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Qual é a origem do nome Brasil?

          O pau-brasil (Paubrasilia echinata), pertencente à família Fabaceae (Leguminosae) e subfamília Caesalpinioideae, é uma espécie  nativa  do  Brasil (Mata Atlântica), propagada  naturalmente na floresta  pluvial  atlântica nos estados compreendidos desde o Rio Grande do Norte até o Rio de Janeiro. Notavelmente, essa espécie apresenta seiva de cor vermelha (Fig.3), a qual foi muito utilizada para tingir tecidos e algodão ao longo da história de colonização do território brasileiro (iniciada no século XVI). 

          A cor vermelha da seiva no pau-brasil é devido à presença do pigmento natural brasilina (Fig.4). A extração de madeira pelos Portugueses colonizadores para a produção de corantes foi tão importante economicamente e culturalmente no período pré-colonial (1500 a 1530) que renomeou o território brasileiro de "Terra de Santa Cruz" (nome dado pelos colonos, enquanto os nativos o conheciam como "Pindorama") para "Brasil".

 

 

          Sobre a origem do termo 'brasil' no nome popular da P. echinata essa possui raízes bem mais mais antigas. O pigmento brasilina é comum em espécies do gênero Caesalpinia [Paubrasilia]* encontradas no mundo todo, onde é particularmente abundante na espécie C. sappan (8-22% m/m). Aliás, uma  das  riquezas  da segunda  dinastia  Song  (960 a 1279  d.C.), na antiga China, era justamente o sappan ou sapang, extraído da espécie C. sappan na Ilha de Java, atual Indonésia. Vários documentos históricos na Europa fazem referência à tinta vermelha extraída dessas espécies como brasilem, brasile, braxilis, brezil, brecillis, brazilis, brazili, entre outros (Ref.3), e séculos antes da "descoberta" do Brasil pelos navegadores Europeus. Em particular, o termo genovês brazi refere-se a essas plantas. 

          Indo ainda mais fundo, todos esses termos semelhantes a 'brasil' parecem ter etimologia primordial do substantivo brasa, de origem germânica, fazendo referência à cor vermelha de brasa.

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          Apesar de toda a sua importância ecológica, histórica e sociocultural, o pau-brasil encontra-se na  Lista Vermelha da Flora Brasileira. Fortemente ameaçada de extinção, o pau-brasil persiste ainda em jardins botânicos, em parques nacionais ou de forma bastante pontual no território brasileiro, em uma estreita faixa da costa Brasileira (1). É estimado que essa espécie era abundante e amplamente distribuída no Brasil antes da chegada dos Europeus colonizadores, como documentado por Américo Vespúcio, quando este escreveu para o rei de Portugal dizendo que a costa Brasileira não possuía recursos lucráveis, mas uma infinidade de pau-brasil. Além da superexploração durante a colonização do Brasil até 1875 - processo responsável pela drástica redução populacional do pau-brasil -, a espécie é de difícil plantio devido a características intrínsecas das suas sementes e baixa capacidade de enraizamento no método agrícola de propagação por estacas.

 

          No final do século XIX, a indústria de corantes substituiu quase todos os pigmentos naturais por produtos sintéticos. Essa mudança histórica temporariamente removeu a pressão comercial sobre o pau-brasil. Porém, já na segunda metade do século, o archeteiro François X. Tourte (1747-1835) havia introduzido a construção de modernos arcos de violino, os quais exibiam uma curva côncava e, para esse propósito, o pau-brasil foi identificado como a melhor madeira. Tal reconhecimento se deve ao fato da madeira de pau-brasil combinar propriedades como ressonância, densidade e durabilidade, as quais estão relacionadas à disposição dos elementos celulares do lenho durante o desenvolvimento da árvore.

          Nesse sentido, ainda hoje a madeira do pau-brasil é explorada principalmente para a fabricação de arcos de violino de alta qualidade, impondo reduzida mas preocupante pressão em uma espécie próxima da extinção. De fato, muitos violinistas não aceitam outro tipo de material para a feitura desses arcos. Nos últimos 200 anos a madeira dessa espécie tem sido exportada para produção de arcos de violino de alta qualidade. Estima-se que cerca de 200 m³ de madeira de pau-brasil sejam utilizados anualmente para este fim, sob críticas de ambientalistas - especialmente porque essa demanda "apaixonada" fomenta o comércio ilegal.

