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Como explicar nossos momentos de Super Força?


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          Todos aqui já devem ter ouvido aqueles casos sobre força sobre-humana que algumas pessoas conseguem manifestar quando estão em situações de extremo perigo ou estado de real desespero. São famosos os casos de mães sem preparo físico levantando um carro para salvar o filho, ou indivíduos que efetuam saltos inacreditáveis ao fugir de algo ameaçador, ou que desenvolvem velocidades assustadoras ao fugir de um perseguidor perigoso. Na verdade, todos aqui já devem ter passado por uma situação parecida em algum momento da vida. Mas por que isso ocorre? E por que não conseguimos reproduzir isso a qualquer momento de nosso desejo?

           Já de início, é bom esclarecer que esses casos de super força são meio que exagerados. Tipo, uma mãe levantando um carro inteiro é algo impossível devido à nossa constituição física. Um gorila raivoso teria uma certa dificuldade em fazer tal coisa. Nessas situações a mãe provavelmente fez um esforço hercúleo mas que acaba ficando limitado ao seu potencial de força muscular. Certamente, o ´levantar´ fica limitado à inclinar o carro em uma posição favorável ou levantar um pouco a parte de trás ou da frente do veículo. De qualquer forma, para uma mãe, sem preparo físico nenhum, fazer o trabalho de um macaco (ferramenta para a troca de pneu), é algo extraordinário! Vamos entender, então, o porquê disso ocorrer e porque não conseguimos ativar a todo momento tal superpoder.


            O tecido muscular é formado por um número limitado de células musculares, em um número médio idêntico para todas as pessoas, independente se ela faz musculação ou não. Formando as células musculares, encontramos diversas fibras musculares, cada uma delas formadas por proteínas contráteis chamadas actina e miosina. São essas fibras musculares que podem aumentar de número e inchar as células musculares, ou seja, a hipertrofia vista com a prática da musculação. Bem, para ativar a contração, constância ou extensão das fibras musculares existem nervos motores que estão associados com um número X de fibras musculares. Basicamente, são prolongações de neurônios que partem do sistema nervoso central, saem pela coluna espinhal e se ligam aos músculos. Essa enervação motora pode variar de alcance, com algumas englobando diferentes valores de X fibras. A união de um nervo motor e o conjunto de fibras musculares enervados por ele é chamado 'unidade motora muscular'. Quanto mais fibras são recrutadas para realizar um movimento (1), maior será a força daquele movimento. Quanto maior a frequência de impulso nervoso enviado pelo nervo motor para a realização da ação muscular, maior será a intensidade da ação motora e, consequentemente, maior será a força gerada no movimento.
           Com tudo isso estabelecido, fica fácil entender como o cérebro, por exemplo, consegue controlar sua geração de força. Ora, para levantar um copo de café, ele não vai ativar todas as unidades motoras do seu tecido muscular do braço, ou o copo seria arremessado para longe. Para atividades que requerem menor força, ele irá recrutar poucas unidades motoras, ou seja, menos fibras serão contraídas para a ação de levantar o copo da mesa. É por isso que quando vamos pegar algo supostamente pesado e encontramos que era algo bem leve, quase mandamos o objeto longe porque o cérebro já havia enviado sinal para ativar um maior número de unidades motoras, gerando uma maior força impossível de ser parada em um instante.

           Então, vem a pergunta: conseguimos ativar todas as unidades motoras, em sua máxima frequência de impulsos nervosos, para qualquer esforço físico? Não, não chegamos nem perto disso! Alguns pesquisadores da área de fisiologia teorizam que a média da população consegue ativar apenas certa de, no máximo, 60% das unidades motoras em uma frequência de impulso nervoso bem abaixo do máximo! Mesmo levantadores de peso e outros atletas de elite bem treinados conseguem, no máximo da média, utilizar 80% das suas unidades motoras em frequências ainda abaixo no máximo! E qual é o motivo disso?

