax catamenial, hemotórax catamenial, hemoptise catamenial, nódulos pulmonares, hérnia diafragmática, dor pulmonar catamenial e efusão pleural endometriose-relaciona. Coletivamente, essas manifestações são conhecidas como síndrome da endometriose torácica. 

- Continua após o anúncio -


          A endometriose ainda é uma doença diagnosticada tardiamente, e sua natureza crônica, associada ao início tardio do tratamento, frequentemente contribui para a deterioração da qualidade de vida e desenvolvimento de sofrimento psíquico das mulheres afetadas. Não existe cura, e controle da condição tipicamente envolve reduzir ou eliminar o estímulo estrogênico que promove a proliferação do tecido endometrial (assim como os ciclos normais e fertilidade), estratégias terapêuticas para minimizar os processos associados à patogênese da condição (ex.: inflamação e formação de espécies oxidativas), cirurgia para remover as lesões ou histerectomia (remoção cirúrgica do útero). Cirurgia para a remoção das lesões pode reduzir os sintomas, mas cerca de 50% dos pacientes manifestam recorrência após 5 anos. 

          Existe evidência limitada de progressiva redução das taxas de incidência da endometriose nas últimas décadas, ligadas talvez a mudanças nas taxas de natalidade e uso crescente de métodos hormonais contraceptivos (Ref.13). 

----------

CURIOSIDADE: Não apenas humanos modernos (H. sapiens), mas outros primatas com ciclo menstrual também podem desenvolver endometriose. Babuínos (Papio anubis) - cujo ciclo menstrual é similar àquele de humanos - é o exemplo mais conhecido, desenvolvendo espontaneamente endometriose com lesões ectópicas semelhantes àquelas observadas na nossa espécie (Ref.16). 

-----------


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. https://www.nejm.org/image-challenge
  2. Nezhat et al. (2019). Thoracic Endometriosis Syndrome: A Review of Diagnosis and Management. JSLS : Journal of the Society of Laparoendoscopic Surgeons, 23(3), 00029. https://doi.org/10.4293/JSLS.2019.00029
  3. Gaspari et al. (2021). Multigenerational endometriosis : consequence of fetal exposure to diethylstilbestrol ?. Environmental Health 20, 96. https://doi.org/10.1186/s12940-021-00780-5
  4. Missmer et al. (2021). Impact of Endometriosis on Life-Course Potential: A Narrative Review. International journal of general medicine, 14, 9–25. https://doi.org/10.2147/IJGM.S261139
  5. Crispim et al. (2020). Endometriosis: What is the Influence of Immune Cells? Immunological Investigations, Volume 50, Issue 4, Pages 372-388. https://doi.org/10.1080/08820139.2020.1764577
  6. Wang et al. (2020). Long noncoding RNAs in endometriosis: Biological functions, expressions, and mechanisms. Journal of Cellular Physiology, Volume236, Issue 1, Pages 6-14. https://doi.org/10.1002/jcp.29847
  7. Natalie et al. (2021). The evolutionary biology of endometriosis, Evolution, Medicine, and Public Health, Volume 9, Issue 1, 2021, Pages 174–191, https://doi.org/10.1093/emph/eoab008
  8. Malvezzi et al. (2020). Endometriosis: current challenges in modeling a multifactorial disease of unknown etiology. Journal of Translational Medicine, 18, 311. https://doi.org/10.1186/s12967-020-02471-0
  9. Taylor et al. (2021). Endometriosis is a chronic systemic disease: clinical challenges and novel innovations. The Lancet, 397(10276), 839–852. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(21)00389-5
  10. Zhang et al. (2020). Global, regional, and national endometriosis trends from 1990 to 2017. Annals of the New York Academy of Sciences, Volume 1484, Issue 1, Pages 90-101. https://doi.org/10.1111/nyas.14468
  11. Taylor et al. (2021). Endometriosis is a chronic systemic disease: clinical challenges and novel innovations. The Lancet, 397(10276), 839–852.
  12. Bonuccelli et al. (2021). Premature Birth in Women with Endometriosis: a Systematic Review and Meta-analysis. Reproductive Sciences. https://doi.org/10.1007/s43032-021-00712-1
  13. Marina et al. (2021). Endometriosis and cancer: a systematic review and meta-analysis, Human Reproduction Update, Volume 27, Issue 2, Pages 393–420. https://doi.org/10.1093/humupd/dmaa045
  14. Gabriela et al. (2020). Plants as source of new therapies for endometriosis: a review of preclinical and clinical studies. Human Reproduction Update, Volume 27, Issue 2, Pages 367–392. https://doi.org/10.1093/humupd/dmaa039
  15. Andrew et al. (2021). Endometriosis recurrence following post-operative hormonal suppression: a systematic review and meta-analysis, Human Reproduction Update, Volume 27, Issue 1, Pages 96–107. https://doi.org/10.1093/humupd/dmaa033
  16. Braundmeier & Fazleabas (2009). The non-human primate model of endometriosis: research and implications for fecundity, Molecular Human Reproduction, Volume 15, Issue 10, Pages 577–586. https://doi.org/10.1093/molehr/gap057