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O que são os flutuadores oculares?


- Artigo atualizado no dia 9 de abril de 2019 -

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          Grande parte da população já deve ter experienciado e, provavelmente, se preocupado com um estranho fenômeno ocular: Eye Floaters (Flutuadores Oculares, na tradução literal). Cientificamente chamado de 'Miodesopsia' e aqui no Brasil popularmente conhecido como 'moscas volantes', nenhum dos dois nomes, à primeira vista, parecem elucidar sobre o que esse fenômeno se trata. Pouco se comenta, mas é algo tão comum que os oftalmologistas até ficam cansados de receber pacientes reclamando desse incômodo visual.

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    FLUTUADORES OCULARES

            Na claridade, eles ficam mais visíveis. Assumindo diversas formas, desde círculos até fios, aquelas manchas pretas, cinzas e/ou  translúcidas que aparecem do nada e desaparecem do nada das vistas, e que seguem o movimento dos olhos, não são falhas da visão ou ilusões de ótica, e, sim, reais formas se intrometendo na passagem de luz dentro do seu globo ocular. Neste exato momento, enquanto estou escrevendo, dois deles apareceram na tela branca do editor de texto quando eu movimentei a cabeça para baixo e levantei ela subitamente. Essas formas já foram interpretadas de diferentes maneiras, assumindo, inclusive, significados espirituais e divinos ao longo da história.

Você está familiarizado com essas formas no seu campo de visão? No passado (e ainda hoje) elas eram interpretadas como sinais de espíritos e mensagens divinas

            Para entender o que são essas manchas estranhas que surgem na nossa visão é importante tirar a ideia de que a luz atravessa a pupila e atinge direto a retina. Entre estas duas partes existe um líquido viscoso, com a consistência de uma gelatina, chamado Humor Vítreo. A luz precisa atravessar esse líquido para chegar às células foto-sensitivas da retina, onde irá induzir reações orgânicas e, consequentemente, gerar um sinal elétrico que será transportado pelo nervo óptico e ser interpretado pelo cérebro na forma de imagens. Ou seja, para não haver comprometimento na formação de imagens, esse líquido precisa estar límpido e homogêneo.



            Acontece que o Humor Vítreo não é renovado pelo corpo. Virtualmente, esse líquido é o mesmo em qualquer momento da sua vida. Portanto se algo cai nele, ficará ali flutuando até sedimentar ou se dispersar completamente. Bem, esse algo dentro do olho pode ser pequenas gotículas de sangue, células, detritos dos tecidos ao redor, entre outros. Mas o intruso mais comum são mudanças na estrutura desse líquido, o qual é formado por 99% de água e 1% de sólidos. Os sólidos consistem em uma rede de colágenos (fibras tipo II e IX)  entrelaçados com o ácido hialurônico, os quais cumprem o papel de deixarem a água em formato de gel. Caso ocorra uma perturbação nessa rede, por motivos diversos, parte desses sólidos podem sair da organização e se condensarem em uma estrutura sólida. Esse sólido passa a ser um flutuador e irá se intrometer na passagem da luz.

          No geral, a causa mais comum para as pertubações vítreas que levam aos flutuadores oculares é o descolamento posterior vítreo (PVD, na sigla em inglês), o qual tipicamente afeta pacientes com mais de 50 anos de idade e aumenta em prevalência a partir dos 80 anos. O PVD frequentemente não é motivo de preocupação com a saúde ocular, mas se os flutuadores surgiram de forma súbita, é aconselhável procurar o oftalmologista para uma investigação preventiva. Ao longo do tempo, o humor vítreo encolhe e as fibras de colágeno ali presentes - e anexadas à retina - são separadas da superfície retinal. Frequentemente essas fibras se quebram e permitem ao vítreo se separar e continuar encolhendo. Eventualmente, o vítreo não consegue mais encher o volume da cavidade onde está ocupando. Isso leva à separação do vítreo da retina, criando os flutuadores oculares em sua câmara. Se o processo acontece gradualmente, os sintomas são tipicamento suaves e passam despercebidos.

