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Por que os jacarés e crocodilos gostam de engolir pedras?


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          Muitos vertebrados ingerem pedras*, mas a função desse comportamento não é totalmente entendida. Aves, por exemplo, parecem aderir a esse hábito para facilitar o ato da digestão de alimentos, via ação mecânica das pedras ingeridas dentro do sistema digestivo. Porém, outras hipóteses para a ingestão proposital de pedras possuem pouco suporte científico ou pouco esforço investigativo. Agora, pesquisadores mostraram, em um estudo preliminar publicado na Integrative Organismal Biology (Ref.1), que o Jacaré-Americano (Alligator mississippiensis) engole pedras provavelmente para aumentar a densidade do corpo e conseguir passar mais tempo submerso.

*'Pedras' aqui englobando rochas e minerais.

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   JACARÉ-AMERICANO

          Crocodilos (Crocodylus) e jacarés (Alligator) pertencem a um grupo de répteis chamados de crocodilianos, os quais representam os maiores répteis hoje existentes junto com o Dragão-de-Komodo (1). Das 23 diferentes espécies de crocodilianos no mundo, 2 espécies são nativas dos EUA, e no sul da Flórida é o único lugar onde ambas as espécies coexistem. Uma espécie é o Crocodilo-Americano (Crocodylus acutus) e a outra é o Jacaré-Americano (Alligator mississippiensis).


(1) Leitura recomendada: Os Dragões-de-Komodo são realmente peçonhentos?





          O jacaré-americano é o maior réptil da América do Norte, com um comprimento corporal que varia de 1,8 m até 5 m, com um recorde de 5,8 m. As fêmeas adultas geralmente são bem menores (<3 m) do que os machos adultos (4-4,5 m). No geral, possuem uma média de massa corporal de 15 kg quando adultos. Os primeiros répteis emergiram no planeta há cerca de 300 milhões de anos, com os ancestrais evolutivos do jacaré-americano aparecendo há 160 milhões de anos. Assim como todos os répteis hoje existentes (caso sejam excluídas as aves), os jacarés-americanos são animais de sangue frio, ou seja, ectodérmicos, dependentes da temperatura ambiente para a regulação da temperatura interna. Esse é o motivo pelo qual os jacarés são vistos tomando longos banhos de Sol, visando a regulação da temperatura corporal. Devido à natureza ectodérmica, os jacarés possuem lentas taxas metabólicas e se alimentam menos frequentemente nos meses de inverno, época em que permanecem dormentes em buracos no subsolo.




          Podendo ser encontrados em poças, lagos, canais, rios e pântanos, os jacarés-americanos passam a maior parte do dia na água, se alimentando de quase tudo que se move. A dieta de jovens jacarés consiste em animais de pequeno porte, como insetos, camarão-de-água-doce, pequenos peixes e anfíbios, etc. À medida que o jacaré cresce, sua dieta muda para incluir animais como ratos, siris, grandes peixes e anfíbios, pequenos pássaros, etc. Quando o jacaré fica maduro, sua dieta passa a incluir animais de grande porte, como castores, texugos, grandes aves e peixes, cobras, veados, tartarugas, etc.

          E entre os hábitos alimentares, tem um bem peculiar: a ingestão aparentemente proposital de várias pedras.

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   ENGOLINDO PEDRAS

          Pedras são encontradas no trato digestivo de vários organismos, mas a função de litofagia em várias linhagens é desconhecida. Vertebrados podem ingerir rochas por acidente, ou com a intenção de moer a comida, como uma fonte de minerais, ou para se livrarem de parasitas. Em organismos aquáticos existe também a hipótese de que essas pedras funcionem para aumentar a gravidade específica ou como lastro (auxílio de equilíbrio). No entanto, existem poucos testes experimentais dessas funções, e a maioria dos experimentos têm focado na função de trituração digestiva nas espécies terrestres. Por exemplo, estudos analisando a massa e forma de gastrólitos (pedras no estômago) em avestruzes concluíram que a função deles como moedores gástricos evoluiu ao longo da linhagem de origem das aves.

          De qualquer forma, a hipótese dos gastrólitos para o aumento da densidade específica em organismos aquáticos é bem estabelecida. Aliás, nativos da América do Sul sempre acreditaram que os crocodilianos engoliam pedras para 'aumentar o peso'. Em tetrápodes marinhos, análises comparativas têm sugerido que gastrólitos possuem um papel de regular a capacidade de flutuação ao invés de processar alimentos.

