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Será que os tênis de corrida realmente previnem lesões?


- Artigo atualizado no dia 28 de junho de 2018 -

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         A corrida se tornou um esporte bastante popular nas últimas décadas, graças à sua acessibilidade, facilidade de prática e grandes benefícios à saúde. Porém, riscos de lesões acabam também acompanhando a realização dessa atividade física, especialmente se feita com despreparo e falta de orientação profissional. Nesse sentido, um dos itens que mais recebem atenção tanto de corredores profissionais quanto de amadores é o calçado. Muitos tênis no mercado são otimizados para as corridas e prometem prevenção de danos associados com o esporte, sendo vendidos geralmente com um salgado preço. Mas será que esses produtos possuem base científica de eficácia?

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   CALÇADOS E LESÕES

          É estimado que, anualmente, 50% dos corredores sofrem lesões relacionadas à prática de corrida, em diferentes graus de gravidade, com a taxa aumentando para 85% no caso isolado de corredores iniciantes. Lesões tipicamente envolvidas com a prática de corridas de longa distância incluem síndrome do estresse tibial medial, tendinopatia do Aquiles, fascite plantar e dor patelofemoral. Como forma de prevenção, um dos acessórios mais promovidos no mercado são os tênis projetados especificamente para proteger os pés dos corredores. Porém, nos últimos anos, diversos estudos não conseguem encontrar evidências significativas que corroborem a eficácia propagandeada por esses calçados.

        Como todos já devem ter percebido, os pés de cada um tendem a ser bem diferentes, tanto em formato quanto no ângulo feito com o calcanhar. Em relação a esse ângulo, é dado uma atenção especial, porque ele decide o grau pronação (tipo de giro direcionando a pisada). Quando o pé possui o calcanhar com um giro mais para dentro chamamos ele de pronado. Caso o calcanhar role mais para fora, chamamos de pé supinado. Se ele fica no meio termo, chamamos de neutro. O mais eficiente tipo de pisada é o do pé neutro, onde existe uma otimização máxima na absorção do impacto com o solo e na economia de energia quando se realiza uma caminhada ou corrida. Caso a pronação seja desfavorável, danos nos pés, joelhos, costas, canela e outras articulações poderiam ser gerados com maior frequência, especialmente nas corridas, onde a pronação fica mais evidente.

Pé pronado (esquerda); pé neutro (centro); e pé supinado (direita)

         Outro fator importante que pode influenciar no risco de lesões é a região de impacto inicial durante o contato entre solo e pé nas corridas. Aproximadamente 98% dos corredores de longa distância recreacionais e de sub-elite primeiro geram contanto entre o pé e o solo com o calcanhar e a lateral da parte do meio da planta do pé enquanto correm.

         Para corrigir as pronações e outras variáveis sub-otimizadas, existem diversos tipos de tênis, os quais prometem menos danos e 'conserto' na hora da pisada. Nesse sentido, os tênis adaptados para diferentes técnicas de corrida e morfologia do pé teriam o potencial de reduzir o risco de lesões. Como consequência, fabricantes geralmente propõem calçados com duas características principais: solas com diferentes formatos que se encaixem aos padrões de pisada (calcanhar, lateral e frente do pé), e calçados neutros vs. calçados com arcos de suporte para os pronadores.




        Só que vários estudos mostram que não importa muito o tipo de tênis para diminuir os possíveis danos gerados pelo impacto e pisadas diferenciadas. Correr de pés descalços, por exemplo, pode ser muito melhor para grande parte das pessoas do que os calçados hoje existentes no mercado! Além disso, alguns estudos inclusive sugerem que a pronação do pé pouco influencia nos danos gerados durante as corridas. Nesse sentido, as lesões ocorreriam muito mais devido ao esforço repetitivo da própria corrida em si e da capacidade de adaptação do corpo do que ao tipo de pisada. Calçados baseados também no formato da planta do pé não mostram vantagens para os seus usuários, como mostrado, por exemplo, em estudos conduzidos nas tropas do exército americano. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada este ano na BMJ (Ref.25) mostrou que palmilhas projetadas para uma alta absorção de impacto não possui efeito significativo nenhum na prevenção de quaisquer tipos de lesões músculo-esqueléticas

         Além disso, é difícil aferir na hora da venda qual o melhor tipo de calçado baseado apenas em uma análise superficial dos pés de uma pessoa (graus de pronação durante as corridas são difíceis de serem avaliados mesmo por especialistas, necessitando de equipamentos especiais de motion track e sensores de impacto), especialmente considerando que o próprio calçado, superfícies diversas e experiência de corrida podem influenciar no padrão de pisada.     

