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Quem veio primeiro: o ovo ou a galinha?

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         Essa, sem sombra de dúvidas, é uma das mais clássica questões já feitas, a qual, aliás, encontra suas origens na Antiguidade. Filosoficamente, a pergunta é uma metáfora descrevendo situações onde não é claro qual entre dois eventos deveria ser considerado a 'causa' e qual deveria ser considerado o 'efeito'. Aristóteles na Grécia Antiga alegava que a galinha e o ovo sempre existiram, em um ciclo infinito atravessando o passado até o presente. Plutarco, um escritor Grego e marcante filósofo, famosamente questionou - em uma interpretação mais moderna e literal da pergunta - quem tinha vindo primeiro, o ovo ou a galinha, na sua obra Morália (século I) (Ref.4).   
                                                   
         Mas explorando a questão em termos exclusivamente biológicos, qual seria a resposta para essa pergunta? Para existir o primeiro ovo teríamos primeiro a galinha, ou para primeiro existir a galinha teríamos primeiro o ovo?

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   O OVO VEIO PRIMEIRO

         Seguindo a evolução biológica Darwiniana/neo-Darwiniana (1), a resposta mais óbvia para a pergunta seria que o ovo - em termos gerais - foi o primeiro a surgir de uma ave que ainda não era uma galinha, mas que deu origem a uma galinha (ou seja, durante o processo de evolução).

(1) Para melhor entender sobre o assunto, acesse: A Evolução Biológica é um FATO


          Há mais de 10 mil anos, na Indonésia, encontramos o ancestral da galinha, conhecido como Galo-Banquiva (Gallus gallus). Nos próximos milhares de anos, a domesticação humana (como ocorreu com os cães), mudanças genéticas e talvez epigenéticas ao longo das gerações dessas aves selecionadas pelo ambiente/homem foram gradualmente dando origem às galinhas (Gallus gallus domesticus) - uma subespécie do Galo-Banquiva, este o qual ainda existe na Ásia -, onde finalmente um espermatozoide e um óvulo suficientemente diferenciado (genoma) de uma proto-galinha fecundaram dentro de um ovo e deram origem à galinha (apesar de não existir, necessariamente, uma clara linha separando o evento final de subespeciação). Existem evidências genéticas conclusivas de que esse processo foi mediado também via hibridização (2) entre o Galo-Banquiva e o Bengal (Gallus sonneratii), essa última uma espécie endêmica da Índia. Portanto, a galinha surgiu do ovo botado por um ancestral selvagem.


        Aliás, em um sentido mais amplo, os ovos típicos das aves - incluindo as galinhas - já existiam desde os dinossauros, onde os representantes terópodes desses répteis foram os ancestrais diretos das aves.

        A ideia de que as aves são descendentes dos dinossauros foi primeiro proposta por Thomas Henry Huxley, em 1869, e uma das evidências mais fortes que ajudaram a moldar essa ideia foi a descoberta em 1861 do famoso dinossauro com penas conhecido como Archaeopteryx. Porém, essa hipótese recebeu relativa pouca importância até a descoberta dos dinossauros do gênero Deinonychus (os famosos 'Velociraptores' da franquia Jurassic Park - apesar deles serem retratados no filme como dinossauros terópodes sem penas por motivos de licença artística) - por Jonh Ostrom na década de 1960. Hoje, depois da descoberta de inúmeras mais espécies e gêneros de dinossauros terópodes em óbvia transição - entre diferentes estágios - para as aves, isso já é um fato martelado no meio acadêmico: as aves descendem evolucionários dos dinossauros.


          Aliás, várias características morfológicas, e até mesmo comportamentais, antes pensadas serem únicas das aves são compartilhadas por vários dinossauros (4), como os ossos pneumáticos preenchidos com ar que primeiro apareceram nos dinossauros do Jurássico Superior, cerca de 200 milhões de anos atrás e eram comuns em Saurischians, como Tyrannosaurus rex e Diplodocus. Nesse sentido, o ovo entra também como ligação direta entre as aves e os dinossauros. Os ovos das aves possuem um número de características únicas não encontradas em outros ovos dos atuais répteis: possuem formatos longos, não-esféricos, e apontam para um dos lados ao invés de serem simétricos. Além disso, as aves encubam seus ovos usando diretamente o calor corporal, e depositam ovos um por vez (onde crocodilos e outros répteis possuem dois ovidutos funcionais para a passagem dos ovos). Dinossauros bípedes, pequenos (1-3 metros, ou menores) e predadores, como o gênero Citipati e o Troodon, compartilham diversas dessas características e ainda existem várias evidências fósseis de que eles usavam o corpo para aquecê-los.

         Claro, e se formos ainda mais fundo, chegaremos que os primeiros ovos com casca dura surgiram na transição final entre anfíbios e répteis, há cerca de 312 milhões de anos - aliás, as aves comumente são englobadas na classe Reptilia por muitos cientistas modernos.


