Artigos Recentes

Por que o gelo é tão escorregadio?


- Atualizado no dia 17 de fevereiro de 2026 -

Compartilhe o artigo:




          A princípio essa pergunta pode parecer muito óbvia e sem sentido. A propriedade do gelo em ser extremamente escorregadio é um fenômeno comumente presenciado (ex.: patinação no gelo) e, nesse contexto, tido como "lógico". Porém, surpreendentemente, a explicação dessa propriedade permanece um tópico pouco esclarecido na literatura científica e confrontado por múltiplas hipóteses. A natureza 'escorregadia' do gelo - mesmo quanto mantido a temperaturas bem abaixo de 0ºC - é geralmente atribuída à formação de uma fina camada de água líquida gerada por fricção. Mas quais são exatamente as características dessa fina camada proposta? Ora, porque temos um paradoxo aqui: a água líquida é bem conhecida de ser um péssimo lubrificante. 


- Continua após o anúncio -



   PELÍCULA DE ÁGUA

          O gelo e a neve exibem extraordinárias propriedades friccionais, com excepcionais coeficientes de baixa fricção. Esse comportamento único permite o sucesso de vários esportes de inverno - como esqui, hóquei e patinação -, impõe riscos nas estradas e, em um contexto muito diferente, é um elemento fundamental para o deslizamento de geleiras. A baixa fricção imposta pelo gelo permanece, no entanto, altamente contraintuitiva e paradoxal quando lembramos que a água é geralmente considerada um péssimo lubrificante devido à sua baixa viscosidade. E mesmo após mais de um século de investigação científica, a origem exata dessa enigmática propriedade permanece muito debatida.

          Desde 1859, com os trabalhos de M. Faraday (On Regelation, and on the Conservation of Force), tem sido estabelecido o consenso sobre a existência de uma camada úmida similar ao estado líquido na superfície do gelo, com uma espessura variando entre 1 e 100 nanômetros (nm) dependendo da temperatura, apesar do mecanismo associado de formação ser motivo de discussão acadêmica.

         Trabalhos subsequentes descartaram mecanismos de derretimento sob pressão sendo sugeridos para explicar o filme proposto, com as evidências científicas dando suporte para um mecanismo de derretimento friccional: dissipação viscosa gera calor, o que aumenta a temperatura na região de contato até o ponto de fusão, criando portando um filme lubrificante. Esse novo cenário, subsequentemente e parcialmente, ganhou suporte teórico a partir de medidas macroscópicas tribológicas. Porém, ainda muitas lacunas permaneceram sobre as propriedades de filme lubrificante interfacial, incluindo sua real espessura - indo inclusive da escala de nanômetros para micrômetros dependendo das técnicas de análises realizadas.

         As dificuldades para se explorar a real natureza desse filme lubrificante sobre a superfície do gelo - ou mesmo sua real existência - se dá pelo fato da sua formação ser dinâmica e autoconsistente, o que faz a fronteira água-gelo elusiva de ser detectada. Além disso, medidas mais recentes da temperatura envolvida no processo descartaram a possibilidade de completa fusão (passagem do sólido para o líquido) de um filme interfacial de água sob deslizamento, contradizendo explicações já estabelecidas do processo. Por fim, em esportes de inverno, é uma prática padrão usar revestimentos hidrofóbicos para reduzir ainda mais a fricção sobre o gelo-neve, tipicamente com ceras contendo aditivos de flúor; a origem desse comportamento físico-químico também é contraintuitiva - já que o gelo é hidrofílico - e elusiva.

          Em outras palavras, os mecanismos fundamentais para a natureza escorregadia do gelo (e da neve) têm permanecido um mistério desde o começo dos debates científicos sobre o problema, no século XIX.


- Continua após o anúncio -



   REOLOGIA COMPLEXA

           Para tentar resolver essa questão, pesquisadores do laboratório de Física do I'ENS (CNRS/ENS-PSL /Sorbonne Université/Université de Paris) em colaboração com um time do laboratório de hidrodinâmica do CNRS (LadHyX,CNRS/École polytechnique) desenvolveram um dispositivo equipado com um sensor tribométrico que permite "ouvir" as forças atuando durante o deslizamento sobre o gelo com extrema precisão. Apesar da escala macroscópica (centímetros) da ponta de interação efetiva do equipamento (tuning fork), sua sensibilidade mostrou-se suficiente para analisar as propriedades de fricção em uma escala nanométrica. Isso permitiu criar uma ponte entre medidas padrões via microscopia de força atômica (AFM) e experimentos tribológicos em macroescala.