         Quando os flutuadores passam na frente da luz vinda da pupila, uma sombra é lançada em cima da retina, causando a Miodesopsia. A sombra pode ser maior ou menor dependendo do que está flutuando no líquido. Caso sejam opacos suficientes, você verá figuras pretas na sua frente. Caso seja menos opaco, as figuras ficam mais translúcidas. As diferenças de índice de refração dentro do Humor Vítreo também definem a consistência das figuras (em pontos onde houve desarranjo na estrutura gelatinosa). E o seu cérebro só percebe elas porque, junto com o líquido no interior dos olhos, os flutuadores também ficam se mexendo quando movimentamos a cabeça ou o globo ocular. Normalmente, o cérebro ignora estruturas fixas dentro do globo ocular - como as veias - que ficam interferindo com a passagem da luz (faz tipo uma filtragem de imagem). Caso contrário, ficaríamos vendo um monte de veias da retina a todo momento.

Nestas duas imagens, as quais simulam uma vista para o céu claro podemos ver vários tipos de sombras que os flutuadores podem jogar sobre a retina; na primeira imagens, eles são mais opacos, formando manchas mais escuras; na segunda foto eles são mais translúcidos

            Esses 'flutuadores' podem sair sozinhos, a partir de sedimentação, por exemplo, ou podem ficar por bastante tempo dependendo da sua natureza. Muitos se apavoram quando eles aparecem, pensando que são sintomas de algum problema nas vistas ou começo de algum tipo de catarata. Já outros estão tão acostumados com eles que passam a nem percebê-los mais. Segundo os especialistas, esse fenômeno é algo comum e benigno, geralmente não acarretando em problema algum. Porém, em alguns casos, os 'flutuadores' podem ser grandes demais ou produzidos em grande quantidade, o que pode necessitar de uma intervenção médica caso exista comprometimento da visão e bem-estar do indivíduo. Pessoas idosas costumam experienciar mais esse fenômeno, já que o tecido nos olhos se torna mais instável com o tempo e o próprio líquido pode sofrer transformações com maior facilidade, prejudicando sua homogeneidade. Se você quiser retirar um do seu campo de visão de imediato, muitas vezes uma mexida rápido com os olhos de um lado para o outro, ou para cima e para baixo, fazem o líquido e flutuadores se movimentarem, tirando-os do caminho.

          Outra interessante manifestação dos flutuadores oculares pode emergir como efeito colateral de disfunções na retina causadas pelo fármaco digoxina, este o qual é extraído da planta Digitalis lanata e usado para o tratamento de condições cardíacas. Quase 80% dos pacientes recebendo digoxina desenvolvem deficiências na coloração visual - geralmente resolvidas após a interrupção de uso do medicamento -, mesmo a níveis terapêuticos, mas poucos pacientes procuram reportar esses distúrbios visuais. Nesse sentido, um dos sintomas que podem surgir é a visualização de flutuadores oculares coloridos. Até o momento, apenas dois casos foram descritos na literatura médica de flutuadores coloridos: um em 1944 e um em 2018 (nesse último caso, de um paciente de 89 anos que consumia 0,25 mg diários de digoxina), ambos no periódico American Journal of Ophthalmology (Ref.14). No entanto, os especialistas afirmam que esse tipo de fenômeno pode ser bem mais comum, devido aos casos não reportados e, em hipótese, como efeito colateral também de medicamentos cardíacos glicosídicos, os quais possuem atividade farmacológica similar à digoxina.

