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Rinocerontes fazem parceria com pássaros contra humanos caçadores

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          Apesar do comércio de chifres de rinoceronte ter sido banido em 1977 pela Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES), a demanda e os preços no mercado negro continuam crescendo, empurrando todas as cinco espécies de rinocerontes ainda existentes para a beira da extinção. Em meio à caça descontrolada e supérflua que perdura por várias décadas - mas com origem desde o início do último milênio ou mais -, pesquisadores agora revelaram que uma provável e surpreendente relação de cooperação entre duas espécies evoluiu como um meio de defesa contra caçadores. O achado foi detalhado em um estudo publicado no periódico Current Biology (Ref.1).

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   RINOCERONTES, CHIFRES E CAÇADORES

          Os rinocerontes são mamíferos herbívoros de grande porte da família Rhinocerontidae, distribuídos hoje em cinco espécies pertencentes a quatro gêneros que habitam regiões na África e na Ásia. Duas espécies (rinocerontes-negros e rinocerontes-brancos) são Africanas e três (rinocerontes-de-Java, rinoceronte-Indiano e rinoceronte-de-Sumatra) são Asiáticas. Habitam regiões tropicais e subtropicais de savanas e outras vegetações rasteiras, além de florestas tropicais úmidas e desertos.


          De acordo com o Fundo Mundial da Vida Selvagem (WWF), os chifres de rinoceronte são ilegalmente e primariamente obtidos na África do Sul e na Índia e seguem então para mercados-negros na China e no Vietnã onde são usados para medicinas tradicionais sem valor científico que prometem curar de tudo, desde câncer até impotência sexual (!). Existe também fomento para a caça na forma de item de colecionadores e para a manufatura de esculturas (consideradas presentes de prestígio entre certas elites Sul-Asiáticas). Valendo mais do que ouro e diamante, o quilo de chifre chega a valer mais de US$65 mil no comércio ilegal, e um único chifre de rinoceronte-branco (Ceratoterium simum) pode somar uma massa de 4 kg. Os caçadores chegam a abocanhar entre US$20 mil e US$30 mil para cada 9 quilos do material ou entre US$500 e US$20 mil para cada rinoceronte abatido, algo mais do que tentador em regiões muito pobres da Ásia e da África. 

             Essa elevada e irracional valorização dos chifres têm levado também a uma profissionalização cada vez maior dos caçadores, tornando-os ainda mais perigosos. Alguns desses caçadores usam dardos tranquilizantes, mas o estrago feito ao retirar o chifre é tão grande que grande parte dos espécimes capturados acabam sucumbindo depois de um tempo após a extração. 

           Para piorar, frequentemente quando um desses animais é morto, filhotes são deixados sem proteção ou as vítimas podem estar grávidas. Com isso, para cada 1000 mortos, podemos adicionar quase 400 outros óbitos como efeito colateral. Estima-se que hoje existam apenas algo em torno de 29 mil rinocerontes vivos em estado selvagem (fora de parques, reservas e zoológicos), e a taxa de natalidade entre as populações que ainda persistem está quase se aproximando da taxa de mortalidade. O rinoceronte-negro (Diceros bicornis) está em situação crítica, sendo cada vez mais raro encontrá-lo em território selvagem (população total de ~5 mil indivíduos espalhados ao longo do território Africano). Aliás, três subespécies de rinoceronte-negro já foram declaradas extintas até 2011. Mas a espécie em pior situação é o rinoceronte-de-Java (Rhinoceros sondaicus), o qual é estimado ter uma população total inferior a 100 indivíduos! 

          Em Moçambique, os rinocerontes já não existem mais. No Quênia, a população de rinocerontes, no passado, costumava ser de 200 mil indivíduos. Na década de 1980, a população caiu para 200! Devido a programas de conservação, a população subiu para, aproximadamente, 600 indivíduos nos últimos anos, um número ainda muito preocupante apesar do substancial avanço. Em 2016, o governo do Quênia apelou inclusive para o uso de milícias em reservas. Essas milícias são armadas e treinadas por oficiais Britânicos para a defesa dos rinocerontes, e são autorizadas a matar qualquer caçador que seja avistado nas redondezas. A preocupação não é apenas ambiental, já que o declínio acentuado das populações de rinocerontes é péssimo para o turismo.