          Graças ao aparato inédito - e descrito em um estudo publicado em 2019 Physical Review X -, os cientistas apontaram que a fricção gera um filme constituído de água líquida. Esse filme, todavia, trouxe várias surpresas. A principal foi a espessura, a qual media poucas centenas de nanômetros a 1 mícron (ou seja, um centésimo ou menos da espessura de um de cabelo humano) - bem mais fino do que os modelos teóricos mais recentes sugeriam -, e dependia da temperatura de forma diretamente proporcional e variando de 100 a 500 nm (!). A espessura do filme estacionário mostrou-se um fator 4 vezes maior do que os valores para os filmes pré-fusionados em equilíbrio.

          Ainda mais inesperado, o filme não mostrou ser 'simples' água, mas, sim, de uma água tão viscosa quanto o óleo, com complexas propriedades viscoelásticas. Esse inesperado comportamento sugere que a superfície de gelo não completamente se transforma em água líquida, mas, sim, em um estado misturado similar a 'cones de neve', uma mistura de água e gelo macerado - no caso, partículas sub-micrométricas suspensas em água líquida.

         As análises também revelaram que a viscosidade desse filme aumentava drasticamente no sentido do ponto de fusão, alcançando um valor próximo de 2 ordens de magnitude maiores do que a água líquida a 0°C.

          Juntos, os resultados das medidas experimentais convergiram para uma inesperada e complexa reologia (ramo da mecânica que estuda as deformações e o fluxo da matéria) relativa ao derretimento da água durante a formação do filme. Ao contrário da água líquida 'simples', o filme sobre a superfície do gelo e na neve é um excelente lubrificante, indicando que o modelo descrevendo a fricção do gelo não pode assumir apenas mecanismos Newtonianos para o comportamento da água.

          Dois estudos posteriores conduzidos por Lines et al. e publicados em 2021 (Ref.2) e em 2022 (Ref.3) também trouxeram evidência de suporte para a hipótese levantada no estudo de 2019. Lines et al. conduziu análises experimentais e teóricas, incluindo observações detalhadas envolvendo reais patinadores no gelo, e obteve resultados consistentes com a formação de camadas lubrificantes em zonas descontínuas de alta pressão e contendo uma mistura entre água e partículas de gelo na escala micrométrica (geradas pela interação entre a lâmina do patins e a superfície sólida do gelo) (Fig.1).

Figura 1. Interações entre o gelo e a lâmina do patins criando uma mistura lubrificante formada por água e partículas de gelo em zonas de alta pressão sobre a superfície do gelo. Energia térmica (calor), abrasão, pressão e maceração estariam agindo em conjunto para a criação e evolução da interface lubrificante ao longo da passagem [sulco] da lâmina. Ref.3

          Por outro lado, um estudo mais recente (Ref.8) apresentou evidência de simulação computacional de que as superfícies de gelo liquefazem-se sem derreter termodinamicamente, mas predominantemente por amorfização induzida pelo frio e pelo deslocamento. O estudo sugere que não é a pressão ou fricção que faz o gelo ficar escorregadio, mas ao invés disso a interação entre dipolos moleculares no gelo e aqueles na superfície de contato (ex.: sola do sapato).

          Abaixo de zero graus Celsius, as moléculas de água (H2O) se organizam em uma rede cristalina altamente ordenada, na qual as moléculas estão alinhadas perfeitamente umas com as outras, criando uma estrutura sólida e cristalina. Quando alguém pisa nessa estrutura ordenada, não seria a pressão ou o atrito resultante do calçado perturbando a camada superior de moléculas, mas sim a orientação dos dipolos na "sola do calçado" interagindo com os dipolos no gelo. A estrutura previamente bem ordenada torna-se repentinamente desordenada. Em nível microscópico, as forças entre os dipolos no gelo e os dipolos no material da sola do calçado perturbam a estrutura cristalina ordenada na interface entre o gelo e o calçado, fazendo com que o gelo se torne desordenado, amorfo e, por fim, líquido.

