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Beber um extra de água pode reduzir drasticamente infecções urinárias recorrentes


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          Bastante comuns entre a população, especialmente entre as mulheres, as infecções do trato urinário podem representar um grande incômodo e também levar a graves complicações. Como são tratadas tipicamente com antibióticos - quando a intervenção medicamentosa é necessária - e estão associadas com várias morbidades, torna-se fundamental o desenvolvimento de novas estratégias para prevenir ao máximo o problema. Nesse sentido, pesquisadores Norte-Americanos descobriram que beber um extra de água pode diminuir drasticamente a recorrência dessas infecções nas mulheres.

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   INFECÇÃO URINÁRIA

          As infecções do trato urinário (ITU) estão entre as mais comuns entre as pessoas, podendo envolver tanto o trato urinário baixo quanto o superior ou ainda ambos. As ITUs ocorrem quando bactérias entram no trato urinário e o infeccionam, e a forma mais comum é a infecção da bexiga, chamada também de cistite. O corpo às vezes pode combater por conta própria a infecção sem quaisquer problemas. No entanto, a infecção pode causar desconforto e pode às vezes se espalhar para os rins. As infecções nos rins, conhecidas como pielonefrite, são bem menos comuns mas mais sérias.



   FATORES DE RISCO E PREVENÇÃO

          Algumas pessoas possuem um risco maior de desenvolverem uma ITU. Mulheres e meninas estão em um grupo notável de maior risco comparado com os homens e meninos devido às diferenças anatômicas na região genital, onde a uretra é mais curta e mais próxima do ânus, o que torna mais fácil para bactérias diversas entrarem no trato urinário. De fato, a maioria das ITUs são causadas pela bactéria Escherichia coli, a qual normalmente vive no intestino humano. Outros fatores de risco que podem ser citados:

- Ter tido ITU prévia;
- Atividade sexual, e especialmente um novo parceiro sexual;
- Mudanças na flora ou na acidez vaginal causada pela menopausa ou uso de espermicidas;
- Gravidez;
- Idade (adultos mais velhos são mais vulneráveis);
- Mobilidade reduzida (ex.: após cirurgia ou prolongado repouso em cama);
- Incontinência urinária ou implantação de cateter urinário;
- Pedras nos rins;
- Aumento da próstata.

          É estimado que mais de 50% das mulheres apresentarão um episódio ITU durante a vida. Até 15% das mulheres desenvolvem infecções do trato urinário a cada ano e pelo menos 255 terão uma ou mais recorrências. Em mulheres sexualmente ativas, a incidência de cistite é estimada em 0,5 a 0,7 episódio por indivíduo/ano. Em mulheres jovens, os maiores fatores de risco para a cistite são atividade sexual recente ou frequente, uso do espermicida nonoxinol-9 (inclusive em preservativos) e antecedente de ITU.

          Em crianças muito novas, pode existir às vezes problemas estruturais no trato urinário que podem levar a ITUs mais frequentes. Outros fatores que aumentam o risco de ITUs em crianças incluem o hábito de não urinar com frequência suficiente ou limpar de trás para frente a região anal após a defecação (nas meninas, isso pode forçar a entrada de bactérias no trato urinário).

          Nesse sentido, no geral, hábitos de higiene pessoal podem ajudar a prevenir ITUs recorrentes tanto em adultos quanto em crianças. Algumas dicas:

- Urine antes e depois de uma atividade sexual;
- Mantenha-se bem hidratado e urine regularmente;
- Tome banhos de chuveiro ao invés de banhos de banheira;
- Minimize duchas, e sprays ou pó na região genital;
- Quando ensinar as meninas a se limparem após as evacuações, reforce que o sentido de limpeza deve ser da frente para trás.


   SINTOMAS E TRATAMENTOS

          Entre os sinais e sintomas mais comuns para uma infecção na bexiga, temos:

- Dor ou queimação ao urinar;
- Urinação frequente;
- Sentir a necessidade de urinar apesar de já estar com a bexiga vazia;
- Febre baixa (<38,3°C)
- Urina esbranquiçada ou com sangue;
- Pressão ou cãibra na região da virilha ou abdômen inferior.

          Como já dito, as infecções nos rins são menos comuns e bem sérias. Sinais de aviso incluem dor na parte inferior das costas, febre alta (>38,3°C), náusea ou vômito, mudanças no estado mental, calafrios, ou suores noturnos.

          Crianças pequenas podem não conseguir se expressar sobre seus sintomas, mas alguns possíveis sinais são:

- Febre de causa desconhecida;
- Mudança na cor ou no cheiro da urina;
- Vômito;
- Afobação ou mudanças no apetite.

           Um médico deve ser procurado caso você tenha qualquer um dos sintomas acima, e com urgência caso os sintomas estejam indicando uma possível infecção renal. Outras doenças mais graves também podem apresentar sintomas similares. A maioria das ITUs são causadas por bactérias e podem ser tratadas com antibióticos, porém é preciso tomar cuidado com a crescente crise de resistência bacteriana, sempre utilizando esses medicamentos sob orientação médica e respeitando a forma de administração (doses, horários, etc.) indicada pelo profissional de saúde. O desenvolvimento de bactérias resistentes em um paciente pode favorecer ITUs recorrentes.