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            O corpo limita sua capacidade de geração de força para prevenir qualquer dano desnecessário que possa diminuir seu potencial de sobrevivência. Se todos conseguissem usar a todo momento 100% da força muscular, músculos poderiam sofrer graves danos, tendões poderiam desprender dos ossos, ossos poderiam ser fraturados, entre outros. Assim, esse '100%' só seria realmente ativado em situações de vida ou morte, ou de extremo desespero. Tente ficar pendurado em uma barra de academia e muito dificilmente você aguentará ficar ali por 5 minutos. Agora, calcule o tempo que você ficaria pendurado caso ao invés do chão da academia tivesse um abismo te esperando. Provavelmente você conseguiria ficar por umas boas meia hora, ou mais, naquele esforço muscular. Sairia com os dedos todos destruídos caso fosse resgatado, mas estaria vivo.

          Nessas situações críticas, o cérebro libera tudo à sua disposição para que a musculatura libere todo o seu potencial, principalmente através do hormônio adrenalina, o qual faz o coração bater mais rápido e a respiração ser acelerada, ambas as ações usadas para mandar mais sangue com oxigênio e nutrientes para os músculos. Além disso, a adrenalina também ajuda a sinalizar o cérebro a ativar todas as unidades motoras possíveis, em um número proporcional ao perigo da situação enfrentada, e meio que anula as sensações de dores geradas no corpo (estilo levar um tiro e nem sentir durante uma situação tensa de guerra). As dores são um dos grandes fatores de limitação da liberação de força, e avisam o cérebro que os limites estão sendo atingidos.

          Outro exemplo bem claro surge no campo da musculação, onde várias evidências nos últimos anos mostram que apesar de não ser necessário crescentes cargas de peso para um crescente ganho muscular - ou seja, mais repetições com menos peso equivale para a hipertrofia o mesmo que menos repetições com mais pesos -, o mesmo não é verdadeiro para a força. Dois indivíduos com a mesma massa muscular ganha na musculação acabam tendo forças muito diferentes, dependendo da intensidade bruta de carga trabalhada. Mesmo, teoricamente, ambos possuindo o mesmo potencial de gerar força analisando somente do ponto de vista muscular, estudos recentes mostram que o sistema nervoso é essencial para melhor aproveitar as fibras musculares acumuladas, seja de forma voluntária ou involuntária (Ref.7). Treinamentos com altas cargas ativam mais  os neurônios motores - ou excitam os mesmo mais frequentemente -, gerando uma forte adaptação neural e inclusive otimizando o recrutamento de unidades motoras para a realização de atividades diversas envolvendo os músculos trabalhados. E esse maior potencial de força gerado pela adaptação neural mantem-se verdade mesmo com a ajuda de estímulos elétricos externos nos músculos para facilitar a liberação de força.

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           Pronto, agora conseguimos desvendar o segredo da super força. Liberando 40% a mais de unidades motoras e elevando a frequência de impulso nervoso ao máximo, a força gerada irá permitir que você faça ações nunca antes imaginadas com o seu corpo! Aliado com a adrenalina e outros sinalizadores no seu organismo, você corre como um atleta olímpico, salta como se fosse um canguru e levanta pesos dignos de um marombeiro fissurado! Nessa situação também é importante dizer que essa capacidade de liberação das unidades motoras e geração de frequência de impulso nervoso vai variar de indivíduo para indivíduo, devido às diferenças genéticas. Alguns, naturalmente, irão liberar mais ou menos desse potencial.

          Por isso sempre encontramos em nossos círculos sociais pessoas bem fortes, mas que nunca sequer levantaram um peso na academia. Aquele amigo magrelo que ganha de todo mundo na quebra de braço provavelmente consegue liberar mais unidades motoras e/ou gerar uma maior frequência de impulsos neuromusculares do que a maioria em situações normais do dia a dia.

        Portanto, da próxima vez que você disputar uma quebra de braço com o seu amigo magrelo super poderoso, combine com seus amigos para que eles te arrebentem na porrada caso você perca... Quero ver você não recrutar uma boas unidades motoras extras...:D


ATUALIZADO (16/07/17)

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1.  http://www.bbc.com/future/story/20160501-how-its-possible-for-an-ordinary-person-to-lift-a-car
  2. http://www.usrowing.org/docs/default-source/resource-library/10C-1.pdf?sfvrsn=0 
  3. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1113/jphysiol.2009.175695/pdf
  4. http://www.bu.edu/nmrc/files/2011/02/058.pdf
  5. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK10874/
  6. http://www.science.gov/topicpages/m/motor+unit+behavior.html
  7. http://dx.doi.org/10.3389/fphys.2017.00331