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O cloro na água tratada traz riscos?




          A cloração é uma forma de limpeza da água usada para o consumo humano, seja para a alimentação seja para a higiene pessoal. Na cloração, existem duas vias químicas de ação: através do uso de cloroaminas ou de cloro/hipoclorito. Devido ao fato do cloro gasoso e outros diversos derivados químicos desse elemento serem tóxicos, surge a preocupação da população quanto ao uso dessas substâncias para o tratamento da água encanada. Isso até incentiva várias pessoas a fazerem uso quase exclusivo da água mineral de garrafa para a alimentação. Mas tal preocupação possui real fundamento?

          Na cloração da água, usa-se cloro gasoso ou sais de hipoclorito ( normalmente o de sódio ou cálcio) para gerar íons hipocloritos e ácido hipocloroso em solução, ambos em equilíbrio na água e em proporções que irão depender do pH do meio. Quanto maior o pH, maior a quantidade de íons hipocloritos, quanto menor o pH, maior a quantidade de ácido hipocloroso (1). Já na cloroaminação, monocloroaminas são adicionadas à água em uma alternativa à cloração. Em ambos os casos, o objetivo principal é a eliminação de germes danosos à saúde. As monocloroaminas e o ácido hipocloroso são específicos e muito eficientes nessa ação, enquanto o íon hipoclorito tem pouca ação desinfetante, sendo responsável mais por eliminar outras substâncias tóxicas da água (2).


 
        Respondendo a pergunta já formada na cabeça da maioria nesse ponto, sim, todas essas substâncias listadas acima são tóxicas para nós. Porém, essa toxicidade só vale se elas estiverem em concentrações relativamente altas, algo que passa longe das quantidades encontradas nas águas das tubulações domésticas. As centrais de tratamento são bem rígidas nas quantidades adicionadas desses compostos e em possíveis subprodutos perigosos que estão sendo formados em reações paralelas do cloro/hipoclorito/cloroamina na água. O cloro na água de distribuição para a população não passa dos 5 mg/L, limite totalmente seguro imposto pelas organizações de saúde ao redor do mundo. Caso algum problema seja encontrado, o fornecimento é retido na hora para a resolução do mesmo. Você pode beber, tranquilo, sua água encanada, especialmente se estiver filtrada (3). Podemos comparar esses níveis de toxidade com a cafeína. Beber café não faz mal a ninguém. Mas se alguém começa a consumir litros por dia dessa bebida, provavelmente sofrerá uma intoxicação gerada pela cafeína em excesso.

       Outra dúvida que pode surgir é o uso da água sanitária ( composta de hipoclorito de sódio) na desinfetação de frutas e verduras. Como eu discuti no artigo recomendado abaixo, as quantidades recomendadas de água sanitária para essa função são seguras para a saúde, principalmente se você, posteriormente, lava bem os alimentos banhados nessa solução de limpeza com água corrente.

       Por outro lado, existe uma situação onde a cloração da água pode ser bem prejudicial caso seja feita de modo irresponsável, algo que é, infelizmente, frequente: higienização das piscinas. Diferente do que ocorre nas estações de tratamento, normalmente a cloração das piscinas não segue um rígido protocolo de controle, acarretando em quantidades indevidas das substâncias adicionadas à água e má ventilação local. Somando-se a isso, muitas piscinas não são filtradas ou trocadas com a devida frequência, fazendo-se acumular diversos compostos orgânicos na água originados da urina, suor e outros dejetos corporais dos usuários. O compostos clorados, então, começam a reagir com os compostos orgânicos em excesso, produzindo perigosas quantidades de dicloroaminas, tricloroaminas, trihalometanos ( como o clorofórmio) e até mesmo cloro gasoso. Parte deles se acumulam na água e parte difunde para o ar. Por isso, quem nada com frequência em locais mal monitorados acaba reclamando muito de irritações nos olhos, nariz e dificuldade de respirar. Caso tais locais sejam fechados e como péssima ventilação, os problemas só pioram já que os contaminantes clorados acabam se acumulando no ar, danificando ainda mais as vias respiratórias das pessoas ali presentes. Ao longo dos anos, graves danos à saúde podem ser desenvolvidos, onde várias das substâncias tóxicas das classes citadas anteriormente são cancerígenas.

Piscinas localizadas em ambientes fechados devem ter um cuidado extra durante os tratamentos de cloração da água


        Apesar da água clorada nas estações de tratamento serem inofensivas para nós, humanos, é preciso tomar cuidado quando for usá-la para alimentar certos animais. Peixes, outros animais aquáticos, répteis e anfíbios são muito sensíveis ao cloro e cloroaminas na água por absorverem a mesma diretamente pela corrente sanguínea. Portanto, nunca alimente aquários com a água de torneira e nem dê esta para alimentar esses animais. Já os mamíferos e aves, assim como nós, são imunes às pequenas quantidades de compostos clorados na água tratada. Não é preciso se preocupar quando der ela de beber para seu cão ou gato de estimação. As plantas também não são afetadas por esses compostos, sendo inofensivo regá-las com água de torneira.

(1) O íon hipoclorito e o ácido hipocloroso estão sempre em equilíbrio porque um origina o outro em meio aquoso. Quando esse ácido perde um próton (H+), ele dá origem a um íon hipoclorito. Caso o pH do meio esteja elevado, mais hidroxilas estarão presentes, as quais consumirão mais prótons ( resultando em água) e deslocarão o equilíbrio para uma maior produção de íons hipocloritos. Caso o pH esteja baixo, mais prótons estarão no meio, os quais reagirão com os íons hipocloritos originado mais íon hipocloroso. Caso o pH esteja neutro, as quantidades relativas dos dois íons serão iguais. Como a água é levemente ácida ( baixo pH), por causa do gás carbônico nela dissolvida ( leia o artigo recomendado abaixo), sempre haverá uma boa quantidade de ácido hipocloroso, independente da quantidade de íons hipocloritos adicionadas. Esses últimos, apesar de não serem bons agentes desinfetantes, são agentes oxidantes poderosos, degradando várias substâncias na água que poderiam ser danosas para nós.

(2) Uma substância neutra ( sem cargas) entra com muito mais facilidade na membrana celular do que substâncias iônicas ( com cargas). Por isso, tanto o ácido hipocloroso, cloroaminas e clorometanos ( todos moléculas neutras) são muito mais tóxicos para os organismos vivos, por conseguirem entrar com eficiência no interior celular e fazerem seu estrago. Já as substâncias iônicas tendem a ficar retidas da barreira da membrana celular. Nesse ponto, o fato da água ter um caráter ácido ajuda a manter um bom nível de ácido hipocloroso no meio mesmo se sais puros de hipoclorito são usados, aumentando o poder germicida de soluções como a água sanitária.

(3) A filtração da água não retira nada que esteja dissolvida nela, apenas compostos e matéria insolúveis. Sais e compostos clorados solúveis, e gases passarão tranquilamente pelo filtro. Eu ressaltei uma maior segurança da água de torneira quando ela é filtrada porque os filtros retirarão germes que não estejam mortos, além de outras sujeiras. No final, acaba-se filtrando mesmo apenas sujeira, porque a cloração da água muito dificilmente deixa algum desses parasitas vivos. De qualquer forma, filtrar a água garante uma proteção ainda maior ao seu consumo.

OBS.: Em alguns lugares do mundo, como em certas cidades do Canadá, utiliza-se a ozonização da água ( tratamento com gás ozônio) como uma alternativa ao uso de compostos clorados. Isso evitaria qualquer problema causado pelos subprodutos tóxicos que possam ser formados nos processos de tratamento da água, como os tão temidos triclometanos ( THMs). Só que estes não são formados em quantidades que ameacem a saúde das pessoas nas redes de distribuição de água. Além disso, o uso do ozônio é bem menos eficiente e limitado, sendo necessário ainda usar cloro em uma quantidade mínima para promover uma boa higienização da água.

Artigo recomendado:  Vinagre ou água sanitária para a limpeza dos alimentos?

Artigo relacionado: Efeito estufa e a acidez dos oceanos 

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.waterandhealth.org/chlorine-in-tap-water-is-safe-to-drink/
  2. http://www.public.health.wa.gov.au/cproot/4933/2/chlorinated%20drinking%20water%20finalv2.pdf
  3. http://journal.gnest.org/sites/default/files/Journal%20Papers/Nikolaou.pdf
  4. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0043135409002759
  5. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0043135411004246
  6. http://dwi.defra.gov.uk/consumers/advice-leaflets/chlorine.pdf
  7. http://www.env.gov.nl.ca/env/faq/thm_facts.html 
  8. http://www.cdc.gov/healthywater/drinking/public/chlorine-disinfection.html
  9. https://www.health.ny.gov/environmental/emergency/chemical_terrorism/chlorine_tech.htm
  10. http://dnr.wi.gov/regulations/labcert/documents/training/cl2chemistry.pdf
  11. http://www.hc-sc.gc.ca/hl-vs/iyh-vsv/environ/chlor-eng.php