O que é a Blastomicose Cutânea?
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| Figura 1. (A) Lesões no paciente. (B) Fungos revelados por análise histológica associados às lesões, com brotos de base larga. Ref.1 |
Um homem de 53 anos de idade compareceu a uma clínica de dermatologia com histórico de 4 meses de lesões cutâneas vermelhas, elevadas e pruriginosas na região lombar esquerda e nádega.
O paciente não tinha histórico médico conhecido e relatou ausência de sintomas constitucionais ou respiratórios. Em relação à sua profissão, relatou que sofria frequentemente abrasões na pele durante a poda de árvores. O exame físico revelou numerosos nódulos e placas verrucosas com crostas sobrejacentes e eritema circundante na região lombar esquerda e nádega (Fig.1A).
Os estudos histopatológicos mostraram hiperplasia pseudoepiteliomatosa com infiltrado intraepidérmico e dérmico composto por neutrófilos, linfócitos, histiócitos e eosinófilos, bem como células gigantes multinucleadas com formação de granuloma. Coloração de Grocott-Gomori com prata metenamina revelou organismos fúngicos com brotamento de base ampla (Fig.1B), achado compatível com Blastomyces dermatitidis. O resultado do teste de antígeno urinário para Blastomyces também foi positivo. Os exames de imagem do tórax não mostraram anormalidades.
O paciente recebeu o diagnóstico de blastomicose cutânea primária, causada por espécies de Blastomyces, fungos dimórficos encontrados na metade leste dos Estados Unidos, que tipicamente crescem no solo e em detritos de áreas arborizadas. As manifestações cutâneas geralmente indicam doença disseminada, mas raramente podem ocorrer por inoculação primária, como neste caso.
Nesse sentido, foi prescrito tratamento com o medicamente antifúngico itraconazol e, após 6 meses, as lesões cutâneas desapareceram.
O caso foi descrito e reportado em 2022 no periódico New England Journal of Medicine (Ref.1).
BLASTOMICOSE CUTÂNEA
A blastomicose é uma infecção causada por fungos do gênero Blastomyces - em especial a espécie B. dermatitidis (Fig.2). A espécie citada aparentemente é endêmica de solos nos vales dos rios Ohio e Mississippi, na região dos Grandes Lagos e no sudeste dos EUA (Ref.2). A blastomicose se manifesta mais comumente como uma infecção pulmonar após a inalação de esporos, que pode ser assintomática e, portanto, indetectável, embora complicações graves e potencialmente fatais, como a síndrome da angústia respiratória aguda, possam ocorrer. Aproximadamente metade das pessoas que inalam esporos de fungos Blastomyces adoecem (Ref.3). Pessoas com sistema imunológico enfraquecido correm maior risco de desenvolver doenças graves.
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(1) Blastomyces dermatitidis - incluindo a espécie críptica B. gilchristi (complexo B. dermatitidis) - e a B. helicus são as espécies mais comuns que causam doenças em humanos e outros animais na América do Norte, incluindo Canadá. Ref.7-8
> Outras espécies incluem Blastomyces percursus no Oriente Médio e na África, Blastomyces emzantsi na África do Sul, Blastomyces parvus na Europa e na Austrália e Blastomyces silverae, que afeta animais. Mas essas espécies têm sido reportadas também em regiões da África, Índia e Canadá. Ref.8
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Os sintomas da blastomicose geralmente começam entre 3 semanas e 3 meses após a inalação dos esporos. A maioria das infecções ocorre nos pulmões e pode causar sintomas de pneumonia. Os sintomas podem incluir:
- febre;
- tosse;
- falta de ar;
- suores noturnos;
- dores musculares e nas articulações, costas, peito ou costelas;
- perda de peso;
- fadiga (cansaço extremo);
- e algumas pessoas com blastomicose também podem desenvolver lesões na pele, como caroços, bolhas ou úlceras.
Tipicamente, a infecção ocorre pela inalação de partículas do fungo encontradas em solo úmido, especialmente onde há vegetação em decomposição. A forma micelial do fungo habita principalmente terrenos arborizados com solo úmido perto de lagos, cursos d'água e rios. Escavações e construções em áreas endêmicas têm sido identificadas como fatores de risco para a aquisição da doença. Pessoas com distúrbios do sistema imunológico têm maior risco de contrair essa infecção, embora pessoas saudáveis também possam desenvolver a doença. Nos EUA, a incidência de blastomicose têm aumentado nos últimos anos e já é considerada uma doença emergente no estado de New York (Ref.9-10).
Notavelmente, entre novembro de 2022 e maio de 2023, ocorreu o maior surto de blastomicose nos EUA, afetando 162 trabalhadores de uma fábrica de papel em Delta County, Michigan (Ref.11-12). A fábrica era adjacente a um rio e existia uma região coberta com vegetação em decomposição próxima das suas instalações. Quase todos os pacientes (95%) associados ao surto reportaram tosse e 80% reportaram dispneia (dificuldade respiratória). Uma morte foi registrada. A espécie patogênica identificada: B gilchristii.
