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O Ômega 3 ajuda a prevenir problemas cardíacos?


- Artigo atualizado no dia 26 de julho de 2018 -

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            Apesar de existir uma crença amplamente disseminada de que o micronutriente Ômega 3 atua fortemente na prevenção de doenças cardiovasculares, no campo das pesquisas científicas a controvérsia é grande. Os suplementos de óleo de peixe, usados como ricas fonte de ômega 3, são produtos farmacêuticos enormemente difundidos e promovidos, gerando fortunas para os fabricantes. Porém, seus benefícios podem não ser essa maravilha toda ou mesmo inexistir efeitos de proteção das funções cardiovasculares com a suplementação extra.

Forma mais comum dos suplementos de óleo de peixe, na forma de cápsulas
 
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ORIGEM DA FAMA

            A história começa quando cientistas, décadas atrás, começaram a perceber que as populações que se alimentavam muito de peixe, especialmente as concentradas em áreas litorâneas, apresentavam menores incidências de problemas cardiovasculares. O principal grupo humano que chamava a atenção dos pesquisadores eram os Inuit, os famosos esquimós. Habitando o ártico, a dieta desse povo é, basicamente, carnívora. A quantidade de gordura animal (saturada) ingerida por eles é gigantesca, incluindo fontes como focas, baleias, morsas, etc. Ou seja, como a gordura saturada é considerada um dos maiores inimigos da saúde cardíaca quando consumida acima do limite recomendado - apesar de existir certas controvérsias geradas por estudos recentes (As gorduras saturadas são tão prejudiciais assim?) - e o povo Inuit possuía, e possui, uma excelente saúde em geral, um paradoxo surgiu como uma dor de cabeça na comunidade médica.

          No entanto, como já mencionado, os Inuits também consomem bastante peixe. Nisso, as coisas começaram a se encaixar. Estudos passaram a mostrar que a grande ingestão de peixes marinhos prevenia doenças cardíacas, portanto, surgia, aí, a explicação para a boa saúde dos Inuit. Outros estudos posteriores também mostraram benefícios em outras partes do corpo, como a redução generalizada de inflamações. Com isso, o óleo de peixe, rico no espectro de ácidos graxos do ômega 3, começou a ser recomendado como um suplemento muito benéfico para a saúde humana, especialmente para a prevenção de ataques e infartos cardíacos.

           Entre os possíveis mecanismos de proteção do ômega 3 no corpo já propostos, podemos citar a diminuição da pressão sanguínea; alteração do perfil lipídico, especialmente na diminuição dos níveis de triglicerídio total; alteração da tendência trombótica; efeitos anti-inflamatórios e anti-arrítmicos; maior relaxação dos vasos sanguíneos; e melhora na sensibilidade das células à insulina.

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   O QUE É O ÔMEGA-3?

           O ômega 3 compreende um leque de ácidos graxos insaturados que possuem a dupla ligação no seu esqueleto de carbono na terceira posição a partir do final da cadeia. Existem três tipos de ômega 3 relacionados com a saúde humana: o a-ácido linolênico (ALA), o ácido eicosapentaenóico (EPA) e o ácido docosahexaenóico (DHA). O primeiro é encontrado em óleos vegetais, enquanto os dois últimos são encontrados, comumente, em fontes marinhas, como a sardinha. Nós, assim como os outros mamíferos, somos incapazes de sintetizar essa classe de ácidos graxos, sendo necessário obtê-los da dieta. Hoje, eles são tão famosos, que muitos produtos alimentícios adicionam esse lipídio como suplemento ou destacam bem sua presença nas embalagens, buscando atrair a atenção do consumidor.

Estrutura química das três formas relevantes do ômega 3

          Mesmo com a premissa inicial deste artigo afirmando que existe uma controvérsia no papel desse grupo de lipídios na prevenção de doenças, esses nutrientes são, de fato, essenciais no corpo humano, participando da estrutura de células e sendo percursores de certos hormônios. Esses ácidos graxos estão presentes em boa quantidade no cérebro e olhos. Ou seja, consumir ômega 3, assim como outros lipídios essenciais, é realmente importante para o corpo. Mas isso não quer dizer que eles sejam remédios.

