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Por que a coluna vertebral de musaranhos do gênero Scutisorex é tão bizarra?

Figura 1. Musaranho da espécie Scutisorex thori.

 - Atualizado no dia 13 de junho de 2026 -

          Musaranhos são mamíferos representando a maior família do clado Soricomorpha - Soricidae - a qual engloba >300 espécies descritas e cuja origem é rastreada até ~45 milhões de anos atrás (Ref.1, 10). Devido ao pequeno tamanho desses animais (a vasta maioria não ultrapassa 13 cm de comprimento e 40 gramas de massa) são facilmente despercebidos nos ambiente natural, e várias novas espécies continuam sendo descobertas e descritas nos últimos anos (Ref.2-3). A menor espécie de musaranho conhecida - e de mamíferos no geral - é o musaranho-pigmeu (Suncus etruscus), com 2-5 cm de comprimento e menos de 3 gramas de massa corporal (1). Entre os musaranhos de maior porte, temos notavelmente o gênero Scutisorex, com duas espécies descritas (S. somereni e S. thori) exibindo comprimento de até 15 cm e massa corporal de até 115 g (mas tipicamente entre 30 e 80 g). 

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          Mas os musaranhos Scutisorex não se destacam apenas pelo tamanho. Esses animais possuem uma coluna vertebral única e altamente modificada, tornando-os os mais fortes vertebrados conhecidos, pelo menos em termos de resistência a cargas.

          A morfologia espinhal única do musaranho-herói do Leste Africano (Scutisorex somereni) foi primeiro descrita em 1917, representando a coluna vertebral mais modificada conhecida (Ref.4). Em 2013, uma segunda espécie do gênero Scutisorex foi descrita no periódico Biology Letters (Ref.5). Grande parte das vértebras dessas duas espécie são estranhamente interligadas, com tubérculos ósseos na massiva estrutura espinhal entrelaçados (Fig.3-4), fortificando imensamente a região lombar e caracterizando o único tipo de articulação "osso-sobre-osso" conhecida entre mamíferos. Esses processos de entrelaçamento ósseo tornam a coluna vertebral desses musaranhos ~4 vezes mais robusta (relativa à massa corporal) do que qualquer outro vertebrado conhecido.

 

Figura 2. Espécime de Scutisorex somereni empalhado junto ao seu esqueleto (partes craniana e vertebral), exposto no Museu Zoológico de Zurique, Suíça. A espécie foi primeiro descoberta na África equatorial em 1910. Estudos genéticos estimam uma divergência evolutiva há ~4 milhões de anos entre o S. somereni e o S. thori, e há ~14 milhões de anos em relação a outros musaranhos da subfamília Crocidurinae.

 
Figura 3. O esqueleto axial do musaranho-herói é caracterizado por vértebras torácicas e lombares reforçadas, costelas massivas, crânio rugoso e osso trabecular robusto. As vértebras possuem numerosos tubérculos acessórios que interligam as vértebras adjacentes e, combinados com as costelas, tornam o esqueleto axial incrivelmente robusto às forças compressivas sem sacrificar a mobilidade. Ref.12-13

Figura 3. Visão lateral da (a) região lombar e (b) costelas das espécies (i) Crocidura oliveira (uma típica espécie de musaranho servindo como comparação), (ii) Scutisorex somereni e (iii) Scutisorex thoriStanley et al., 2013

           No gênero Scutisorex, a maior parte das vértebras dorsais, incluindo pelo menos metade das vértebras torácicas e todas as vértebras lombares, possuem processos laterais dorso-ventralmente expandidos cujas faces cranianas e caudais são cobertas em tubérculos (ou protuberâncias) similares a dedos. Esses tubérculos ósseos articulam com aqueles de vértebras vizinhas, de tal modo que a espinha dorsal forma uma densa coluna de processos ósseos estreitamente entrelaçados (Fig.4). Essa conformação torna a coluna vertebral desses musaranhos 5 vezes mais resiliente a torção axial em comparação com a coluna vertebral de um típico mamífero e reduz dramaticamente a compressão ao longo do corpo pós-craniano - se comportando como uma barra muito rígida (Ref.6).  

 

Figura 4. Visão dorsal (acima) e lateral (abaixo)das vértebras lombar e torácica para três espécies de musaranhos. Além do anômalo entrelaçamento entre as vértebras, o gênero Scutisorex também possui mais vértebras lombares do que qualquer outro musaranho; a maioria dos musaranhos possuem 5 vértebras lombares, enquanto o S. thori possui 8 e o S. somereni possui 10-12. Smith & Angielczyk, 2020

           Um estudo genético mais recente revelou seleção positiva e mudanças em múltiplos genes (ex.: HOXA10, HOXA11, ALX4 MSX1) críticos para o desenvolvimento em todos os animais com coluna vertebral - ou seja, altamente conservados - que parecem ser responsáveis em parte pela bizarra coluna do musaranho-herói (Ref.12). Esses genes coletivamente desempenham papéis no desenvolvimento esquelético, musculoesquelético e dos membros, bem como no crescimento, especialização e movimento de diferentes células durante o desenvolvimento.

            Para dimensionar a força da coluna vertebral desses musaranhos, é reportado que homens adultos com cerca de 70 kg ficam de pé sobre espécimes de Scutisorex (massa corporal de ~50-70 g) por vários minutos, com os animais caminhando normalmente após serem liberados, aparentemente sem danos (Ref.5)! Isso é comparável a um adulto humano suportando o peso de um ônibus espacial na superfície da Terra (Ref.7). Essa incrível força levou o povo Mangbetu do Congo a usá-los como talismãs, acreditando que usar partes do animal como acessório de vestuário garante 'invencibilidade' (incluindo imunidade contra feridas) e bravura  - isso também rendeu o nome popular do S. somereni, "musaranho-herói" (Ref.8). O epíteto da espécie S. thori é uma homenagem ao deus Thor da mitologia Nórdica, uma divindade associada a força física. É importante apontar que, como o S. thori possui menos tubérculos vertebrais, a coluna dessa espécie provavelmente é bem menos resistente do que aquela do S. somereni.