O fungo entra no corpo pelos pulmões e os infecta. Infecção pulmonar é uma ocorrência em até 93% dos pacientes (Ref.7). Em aproximadamente 20% dos pacientes, os pulmões podem falhar em deter a infecção e o fungo se espalha (dissemina) para outras áreas do corpo (Ref.11). Nesse último cenário, a infecção pode afetar a pele, os ossos e as articulações, os órgãos genitais e o trato urinário, entre outros sistemas. Os sintomas cutâneos são um sinal de blastomicose disseminada (Fig.3). Blastomicose severa afeta em maior parte pessoas com o sistema imune enfraquecido e diabéticas. Infecções graves podem se espalhar para a pele, ossos e articulações, e para o sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal). Morte intrahospitalar ocorre em 8-14% dos pacientes hospitalizados com blastomicose (Ref.11).
A blastomicose cutânea é a manifestação clínica extrapulmonar mais frequente, envolvendo 40-80% dos casos disseminados. É considerada primária quando se inicia pela inoculação do fungo devido a traumas na pele, e secundária quando o pulmão não consegue conter a infecção.
A maioria das pessoas que apresentam sintomas de blastomicose precisa de tratamento com medicamentos antifúngicos prescritos. O antifúngico itraconazol é geralmente usado para tratar blastomicose leve a moderada - além de ser amplamente usado na prática veterinária para o tratamento de cães infectados (Ref.13). A anfotericina B é geralmente recomendada para blastomicose grave.
Os profissionais de saúde podem solicitar exames de sangue para verificar se há níveis suficientes de antifúngico no organismo do paciente. Geralmente, os pacientes precisam tomar o tratamento antifúngico por um período de 6 meses a 1 ano. A duração do tratamento depende do sistema imunológico da pessoa e da gravidade da infecção.
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> O diagnóstico diferencial da blastomicose cutânea inclui fungos dimórficos, carcinoma basocelular, carcinoma espinocelular, ceratoacantoma gigante, escrofulodermia, lúpus vulgar, micobactéria atípica, nocardiose, sífilis, bromodermia, iododermia, leishmaniose, granuloma inguinal, linfoma e pioderma gangrenoso. Ref.14
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REFERÊNCIAS
- Allhatem & Smith (2022). Primary Cutaneous Blastomycosis. NEJM, 386: e49. https://doi.org/10.1056/NEJMicm2116178
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK441987/
- https://www.cdc.gov/blastomycosis/about/index.html
- https://medlineplus.gov/ency/article/000865.htm
- Ladizinski & Piette (2018). Disseminated Cutaneous Blastomycosis. NEJM, 379:74. https://doi.org/10.1056/NEJMicm1706238
- Iglesias-Osores & Rafael-Heredia (2020). Retrato microbiológico de Blastomyces dermatitidis: Microbiological portrait of Blastomyces dermatitidis. Revista Experiencia en Medicina del Hospital Regional Lambayeque, 6(2). https://doi.org/10.37065/rem.v6i2.440
- Ashraf et al. (2020). Re-drawing the Maps for Endemic Mycoses. Mycopathologia 185, 843–865. https://doi.org/10.1007/s11046-020-00431-2
- Saravanababu et al. (2025). Diagnosing Blastomycosis: A Review of Laboratory Methods and Clinical Utility. Journal of Fungi 2025, 11(8), 589. https://doi.org/10.3390/jof11080589
- Bartels et al. (2025). Updating the Epidemiology of Blastomycosis and Histoplasmosis in the United States, Using National Electronic Health Record Data, 2013–2023, The Journal of Infectious Diseases, Volume 232, Issue 6, Pages e1048–e1059. https://doi.org/10.1093/infdis/jiaf472
- Ramirez et al. (2026). Emerging Endemic Area for Blastomycosis, New York, USA, 2000–2024. Emerging Infectious Diseases, 32(3):414–418. https://doi.org/10.3201/eid3203.251306
- Hennessee et al. (2025). Michigan Blastomycosis Outbreak Investigation Team , Epidemiological and Clinical Features of a Large Blastomycosis Outbreak at a Paper Mill in Michigan, Clinical Infectious Diseases, Volume 80, Issue 2, 15, Pages 356–363. https://doi.org/10.1093/cid/ciae513
- Harvey et al. (2025). Outbreak of Blastomycosis Among Paper Mill Workers — Michigan, November 2022–May 2023. Morbidity and Mortality Weekly Report, 73(5152);1157–1162. https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/73/wr/mm735152a2.htm
- Reinhart et al. (2026). Therapeutic drug monitoring of itraconazole in treatment of blastomycosis in dogs, Journal of Veterinary Internal Medicine, Volume 40, Issue 1, aalag029. https://doi.org/10.1093/jvimsj/aalag029
- Ortega-Loayza & Nguyen (2013). Cutaneous blastomycosis: a clue to a systemic disease. Anais Brasileiros de Dermatologia, 88(2). https://doi.org/10.1590/S0365-05962013000200022



