O que as traças-de-parede comem?
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| Figura 1. Mariposa ou traça da espécie Phereoeca uterella. (A) Larva parcialmente emergida do casulo. (B) Inseto adulto. |
A traça-das-paredes ou traça-caseira (Phereoeca uterella) é uma pequena mariposa da família dos tineídeos. O gênero Phereoeca contém várias mariposas pequenas que tipicamente ocorrem em localizações tropicais e neotropicais. Esse inseto é muito comum no ambiente doméstico, com as larvas sendo comumente encontradas subindo em paredes e móveis, protegidas dentro de casulos constituídos de seda e detritos diversos (Fig.1).
Frequentemente esse inseto é chamado de "traça-do-reboco" devido à ideia errônea de que as larvas se alimentam de reboco ou simplesmente devido ao seu habitat recorrente em construções humanas (ex.: agarradas ao reboco de paredes). Sinantrópicas, essas mariposas são muito comuns no ambiente doméstico e se alimentam principalmente de detritos proteicos diversos, como teias de aranha, pelos, fragmentos de insetos e resíduos associados. Nas habitações humanas, parecem se alimentar em maior abundância de teias velhas. Podem ocasionalmente se alimentar de fibras naturais em carpetes, roupas e outros tecidos - e parecem gostar de fibras de lã.
Na natureza, essas mariposas são comumente encontrados em fendas na casca de grandes árvores ou troncos, alimentando-se de seda produzida por psocópteros e teias de aranha, matéria fecal, carcaças, entre outros detritos orgânicos ricos em proteína.
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As larvas de P. uterella, como outros membros do gênero, fazem cápsulas ou casulos de seda cobertas com grãos de areia ou outros detritos finos, os quais possuem uma forma achatada, mais larga no meio, com coloração cinza e aberturas em ambas as extremidades. O casulo larval também serve para esconder o casulo pupal subsequente, e o adulto emerge por qualquer uma das saídas (Fig.2). Os casulos larvais alcançam 8 a 14 mm de comprimento e 3 a 5 mm de largura. A larva alcança ~7 mm de comprimento após desenvolvimento completo.
Após o acasalamento, as fêmeas depositam seus ovos em frestas e na junção de paredes e pisos, fixando-os em detritos. Duzentos ovos podem ser depositados por uma única fêmea ao longo de uma semana, após a qual ela morre. Os ovos são macios, de cor azulada pálida e têm cerca de 0,4 mm de diâmetro.
Após eclosão dos ovos, casulo larval é construído pelo estágio mais precoce da larva (1º ínstar) e cresce de tamanho a cada ínstar subsequente. Na construção da casulo, a larva secreta seda para construir um arco preso em ambas as extremidades ao substrato. Partículas muito pequenas de areia, terra, ferrugem, excrementos de insetos, restos de artrópodes, pelos e outras fibras são adicionadas na parte externa para endurecê-la e fortificá-la (Fig.3). O interior do arco é revestido exclusivamente por seda e é gradualmente estendido para formar um túnel, enquanto a larva permanece dentro. O túnel é fechado na parte inferior pela larva para formar um tubo livre do substrato e aberto em ambas as extremidades.
Após a construção do primeiro casulo, a larva começa a se mover, puxando-a atrás de si. A larva usa ambas saídas do casulo para locomoção ou para a alimentação. Quando perturbada ou ameaçada, a larva recolhe para dentro do casulo e força o fechamento das saídas.
A pupação ocorre dentro do casulo larval. Para esse processo, a larva sobe por uma superfície vertical (ex.: parede) e fixa a cápsula em ambas as extremidades com seda. Uma das extremidades da cápsula é então modificada. A larva faz um pequeno corte ao longo de ambas as bordas para tornar essa extremidade mais plana, funcionando como uma válvula. Antes da eclosão, a pupa se projeta até a metade através da válvula. A mariposa adulta emerge por volta do meio-dia, deixando parte do casulo pupal exposto fora do casulo larval (Fig.4B).
Por isso é comum encontrar casulos vazios fixados nas paredes das casas.
Adultos exibem partes bucais reduzidas e não parecem se alimentar. Apenas usam as reservas energéticas acumuladas durante a fase larval para o acasalamento e deposição de ovos fertilizados. Os adultos voam relativamente bem, mas geralmente descansam por longo tempo em paredes, quinas no chão ou em teias de aranhas no ambiente doméstico.
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Ciclo de Vida: Os ovos levam mais de 10 dias para eclodir. Existem seis a sete instares larvais que levam cerca de 50 dias para se desenvolver. A mariposa permanece no estágio pupal em média 15,6 dias (variação de 11 a 23 dias). O ciclo completo do ovo ao adulto tem em média 74,2 dias (62 a 86 dias). Ref.3
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A espécie P. uterella é muito similar à espécie P. praecox (Fig.4). Esses dois táxons podem ser distinguidos por diferenças nas sequências de "código de barras" COI e pela morfologia dos genitais masculinos. Em particular, as valvas masculinas do P. praecox são mais largas (mais do que o dobro da largura) do que as valvas da P. uterella. As duas espécies passam toda a vida larval dentro do casulo.
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| Figura 4. (A) Phereoeca praecox fêmea, com envergadura de asas de 12,8 mm. (B) Casulo larval vazio do espécime em questão, com 10 mm de comprimento e com parte do casulo pupal exposto. Ref.3 |
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| Figura 5. Larvas e adulto da espécie P. praecox. |
Assim como na espécie P. uterella, a P. praecox fêmea é maior do que o macho, com envergadura de asas de 10 a 13 mm e 7 a 9 mm, respectivamente. As larvas de ambas as espécies são ativas ao longo do dia, especialmente quando matéria orgânica está presente.
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> Existem vespas das famílias Braconidae e Chalcididae que parasitam essas mariposas, matando a larva dentro do casulo antes da pupação.
> A bactéria intracelular obrigatória Rickettsia felis parece também infectar mariposas do gênero Phereoeca. É incerto se a relação é mutualística ou patogênica. Ref.4
> Remoção manual ou por aspirador dos casulos larvais à vista e remoção das teias em excesso nas casas pode ajudar a controlar a população desses insetos no ambiente doméstico.
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REFERÊNCIAS
- Binoy et al. (2022). Chalcidid parasitoids (Hymenoptera, Chalcididae) of Phereoeca uterella (Walsingham) (Lepidoptera, Tineidae): description of a new species and the male of Epitranus uterellophagus from southern India. Systematic Parasitology, 99:1–11. https://doi.org/10.1007/s11230-021-10011-7
- Villanueva-Jimenez & Fasulo (2011). Household Casebearer, Phereoeca uterella (=dubitatrix) Walsingham (Insecta: Lepidoptera: Tineidae). The Institute of Food and Agricultural Sciences (IFAS), EENY003.
- Malakauskas et al. (2017). Two Records of Phereoeca praecox (Tineidae) in South Carolina and Observations on Its Biology. The Journal of the Lepidopterists' Society, 71(3):192-195. https://doi.org/10.18473/lepi.71i3.a1
- Araújo et al. (2021). Evidência Molecular de Rickettsia felis em Phereoeca sp. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, 30(1). https://doi.org/10.1590/S1984-29612021017
- https://edis.ifas.ufl.edu/publication/IN129
- Dr. Gevork Arakelian, Senior Biologist, Los Angeles County Department of Agricultural Commissioner/Weights and Measures, March, 2010.





