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A Lua pode disparar grandes terremotos?


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           Desde o começo do século XX, os cientistas vem desconfiando da ação das forças gravitacionais da Lua e do Sol como agentes de gatilho para terremotos que ocorrem na crosta do nosso planeta. É uma ideia plausível, já que as forças de estresse provocadas pelo efeito gravitacional lunar e solar variável na crosta terrestre são de considerável magnitude. Mas o que as evidências científicas apontam? A Lua pode de fato engatilhar os grandes terremotos? Existem regiões - direta ou indiretamente - mais afetadas por essa influência gravitacional?


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   EFEITO DE MARÉ

          Por causa das forças desiguais de atração gravitacional na superfície da Terra causadas pela movimentação do Sol e da Lua, uma região terrestre será puxada com mais força para o lado desses corpos do que as outras. Isso é difícil de ser sentido por nós, mas podemos facilmente notar esse fenômeno nos oceanos. Já que a água marinha é um líquido bem fluído, essas resultantes gravitacionais acabam afetando substancialmente os mares, causando a subida e descida de nível dessas massas de água (1). Nos períodos de Lua Cheia e Lua Nova, as diferenças gravitacionais na crosta terrestre são as maiores, onde Terra, Sol e Lua estão alinhados, causando os maiores desníveis (1). Toda essa dinâmica é conhecida como 'Efeito de Maré', e os consequentes estresses na litosfera é proposto de engatilhar os grandes terremotos.

        Sabe-se, a partir de várias análises dos registros de terremotos ao redor do globo, que pequenos tremores podem ser afetados pelo efeito de maré nas áreas oceânicas. O motivo é o fato das variações das marés levarem à movimentação de grandes massas de água nos oceanos, fazendo as forças sobre os blocos submersos das falhas normais e inversas variarem. Assim, os padrões diários e mensais de subida e de descida da maré estariam por trás de terremotos mais tímidos em certas partes do globo, como na falha de San Andreas, na Califórnia, e na região de Cascadia, na Costa Oeste também na América do Norte.

          Mas estudos também suspeitam que o efeito de maré possa guiar um conhecido padrão de atividade dos terremotos mais intensos em torno do Cinturão de Fogo no Pacífico, o ciclo anual ´9/56´ (Ref.2 e 3). Ou seja, em 3 ou 4 sequências de 9 anos no início de um intervalo de 56 anos, grandes terremotos são presenciados, uma ou mais vezes em anos específicos, e isso está relacionado também com um padrão específico de angulação do Sol e Lua com a Terra. Somando-se a isso, um estudo de 2009 realizado por pesquisadores Japoneses (Ref.4), analisando a região de Tamba Plateau, uma área cheia de terremotos no distrito de Kinki, na parte central do Japão, mostrou que micro-terremotos ocorridos entre 1995 e 1996 seguiam um padrão guiado pelas fases lunares e que, durante as Luas Cheias e Luas Novas, a incidência desses eventos aumentavam. Antes de 1995, essa relação não foi encontrada, mas isso pode ser explicado pelo grande terremoto de Hyogoken Nanbu, o qual pode ter deixado a região mais sensível ao efeito da maré.

          Um notável estudo publicado em 2016 na Nature (Ref.1), Satoshi Ide, um sismólogo da Universidade de Tóquio, com a ajuda dos seus colegas, mostrou que durante os períodos de Lua Nova e Cheia, os terremotos tendem a ser mais poderosos. Analisando  registros de terremotos ao redor do globo, especialmente a Califórnia e Japão, foi encontrado que para mais de 10 mil terremotos com magnitude ao redor de 5,5, qualquer um deles que comece durante um período de Lua Cheia ou Nova terá maiores chances de evoluir para um de magnitude 8 ou mais, como aqueles que atingiram o Chile em 2010 e no Japão em 2011. Segundo o estudo, o que estaria ocorrendo é a influência do mais intenso efeito de maré nessas fases lunares - representando as maiores diferenças de forças gravitacionais externas sob a nossa crosta -, levando ainda mais estresse em áreas já no limiar de um terremoto, e culminando em uma maior liberação de energia associada às dinâmicas tectônicas.




          Porém, como notam outros estudos e autores, essas coincidências entre grandes terremotos e fases lunares e solares não tendem a ser estatisticamente significativas. O próprio Ide et al. deixou claro que o seu estudo não era conclusivo e que mais análises de alta qualidade precisam ser feitas. Um estudo publicado em 2018 na Seismological Research Letters (Ref.13), analisando 214 eventos de terremotos com magnitude acima de 8.0 desde o ano de 1600, encontrou um excesso de apenas 5% de grandes terremotos ocorrendo em dias lunares do que em outros. Como esses grandes terremotos geralmente não ocorrem mais de uma vez ao ano, isso torna essa flutuação estatística de pouca utilidade para fazer previsões.