          Devido ao fato que a maioria das rochas possuem uma densidade maior do que o tecido de animais, ingestão de gastrólitos diminuem a flutuabilidade se o volume pulmonar não é aumentado para compensar. Isso pode ajudar a arrastar presas se debatendo para debaixo d´água, ou facilitar manobras no ambiente subaquático - especialmente a capacidade de permanecer em repouso no fundo na presença de correntes. A litofagia também pode permitir que os animais aumentem seu volume pulmonar sem se tornarem muito flutuantes, e, portanto, aumentando a capacidade de armazenamento de oxigênio durante mergulhos. Já foi especulado que os gastrólitos aumentariam o volume pulmonar em torno de 12% nos crocodilos. Isso permite que o animal fique mais tempo debaixo da água, otimizando ações diversas durante a caça de presas.

          No entanto, até o momento, experimentos testando diretamente a relação entre flutuabilidade, capacidade pulmonar, gastrólitos e tempo de permanência debaixo da água são escassos e conflitantes.

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   TESTANDO OS JACARÉS

          Para investigarem o propósito de ingestão das pedras em crocodilianos, pesquisadores no novo estudo publicado no periódico Integrative Organismal Biology (Ref.1) analisaram 7 jacarés-americanos juvenis obtidos do Rockefeller Wildlife Refuge (Louisiana, EUA). No ambiente laboratorial, os pesquisadores realizaram uma lavagem gástrica para a retirada de quaisquer gastrólitos que tenham sido engolidos no refúgio, com radiografias sendo tiradas para assegurar a total remoção. A massa média dos animais era de 3,80 kg.

          Após serem alimentados, os jacarés foram colocados em uma arena de mergulho mantida a 25°C. A arena consistia de um aquário de vidro de 284 L (122 cm de comprimento, 45 cm de largura e 61 cm de altura), o qual teve 3/4 do volume preenchido com água, produzindo uma profundidade de 46 cm. Então, 21 mergulhos de cada jacaré foram registrados, anotando-se o tempo de permanência debaixo d´água.

          Em seguida, pedras de granito (não maiores do que 10 mm em diâmetro) totalizando 2,5% da massa corporal de cada jacaré foram colocadas em cada aquário, e deixadas ali sem mais interferências. Quatro dos sete jacarés voluntariamente engoliram as pedras. Os outros três apenas engoliram parte das pedras. Então, os pesquisadores gentilmente colocaram as pedras restantes em seus estômagos, para que todos os 7 espécimes ficassem sob as mesmas condições experimentais. Então, os pesquisadores registraram mais 21 mergulhos.

           Comparando o resultado das análises, os pesquisadores mostraram que quando os jacarés engoliam as pedras, o tempo de mergulho aumentava em uma média de 88%, equivalente a uma média de 11 minutos extras submersos. Sem os gastrólitos, o mais longo mergulho registrado foi de 14,7 minutos; com os gastrólitos, o recorde foi de 35,4 minutos.

          Esse achado traz a primeira forte evidência da função dos gastrólitos para o aumento de submersão dos crocodilianos, onde a maior densidade das rochas comparado com os tecidos corporais desses répteis compensa uma maior exploração da capacidade pulmonar (maior volume de oxigênio inspirado). A adição de 2,5% de massa corporal via gastrólitos de granito requer um aumento no volume pulmonar de 14,6 ml para manter a mesma flutuabilidade, o que é um aumento no volume pulmonar de ~36%. Esse aumento pode levar a um maior armazenamento de oxigênio e consequente maior duração dos mergulhos.

          Enquanto que crocodilianos adultos podem usar essa estratégia para facilitar a caça de grandes animais - briga debaixo d´água e arraste de animais terrestres -, os indivíduos mais juvenis (como os do experimento acima descrito) podem usar uma maior durabilidade de submersão para fugir de predadores terrestres ou aéreos. De fato, a predação de jacarés filhotes é bastante alta, especialmente por aves.

          Agora, os pesquisadores querem repetir o experimento com jacarés-americanos adultos.

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   CONCLUSÃO

          A função da ingestão de pedras (gastrólitos) nos crocodilianos sempre foi um enigma, existindo algumas hipóteses mas com poucos experimentos para evidências científicas de suporte. O novo estudo fornece agora uma forte evidência de que a função dos gastrólitos nos crocodilianos parece ser realmente de permitir um maior tempo de permanência debaixo d´água sem comprometer a capacidade pulmonar.



REFERÊNCIAS
  1. https://academic.oup.com/iob/article/1/1/oby008/5267479
  2. https://animaldiversity.org/accounts/Alligator_mississippiensis/
  3. https://nas.er.usgs.gov/queries/FactSheet.aspx?speciesID=221
  4. https://www.nps.gov/ever/learn/nature/crocodile.htm
  5. http://www.wlf.louisiana.gov/general-alligator-information