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Diastema é um defeito nos dentes?

 
           Os famosos e comuns "dentes da frente separados" é uma condição odontológica conhecida como diastema na região da linha média facial (ou do maxilar), o qual afeta tipicamente os incisos 11 e 21 do maxilar superior. Muitas vezes esse fenótipo afeta a autoestima do indivíduo e é tradicionalmente encarado como algo deletério para a estética dental em muitos países e culturas. Mas essa entidade odontológica é um defeito ou patologia que precisa de tratamento, ou essa percepção pode ter raízes históricas de preconceito?

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          Diastema significa, em Grego, "intervalo", e, na Odontologia, faz referência a um significativo espaço ou lacuna entre dois ou mais dentes adjacentes (>0,5 mm). Essa entidade frequentemente ocorre na região da linha média do arco maxilar entre os dois incisivos centrais. O diastema é observado comumente na população pediátrica (aproximadamente 40% das crianças na pré-escola) (Ref.1) como parte de um desenvolvimento dentário saudável - e período onde existe uma mistura de dentes em diferentes estágios de formação - e desaparece naturalmente na maioria dos casos à medida que o desenvolvimento dental progride. No entanto, por fatores diversos - incluindo hereditariedade (genética) e tamanho do espaçamento (>2 mm) - o diastema pode persistir além da infância. É estimada prevalência de 1,6% até 25,4% de diastemas na população adulta, dependendo do grupo étnico ou região analisada (Ref.2). Em termos de faixa etária, o grupo mais comumente impactado é entre pessoas com idades entre 12 e 18 anos; alguns diastemas desaparecem durante esse período sem intervenção (Ref.3).



            Raramente a condição é observada no arco mandibular (maxila inferior) e sua manifestação inicial é um fenômeno multifatorial (adquirido ou não); em crianças com menos de 12 aos de idade, causas etiológicas comuns incluem morfologia dos frênulos, dentes supernumerários pré-maxilares e condensação do fluxo nasal de ar (Ref.2, 4). No geral, a etiologia é bastante ampla, englobando microdontia, mesiodens, incisivos conoides, freio labial, agenesia, cistos na região da linha média, pró-inclinação dos incisivos superiores, discrepâncias de tamanho entre o esqueleto e os dentes, bem como já citados fatores genéticos e mesmo hábitos não funcionais, como chupar o polegar. 

           O fechamento de diastemas é um procedimento clínico que visa o reestabelecimento estético do sorriso (caso seja esse o desejo e percepção do paciente odontológico), e opções para esse fim incluem correções com aparelhos ortodônticos, próteses fixas, laminados cerâmicos e restaurações diretas de resina composta (exemplo na imagem abaixo). 

          Independente da existência de "tratamentos", o diastema na região média do maxilar é considerado um fenômeno normal e natural na nossa espécie (Homo sapiens), e não necessita de "correções" - exceto no caso de pacientes que se sentem esteticamente incomodados com esse fenótipo (ex.: incômodo com o "espaço preto") ou em uma minoria de casos com implicações patológicas. Aliás, a percepção de um "problema estético" nessa condição pode estar ligada, em parte, a raízes históricas de preconceito.

 

   FEIO OU BONITO?

           Enquanto percepções sobre os diastemas na região da linha média do maxilar são multifatoriais e complexas, variações perceptivas contrastantes têm sido reportadas. É comumente idealizado em populações Ocidentais que esse tipo de diastema é esteticamente deletério e que deveria ser eliminado sempre quando possível ou pelo menos reduzido a um espaçamento de 1 mm ou menos. Nesse mesmo caminho, simetria e paralelismo ao longo da linha média dentária são percebidos como altamente desejáveis e 'necessários' para um sorriso atraente, e esses ideais estéticos são comumente ensinados em escolas de odontologia e encontrados inclusive na literatura acadêmica.

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            Na África Ocidental, por outro lado, percepções sobre os diastemas em várias populações diferem significativamente daquelas expressas em populações europeias e americanas. Esse espaçamento nos dentes frontais é frequentemente considerado um sinal de beleza e um indicativo de riqueza futura e de sorte entre alguns grupos. Como resultado, as pessoas são menos preocupadas sobre a presença de um diastema, com espaçamentos interdentais de 2 a 4 mm sendo mais comumente aceitos. Nessa parte do continente Africano, mesmo diastemas superiores a 10 mm geram insatisfação mais frequentemente associada à pró-inclinação dos incisores centrais do que com a existência do diastema em si. Aliás, em países como a Nigéria e Gana, a associação entre diastema e beleza é tão forte que muitos homens e mulheres criam diastemas artificiais nos incisivos frontais quando não possuem um (Ref.3, 6).



            Além da percepção positiva em termos culturais, o diastema nos incisivos centrais parece ser muito prevalentes na África Ocidental. Na literatura acadêmica são reportados valores de prevalência de ~17% até ~38% na população em geral, comparado com uma prevalência em torno de 3,5% em populações de ascendência Europeia (Ref.3).

          Imposições culturais resultantes dos processos históricos de colonização criaram a figura do "Homem Branco (ou Europeu)" como padrão ideal de beleza a ser perseguido. Traços Africanos historicamente associados com escravidão e à ideia de um "humano inferior" - como cabelo crespo e pele escura - passaram a ser considerados sinais de defeito e de desarmonia, e ainda hoje são populares no Ocidente procedimentos de "correção" deletérios como alisamento capilar e clareadores de pele. O diastema nos incisivos centrais provavelmente passou pelo mesmo processo pós-imperialista de depreciação devido ao fato de ser mais prevalente em populações Africanas ou de ancestralidade Africana próxima. De fato, estudos em populações no Ocidente já reportaram que as pessoas consideram indivíduos com diastema menos inteligentes, menos bonitos e de uma classe social inferior (Ref.7).


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. Cho et al. (2022). Eye movement analysis of children’s attention for midline diastema. Scientific Reports 12, 7462. https://doi.org/10.1038/s41598-022-11174-z
  2. Nuvvula et al. (2021). Etiological Factors of the Midline Diastema in Children: A Systematic Review. International Journal of General Medicine, 14:2397-2405. https://doi.org/10.2147%2FIJGM.S297462
  3. Ahiaku & Millar (2022). Maxillary Midline Diastemas in West African Smiles. International Dental Journal. https://doi.org/10.1016/j.identj.2022.06.020
  4. April et al. (2022). Association between superior labial frenum and maxillary midline diastema — a systematic review. International Journal of Pediatric Otorhinolaryngology, Volume 156, 111063. https://doi.org/10.1016/j.ijporl.2022.111063
  5. Berwanger et al. (2016). Fechamento de diastema com resina composta direta - relato de caso clínico. Revista da Associacao Paulista de Cirurgioes Dentistas, vol. 70, no.3. 
  6. Adigun et al. (2022). Relationship between maxillary midline diastema width and labial frenum attachment in a sample of Nigerian adolescents: A cross-sectional study. Nigerian Journal of Medicine, Vol. 31, No. 3.
  7. Cousineau et al. (2022). Retrospective Evaluation of the Prevalence of Diastema among an Adult Population. Open Journal of Stomatology, Vol. 12, No.6. https://doi.org/10.4236/ojst.2022.126017
  8. Alhammadi et al. (2022). Perception of Dental, Smile and Gingival Esthetic Components by Dental Specialists, General Dental Practitioners, Dental Assistants and Laypersons: A Cross-sectional Study. World Journal of Dentistry, Volume 13, Issue 3.