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Por que os bebês dão 'chutes' durante a gravidez?

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          Os movimentos fetais sentidos por uma mulher grávida são um sinal de que o feto está crescendo em tamanho e força. As mulheres são frequentemente ensinadas pelos profissionais de saúde que a acompanham a monitorarem e ficarem atentas aos movimentos do feto. Isso pode ser na forma de uma recomendação geral para os movimentos fetais, ou a mulher pode ser ensinada a contar o número de chutes em um determinado intervalo de tempo. Uma diminuição nos movimentos fetais pode ser um sinal de alarme para potenciais problemas ou riscos fetais, tornando necessária a avaliação de um profissional de saúde.

          Mas por que os fetos realizam os movimentos repentinos de 'chute' dentro do útero? O mesmo propósito e comportamento é visto em outros mamíferos?

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   CHUTES FETAIS

          Os primeiros movimentos fetais que são sentidos pela mãe são chamados de 'chutes'. Uma das funções desses movimentos é em alertar a mulher grávida de que ela possui um feto em desenvolvimento no seu útero. Os chutes geralmente ocorrem entre 16 a 22 semanas da gravidez, mas a frequência desses movimentos não é constante durante toda a gravidez, atingindo geralmente uma fase de não-variação a partir da 32° semana. Porém, os chutes nem sempre são um sinal positivo de gravidez, já que outros movimentos no corpo podem imitar movimentos iniciais do feto, como movimentos peristálticos, flatulência e contrações musculares abdominais.

          A maior parte dos profissionais de saúde recomendam que as mulheres monitorem os movimentos fetais, especialmente a partir do terceiro trimestre. Isso pode ser cumprido via simples monitoramento dos movimentos gerais durante o dia, reportando suspeitas de significativa redução, ou via contagens de movimentos fetais mais formais, método às vezes chamado de 'contagem de chutes': geralmente as grávidas são instruídas a realizarem 10 contagens de chutes durante um período de 2-3 horas sempre no mesmo horário do dia; se a contagem cair para menos de 10, o médico deve ser informado para exames mais detalhados. Existem, claro, problemas de falsos-positivos devido a contrações uterinas, movimentos respiratórias ou sem motivos aparentes; as chances de engano são diminuídas quando os chutes fetais são mais grosseiros e vigorosos. Fatores como sobrepeso/obesidade, placenta situada na frente do útero, medicamentos sedativos, excesso ou escassez de fluído ao redor do feto, rotina agitada, e feto menor do que o esperado para um certo período de gravidez podem dificultar a sensação desses movimentos pela grávida.

          A redução da movimentação fetal está associada a um maior risco de prematuridade, baixo peso do recém-nascido, ou mesmo de morte fetal no período de anteparto. Assim como os adultos, cada feto possui padrões individuais de movimentação, por isso as grávidas devem se acostumar com os padrões de chutes dos seus bebês e não tentar ficar comparando com os de outras grávidas.

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   FUNÇÕES NEUROMUSCULARES

          Além de serem um óbvio sinal de gravidez, os movimentos fetais estão relacionados ao desenvolvimento dos músculos e do sistema nervoso do bebê. Movimentos isolados dos membros são fundamentais para a maturação e o mapeamento dos circuitos somatomotores espinhal e supraespinhal em modelos de animais não-humanos. Os sinais aferentes gerados pelos movimentos fetais são somatotopicamente codificados no córtex pelas oscilações neurais alfa-beta, ancorando representação em córtices somatomotores primários ao 'layout' físico do corpo. Nesse sentido, essas oscilações alfa-beta são, na verdade, um crucial processamento sensorial primário em jovens mamíferos.

          Em mamíferos não-humanos mais comumente estudados em laboratório, interferência nesses padrões comprometem o desenvolvimento normal de mapas corticais, sugerindo um papel permissivo no desenvolvimento cortical. Essas oscilações cerebrais são muito mais prováveis de serem engatilhadas por atividades motores espontâneas durante o sono ativo (precursor do sono de movimento rápido dos olhos, REM) do que durante o estado despertado, e persistem tão tarde quanto no dia 12 do pós-parto, o que é amplamente equivalente ao período gestacional completo humano.

