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Por que ficamos corados?



           Todos aqui provavelmente já estiveram em uma situação de constrangimento em público. E uma das primeiras reações que temos nesse tipo de situação é ficar com o rosto bem corado. Independente da cor de pele, etnia ou cultura, uma alteração da pele será notada, devido à vasodilatação sanguínea disparada por esse estímulo psicológico. Mas será que ficar com o "rosto vermelho" possui alguma função evolutiva na nossa espécie?

         Corar o rosto em certas situações de pressão psicológica é uma das características mais marcantes da espécie humana. Isso é algo tão normal dentro da nossa sociedade que nem paramos direito para pensar no porquê disso acontecer. Para tentarmos entender o que estaria por trás desse fenômeno fisiológico, primeiro precisamos nos lembrar que a área atingida pela vermelhidão é a face descoberta da cabeça, ou seja, o rosto, o qual é o centro da atenção social. É ali onde todos os olhos são dirigidos em maior foco durante um contato social, seja em uma conversa ou em um primeiro encontro. Em segundo lugar, corar é um sinal social de grande confiabilidade: parece ser impossível fingir ou suprimir o ato, ou seja, é uma reação involuntária quando disparada por um estímulo psicológico específico, sendo o processo controlado pelas enervações simpáticas do sistema nervoso autônomo.

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         Com isso em mente, precisamos também lembrar que o ato de corar ocorre em vários tipos de ambientes psicológicos, sendo disparado após um mau comportamento ou até mesmo após uma parabenização, frequentemente existindo uma auto-sensação de vergonha ou de constrangimento junto. Mas todas essas situações irão requerer a presença de um público (1) como testemunha , ou seja, o ato de corar não ocorre simplesmente pelo ganho de um elogio ou pelo mau comportamento descoberto. Parece óbvio pensar, então, que corar o rosto possui a finalidade de mandar um sinal social para as pessoas ( ou ´pessoa´) desse público ao seu redor. Mas qual sinal seria esse? Ainda não é algo conclusivo no meio científico, mas existem evidências que podem ajudar a solucionar a questão.

    CORAR: EFEITO POSITIVO

          Experimentos já mostraram que quando uma pessoa acha que vai desapontar outra por causa de um mau comportamento, o ato de corar parece fazer com que os espectadores gostem mais da pessoa, melhorando o julgamento dos outros sobre a transgressão cometida. Em outras palavras, ficar com o rosto vermelhinho nessa situação aumenta sua simpatia e pode fazer as pessoas te julgando levarem sua transgressão menos a sério. Isso pode estar também sendo somado à outras expressões de vergonha (evitar contato visual, supressão do sorriso, toques da mão no rosto, etc.) para amplificar a percepção de simpatia por terceiros, ajudando a evitar conflitos e a salvar laços sociais.

           Por trás desse benefício do rosto corado, estaria a ideia de que a vermelhidão involuntária do rosto significa uma não intenção e arrependimento na feitura do ato sendo julgado e que as pessoas precisam perdoá-lo por isso. Você falar que está arrependido são apenas palavras. Mas quando seu rosto fica vermelho, isso demonstraria um real sinal de arrependimento, por ser algo involuntário. Também já foi mostrado que o ato de corar passa uma imagem de confiança da sua pessoa para os outros, ajudando também a amenizar suas ações de transgressão com uma mensagem do tipo "não farei isso de novo, confiem em mim". Porém, caso não exista uma situação de transgressão relacionado ao ato de corar, não existem evidências científicas de que exista qualquer tipo de benefício social envolvido.

  CORAR: EFEITO NEGATIVO

           Nesse ponto, quando o ato de corar passa a ser frequente e disparado por quase todo tipo de contato social, além de não termos mais benefícios, problemas psicológicos podem estar sendo evidenciados. Nesse caso, o ato pode ser causa ou consequência de ansiedade social ou de timidez excessivos, e diversos especialistas passam a considerar isso como pertencente ao espectro do SAD (Transtorno de Ansiedade Social, da sigla em inglês), dependendo do grau do problema.

            Se você, por exemplo, cora quando vai a uma loja porque um vendedor lhe pergunta o que você está procurando, ou qualquer outra situação banal do tipo, isso pode passar um sinal negativo tanto para o espectador quanto para a pessoa que está corando, de acordo com evidências de vários estudos na área. Agora, tal sinalização passa a ser uma má adaptação social e alguns indivíduos superestimam tanto o efeito negativo da sua tendência em corar que passam a ter vergonha ou até fobia do ato. Em alguns extremos, o indivíduo pode até começar a evitar ter qualquer contato social para não disparar o coramento do rosto.

             Em anos recentes, os especialistas começaram a prestar mais atenção a esse problema e já existem tratamentos psicológicos e até cirúrgicos para tentar amenizar essa reação fisiológica. Por outro lado, quando corar é algo infrequente no seu dia a dia, independente da situação, nota-se uma maior tendência do indivíduo em sentir uma sensação de prazer durante o ato, indicando que tal reação do corpo realmente parece ter sido feita para momentos específicos e um excesso indica que algo não está normal.

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  CONCLUSÃO

         Concluindo, o ato de corar pode ser tanto uma característica de adaptação social quanto de má adaptação social. No geral, quando o ato é apenas associado com timidez e ansiedade, ele parece não oferecer benefício social algum e pode até passar uma imagem negativa sua para os outros em alguns casos. E quando é algo frequente, existe uma tendência do ato passar uma sensação desconfortável para a pessoa corando. Mas quando o ato vem depois de um mau comportamento, ele pode ajudar a amenizar uma situação de tensão social, ajudando a prevenir conflitos e enfraquecimento de laços sociais. Neste último caso, faz sentido a evolução natural ter mantido esse nosso charme especial...:)

(1) Esse público (uma ou mais pessoas) pode também ser algo simulado na sua mente. Assim, você pode corar simplesmente por pensar que está em frente de alguém.

CURIOSIDADE: Estudos também mostram que existe uma diferenciação entre os sexos no ato de corar o rosto. Segundo os mesmos, mulheres tendem a ter um coramento mais intenso e mais fácil de ser percebido.

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0118243
  2. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/cpsp.12102/full
  3. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1547412716300433
  4. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0924933816009135
  5. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/spc3.12009/full
  6. http://bjp.rcpsych.org/content/disabling-blushing-treatment-options
  7. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4734881/
  8. http://psycnet.apa.org/journals/emo/16/4/475/
  9. http://psycnet.apa.org/journals/emo/9/2/287/
  10. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S154741270800011X
  11. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/spc3.12040/full