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O HDL realmente protege o coração?


           O colesterol é uma molécula orgânica extremamente importante para o organismo dos animais. Ausente nas plantas e bactérias ( com raras exceções), o colesterol é essencial na manutenção da membrana plasmática das células ( fluidez, transmissão de impulsos nervosos, entre outras) animais, além de ser percursor na produção de hormônios esteroides ( como os sexuais), da vitamina D e da bile. Algumas pesquisas também sugere que ele poderia agir como um antioxidante no corpo.


             Portanto, diferente do que as pessoas pensam, o colesterol é muito importante para o corpo, não sendo apenas um vilão. O organismo de uma pessoa pesando cerca de 68 kg produz em torno de 1 g desse composto por dia, sendo que o total presente no corpo será de, aproximadamente, 35 g, com a maior parte presente nas membranas celulares. O problema vem quando um excesso passa a circular pelo corpo, causado por diversos fatores genéticos, ambientais e comportamentais ( obesidade, sedentarismo, tabagismo, alimentação ruim, hipertensão, etc.). E é aí também que entra a questão dos famosos HDL e LDL.

          Como eu já discuti em outros artigos ( indicados como complementação abaixo), tanto o HDL quanto o LDL são lipoproteínas transportadoras de colesterol na corrente sanguínea, com o primeiro sendo chamado de ´bom colesterol´ e o segundo ´mau colesterol´. O LDL, comprovadamente, é um fator de risco cardíaco, por pegar o excesso de colesterol sanguíneo e depositá-lo nas paredes dos vasos, podendo obstruí-los e causar infartos, especialmente através da formação de placas nas paredes das artérias ( aterosclerose).  Por isso, na hora do seu exame de sangue, é preciso ficar de olho nele, já que altos níveis do mesmo não são nada bem-vindos. Já o HDL, pelo consenso médico padrão, ajuda o organismo a retirar o excesso de colesterol da circulação sanguínea, possivelmente ( e olha que a maioria dos profissionais chega a afirmar isso) pegando o colesterol depositado nos vasos pelo LDL e levando-o para ser degradado no fígado. Bem, em resumo, é indiscutível que o LDL é realmente mau, mas será que podemos dizer que o HDL é bom?


           Pasmem, mas não existem evidências científicas sólidas de que o HDL tenha qualquer papel de proteção à saúde cardíaca! Não se conhece os mecanismos que estariam por trás do trabalho bioquímico dessa lipoproteína nesse processo ou mesmo se ela possui ações de limpeza de colesterol dos vasos. O HDL realmente transporta vários tipos de lipídios das células ( tecidos) para serem metabolizadas no fígado ou em órgãos produtores de esteroides ( ovários e testículos, por exemplo), incluindo o colesterol, mas o papel de ´anti-LDL´ é debatível. Por outro lado, existe uma relação bem clara entre alta proporção de HDL em relação ao LDL e boa saúde cardíaca quando analisamos a população em geral (Ref.5). Ou seja, altos níveis de HDL realmente indicam uma boa saúde do coração. Mas será que é o HDL o responsável por isso? Não existe resposta para essa pergunta! Medicamentos, por exemplo, que visam o aumento da quantidade de HDL no sangue não mostram resultados positivos algum. Os Institutos  Nacionais de Saúde ( NIH), agências internacionais de maior importância, até pararam com pesquisas clínicas que visavam o aumento do HDL em grupos de controle, porque nenhum benefício foi observado em anos de tratamento (Ref.12).
 
          Pode ser que um terceiro fator esteja envolvido como protetor cardíaco, este o qual, coincidentemente, também faz aumentar os níveis de HDL no sangue. Ou seja, as recomendações de sempre buscarmos uma alimentação e um estilo de vida que aumentem os níveis de HDL podem não fazer muito sentido, exceto se elas aumentarem a quantidade do ´terceiro fator´. E, normalmente, essas recomendações promovem uma melhor saúde para o corpo, sendo que uma maior produção de HDL seja apenas um efeito colateral. Hoje, temos que procurar baixar os níveis de LDL, e buscar hábitos que mantenham o HDL em maior quantidade, mas não necessariamente focar em seu aumento isolado. Aliás, um estudo recente, e que foi a minha fonte de inspiração para a feitura deste artigo, mostra resultados até contraditórios em certos indivíduos.