(2) Leituras recomendadas para complementar o assunto: Nova espécie de ave surge em Galápagos, e os cientistas acompanharam o processo evolutivo

(3) A pele amarela é um abundante fenótipo entre as galinhas domésticas e é causada por um alelo recessivo (W*Y) que permite a deposição de carotenoides amarelos na pele. Essa característica genética não se originou do Galo-Banquiva, mas provavelmente do Bengal (Ref.3), uma espécie com próxima relação evolucionária e capaz de hibridização com o Galo-Banquiva.

(4) Para mais detalhes, acesse o artigo: A Evolução Biológica é um FATO


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   A GALINHA VEIO PRIMEIRO

        Porém, contudo, todavia, podemos encarar essa questão sob um outro ângulo de visão, onde o ovo específico da galinha é levado em conta. Pesquisadores há muito tempo sabem que a casca do ovo das galinhas contém uma proteína chamada de ovocleidina-17 (OC-17) - mais especificamente na região mineral do ovo (a parte dura da casca) - e que ela deveria ter algum papel na formação desse material protetor. E um estudo sobre o assunto acabou também quebrando o reinado do ovo como sendo, necessariamente, o antecessor da galinha no processo evolutivo.

        Nesse caso, pesquisadores da Universidade de Warwick e da Universidade de Sheffield, ambas do Reino Unido, utilizaram um supercomputador, em Edinburgh, para descobrir a função dessa proteína via processos metadinâmicos de simulação molecular. As simulações - detalhadas em um estudo publicado em 2010 na Angewandte Chemie International Editio (Ref.4-5) - mostraram exatamente como a proteína se ligava à superfície amorfa do carbonato de cálcio (CaCO3) utilizando dois aglutinados de resíduos de arginina, localizados em dois laços da estrutura proteica, e criando uma espécie de "grampo" químico para nano-partículas de CaCO3. Nisso, a OC-17 induzia as nanopartículas de CaCO3 a se transformarem em cristalitos de calcita que formam pequenos núcleos para o crescimento de cristais. Quando os cristais desse mineral chegam a um certo tamanho, a proteína se desanexa, é reciclada e inicia novamente a catálise dos cristais.

        Esse processo de cristalização mediado pela OC-17 permite o rápido crescimento das cascas de ovos das galinhas, explicando o porquê das galinhas formarem essas cascas com uma velocidade muito maior do que das outras espécies de aves (6 gramas a cada 24 horas).

        Em outras palavras, o trabalho desses cientistas mostrou que o ovo das galinhas é único entre as aves, por causa da presença desse processo de formação através da ajuda da OC-17. Assim, para o ovo das galinhas como hoje conhecemos ter surgido, as galinhas precisavam já existirem. Esse processo pode ter se iniciado logo depois do surgimento da galinha (Gallus gallus domesticus) ou bem mais tarde via microevoluções (com bases genéticas e talvez epigenéticas).     

        Existe também a possibilidade hipotética de que na fase final de transição do Gallus gallus - ou híbrido com o Gallus sonneratii - espécimes ainda não-galinhas sofram processos evolutivos mediados pela epigenética (Neo-Lamarckismo) - regulação de genes (5) para a transferência hereditária de fenótipos não-geneticamente determinados - e marque o ponto final de transição para o Gallus gallus domesticus sem a necessidade de mudanças genéticas ocorrendo antes, fazendo, com isso, que tenhamos uma galinha antes do ovo (Ref.10). Para isso, duas barreiras teriam que ser quebradas: a epigenética para a genética e a somática para as células reprodutores (espermatozoides e óvulos, por exemplo) - ou seja, essas mudanças devem alterar definitivamente o material genético e serem transferíveis via células reprodutoras.


(5) Para mais detalhes, acesse o artigo: A Evolução Biológica é um FATO

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   CONCLUSÃO

        No final, temos que, em termos biológicos, ambas as respostas da mais do que antiga e famosa questão estão corretas! Tanto o ovo quanto a galinha podem ter surgido primeiro se olharmos sob diferentes pontos de vista evolutivos. De qualquer forma, a questão é melhor explorada em termos metafóricos, para a discussão de questões filosóficas de causa e efeito, do que apenas de forma literal - apesar de render uma boa desculpa para se discutir evolução biológica, especialmente em sala de aula!


Artigo Relacionado: Os Pterossauros eram dinossauros?


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20163644
  2. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/7809067
  3. https://archive.is/oDxa
  4. https://ebooks.adelaide.edu.au/p/plutarch/symposiacs/complete.html#section15
  5. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/anie.201000679
  6. https://warwick.ac.uk/newsandevents/pressreleases/researchers_apply_computing/
  7. https://blogs.unimelb.edu.au/sciencecommunication/2017/08/28/which-came-first-the-chicken-or-the-egg/
  8. http://www.cam.ac.uk/research/news/egg-cetera-2-the-answer-to-the-riddle-of-which-came-first
  9. http://www.jstor.org/stable/40267330?seq=1#page_scan_tab_contents
  10. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4486432/