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Corrigindo uma extrapolação dos trabalhos de Darwin: bico das aves vs ecologia alimentar


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          Desde que Charles Darwin (1809-1882) primeiro propôs a Teoria da Evolução via Seleção Natural e Sexual, a partir de um exaustivo estudo observacional e robusta coleta de evidências, grandes avanços foram feitos no campo de pesquisa da Evolução Biológica, especialmente quando os segredos da genética começaram a ser desvendados. Hoje o campo evolutivo constitui a base da Biologia Moderna, e abrange um amplo espectro de teorias e hipóteses relativas aos mecanismos evolutivos e história evolutiva do planeta. Nesse sentido, muitas ideias e hipóteses de Darwin foram otimizadas, descartadas ou substituídas.


          Agora, um estudo realizado por um time internacional de cientistas do Reino Unido, Espanha e EUA, e liderado por pesquisadores da Universidade de Bristol, mostrou que o bico das aves - em termos de formato e tamanho - não evoluíram de forma estritamente dependente com a ecologia de alimentação (dieta e hábitos alimentares). Isso tinha sido extrapolado do argumento utilizado por Darwin para a sua Teoria da Evolução por Seleção Natural. Os resultados do novo estudo foram publicados esta semana no periódico Evolution (1).

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          As observações realizadas por Darwin em Galápagos das diferentes espécies de tentilhões no arquipélago levaram o cientista a concluir que as diferentes formas e tamanhos de bico dessas aves foram adaptadas para diferentes tipos de alimentos. De fato, entre as espécies de tentilhões, as variações observadas pelo cientista Britânico (microevoluções dentro e entre espécies próximo-relacionadas) fortemente refletem diferentes dietas e hábitos alimentares. Outros estudos semelhantes nos últimos anos tinham alcançado conclusões semelhantes em outras espécies próximo-relacionadas. No entanto, essa ideia acabou sendo extrapolada para todos os tipos de aves e suas relações evolutivas, entre espécies, gêneros e famílias (escalas micro- e macroevolucionária), e até o momento ninguém tinha testado a validade desse princípio proposto no meio acadêmico. Livros escolares comumente trazem que os diferentes bicos se especializaram primordialmente para diferentes métodos de alimentação: pequenos bicos para 'bicamento', bicos pesados para esmagar, bicos longos para sondagem, bicos curvados para rasgar, etc.


          Usando técnicas matemáticas e computacionais para melhor entenderem a conexão entre as formas dos bicos e suas funções nas aves hoje existentes, os pesquisadores no novo estudo analisaram a morfologia dessa estrutura aviária e relações filogenéticas em um amplo espectro de espécimes oriundos de coleções em museus (176 espécies no total), passando por águias, papagaios e beija-flores até pinguins, avestruzes e flamingos. Em seguida, eles pesquisaram a dieta e os hábitos alimentares dessas espécies.


          O que os pesquisadores descobriram é que a conexão entre formas, tamanho e outros aspectos estruturais do bico e a ecologia alimentar nas aves é muito mais fraca e muito mais complexa do que antes pensado. Apesar de existir um relação, ela é mínima. Muitas espécies em diferentes gêneros e famílias que possuem bicos bastante similares frequentemente mostraram hábitos alimentares completamente distintos. Na média, ao longo da ordem aviária, os pesquisadores encontraram que a variação no uso do bico durante a alimentação apenas explicava aproximadamente 9% do total de variação na forma do bico, e que a variação nas preferências alimentares (dieta) apenas explicava cerca de 17% da variação morfológica no bico.

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          Segundo os pesquisadores, essa descoberta, apesar de ir contra o senso comum, faz todo sentido, porque as aves usam o bico praticamente para tudo, desde como auxiliar de locomoção entre as árvores até ferramenta para a limpeza das penas. Muitas aves, como os tucanos e os papagaios-do-mar, inclusive usam seus bicos para a exibição de cores com propósitos de identificação e/ou acasalamento, algo que pode ser um fator influenciando no processo evolutivo na forma e tamanho dos bicos. Nesse sentido, funções diversas, e não àquelas ligadas apenas à alimentação, formam uma complexa rede de fatores orientando a evolução do formato geral dos bicos e partes anatômicas auxiliares nas aves. Essa descoberta também irá impactar profundamente o campo de estudos da paleontologia, porque a ecologia alimentar de aves extintas é geralmente realizado via análise da morfologia do bico.




(1) Publicação do estudo: Evolution

Referência adicional: University of Bristol