           E esse mecanismo contradiz parcialmente outra alegação: que seria impossível esquiar abaixo de 40°C negativos porque seria muito frio para um filme líquido lubrificante se formar. Interações dipolo persistem mesmo a temperaturas muito baixas e um filme líquido ainda é capaz de ser formado entre o gelo e as pranchas de esquis ou patins - mesmo próximo do zero absoluto! No entanto, em temperaturas extremamente baixas baixas o filme se torna bem mais viscoso, muito longe da viscosidade da água e tornando a prática de esqui praticamente impossível.

-----------
> Válido realçar que existem outras hipóteses sendo testadas para explicar a natureza escorregadia do gelo. Por exemplo, dois estudos publicados no final de 2022 usando simulações computacionais em escalas atômicas e moleculares suportaram o modelo de "camadas quasi-líquidas" (Ref.4). Nesse sentido, teríamos a formação de um fino filme lubrificante exibindo propriedades intermediárias entre sólido e líquido, e caracterizado por alta viscosidade e, ao mesmo tempo, mantendo fluidez (Ref.5). Essas hipóteses podem ser complementares ou excludentes entre si. Para uma revisão das hipóteses historicamente exploradas, acesse a Ref.2
-------------


   REVESTIMENTO HIDROFÓBICO

           Para investigar o mistério do porquê a adição de substâncias hidrofóbicas - como a cera - leva a uma substancial redução na fricção do gelo, os pesquisadores no estudo de 2019 analisaram pequenas esferas de sílica de estrutura silânica (hidrofóbicas) e pequenas esferas de sílica (hidrofílicas) depositadas sobre o gelo. O tratamento hidrofóbico levou a uma drástica redução da fricção, de fator até 10, quando comparado com a superfície padrão de vidro (sílica, SO2). A redução de fricção se mostrou mais forte quando próximo do ponto de fusão (maior temperatura).

           As análises mostraram que o revestimento hidrofóbico parece afetar o acúmulo do filme intersticial, sugerindo que efeitos na escala nanométrica podem fortemente impactar na fricção macroscópica do gelo. No caso, os pesquisadores investigaram os efeitos apenas no gelo, realçando que a neve é um material bem mais complexo: poroso e envolvendo uma mistura de neve macia, gelo duro e água. Os organizadores de esportes de inverno usam revestimentos de cera que não são apenas hidrofóbicos, mas que também trazem compostos que tornam a dureza adequada para o solo de neve ou grãos de gelo visados. Mais estudos sobre esse tópico são necessários.


   (!) TEMPERATURA, PRESSÃO E VELOCIDADE

          O grau de fricção na superfície do gelo varia significativamente com a temperatura, pressão aplicada e velocidade do objeto deslizante (ex.: patins de gelo), em especial devido ao impacto desses fatores na dureza do gelo. 

          Em um estudo experimental publicado em 2021 no periódico Physical Review X (Ref.6), pesquisadores analisaram a fricção variante no gelo de objetos com três formas (uma grande esfera, uma pequena esfera e um modelo de patins) sob uma ampla faixa de temperatura de -120°C até -1,5°C. Eles encontraram que o gelo se torna mais duro a temperaturas mais baixas, enquanto a uma dada temperatura, a dureza aumenta com a velocidade de deslize. Nas mais baixas temperaturas, a fricção de deslize foi atribuída a moléculas de água sendo presas mais rigidamente na superfície. Essas moléculas se tornavam mais móveis pela ação de corte do objeto deslizante, e essa mobilidade se tornava maior - e a fricção menor - a temperaturas intermediárias. No entanto, a temperaturas maiores, a fricção aumentava por causa da redução na dureza que permitia o objeto deslizante penetrar mais profundamente no gelo, aumentando a superfície de contato.

          A penetração no gelo e rápido aumento da fricção com o aumento da temperatura mostrou variar dependendo do formato do objeto. Por exemplo, esse processo ocorria [a uma dada pressão] a cerca de -20°C para um pequena esfera, mas a cerca de -8°C para a maior secção dos patins (maior área de contato reduzindo a pressão de contato). A dependência da fricção em relação à pressão de contato é mediada pelo quanto da superfície do objeto está em contato com o gelo e se a pressão é suficiente para iniciar a penetração na superfície do gelo. Uma velocidade maior mostrou aumentar a dureza do gelo, implicando que quanto mais rápido é, por exemplo, o patins, menor é a penetração. 