          Em menor extensão, existe certa pressão comercial para a exploração dos produtos fitoquímicos do pau-brasil visando pesquisas farmacológicas. As atuais mudanças climáticas e o enfraquecimento das leis ambientais no Brasil também tornam incerto o futuro dessa espécie. 


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> O pau-brasil também é conhecido como como pau-pernambuco, pau-de-tinta e pelos índios como ibirapitanga (ybirá: 'pau' ou 'árvore'; pitanga: 'vermelho').

> Através da lei n° 6.607 de 7 de dezembro de 1978, o pau-brasil recebeu o reconhecimento de Árvore Nacional.

> Existem outras hipóteses propostas para a origem do nome do nosso país, mas a associação com o pau-Brasil é quase irrefutável. Por exemplo, é sugerido que a origem está no termo  aríaco parasil,  que  significa  terra grande, considerando a existência do radical para, presente em um bom número de  palavras  portuguesas  (Para-ná,  Para-guai),  que  teria  gerado parasili, contraído eventualmente para Brasil. 

(1) Muitos representantes ocorrem em áreas protegidas, como a Estação Ecológica do pau-brasil na Bahia e a Reserva do pau-brasil em Cabo Frio. O Programa Pau-brasil identificou 1754 árvores em mais de 130 propriedades rurais, destas 1669 são nativas e as demais 85 são cultivadas. Ressalta-se que na cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife, a espécie é utilizada na arborização urbana, como por exemplo no projeto iniciado em 2015 chamado "O Rio planta, eu cuido", em que alunos de escolas municipais aprendem noções de preservação ambiental, botânica e ecologia

*O gênero Caesalpinia foi recentemente revisado e a espécie Caesalpinia echinata (pau-brasil) foi renomeada nos últimos anos dentro de um novo gênero (Paubrasilia) incluindo especificamente e exclusivamente a espécie P. echinata. De qualquer forma, o pau-brasil continua sendo muito próximo relacionado ao gênero Caesalpinia.

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REFERÊNCIAS

  1. Gomes et al. (2019). Avaliação dos parâmetros morfológicos da qualidade de mudas de Paubrasilia echinata (pau-brasil) em viveiro florestal. Scientia Plena, 15(1). https://doi.org/10.14808/sci.plena.2019.011701
  2. Lichtenberg et al. (2018). Use and Conservation of the Threatened Brazilian National Tree Paubrasilia echinata Lam.: A Potential for Rio de Janeiro State? Springer Series on Environmental Management, 205–219. https://doi.org/10.1007/978-3-319-89644-1_14
  3. MENEZES, Paulo Márcio Leal de (2011). O Brasil na Cartografia Pré-Lusitana. Revista Navigator - Dossiê Iconografia e cartografia no Medievo e Modernidade, v.7, n.13.
  4. Zanin et al. (2012). The genus Caesalpinia L. (Caesalpiniaceae): phytochemical and pharmacological characteristics. Molecules, 29;17(7):7887-902. https://doi.org/10.3390%2Fmolecules17077887
  5. Macedo et al. (2018). Pau-Brasil: Como Conservar sem Conhecer? Diversidade e Gestão 2(2): 189-197. Volume Especial: Conservação in situ e ex situ da Biodiversidade Brasileira, e-ISSN: 2527-0044.
  6. Esser et al. (2019). Future uncertainties for the distribution and conservation of Paubrasilia echinata under climate change. Acta Botanica Brasilica, 33(4). https://doi.org/10.1590/0102-33062019abb0173 
  7. Rocha & Barbedo (2019). PAU-BRASIL (Caesalpinia echinata LAM., LEGUMINOSAE) NA ARBORIZAÇÃO URBANA DE SÃO PAULO (SP), RIO DE JANEIRO (RJ) E RECIFE (PE). Revista SBAU, Piracicaba, v.3, n.2, jun. 2008, p. 58-77.