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SUDAN Aos 45 anos de idade, Sudan era o último macho da sua subespécie (Ceratotherium simum cottoni - Rinoceronte-Branco-do-Norte) no planeta, mas acabou morrendo em março de 2018 no Quênia, África (Ref.10). Sudan deixou para trás as duas últimas fêmeas da subespécie ainda vivas no mundo: sua filha e sua neta. A única esperança agora para a recuperação da subespécie é a partir do desenvolvimento de técnicas de fertilização in vitro (FIV) que possam ser utilizadas com sucesso nesses mamíferos - em específico, com a ajuda de sêmen armazenado e uso de rinocerontes-brancos-do-sul fêmeas como mães de aluguel. Sudan tinha sido colocado sob vigilância militar 24 horas por dia desde 2015, para protegê-lo de caçadores. Acabou tendo que ser sacrificado devido a graves complicações decorrentes do avanço de idade.

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          Se a caça continuar no atual ritmo, é estimado que dentro de 20 anos esses animais se tornarão extintos no ambiente selvagem Africano. As autoridades encontram muita dificuldade em combater os caçadores ilegais, tanto pela limitação econômica e de recursos tecnológicos em vários países Africanos, quanto pela enorme extensão das áreas de proteção.

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          Na África do Sul temos hoje a maior população de rinocerontes do planeta (80% do total), e na última década foram perdidos mais de 7200 indivíduos para a caça. Os rinocerontes-brancos somam cerca de 20,4 mil indivíduos na África, e cerca de 95% (~19000) deles se encontram na África do Sul; 40% (~1900) da população de rinocerontes-negros se encontram no país. É estimado que existiam aproximadamente 65 mil rinocerontes-negros em 1970, com drástica redução para 2400 indivíduos em 1995, e com programas de conservação dobrando esse valor até 2016. Em 2015, 1175 rinocerontes foram mortos por caçadores na África do Sul, representando um aumento de 5000% na caça desses animais no país desde 2007. Ainda hoje, apesar de significativa redução, as taxas de caça continuam altas no país.

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(!) CURIOSIDADE REVOLTANTE: Os chifres dos rinoceronte não possuem nada de especial em termos de composição química. Essas estruturas são formados da mesma proteína - sim, não são estruturas ósseas - que constitui os chifres dos bois e a nossa unha: queratina. Portanto, o pó de chifre de rinoceronte, tão valorizado em várias ramificações da medicina oriental Chinesa, possui, virtualmente, as mesmas propriedades do que a raspa das nossas unhas. E queratina é algo muito barato e comum, sendo encontrada em abundância em diversos seres vivos, inclusive na nossa pele. Ou seja, os rinocerontes estão sendo sacrificados por nada.
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   GUARDIÕES DE RINOCERONTES

          Mega-herbívoros adultos são vulneráveis aos caçadores humanos, mas quase imunes a outros predadores. Os comportamentos e armas anti-predadores dos rinocerontes - por exemplo, tamanho e chifres - são muito efetivos contra grandes carnívoros, como as hienas-malhadas (Crocuta crocuta) e leões (Panthera leo). No entanto, esse tipo de defesa é muito menos efetivo contra grupos organizados de humanos (gênero Homo) e suas armas de projéteis, responsáveis pela caça efetiva de rinocerontes através de lanças desde o Pleistoceno Tardio (há menos de 500 mil anos atrás) e, de forma excessiva e descontrolada com o uso de armas de fogo pelos humanos modernos (Homo sapiens). Essa caça descontrolada reduziu a população total de rinocerontes-negros de um total de ~700 mil indivíduos em 1850 para cerca de ~2400 em 1995, impondo extremas pressões seletivas e de deriva genética (Bottleneck) nas populações desses animais.




          Na linguagem Swahili, o pica-boi-de-bico-vermelho (Buphagus erythrorhynchus) significa 'guardião de rinocerontes'. Nativo das savanas da África sub-Saariana, ocorre na região nordeste da África do Sul, onde possui uma forte relação com os rinocerontes-negros. No geral, esse pássaro - um ávido consumidor de insetos - possui uma relação de cooperação com vários grandes herbívoros do território Africano, se alimentando principalmente de piolhos da espécie Rhipicephalus (Boophilus) decoloratus infestando a pelagem desses animais.