         O uso de calçados também influencia na capacidade sensorial da planta do pé, esta a qual é densamente populadas por um campo somatossensorias, sensível a pressões e vibrações. Quando maior o revestimento e capacidade de amortecimento do calçado, menor é a transmissão e sensação de impulsos mecânicos que estimulam os nociceptores plantares, potencialmente também filtrando os estímulos mecanorreceptores. Isso possui implicações importantes para a habilidade de absorver forças de impacto durante as corridas. Quando o pé colide com o chão, forças de impacto iniciam vibrações ao longo dos tecidos moles dos membros inferiores. Hipóteses biomecânicas sugerem que essas vibrações formam parte de uma resposta onde o sistema nervoso central pré-ativa grupos musculares para absorverem e minimizarem essas vibrações nos tecidos, levando a uma redução na sobrecarga sobre as articulações. Diferentes calçados e seus sistemas de amortecimentos, com isso, podem interferir nessa capacidade de resposta muscular ao filtrar as frequências de vibração transmitidas no impacto, com o potencial de gerar diferentes graus de prejuízo para o indivíduo dependendo da sua sensibilidade plantar.



         É especulado que os humanos podem ter adotado diferentes mecanismos de corrida antes da invenção dos calçados, em ordem de diminuir os riscos de danos e desconforto. Sistemas biomecânicos adquiridos durante a nossa longa história evolutiva, portanto, podem acabar sendo prejudicados quando um interferente surge entre o pé e o solo, nesse caso, os calçados. Isso explicaria porque muitos corredores preferem correr descalços ou buscam correr usando calçados mínimos (minimal shoes), estes os quais tentam simular o máximo possível um pé descalço - trazendo o mínimo de revestimento interno - mas ao mesmo tempo evitando os perigos que podem ser encontrados no chão (pedras, objetos afiados, etc.). Porém, no caso dos calçados que simulam um pé descalço, também não existem evidências científicas de que eles sejam melhores para prevenirem lesões do que outros tipos de calçados de corrida.


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   MAXIMAL RUNNING SHOE? 

        Historicamente, calçados de corrida caíam em 1 de 3 categorias: (1) Neutro, (2) estabilidade e (3) controle de movimento. Em geral, indivíduos com uma alta quantidade de pronação eram direcionados para um calçado de controle de movimento, aqueles com uma moderada quantidade de pronação eram direcionados para um calçado de estabilidade, e aqueles com uma mínima quantidade de pronação - indivíduos supinados - eram direcionados para um calçado neutro. Com essas recomendações não estavam surtindo efeito na prevenção de lesões, nos últimos anos tivemos um aumento de pessoas procurando calçados que simulassem um pé descalço, especialmente a partir do ano de 2009.

        A popularidade dos assim chamados minimal shoes foi fomentada pela noção que correr de modo mais natural possível seria a melhor estratégia para a prevenção de lesões. Apesar de ser ainda debatível essa alegação no meio acadêmico, os minimal shoes até o momento falharam em mostrar maiores benefícios para a prevenção de lesões em testes clínicos e revisões da literatura científica. Alguns pesquisadores especulam que os calçados mínimos podem não estar funcionando para prevenir lesões porque as pessoas, quando resolvem usá-los, já viveram grande parte da vida utilizando os tênis tradicionais, os quais estariam levando a deformações no pé, especialmente no dedão e na região plantar, essenciais para a estabilidade do corpo durante a locomoção bípede. Com isso, os calçados mínimos não adiantariam mais. Ou pode ser que o 'mínimo' ainda interfira muito, ou que a maioria deles não estejam sendo bem projetados.

