YouTube

Artigos Recentes

Smartphone e dores no pescoço


- Artigo atualizado no dia 8 de junho de 2018 -

Compartilhe o artigo:



         Agora que os smartphones fazem parte íntima da vida das pessoas, um potencial e preocupante problema veio junto de carona: ´Text Neck´ (não existe uma tradução literal com sentido para o português, mas poderia ser interpretado como 'Mandando mensagens com o pescoço'). O termo surgiu para se referir às potenciais fortes dores na região do pescoço e dos ombros que estariam sendo causadas pelo hábito comum das pessoas em passar grande parte do dia olhando para baixo, digitando e vendo mensagens/informações no aparelho dos celulares modernos e outros dispositivos móveis, como tablets. Porém, existem controvérsias.

- Continua após o anúncio -


   
   TEXT NECK

          Nos dias de hoje já é mais do que normal vermos a todo momento pessoas andando usando o celular, comendo usando o celular, sentadas usando o celular... E na maior parte dessas situações, o pescoço tende a ficar sob um considerável estresse biomecânico ao se curvar acentuadamente para frente por longos períodos . Nosso pescoço é, anatomicamente, feito para sustentar o peso da nossa cabeça sem problemas, mas idealmente em uma postura reta pela maior parte do tempo. O peso que muitos especialistas acreditam que deveríamos estar sempre procurando apoiar no pescoço seria, no máximo, aquele gerado por uma massa de 5 a 6 quilos (cabeça ereta). Estudos analisando a questão apontam que para cada 2,5 centímetros de inclinação para a frente, o pescoço passa a ter que suportar o dobro desse peso (Ref.2-3)! Se você usa o aparelho smartphone com o queixo quase colado no peito, seu pescoço passa a suportar algo equivalente a quase 30 quilos!


         Esse peso extra pode acabar levando a desordens musculoesqueléticas inicialmente com efeitos de curto prazo mas com o potencial de levar a sérias debilidades crônicas a longo prazo. Especialistas sugerem que esse maior estresse mecânico a longo prazo sobre a coluna cervical pode também resultar em uma aceleração na degeneração de disco e contribuir para uma herniação.

         Para piorar a situação, o uso dos dispositivos móveis, especialmente smartphones, é viciante e prazeroso, fazendo com que a pessoa passe horas forçando a musculatura do pescoço e do ombro sem nem perceber possíveis desconfortos. E, talvez, a maior preocupação recaia nos riscos tragos para as crianças e adolescentes, os quais possuem a coluna vertebral ainda em desenvolvimento e crescimento. Com o uso dos dispositivos móveis começando cada vez mais cedo, o uso prolongado entre os mais jovens pode facilitar o surgimento de quadros de contraturas ligamentosas anteriores, aceleração na degeneração de disco e cifose cervical.

        Além disso, alguns estudos apontam que ficar com a região do pescoço extremamente inclinada durante muito tempo pode causar danos significativos para a respiração, pois nessa posição menos ar preenche os pulmões, levando à uma menor oxigenação do corpo e sobrecarga do músculo cardíaco, o qual passa a ter que bombear mais sangue para manter as taxas de oxigênio normais nos diferentes órgãos do organismo.

- Continua após o anúncio -



   CONTROVÉRSIAS

        As dores no pescoço são a quarta causa de incapacidades físicas ao redor do mundo. E esse problema de saúde pública tem aumentado consideravelmente desde a última década, junto também com dores na parte superior das costas. Antes um problema que afetava majoritariamente os adultos, especialmente os idosos, hoje a prevalência nos jovens no final da adolescência é quase a mesma do que aquela vista nos adultos, e tão alta quanto a prevalência de dores na parte inferior das costas. Nesse sentido, como essa tendência de aumento nas dores ligadas ao pescoço coincidiu com o aumento drástico relativo ao uso de smartphones e outros dispositivos móveis, principalmente entre os mais jovens, criou-se a hipótese biomecanicamente e observacionalmente baseada de que a postura inapropriada do pescoço para escrever mensagens ou ler conteúdo nos dispositivos móveis - text neck - seria a principal explicação para a crescente prevalência dessas dores entre os mais jovens.

        De fato, uma significativa quantidade de estudos nos últimos anos vem adereçando o problema e encontrando evidências que reforçam essa hipótese (Ref.1-13). Um estudo recente de grande porte e longitudinal, realizado na Suécia e envolvendo mais de 7 mil jovens adultos (idades de 20 a 24 anos) durante um período de 5 anos (Ref.14), encontrou fortes evidências que dores persistentes no pescoço e na parte superior das costas está associado com o tempo gasto enviando mensagens de texto pelos dispositivos móveis (apesar da associação encontrada ter se mostrado bem mais forte em relação a efeitos de curto prazo do que de longo prazo).

