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Por que o corpo prefere acumular, especificamente, gordura?



           Assim como diversos outros animais, temos duas formas principais de armazenar energia no corpo: acúmulo de polissacarídeos (no caso, glicogênio) e acúmulo de triglicerídeos (gordura). O glicogênio pode ser encontrado no fígado e no tecido muscular, enquanto as gorduras podem ser encontradas nas células adiposas do corpo. Apesar de termos ambas as formas de reserva energética, as gorduras são as mais abundantes de longe, compondo os tão famosos e odiados pneus e sendo responsáveis pelos quadros de obesidade. Mas por que guardamos muito mais gorduras do que glicogênio? Aliás, existem diversos outros polissacarídeos que poderiam servir como reserva de energia no lugar da gordura, como o amido. Por que a natureza escolheu a gordura para nós?

          Bem, existem três explicações para as gorduras terem sido escolhidas durante a evolução para compor a maior parte da reserva energética dos animais. A mais conhecida delas é o fato de que as gorduras conseguem armazenar, em sua estrutura química, valores superiores a duas vezes mais energia  do que a mesma quantidade em massa de polissacarídeos. Isso ocorre porque nas moléculas de gordura (triaglicerois) os carbonos estão bem menos reduzidos do que que as unidades de carboidratos que compõem os polissacarídeos, estas as quais possuem muitas unidades de hidroxilas (1). Assim, quando essas moléculas são quebradas nos processos metabólicos de respiração celular, muito mais energia é criada. Em termos evolutivos, conseguir mais energia de menos massa é sempre mais lucrativo. Por outro lado, os polissacarídeos liberam glicose, a qual é um substrato energético muito mais rápido de ser usado pelas células, ou seja, é uma fonte energética superior, principalmente por ser solúvel em água (2). Por isso possuímos reservas de glicogênio, as quais abastecem rapidamente o corpo com energia durante períodos de fome. Analisando por esse lado, valeria a pena termos, pelo menos, quantidades iguais acumuladas de ambos, não? Não, e é aqui que entra o segundo motivo.


Apesar da região de ligação entre o glicerol e os ácidos graxos da molécula de gordura ser bastante oxidada, especialmente por conter carbonos com duplas ligações com o oxigênio, a estrutura carbônica total é bastante reduzida; já o glicogênio possui grande quantidade de oxigênio espalhada por toda a estrutura
  
           Todos já devem ter notado que o açúcar de cozinha, um carboidrato, atrai bastante água, ficando bastante úmido rapidamente quando exposto à atmosfera e absorvendo ferozmente água quando em contato com um volume líquido qualquer da mesma. Da mesma forma, os polissacarídeos atraem bastante água, através de interações de hidratação intermolecular. Assim, para qualquer quantidade de polissacarídeo no corpo, um peso considerável de água também viria junto (3). Já os triglicerídeos interagem muito pobremente com a água, não atraindo esse líquido para sua estrutura. Se carregássemos uma grande reserva de polissacarídeos ao invés de gordura, teríamos que carregar um peso e volume corporal imensamente maior, o que significa menos mobilidade e maior gasto energético. Para se ter uma ideia, entre 15 e 20 quilos de gordura de uma pessoa com sobrepeso é suficiente para fornecer energia para ela durante meses! Para alcançar a mesma eficiência com os polissacarídeos, essa mesma pessoa teria que ter entre 80 e 120 quilos extras por causa da água que viria junto!
A molécula de glicogênio possui diversas hidroxilas para a feitura de ligações de hidrogênio com as moléculas de água
                A terceira, e última explicação, é que a gordura, além de ser uma excelente fonte otimizada de energia, é um ótimo isolante térmico, tendo fundamental importância para os mamíferos. Assim, a energia térmica produzida pelo corpo não seria perdida com facilidade para o ambiente ao redor, reduzindo os gastos energéticos para manter a temperatura corporal em um ideal. Para animais de regiões frias ou hibernantes, como os ursos, ter uma camada generosa de gordura é extremamente importante.

Ursos polares, por exemplo, agradecem muito pela sua gordura em excesso!
             Portanto, não xinguem sua gordura extra, porque só estamos aqui hoje graças a ela. Nossas reserva adiposa não tem culpa de termos evoluído algo inesperado pela natureza: inteligência, a qual nos tirou do modo selvagem de sobrevivência. Ou seja, culpe o seu cérebro pelos pneuzinhos extras e desnecessários. Na verdade, a gordura até nos ajuda nessa questão, porque se não fosse ela, aí, sim, saberíamos o que é um acúmulo explosivo de massa com o sedentarismo...:)

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(1) Quanto mais reduzido um composto orgânico é, menos oxidado ele é e mais oxidação energética ele poderá sofrer durante o metabolismo celular, liberando mais energia.

(2) Virtualmente, todos os processo metabólicos do corpo são feitos em presença de água, onde o próprio sangue carrega os nutrientes em meio aquoso. Portanto, quanto mais solúvel em água é o composto, mais facilmente o corpo trabalhará com ele. Caso contrário, será necessário transportadores específicos e gastos energéticos extras, como no caso dos triglicerídeos e ácidos graxos associados.

(3) Para cada 1 grama de glicogênio ou glicose, por exemplo, existe 2 gramas de água hidratando essas moléculas no organismo.

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REFERÊNCIA CIENTÍFICA:  Lehninger Principles of Biochemistry,  David L. Nelson (Autor), Michael M. Cox (Autor), W. H. Freeman; Edição 6