          Com a queda de prestígio entre os tênis tradicionais e os minimal shoes, outro conceito de tênis está ganhando uma crescente popularidade nos últimos anos: maximal running shoes. Esse tipo de tênis é o completo oposto do minimal shoe, onde existiria um alto grau de revestimento interno tanto no meio quanto na frente do calçado, diferenciando-se bastante também dos tênis tradicionais, estes os quais apresentam um maior revestimento de amortecimento focado na parte de trás A produção desses calçados foi timidamente iniciada com uma companhia chamada Hoka One One, também em 2009, em meio à ascensão dos calçados 'mínimos'. Porém, mesmo já existindo hoje mais de 20 variações do calçado 'máximo' no mercado, não existem evidências científicas de que eles fornecem maior proteção contra lesões, apenas alegações anedóticas.



          Pelo contrário, um estudo publicado recentemente na The Orthopaedic Journal of Sports Medicine (Ref.26), sugere que esses calçados podem aumentar os riscos de lesões em alguns corredores. Para chegar nessa conclusão, os pesquisadores analisaram 15 mulheres com idades entre 25 e 51 anos que praticavam corridas regularmente. As voluntárias foram acompanhadas correndo 5 km com tênis de corridas tradicionais e posteriormente com tênis máximos. Os picos de força de impacto e de carga observados foram maiores quando os calçados máximos eram utilizados, e essas variáveis estão associadas com um aumento no risco de desenvolvimento de lesões. Tal observação aparentemente paradoxa pode estar ligada a uma maior interferência na resposta neuro-muscular aos impactos por estes estarem sendo substancialmente amortecidos em toda a extensão dos pés. Esse é o primeiro estudo comparativo sobre os calçados máximos, e como foi de curto prazo e com uma baixa quantidade de participantes - os quais não estavam acostumados com esses calçados e compreendiam apenas um sexo - nenhuma conclusão ainda pode ser retirada.

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  O QUE FAZER?

         Além de protegerem os pés, obviamente, das ameaças no chão, os tênis também podem ajudar a evitar danos quando um quesito importante é respeitado: o conforto.

         Sim, independente do que é feito o tênis, se você se sentir confortável com eles, suas chances de lesão podem ser minimizadas, e provavelmente serão bem menores quando comparado com o uso de um calçado desconfortável. Pode vir com molas, shapes malucos, palmilha grossa ou fina, alta flexibilidade, aprovação do Flash... Se o tênis não se sentir bem no seu pé, ele poderá causar muito mais mal para você, mesmo ele tendo custado fortunas. Não existe, hoje, um calçado especial que serve para todas as pessoas ou que tenha um design que atenda perfeitamente a cada tipo de pisada. Um pode ter uma tecnologia exuberante por trás, mas pode prejudicar o seu corpo mais do que um All Star clássico.

          As pessoas, na hora de comprarem um calçado, preferem olhar mais o preço e propaganda de desempenho do que a aprovação do próprio corpo. Não insista no uso de um calçado apenas por ele ser mais caro ou pareça ter melhor qualidade caso esteja se sentindo desconfortável.

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   CONCLUSÃO

         Apesar dos tênis tradicionais de corrida promovidos no mercado serem projetados para diminuírem os riscos dessas leões - ou no mínimo aliviarem essas últimas - com o uso de diferentes tecnologias de fabricação, atualmente apenas uma ínfima quantidade de evidências científicas suportam a noção de que as prescrições desses calçados podem diminuir a taxa de lesões entre os corredores. Mesmo com o grande avanço nesses últimos 50 anos relativo à tecnologia de fabricação dos calçados, as taxas de lesões entre os corredores se manteve estável.

         Esqueça o preço, aparência do calçado ou promessas de desempenho. Escolha o conforto, independentemente se é para o dia-a-dia ou para o esporte. Outra medida para minimizar os danos durante as corridas é saber correr bem, respeitando os limites e sinais de desgaste do seu corpo.


IMPORTANTE: Este artigo visa apenas explorar a eficácia dos calçados de corrida na prevenção de lesões em relação à população em geral. Problemas específicos afetando o sistema neuro músculo-esquelético são beneficiados por acessórios externos prescritos por médicos para a obtenção de vantagens mecânicas ou ortopédicas (órteses).


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. Artigo de revisão ( 2014) 
  2. http://www.medicalnewstoday.com/articles/175046.php?trendmd-shared=1
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