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   QUAL A CONTROVÉRSIA?

          Já para começar, as gorduras saturadas não mais são tão vilãs como antes assumido. Diversos estudos recentes já mostram que problemas cardíacos não estão relacionadas com elas de forma significativa. Isso já pode explicar parte dos "poderes Inuit". Além disso, o fatores genéticos únicos desse povo não foram levados em conta nos estudos. E o mais importante: o ômega 3 está associado com o consumo de peixes nesses povos, não isolados em cápsulas. Como saber que seria o ômega 3, por si só, o real fator de proteção? De qualquer forma, várias meta-análises e artigos de revisão nos últimos anos não encontram clara relação entre ômega 3 e prevenção de doenças cardíacas, o principal carro-chefe das propagandas de suplementos de óleo de peixe. Na verdade, nunca se entendeu direito os mecanismos bioquímicos que estariam por trás da ação desse lipídio contra problemas cardiovasculares.

          O fato é que as reais evidências de redução dos problemas cardiovasculares dentro da população estão associadas com o consumo de frutos marinhos, principalmente de peixes ricos em ômega 3. Incluir esses alimentos na dieta, sim, podem ser benéficos.  Além disso, outros alegados benefícios tragos pela suplementação com ômega 3 isolado também são questionados:

1. Cânceres, especialmente os de próstata e de mama. Alguns estudos sugerem certo poder de prevenção, enquanto muito mais estudos não mostram relação alguma. Aliás, alguns trabalhos de grupos de controle mostraram que um algo nível de ômega 3 aumentavam o risco de câncer de próstata. No final, nenhuma dessas afirmações podem ser realmente comprovadas ainda;

2. Na hipertensão, esse ácido graxo não se mostra muito eficiente, apesar de já ter sido mostrado que ele reduz um pouco a pressão sanguínea. Porém, certas pessoas, na presença de ômega 3 apresentam um maior risco de sangramentos, o que pode ser perigoso em pacientes com hipertensão mais grave;

3. Em relação à doenças e transtornos mentais, como a ansiedade, autismo e depressão, nada foi comprovado até hoje;

4. Para aliviar os sintomas da artrite reumatoide, evidências sugerem que o ômega 3 de peixes possa ter resultados modestos, especialmente se consumidos de peixes;

5. - A Síndrome do Olho Seco é uma condição muito comum caracterizada por uma secura nos olhos que ocorre quando a produção de lágrimas não fornecem a umidade adequada. O risco de contrair essa doença aumenta com a idade. Também costuma ocorrer em mulheres na pós-menopausa. O olho pode ficar seco, vermelho e inflamado, e os principais sintomas são desconforto e sensibilidade à luz. Colírios lubrificantes prescritos podem reduzir a secura. Nesse sentido, suplemento com ômega 3 é geralmente alegado ter um impacto positivo em aliviar os sintomas dessa síndrome. Porém, um estudo clínico recente e de alta qualidade publicado no New England Journal of Medicine (Ref.35) mostrou que doses diárias de ômega 3 (3g/dia) obtidas de suplementos alimentares não se saem melhor do que placebo para esse fim. O estudo conclusivo incluiu 535 participantes sofrendo de moderada a severa síndrome do olho seco (186 no grupo de controle/placebo).