          Para piorar, um estudo publicado no periódico National Science Review (Ref.14), após analisar centenas de milhares de terremotos no território Japonês com magnitude superior a 1.0, encontrou periodicidades de 12 e 24 horas, mas as quais estavam associadas com o Sol - e com o período diurno (meia-noite ao meio-dia) - e não com a Lua! Considerando que a Lua possui um efeito gravitacional 2,2 vezes maior do que o Sol em termos de influência terrestre, isso coloca ainda mais dúvida na extensão de importância do efeito de maré na emergência de terremotos fora das áreas oceânicas. Portanto, pelo menos no Japão, os mecanismos de disparo dos terremotos não parecem estar dominados pela gravitação universal. Seria, de alguma forma inesperada, a influência de ventos solares, excesso de radiação magnética ou variações de temperatura?

          Aliás, recentemente outro mistério envolvendo o efeito de maré e os terremotos foi resolvido em um estudo publicado na Nature Communications (Ref.15). Apesar das incertezas quanto ao efeito de maré na determinação de terremotos nas áreas continentais e como gatilho de grandes terremotos, eventos sísmicos de baixa a moderada intensidade nas regiões montanhosas submersas do meio dos oceanos (no limite das placas tectônicas) estão de fato associados às marés, como já mencionado. Porém, algo inesperado ocorre: terremotos nessas regiões ocorrem preferencialmente nas marés baixas, quando menos massa oceânica está pressionando os blocos mais elevados das falhas normais. Como esses blocos nas falhas normais estão se deslocando para baixo em relação aos blocos inferiores, era de se esperar que uma maior massa oceânica (maré alta) ajudando a empurrá-los seria um fator mais importante para engatilhar os terremotos, ao facilitar a liberação de energia acumulada.

          Para explicar esse aparente paradoxo, os pesquisadores no novo estudo investigaram minuciosamente o Vulcão Axial ao longo da Placa Juan de Fuca no Oceano Pacífico e mostraram que as movimentações das falhas normais gerando os terremotos são fomentadas pela contração e expansão das câmaras de magma no interior da litosfera. Essa "respiração" da câmara de magma, por sua vez, é causada pelas variações de maré, onde na maré baixa, com menos massa de água sobre a câmara, ocorre uma expansão, forçando o bloco inferior da falha a ascender e disparar os terremotos. Além desse achado, os pesquisadores também mostraram que qualquer fonte (natural ou antropogênica) de estresse na crosta terrestre é suficiente para disparar terremotos nessas regiões de falha, o que pode explicar a aleatoriedade desses eventos.

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   CONCLUSÃO

           Apesar das evidências apontando algum tipo de relação entre o efeito de maré e os grandes terremotos, continua ainda bem estabelecido que ninguém consegue derrubar a hipótese de que as taxas globais e regionais de terremotos são essencialmente aleatórias (considerando a remoção dos tremores subsequentes ao principal evento sísmico e aqueles nas áreas oceânicas associados às marés altas e baixas). Não é possível usar as fases lunares para fazer previsões satisfatórias dos terremotos e os fatores engatilhando esses tremores mostram-se múltiplos. Terremotos de alta magnitude já na iminência de ocorrerem podem ser disparados tanto por uma Lua cheia quanto por uma perfuração humana da crosta em busca de combustíveis fósseis (fracking).


(1) Artigo complementar: Como são formadas as ondas e marés?

Artigo relacionado: As fases da Lua afetam os cabelos? 


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.nature.com/news/moon-s-pull-can-trigger-big-earthquakes-1.20551
  2. http://www.davidmcminn.com/eqpages/calquakes.pdf
  3. https://mpra.ub.uni-muenchen.de/51663/
  4. https://www.jstage.jst.go.jp/article/jgeography1889/111/2/111_2_248/_article/-char/ja/
  5. http://www.earthdoc.org/publication/publicationdetails/?publication=84585
  6. http://www.bssaonline.org/content/54/6A/1865.short
  7. http://www.bssaonline.org/content/26/2/147.extract
  8. http://link.springer.com/article/10.1007/BF00561957
  9. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/003192019090218M
  10. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/0012821X67901926
  11. http://srl.geoscienceworld.org/content/75/5/607.full 
  12. https://www2.usgs.gov/faq/categories/9827/3354
  13. https://pubs.geoscienceworld.org/ssa/srl/article-abstract/89/2A/577/525827/do-large-magnitude-8-global-earthquakes-occur-on
  14. https://academic.oup.com/nsr/advance-article/doi/10.1093/nsr/nwy117/5123738
  15. https://www.nature.com/articles/s41467-019-10605-2