        Apesar do crescente acúmulo de evidências positivas indicando uma clara relação entre uso de dispositivos móveis, base teórica biomecânica, inclinação da cabeça e dores na região do pescoço, os estudos sobre o tema em específico ainda são relativamente escassos, inexistindo até o momento trabalhos científicos de alta qualidade e com a maior parte deles sendo observacionais e muito limitados. Nesse sentido, um estudo brasileiro publicado em janeiro deste ano (Ref.15), analisando jovens de 18-21 anos em escolas públicas do Rio de Janeiro, não encontrou uma associação entre text neck e dores no pescoço ou frequência nas dores de pescoço nessa população. Esse achado desafia a hipótese de que uma postura inapropriada durante o uso de smartphones é a principal causa da crescente prevalência de dores de pescoço entre os mais jovens.

         Somando-se a isso, uma revisão sistemática de 2012 (Ref.16), analisando os fatores de risco para o desenvolvimento de dores de pescoço não-específicas dentro do ambiente de trabalho, não encontrou fatores de risco que previam o desenvolvimento dessas dores entre os empregados, como atividades físicas lesivas, má postura, baixo suporte social e alto estresse físico-social. Ou seja, ainda é incerta a ligação entre postura do pescoço e dores nessa parte do corpo.

- Continua após o anúncio -



   CONCLUSÃO

        Apesar da postura da cabeça inclinada para frente aumentar a carga mecânica nas articulações e ligamentos da coluna cervical e aumentar a demanda sobre a musculatura posterior do pescoço por causa do aumento do momento gravitacional, ainda é inconclusivo se o uso dos smartphones e de outros dispositivos móveis está diretamente associado com o aumento de dores na região do pescoço entre as pessoas, especialmente os mais jovens, pelo menos como a causa principal. Mas, no geral, parece existir uma real associação, independentemente da sua extensão, e a hipótese do text neck é a melhor até o momento para explicar o crescente número de dores na região superior da coluna vertebral dentro da população mais jovem.

          De qualquer forma, como medida máxima de prevenção, crie o hábito de usar o smartphone na altura dos olhos ou, no mínimo, o menos inclinado com a cabeça possível. Uma boa recomendação é parar de tempo em tempo para relaxar o pescoço e realizar profundas inspirações de ar. Além disso, é importante lembrar que o esforço repetitivo excessivo - principalmente dos polegares e de músculos no antebraço - durante o uso dos dispositivos móveis é um forte fator de risco para lesões musculoesqueléticas, como tendinite, tenossinovite e artrite carpometacarpal. E não podemos nos esquecer de outro grande risco: ficar fixado demais no smartphone tira muita atenção visual do ambiente ao seu redor. Nas ruas, como pedestre ou como motorista, acidentes já estão se tornando comuns envolvendo o uso inapropriado desses dispositivos. Portanto, mais do que usar corretamente o celular, saiba moderar esse uso e saiba escolher os momentos certos de usá-lo.



REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00140139.2014.967311
  2. https://www.jmptonline.org/article/S0161-4754(17)30010-6/abstract
  3. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1529943017300967
  4. http://pro.sagepub.com/content/59/1/1788.short
  5. http://www.ijarcsms.com/docs/paper/volume3/issue5/V3I5-0085.pdf
  6. http://www.sersc.org/journals/IJBSBT/vol7_no3/19.pdf
  7. http://www.theacupuncture.org/journal/view.php?number=2162
  8. http://digitalcommons.mtech.edu/stdt_rsch_day_2013/18/?utm_source=digitalcommons.mtech.edu%2Fstdt_rsch_day_2013%2F18&utm_medium=PDF&utm_campaign=PDFCoverPages
  9. http://search.proquest.com/openview/3ef9c2f0dc379156d42a161749be0dd9/1?pq-origsite=gscholar&cbl=2035952
  10. http://www.koreascience.or.kr/article/ArticleFullRecord.jsp?cn=OGGHBK_2013_v32n3_273 
  11. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0003687016301235
  12. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0003687016301739 
  13. http://ijcmph.com/index.php/ijcmph/article/view/2970
  14. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0003687016301235?via%3Dihub
  15. https://link.springer.com/article/10.1007/s00586-017-5444-5
  16. http://oem.bmj.com/content/69/9/610