Figura 2. Esse gráfico mostra como a dureza do gelo (ice hardness) diminui com o aumento da temperatura (ice temperature). A esfera se movendo ao longo da superfície (sliding sphere) irá penetrar a superfície (ploughing) quando a dureza do gelo fica abaixo da pressão de contato da esfera. Nesse caso, a esfera irá penetrar na superfície, experienciando cada vez mais fricção (friction) à medida que a temperatura aumenta e a dureza é reduzida. Ref.7


------------
> Deslizar sobre o gelo é largamente dependente da temperatura e - sob pressão de contato significativamente menor do que a dureza do gelo -  pode ser capturado com uma equação do tipo Arrhenius no regime elástico. Isso implica que um patins ideal para deslizar no gelo é aquele com lâminas muito lisas (para reduzir a área de contato) e com bordas afiadas (para penetrar o gelo em suficiente extensão e aumentar a fricção necessária para acelerar e virar).
------------

          Relevante, o estudo mostrou que o gelo permanece muito escorregadio mesmo a velocidades  muito baixas - ex.: 1 μm/s a −20 °C -  contrariando a ideia de que energia térmica liberada e aquecendo a superfície do gelo é um fator importante para criar uma efetiva camada lubrificante. Aliás, a facilidade de deslize não variou significativamente entre um patins de carbeto de silício e um patins de vidro, mesmo com a condutividade térmica desses materiais diferindo por 2 ordens de magnitude. Apesar disso, trabalhos mais recentes ainda suportam significativa contribuição térmica para explicar por que os patins de gelo deslizam tão facilmente sobre o gelo (Ref.3).


- Continua após o anúncio -



   CONCLUSÃO

          No geral, estudos mais recentes têm encontrado inconsistências em modelos teóricos tradicionalmente estabelecidos para explicar a dinâmica de fricção na superfície do gelo. A complexa reologia do material intersticial parece ser um elemento chave, o qual não estava sendo historicamente considerado até o momento em favorecimento da descrição do filme lubrificante como um simples fluído Newtoniano. Mais estudos de alta qualidade ainda são necessários para testar as hipóteses e fornecer uma base mais sólida para a construção de um modelo teórico  mais compreensivo que descreva satisfatoriamente os mecanismos que governam a natureza tão escorregadia do gelo. Patinação no gelo é bem mais complicada do que parece...

Leitura recomendada: Por que o sal derrete o gelo?


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. Canale et al. (2019). Nanorheology of Interfacial Water during Ice Gliding. Physical Review X 9, 041025. https://doi.org/10.1103/PhysRevX.9.041025
  2. Lever & Lines (2023). Ice-rich slurries can account for the remarkably low friction of ice skates. Journal of Glaciology, 69(274), 217-236. https://doi.org/10.1017/jog.2022.48 
  3. Lever et al. (2021). Revisiting mechanics of ice–skate friction: From experiments at a skating rink to a unified hypothesis. Journal of Glaciology, 68(268), 337-356. https://doi.org/10.1017/jog.2021.97
  4. https://pubs.aip.org/aip/jcp/article-abstract/157/23/234703/2842580/A-new-mechanism-of-the-interfacial-water-film
  5. https://www.pnas.org/doi/abs/10.1073/pnas.2209545119
  6. Liefferink, R. W., Hsia, F.-C., Weber, B., & Bonn, D. (2021). Friction on Ice: How Temperature, Pressure, and Speed Control the Slipperiness of Ice. Physical Review X, 11(1). https://doi.org/10.1103/PhysRevX.11.011025
  7. https://physics.aps.org/articles/v14/20
  8. Atila et al. (2025). Cold Self-Lubrication of Sliding Ice. Physical Review Letters 135, 066204. https://doi.org/10.1103/1plj-7p4z 
  9. https://www.uni-saarland.de/en/news/why-we-slip-on-ice-physicists-challenge-centuries-old-assumptions-39295.html