6. A suplementação com ômega 3 não se mostra efetiva para a prevenção de Alzheimer;

7. Nada comprovado para a psoríase também;

8. Nada também em relação à doença de Cronhn;

9. Nada também para a degeneração macular;


          Para reforçar, um estudo recente de revisão sistemática Cochrane, publicado na Cochrane Library (Ref.36), combinou os resultados de 79 estudos clínicos randomizados controlados envolvendo 112059 pessoas (homens e mulheres) de diferentes regiões do globo - América do Norte, Europa, Austrália e Ásia - para analisar a diferença nos riscos de doenças cardiovasculares entre pessoas que consomem uma suplementação extra de ômega 3, e pessoas que consomem as quantidades recomendadas ou inferiores. O que os pesquisadores encontraram com alto grau de confiança foi que a suplementação com esse micronutriente teve pouco ou não significativo efeito no risco de morte por qualquer causa (diferença máxima de ~0,2%). No caso específico das doenças cardiovasculares, praticamente não houve diminuição no risco de desenvolvê-las nas pessoas se suplementando. O máximo que os pesquisadores encontraram é que o consumo maior e isolado de ALA parece diminuir muito levemente o risco de algumas irregularidades cardíacas, como arritmia (diferença de ~0,7%), e de algumas doenças cardiovasculares, mas sob o suporte de evidências de baixa qualidade. Aliás, esse estudo foi o maior e de mais alta qualidade do tipo já publicado.

         Apesar da falta de efetividade encontrada em diversos estudos em relação à diminuição dos índices de ataques/infartos cardíacos, cânceres e mortalidade, além das doenças listadas acima, a suplementação com ômega 3 pode possuir outros benefícios para o corpo. Para grávidas, a ingestão de uma maior quantidade desse lipídio parece ajudar no desenvolvimento do feto e do recém-nascido (através da amamentação). É também sugerido que quadros de inflamação no corpo são atenuados, de forma modesta, com uma boa ingestão desse micronutriente. Só que, para este último, se a sua dieta já possui uma quantidade recomendada de ômega 3, pode ser que uma suplementação adicional não seja tão importante. E, mais uma vez, o consumo ideal seria a partir da ingestão de frutos marinhos, especialmente os peixes.

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     CONCLUSÃO

           Em geral, o ômega 3, junto com outros lipídios essenciais, são importantes para o corpo, mas não parece prevenir nem um décimo das doenças propagandeadas. Aliás, os suplementos que isolam esse ácido graxo podem não ter benefício nenhum de prevenção. E isso sem contar que as pessoas consumindo esse suplemento podem acabar exagerando em práticas e hábitos prejudiciais por pensarem estar compensando os riscos com um poderoso "remédio" preventivo, no estilo "Vou comer mais umas porções de batata-frita e refrigerante aqui e depois dou uma aliviada no coração com umas pílulas de ômega-3".

          Se você estiver consumindo uma boa dieta equilibrada, especialmente se estiverem incluídos óleos vegetais e alimentos marinhos (salmão, atum, sardinha, anchovas, etc.), não é preciso se preocupar com uma suplementação com ômega 3. Aliás, se você está preocupado em consumir uma alta quantidade desse lipídio, procure os alimentos em vez da farmácia, porque com eles você irá obter diversos outros nutrientes, especialmente proteínas de boa qualidade dos peixes. E para melhor prevenir doenças cardiovasculares, aposte em uma alimentação saudável livre de gordura-trans, pratique exercícios físicos, fuja das drogas, leve uma vida sem estresse e evite os exageros.

Prefira os alimentos ricos em ômega 3 ao invés de suplementos alimentares específicos, estes os quais podem não ter serventia alguma

*Lipídios: conjunto de todas as gorduras produzidas por seres vivos.

OBS.: O ômega 6, outro ácido graxo poli-insaturado essencial, também possui várias controvérsias quanto ao seu papel de prevenção em diversas doenças, incluindo problemas cardíacos. 

IMPORTANTE: Não é preciso consumir peixes marinhos todos os dias para satisfazer as necessidades de ômega 3 do seu corpo. Pelo menos 1 ou 2 vezes por semana consumindo esses alimentos (pode ser através de latas de sardinha ou atum) já é o suficiente para garantir boas doses de DHA e EPA. Já para a possível prevenção de doenças, como as cardiovasculares, incluir esses alimentos diariamente na sua dieta seria o mais recomendado.


Artigo relacionado: O HDL realmente protege o coração?


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
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