          Movimentos isolados dos membros em bebês humanos muito prematuros (cerca de 30 semanas) evocam oscilações somatotópicas alfa-betas similares, às vezes excedendo ondas deltas lentas, especialmente durante o sono ativo. Essa observação sugere um papel permissivo análogo a esses padrões elicitados de movimentos no desenvolvimento humano cortical. Ou seja, os fetos nas grávidas humanas também estariam buscando criar mapas cerebrais dos seus corpos através dos chutes.

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   MAPEAMENTO NO CHUTE

           Em um estudo publicado no final de 2018 na Scientific Reports (Ref.3), pesquisadores da University College London (UCL) encontraram a primeira forte evidência de que os fetos humanos realmente estão criando mapas cerebrais do corpo com os chutes, permitindo que eles eventualmente explorem o ambiente ao redor.

          Para o estudo, os pesquisadores analisaram 19 bebês prematuras com idades de 2 dias na média, e com idades gestacionais corrigidas (levando em conta o tempo para as análises) entre 31 e 42 semanas. Em seguida, via eletroencefalografia (EEG), eles mediram as ondas cerebrais produzidas quando os bebês chutavam com seus membros (movimentos bruscos e espontâneos) durante o estado de sono REM, e encontraram que ondas cerebrais rápidas (associadas às oscilações alfa-beta movimento-relacionadas) - um padrão tipicamente visto em neonatais - eram ativadas no hemisfério cerebral correspondente.

          Por exemplo, o movimento da mão direita de um bebê prematuro causava um imediato ativamento das ondas cerebrais no hemisfério esquerdo do cérebro, na parte onde ocorre o processamento de tato para a mão direita. O tamanho dessas ondas cerebrais se mostraram substancialmente maiores nos bebês prematuros, estes os quais, nessa idade, estariam ainda dentro do útero.

          O achado, portanto, fortemente sugere que os chutes fetais nos últimos estágios da gravidez - no terceiro trimestre - de fato ajudam no desenvolvimento de áreas no cérebro que lidam com o processamento sensorial (plasticidade somatossensorial), e é como o feto humano desenvolve um senso do seu próprio corpo e se prepara para entrar no mundo exterior. As ondas cerebrais rápidas evocadas pelo movimento (a atividade alfa-beta movimento-relacionada sobrepondo o córtex somatossensorial) desaparecem quando os bebês estão com alguns meses de idade (pós-parto).

"Movimentos espontâneos e consequente feedback do ambiente durante o período inicial de desenvolvimento são conhecidos de serem necessários para o mapeamento cerebral apropriado em animais como ratos. Nesse estudo, mostramos que isso parece ser verdade também para humanos", explicou o autor principal do estudo, Dr. Lorenzo Fabrizi, para o jornal da UCL (Ref.4).

"Nós acreditamos que os achados possuem implicações para o fornecimento de um ambiente hospitalar ideal para os bebês prematuros, para que eles recebam os sinais sensoriais apropriados", disse outra autora do estudo, Kimberley Whitehead, pesquisadora no departamento de Neurociência, Fisiologia & Farmacologia da UCL. "Por exemplo, já é rotina para bebês serem 'aninhados' em suas camas - isso permite que eles 'sintam' a superfície quando seus membros chutarem, como se estivessem ainda dentro do útero."

"Como os movimentos que nós observamos ocorreram durante o sono, nossos resultados dão suporte para outros estudos indicando que o sono deveria ser protegido em recém-nascidos, por exemplo, ao se minimizar os distúrbios associados quando procedimentos médicos são necessários," completou Kimberley.


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK470566/
  2. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4888620/
  3. https://www.nature.com/articles/s41598-018-35850-1
  4. https://www.ucl.ac.uk/school-life-medical-sciences/news/2018/nov/babies-kicking-womb-are-creating-map-their-bodies