          Para algumas mulheres na pós-menopausa, as ITUs podem ser tão recorrentes que se tornam uma condição crônica, requerendo doses diárias de poderosos antibióticos à medida que as populações bacterianas vão evoluindo e se tornando cada vez mais resistentes no corpo da paciente (1). Para mulheres mais velhas, essas infecções podem persistir por até 10 anos e, às vezes, torna-se inclusive uma opção a remoção da bexiga.

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(1) Para saber mais sobre o assunto, acesse: O que são as Superbactérias e a Resistência Bacteriana?

          Um estudo recente publicado no Journal of Molecular Biology (Ref.3) mostrou que a parede da bexiga de mulheres na menopausa com ITU recorrente carregam comunidades de bactérias causadoras de infecções, como a E. coli, Staphylococcus hominis e a Bacillus firmus, algo antes desconhecido e que pode ajudar a melhor entender essa condição crônica e a reduzir a quantidade de antibióticos prescritos.

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   BEBA ÁGUA!

            Outro estudo recente, também visando mulheres com ITU recorrente mas na pré-menopausa, e liderado pelo Dr. Yair Lotan, professor de Urologia e chefe do Centro Médico de Oncologia Urológica do UT Southwestern, EUA, mostrou que pacientes que ingerem mais água por dia experienciam bem menos infecções na bexiga. E a diferença foi mais do que substancial.

          O estudo, publicado no JAMA Internal Medicine (Ref.4), realizou um teste clínico randomizado envolvendo 140 mulheres saudáveis na pré-menopausa (idade média de 35,7 anos) experienciando cistite recorrente. As participantes foram divididas aleatoriamente entre dois grupos: um bebendo um total de 1,5 litro de água em adição aos seus fluídos totais já sendo regularmente consumidos diariamente (grupo da água) e outro grupo que permaneceu consumindo a mesma quantidade regular de fluídos (grupo de controle). Ambos os grupos foram acompanhados por 12 meses.

          Os resultados mostraram um total de 327 episódios de cistite, onde 111 ocorreram no grupo da água e 216 ocorreram no grupo de controle, ou seja, uma redução de 48% com o consumo extra de água. Cerca de 93% das mulheres no grupo da água tiveram dois ou menos episódios de cistite comparado com 88% de mulheres no grupo de controle que tiveram três ou mais episódios. Além disso, a média anual estimada do número de regimes anti-microbianos (antibióticos em sua maioria) usados para tratar os episódios de cistite foi de 1,9 no grupo da água comparado com 3,6 no grupo de controle; a média do intervalo de tempo entre os episódios foi de 142,9 dias no grupo da água comparado com 85,2 dias no grupo de controle; e o tempo médio para o primeiro episódio foi de 148 dias no grupo da água comparado com 93,5 dias para o grupo de controle.

          Aproximadamente 27% das mulheres com o seu primeiro episódio de cistite irão ter, no mínimo, 1 recorrência dentro de 6 meses, e entre mulheres com ITU prévia, 44% a 70% terão uma recorrência dentro de 1 ano. Muitas mulheres com cistite possuem significativas morbidades como dor, desconforto geral, e menor qualidade de vida. E é estimado que 15% dos medicamentos anti-microbianos usados em humanos são para o tratamento de uma ITU.

          Nesse sentido, uma medida simples de prevenção - no caso, uma ingestão extra de no mínimo 1,5 litro de água para as mulheres com baixa ingestão total de fluídos (2) - pode diminuir bastante esse fardo medicamentoso e de morbidade entre as mulheres com ITU recorrente. Isso se torna ainda mais importante no contexto da crise de resistência bacteriana que enfrentamos hoje.

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(2) Agências de saúde recomendam que as mulheres consumam 1,6-2,2 litros de água a partir de fluídos. Na média, estudos mostram que 40% das mulheres (60% em alguns países) consomem menos do que 1,6 litro de água de fluídos por dia (baixo consumo). É importante destacar que a maior parte dos alimentos sólidos também possuem bastante água, mas vêm associados geralmente com uma grande quantidade de calorias, por isso o consumo de boa parte da água diária total a partir de fluídos poucos calóricos (como sucos naturais ou mesmo água filtrada) é recomendado. Para saber mais, acesse: É preciso ingerir 2-3 litros de água pura por dia?
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          O benefício do aumento no consumo de fluídos para a prevenção de cistite é pensado de ser oriundo da diluição e lavagem de substratos utilizados pelas bactérias para o crescimento no tecido da bexiga (limpa o ambiente e reduz a quantidade de nutrientes disponíveis).

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   CONCLUSÃO

          Junto com medidas tradicionais de prevenção, como não segurar urina, urinar antes e depois das relações sexuais e assegurar boa higiene pélvica, a ingestão extra de água (~1,5 litro) para mulheres com infecções do trato urinário recorrentes e que tenham uma baixa ingestão diária de fluídos (água filtrada, sucos, chás, etc.) podem reduzir drasticamente seus episódios de cistite.

> Vídeo recomendado:

           


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.cdc.gov/antibiotic-use/community/for-patients/common-illnesses/uti.html 
  2. Rossi et al. Infecção uninária não complicada na mulher: diagnóstico; Rev Assoc Med Bras 2011; 57(3):258-261
  3. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0022283619302025?via%3Dihub 
  4. https://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/fullarticle/2705079 
  5. https://www.utsouthwestern.edu/newsroom/articles/year-2018/bladder-infection-women.html