           Existem histórias e reportes anedóticos de povos nativos e de caçadores de que os pica-bois-de-bico-vermelho são os sentinelas anti-humanos dos rinocerontes-negros, alertando estes sobre a presença de alguma potencial ameaça humana. No entanto, até o momento, não existiam sólidas evidências científicas confirmando esses relatos. 

           No novo estudo publicado na Current Biology, Dr. Roan Plotz, um ecologista e professor de ecologia comportamental da Universidade de Victoria, Austrália, em colaboração com o cientista ecológico Wayne Linklater da Universidade do Estado da Califórnia, EUA, encontraram conclusivas evidências de que as histórias são reais. Esse pássaro de fato ajuda os rinocerontes-negros a evitarem humanos, e provavelmente co-evoluíram uma relação de cooperação contra caçadores humanos.

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           Para chegarem nessa conclusão, os pesquisadores realizaram uma série de 86 experimentos de campo ao longo de 27 meses no Parque Hluh-luew-iMfolozi, na África do Sul, envolvendo dois grupos de rinocerontes-negros analisados com ou sem o auxílio de radiotelemetria. Rinocerontes rastreados com transmissores de rádio - o que permitiu que os pesquisadores os rastreassem sem serem observados pelos pica-bois-de-bico-vermelho - mostraram carregar os pássaros nas suas costas por mais da metade do tempo. Já os rinocerontes-negros que eles conseguiram acompanhar sem o uso de transmissores de rádio (27 adultos machos e 24 adultos fêmeas de encontrados em 100 ocasiões) não carregavam os pássaros na maior parte do tempo, sugerindo que outros rinocerontes sem rádio-rastreamento que carregavam os pássaros podem ter evitado encontros com os pesquisadores.

          Usando as diferenças de observações entre pica-bois-de-bico-vermelho sobre rinocerontes rastreados com radiotelemetria e aqueles sobre rinocerontes não-rastreados, junto com outros dados analítico associados, os pesquisadores estimaram que entre 40% e 50% de todos os possíveis encontros com rinocerontes-negros foram impedidos pela presença desses pássaros. E mesmo quando os pesquisadores encontravam os rinocerontes-negros com pássaros, as vocalizações de alarme dessas aves ainda pareciam influenciar no comportamento de defesa anti-predatória dos rinocerontes.

          Na segunda parte do estudo, os pesquisadores resolveram realizar experimentos envolvendo a interação direta entre rinocerontes e humanos. Os rinocerontes são praticamente cegos a médias e longas distâncias, conseguindo enxergar bem pouco apenas objetos próximos. Isso torna humanos se aproximando cautelosamente praticamente invisíveis caso não estejam a favor do vento em relação aos rinocerontes. Nesse sentido, nos experimentos, um dos pesquisadores andava na direção cruzada em relação à direção do vento (como mostrado na imagem abaixo) e silenciosamente ao encontro do rinoceronte alvo, enquanto o outro pesquisador ficava registrando o comportamento do animal. Além do comportamento dos rinocerontes, os pesquisadores registraram o número de pássaros carregados por cada espécime e a distância de aproximação do voluntário humano quando os rinocerontes se tornavam vigilantes ou, se não-detectado, se tornava inseguro se aproximar mais do animal.



           Os resultados dos experimentos corroboraram a primeira parte do estudo, e os pesquisadores encontraram que os rinocerontes-negros sem os pássaros detectavam humanos se aproximando apenas 23% das vezes e a uma distância média de 27 metros. Já os rinocerontes com pássaros detectavam humanos se aproximando 100% das vezes e a distâncias médias de 61 metros. E mais: cada pica-boi-de-bico-vermelho extra presente junto aos rinocerontes aumentava a distância de detecção em 9 metros!

          Como também mostrado na imagem acima, os pesquisadores também observaram que os rinocerontes alertados pelos cantos dos pássaros nunca se reorientavam no sentido dos pesquisadores, mas quase sempre se moviam no sentido a favor do vento. Ou seja, os alertas dos pássaros apenas comunicavam a ameaça de proximidade, não o sentido da fonte de ameça, com os rinocerontes assumindo que os humanos caçadores estariam vindo no sentido contra o vento, onde o olfato aguçado desses animais seria anulado - e como geralmente os humanos caçadores ao longo da história sempre fizeram.