          Algumas pessoas, por fatores genéticos, produzem altas quantidades de HDL, mas, contraditoriamente, podem ter um risco aumentado de doenças cardíacas! Isso ocorre por causa de uma rara variância em uma sequência de genes ( P376L, no gene SCARB1). (Ref.7) Esta variância permite um aumento na produção e manutenção de altas quantidades de HDL mas também aumenta os riscos de uma doença cardíaca em cerca de 80%, quase a mesma taxa causada pelo fumo. Ou seja, neste caso, o índice de HDL está, aparentemente, agindo como ´mau colesterol´. E isso contradiz muito a crença em cima deste tipo de lipoproteína. O papel indicador dela é falho aqui.

Fatores para aumentar os níveis de HDL de forma isolada ( gorduras poli-insaturadas e medicamentos baseados em niacina, por exemplo) podem não ser a melhor aproximação para otimizar a saúde cardíaca

          Para não nos afogarmos de vez na desilusão do ´bom colesterol´, alguns pesquisadores acreditam que o tamanhos das moléculas de HDL ( Proteínas de Alta Densidade, na sigla em inglês) possam ser os fatores mais determinantes. Assim, nem todo aumento de HDL seria bom, apenas de certos tipos. Os medicamentos atuais podem estar induzindo a produção dos tipos inúteis, e, por isso, podem não estar mostrando bons resultados. Outro modo de ver a situação seria considerar a forma como o corpo de cada um lida com o HDL, algo muito mais importante do que a quantidade deste na corrente sanguínea. De qualquer forma, em um exame de sangue o que realmente parece importar, quantitativamente,  são as quantidades de LDL, estes, sim, vilões comprovados. E, como foi visto acima, para alguns indivíduos, ter o colesterol ´bom´ alto pode ser a pior notícia possível.

                   Concluindo: Ter um índice alto de HDL e baixo LDL é um indicador de boa saúde cardíaca. Mas, enquanto o LDL é comprovadamente danoso ao corpo, o HDL permanece no mistério. Aumentar as quantidades deste último não é, necessariamente, algo que beneficiará a saúde dos vasos sanguíneos e coração caso os reais fatores de proteção não estejam envolvidos. Por exemplo, reduzir o consumo alcoólico e o fumo aumentam o HDL, porém a redução de outros fatores danosos disparados por essas drogas pode ser a verdadeira responsável por melhorar a saúde cardíaca e, por efeito colateral, aumentar o HDL, sem este ser a causa de benefício nenhum.

Artigos complementares:
REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.nature.com/nm/journal/v18/n9/abs/nm.2937.html
  2. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0140673612603122
  3. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0140673614612174
  4.  http://departamentos.cardiol.br/sbc-da/2015/
  5. http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.515.8062&rep=rep1&type=pdf
  6. http://www.nature.com/nrd/journal/v13/n6/abs/nrd4279.html
  7.  http://www.heart.org/HEARTORG/Conditions/Cholesterol/AboutCholesterol/Good-vs-Bad-Cholesterol_UCM_305561_Article.jsp#.VuQtEPqGN6l
  8. http://science.sciencemag.org/content/351/6278/1166 
  9. http://www.bbc.com/news/health-35775318
  10. http://circ.ahajournals.org/content/early/2013/08/28/CIRCULATIONAHA.113.002671.short
  11. http://atvb.ahajournals.org/content/27/2/257.full
  12. http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa064278
  13. https://www.nih.gov/news-events/news-releases/nih-stops-clinical-trial-combination-cholesterol-treatment
  14. http://www.biochemiran.com/files/site1/pages/nejme1406410.pdf 
  15. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2526098/
  16. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4103514/
  17. http://www.nih.gov/news-events/news-releases/nih-stops-clinical-trial-combination-cholesterol-treatment