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   TRATAMENTOS

          Para quem se sente muito incomodado com os flutuadores, ou possui muitos deles, existem alguns tratamentos cirúrgicos para amenizar a situação, apesar de todos eles carregarem substanciais riscos. Um deles é através de um laser de YAG (Granada de Ítrio e Alumínio) - o qual não é nem mesmo aprovado pelo FDA (Administração de Drogas e Alimentos dos EUA) - e visa vaporizar os flutuadores, eliminando-os como obstáculos visuais. Existem poucos estudos clínicos sobre essa técnica, mas os trabalhos existentes mostram bons resultados e garantem relativa segurança. Outro método - e melhor explorado na literatura acadêmica - é a troca completa do Humor Vítreo por uma solução salina, chamado de vitrectomia. Entre os riscos da vitrectomia, podemos citar uma acelerada maturação de uma catarata, um pequeno risco de infecção (1 em cada 1000), e um real risco de desacoplamento retinal (o qual pode chegar a 10,9%). Apesar disso, quando realizada com sucesso, a vitrectomia é a técnica cirúrgica com o mais alto grau de grande satisfação dos pacientes (>95%).

          Ambas as intervenções são apenas em casos sérios de Miodesopsia. Portanto, não se submeta a nenhum procedimento cirúrgico do tipo caso a condição seja apenas um incômodo mínimo na sua visão. Por isso os médicos geralmente pedem que o paciente incomodado com os flutuadores espere por um período de meses antes de optarem pela via cirúrgica, porque muitas vezes a pessoa acaba se acostumando com a condição (adaptação tardia). Além disso, a maior parte desses flutuadores saem com o tempo e nem são muito notados quando não existe um excesso de luminosidade (olhar para o céu claro ou uma superfície iluminada muito branca, por exemplo). E é bom reforçar que não existem tratamentos a não ser cirúrgicos. Alimentação, medicamentos, colírios, não importa. Nada disso traz resultados.

          É importante reforçar também que é preciso consultar um oftalmologista caso o fenômeno tenha surgido subitamente e em grande extensão - múltiplos flutuadores -, especialmente se vier acompanhado de clarões. Isso pode significar algum outro tipo de problema mais grave, como complicações associadas ao PVD agudo (separação violenta entre o vítreo e a retina). Uma significativa proporção de pacientes com PVD agudo desenvolve um rompimento retinal que pode levar ao desacoplamento retinal e perda permanente de visão se não tratado. Doenças inflamatórias na estrutura ocular e recentes cirurgias nos olhos também podem ser a causa de súbitos flutuadores. Se esses cenários não  esse não for o caso, apenas aprecie a sujeira da sua piscina ocular ou passe o tempo tentando encontrar símbolos escondidos nas estranhas figuras.


Artigo relacionado: Cirurgia para a mudança na cor dos olhos vale a pena?


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://jama.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=184951
  2. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S016164208334392X
  3. http://www.bbc.com/future/story/20160113-why-do-you-get-eye-floaters
  4. http://www.nature.com/eye/journal/v16/n1/abs/6700026a.html
  5. http://bjo.bmj.com/content/77/8/485.shorthttp://bjo.bmj.com/content/77/8/485.short
  6. http://qhr.sagepub.com/content/22/11/1547.short
  7. http://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/eye-floaters/basics/definition/con-20033061
  8. www.nei.nih.gov/health/floaters/index.asp
  9. https://web.archive.org/web/20071023070153/http://www.eyecaresource.com:80/conditions/eye-floaters/
  10. https://web.archive.org/web/20130728004305/http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/tutorials/flashesandfloaters/ot089103.pdf 
  11. https://www.betterhealth.vic.gov.au/health/conditionsandtreatments/eye-floaters
  12. http://www.cbo.net.br/novo/publico-geral/moscas_volantes.php
  13. https://www.ecronicon.com/ecop/pdf/ECOP-10-00409.pdf
  14. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2451993617302177
  15. https://www.healio.com/ophthalmology/journals/osli/2018-6-49-6/%7B7449e6da-e4da-421d-a115-b48e20518bb3%7D/management-of-floaters
  16. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK470420/