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         Juntos, as evidências geradas pelo estudo confirmam que os pica-bois-de-bico-vermelho são importantes companheiros que ajudam os rinocerontes-negros a evitarem encontros com humanos e que facilitam estratégias anti-predatórias efetivas. E os autores sugerem que esses pássaros evoluíram esse comportamento adaptativo como um modo de proteger uma valiosa fonte de alimento: os próprios rinocerontes. Além dos ectoparasitas infestando a pele de rinocerontes, esses pássaros gostam também de se alimentar das lesões abertas e permanentes nos flancos, causadas pelo parasita Stephanofilaria dinniki. A pressão seletiva para essa evolução provavelmente foi o drástico declínio da população de rinocerontes após dezenas de milhares de anos de intensa caça, ou seja, um processo evolutivo relativamente recente.


   RELAÇÃO DE MUTUALISMO?

          Após os pica-bois-de-bico-vermelho lançarem o alerta sonoro, esses pássaros se movem para se agrupar ao longo da coluna espinhal dos rinocerontes, saindo das posições de alimentação mais vulneráveis nos flacos, na parte de baixo e nas pernas. Nesse sentido, essas aves poderiam não estar alertando diretamente os rinocerontes, mas outros da mesma espécie de que humanos estavam se aproximando e que o hospedeiro (rinoceronte) iria se mover. Se isso for verdade, então os rinocerontes podem simplesmente estarem aproveitando os sinais de alerta co-específicos como um alerta anti-humano.

          No entanto, todas as evidências suportam que a extrema seleção imposta pela caça excessiva por humanos parece ter transformado os sinais de alerta desses pássaros em uma relação de real cooperação mútua entre as duas espécies. Além da valiosa fonte de alimento proporcionada pelos rinocerontes incentivando os gritos de alerta, os rinocerontes não se incomodam com esses pássaros se alimentando das suas feridas, como ocorre com outros grandes herbívoros parasitados por essas aves, como o búfalo-Africano (Syncerus caffer). Ou seja, o rinoceronte sabe da importância desses pássaros para a sua segurança contra a nossa espécie, e os pássaros sabem da importância dos rinocerontes como fonte farta de alimento e o perigo que humanos representam.


   QUEM VIGIA OS VIGILANTES?

           No entanto, surge também uma preocupação. As populações de pica-bois-de-bico-vermelho têm declinado significativamente nas últimas décadas, com a espécie se tornando localmente extinta em algumas áreas. A principal causa desse declínio parece ser o uso excessivo de produtos tóxicos anti-ectoparasitas no gado por fazendeiros. Como resultado, a maioria das populações de rinocerontes-negros vivem sem esses pássaros em seus territórios. A reintrodução desses pássaros no ambiente via programas de conservação e de recuperação pode ser uma estratégia válida de investimento para melhor proteger os rinocerontes-negros.

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          Uma melhor detecção preventiva de caçadores humanos proporcionada por esses pássaros pode não parecer muito eficiente à primeira vista contra projéteis, especialmente armas de fogo, mas os erros de pontaria associados se multiplicam com o aumento da distância máxima de aproximação. Um erro direcional de 1% associado ao projétil, a partir, por exemplo, de um lança arremessada de um ângulo de 45°, faz o artefato aterrissar 0,7 metro do centro do alvo a 30 metros de distância e 1,3 metro a 60 metros. Maiores distâncias também tornam a compensação para projéteis balísticos e vento mais difíceis e aumentam a probabilidade de que objetos ao longo do ambiente (ex.: vegetação) irão interceptar o projétil disparado (barrando ou desviando). Detecção prévia também reduz o tempo para os caçadores mirarem e fazem o animal alvo se mover, afetando substancialmente o sucesso da caça.

         Os pesquisadores planejam avaliar agora justamente essa última questão: o quanto de proteção efetiva os pássaros conseguem proporcionar aos rinocerontes, comparando taxas de mortalidade associadas à caça entre populações com e sem essa relação ecológica de cooperação.

   


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS