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As areias movediças realmente nos engolem?


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          Essa desmistificação científica é bacana. Todos aqui já devem ter ouvido falar das temíveis Areias Movediças. Comuns em filmes de aventura, elas são descritas como superfícies aparentemente seguras para se andar por cima, mas quando um desavisado pisa nelas, este logo afunda e é sugado para o seu interior até desaparecer de vista. Além disso, supostamente, quanto mais você se mexe durante o processo, mais rápido você afundaria. Mas qual é a verdade em tudo isso?


   O QUE É UMA AREIA MOVEDIÇA?

        As areias movediças clássicas são formadas por uma mistura principal entre barro (ou areia), água e sal (cloreto de sódio). Esse tipo de mistura é frequente nos deltas de rios e em áreas litorâneas, e resulta em composições físico-químicas que fazem a superfície das areias movediças ter um aspecto bem sólido. O sal acaba sendo a substância que promove uma melhor estabilidade à mistura, mas, em algumas situações, certas proliferações de cianobactérias podem cumprir esse papel em locais com pouca presença de cloreto de sódio (são areias movediças mais raras, com alguns exemplos existentes aqui no Brasil).

         Independentemente da sua formação, quando alguém pisa em uma areia movediça, realmente afunda na mesma hora e quanto mais agitada estiver a pessoa, mais rápido ocorre o processo, porque o movimento do corpo no meio da mistura faz a crosta se "liquefazer" mais, tornando-a mais fluída. Mas o papo de que a areia movediça vai te sugando até você desaparecer de vista não encontra base lógica por um simples motivo: densidade.

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   DENSIDADE DA MISTURA

        Dois estudos experimentais, um publicado em 2005 (Ref.1) e o outro em 2009 (Ref.2), investigando os processos físicos de formação das areias movediças e os riscos associados, mostraram, na prática, que essas misturas não são capazes de afundar uma pessoa por inteiro, ratificando o que a teoria já previa.

        Ora, todos aqui sabem que o corpo humano consegue boiar, tranquilamente, na água, ou, caso contrário, ninguém seria capaz de nadar, Isso ocorre porque nossa densidade geral é bem próxima da água líquida (em torno de 1 g/cm3). Uma pedra, por exemplo, irá, prontamente, afundar nesse líquido por ter uma densidade bem maior, sem chance alguma de boiar. Agora, considere uma mistura aquosa bastante viscosa, por causa do barro, muito salgada e cheia de diversos outros materiais orgânicos e inorgânicos, solúveis ou não. Concordando com o cenário mais esperado, a densidade dessa mistureba é significativamente superior do que aquela da água pura, tornando impossível que um humano afunde completamente nela! Só o fato dela ser bem salina já aumenta consideravelmente a densidade da água ali presente e esse tipo de areia movediça costuma ter, em média, uma densidade 2 vezes maior do que aquela do nosso corpo (~2 g/cm3). Além disso, o estado bem viscoso pós-imersão garante ainda mais estabilidade para o corpo humano ficar imóvel na posição onde estiver boiando. Não importa se você estiver, ou não, se mexendo feito um louco, porque você irá apenas submergir parte do seu corpo na areia movediça. É uma questão de pura Física aplicada.


   POR QUE É TÃO DIFÍCIL ESCAPAR?

           Porém, acidentes fatais podem, e já ocorreram, por causa da areia movediça, mas não porque a pessoa é sugada por completo para dentro dela e, sim, porque sair dessa mistura por conta própria é bem complicado.

            Uma vez que você cai em uma areia movediça, o estresse físico inicial causado pelo corpo afundando leva a uma rápida liquefação e dramática diminuição da viscosidade em várias ordens de magnitude. Após a liquefação, a areia movediça segrega em uma fase rica em água e em uma fase rica em areia, com a viscosidade aumentando novamente de forma dramática, tornando difícil para a pessoa escapar. Nesse primeiro momento, para a água ser introduzida nas regiões compactadas ricas em areia, uma grande força se torna necessária, e para um pé, por exemplo, ser levantando na mistura, uma força em torno de 104 Newtons acaba sendo necessária - próximo daquela necessária para levantar um carro de porte médio.           

           Como não dá para nadar em algo tão viscoso, o jeito seria ficar calmo e ir desbravando a areia movediça até sair dela ou inclinar o corpo bem devagar, de forma a melhor distribuir o peso, e ver o seu corpo ir emergindo por completo, até você ficar flutuando por cima da mistura. Isso, falando, parece fácil, mas na hora do desespero fica bem difícil. Assim, caso a pessoa se esforce demais e não consiga sair ou pedir ajuda, ela pode morrer por desidratação ou, caso esteja em uma área marítima, a maré da região pode ficar alta e, literalmente, afogar a pessoa com a água do mar. No vídeo abaixo é mostrado um modo para a pessoa tentar escapar da areia movediça.

             

          Após um longo período, suficiente água entra nos densos 'pacotes' de areia, e um humano ali aprisionado mais ou menos pela metade do corpo, irá ser espontaneamente ascendido por completo até a superfície pela flutuabilidade da mistura final. Portanto, caso não exista ninguém por perto ou outros meios para escapar da areia movediça, ter paciência naturalmente irá te tirar da armadilha, caso o ambiente permita a espera.


    "AREIA MOVEDIÇA" SECA

          Apesar da areia movediça tradicional fazer referência àquela úmida e lamacenta (sólidos suspensos em água), é válido lembrar que existe também "areia movediça" seca, a qual pode ser criada em ambientes desérticos pela deposição de partículas de areia pelo vento, ou em silos de grãos, nesse último caso associada a um alto risco de morte. A areia movediça seca possui um comportamento similar a um fluído e a força de arraste granular se torna isotrópica e independente com a profundida de imersão do corpo engolido (Ref.3).

           A submersão em silos de grãos e subsequente risco de sufocamento é um reconhecido perigo no ambiente agrícola (ex.: fazendas), e a mais comum causa de morte associada ao armazenamento de grãos nos EUA. Entre 1980 e 1992, foram registradas 88 mortes de trabalhadores rurais aprisionados em silos de grãos no território Norte-Americano (Ref.4). Quando uma pessoa cai em um silo de grão, o resultado frequentemente é uma rápida submersão. Particularmente em fluxos de grãos (ex.: durante a descarga de grãos de um contêiner através de uma rosca transportadora), uma pessoa pode ser completamente submergida em 8 segundos. Alguns grãos, como milhete e linho, não conseguem suportar o peso de uma pessoa mesmo quando não estão em movimento/fluxo. 

          A pressão dos grãos (peso) aplicada ao redor da pessoa imersa restringe sua habilidade de respirar. Na expiração, o volume do peito e do abdômen é reduzido. Imediatamente após a expiração, uma grande quantidade de grãos fluem para o espaço gerado ao redor do corpo. Na inspiração seguinte, a expansão dos pulmões é impedida e o sufocamento rapidamente ocorre, frequentemente acelerado pelo pânico.




          O resgate de pessoas em contêineres cheios de grãos é frequentemente muito difícil e algumas vezes impossível dependendo dos recursos a disposição no momento do acidente. Além disso, durante a ação de resgate, baixa visibilidade e alta geração de poeira adicionam riscos extras não só à saúde do acidentado - já sob dificuldade respiratória - como também dos resgatantes; esses riscos incluem séria irritação do tecido pulmonar por causa da aspiração da poeira em excesso no ar.

          Uma estratégia efetiva no resgate de indivíduos que caem e ficam aprisionados em silos de grãos é a introdução de um cilindro em torno do indivíduo submerso, com subsequente sucção dos grãos ao redor do cilindro e remoção segura do acidentado (Ref.5).

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  CONCLUSÃO

         Resumindo, a areia movediça, independentemente da sua profundidade, não vai te engolindo até você desaparecer porque ela é mais densa que o seu corpo e bem viscosa. E, sim, quanto mais você se mexe, mais você afunda, mas até o limite em que o seu corpo fique em equilíbrio de empuxo com a mistura. Mas, no final, essas armadilhas naturais são bem perigosas e podem te garantir um bom tempo de agonia. Portanto, sempre verifique placas de aviso e pesquise sobre o local aonde estiver indo. E, sobretudo, avise para amigos e familiares sobre suas viagens ou, melhor ainda, sempre tenha companhia nas suas aventuras exploratórias.


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1.  http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16193035
  2.  http://scitation.aip.org/content/aip/proceeding/aipcp/10.1063/1.3180096
  3. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S003259101930871X
  4. https://www.cdc.gov/niosh/updates/93-116.html
  5. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0300957202000096

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