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> Em notas de campo tiradas durante a Expedição ao Congo de 1910-15 do Museu Americano de História Natural, o líder Herbert Lang explica que o nome 'musaranho-herói' original foi dado pelo povo Mangbetu, que acreditava que ao usar talismãs feitos de partes de seu corpo eles se tornariam invencíveis: "heróis destemidos". Lang relata: “Sempre que têm uma chance, [os habitantes locais] têm grande prazer em mostrar à multidão facilmente fascinada a extraordinária resistência [do animal] ao peso e à pressão… Um homem adulto pesando cerca de 160 libras [~72,5 kg] pisa descalço sobre o musaranho… tentando constantemente se equilibrar em uma perna. A pobre criatura parece certamente estar condenada. Mas assim que seu algoz salta, o musaranho depois de alguns momentos de tremor tenta escapar, sem o pior acontecer". Essa força hercúlea, segundo a crença do povo Mangbetu, seria transmitida por meio de amuletos derivados desses musaranhos. Ref.11

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          A evolução da coluna vertebral desses bizarros musaranhos parece ter sido dramática, caracterizando possivelmente um evento de equilíbrio pontuado. De fato, nenhuma estrutura vertebral intermediária ou similar é conhecida em outras espécies, extintas ou não - apesar de análises recentes sugerirem que a morfologia do S. thori é relativamente intermediária entre as espécies C. goliath e S. somereni (Ref.6). Nesse sentido, a função adaptativa da coluna vertebral altamente modificada desses animais é ainda enigmática e alvo apenas de especulações. Sob carga compressiva, a morfologia vertebral do Scutisorex é adaptada para uma curvatura amplamente restrita ao plano sagital (flexão) (Ref.6). 

Figura 4. Espécime preservado de Scutisorex somereni (C) comparado com espécimes de Crocidura lanosa (B) e Myosorex babaulti (A). Externamente, os musaranhos Scutisorex sp. são parecidos com outros musaranhos típicos, mas divergindo dramaticamente em relação ao esqueleto axial. A coluna vertebral tão diferente do musaranho-herói evoluiu em menos de 7 milhões de anos, com a emergência e fixação rápida desse dramático novo traço anatômico sugerindo função adaptativa. Ref.13

          É comumente especulado que esses musaranhos usam a "super" coluna para acessar alimento em locais tipicamente inacessíveis a outros animais. O Scutisorex parece se alimentar predominantemente de minhocas (anelídeos oligoquetas) e também de larvas de insetos diversos. Todas essas presas são tipicamente encontradas em grande concentração sob itens que fornecem proteção física contra predação, como troncos pesados e pedras grandes. Com o torso reforçado e musculatura associada, é possível que o Scutisorex tenha maior facilidade de alcançar grande fartura de minhocas e vermes - através de um mecanismo de alavanca com a coluna vertebral - e, ao mesmo tempo, prevenindo sérios danos no corpo.

          Porém, nenhuma observação de campo ou experimento existe para corroborar essa hipótese e a questão sobre a real funcionalidade in vivo da exótica coluna vertebral do Scutisorex continua em aberto (Ref.9). É possível também que a estrutura vertebral no Scutisorex tenha evoluído como efeito colateral de outros traços adaptativos, ou seja, no final das contas pode não ter fins adaptativos.


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. https://animaldiversity.org/accounts/Soricomorpha/ 
  2. https://www.nature.com/articles/s41598-021-88859-4 
  3. https://doi.org/10.25225/jvb.20064 
  4. Cullinane et al. (1998). The functional and biomechanical modifications of the spine of Scutisorex somereni, the hero shrew: skeletal scaling relationships. Journal of Zoology, 244(3), 447–452. https://doi.org/10.1111/j.1469-7998.1998.tb00049.x
  5. Stanley et al. (2013). A new hero emerges: another exceptional mammalian spine and its potential adaptive significance. Biology Letters, 9(5): 20130486. https://doi.org/10.1098%2Frsbl.2013.0486
  6. Smith & Angielczyk (2020). Deciphering an extreme morphology: bone microarchitecture of the hero shrew backbone (Soricidae: Scutisorex). Proceedings of the Royal Society B, Volume 287, Issue 1926. https://doi.org/10.1098/rspb.2020.0457 
  7. https://www.nature.com/articles/nature.2013.13440
  8. https://animaldiversity.org/accounts/Scutisorex_somereni/
  9. Smith & Angielczyk (2022). A Shrewd Inspection of Vertebral Regionalization in Large Shrews (Soricidae: Crocidurinae), Integrative Organismal Biology, Volume 4, Issue 1, obac006. https://doi.org/10.1093/iob/obac006
  10. Asher et al. (2024). The origin and evolution of shrews (Soricidae, Mammalia). PRSB, Volume 291, Issue 2037. https://doi.org/10.1098/rspb.2024.1856
  11. Burton, A. (2018). Heroes among shrews. Frontiers in Ecology and the Environment, Volume 16, Issue 10, Page 616. https://doi.org/10.1002/fee.1983
  12. Chipps et al. (2026). Genome Evolution and the Enigmatic Axial Skeleton of the Hero Shew (Soricidae: Scutisorex Somereni), Genome Biology and Evolution, Volume 18, Issue 3, evag048. https://doi.org/10.1093/gbe/evag048
  13. https://www.lsu.edu/blog/2026/03/rb-hero-shrew-chipps.php