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Quais os riscos à saúde da exposição ao óleo cru de petróleo?


- Artigo atualizado no dia 5 de novembro de 2019 -

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          Nas últimas semanas, o litoral do Nordeste foi atingido por várias e espessas manchas de óleo cru (petróleo), com origem no território Venezuelano mas com a fonte de vazamento ainda desconhecida (forma como veio parar na costa brasileira). Essa conclusão é resultado de análises químicas realizadas pela Petrobrás, Ibama, e pela Marinha. E como é um óleo sub-superficial - devido à densidade específica associada ao tipo de óleo (>0,97 g/cm3), classificado como 'extra-pesado' -, imagens de satélite também não conseguem visualizá-lo, o que torna ainda mais difícil seu rastreamento.

          Independentemente da sua origem, esse petróleo cru está causando graves danos ambientais, e, de fato, o tipo extra-pesado possui mais frações tóxicas do que um óleo leve, cujos componentes são vaporizados mais facilmente (mais voláteis). Diversos ecossistemas associados às regiões costeiras - incluindo manguezais, recifes de corais e também reservas ambientais - sofreram sérios danos, além dos prejuízos econômicos para o turismo nessas áreas. As próprias tentativas de retirar o óleo causam impactos negativos nesses ecossistemas. Enquanto o petróleo está no mar, é possível retirá-lo com relativa facilidade via separação química do tipo líquido-líquido, porém, após entrar em contato com a areia, a remoção torna-se muito difícil.

          Desde agosto, mais de 4 mil toneladas de resíduos de óleo cru atingiram a região costeira do Nordeste, contaminando centenas de praias, estuários, recifes e manguezais ao longo de 2,5 mil quilômetros da costa. Mais recentemente, o óleo chegou a atingir o arquipélago do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, a 60 km longe da costa e onde habitam espécies marinhas Brasileiras mais do que icônicas, como o endêmico coral-cerebral (Mussismilia braziliensis) e o ameaçado peixe-papagaio-azul (Scarus trispinosus). E apesar da fala irresponsável do secretário de Aquicultura e Pesca, Jorge Seif Júnior, ainda é preciso cautela para se consumir peixes, crustáceos e outros pescados das áreas atingidas, porque esses animais podem estar contaminados (Ref.10-11). Estudos científicos precisam ser realizados antes de qualquer conclusão e recomendação. Aliás, analisando 38 peixes e mariscos coletados na Praia do Forte, Itacimirim e Guarajuba, pesquisadores da Universidade Federal da Bahia encontraram óleo cru dentro de todos eles (Ref.12).

          E também nesse sentido, muitas pessoas que moram nas regiões afetadas e/ou estão ajudando na limpeza das praias ficam preocupadas com os efeitos dos componentes desse óleo cru na saúde humana, especialmente no contato com a pele e na aspiração dos vapores de componentes voláteis sendo liberados do material. Afinal, quais os riscos e toxicidade associados?

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   PETRÓLEO CRU

          O petróleo (ou óleo) cru, é um líquido oleoso e viscoso que é geralmente encontrado em reservas geológicas naturais no subsolo, poços e areias de alcatrão. Dele é derivado diversos combustíveis fósseis e inúmeros produtos que servem de matéria-prima fundamental para a indústria química. Refinado, obtemos gasolina, diesel, querosene, propano e várias outras formas de fonte de energia. Grande parte da produção de plástico e até de hidrogênio molecular (H2) dependem de componentes extraídos do petróleo.

          Em termos de composição química, o petróleo é uma mistura de hidrocarbonetos (compostos orgânicos formados a partir de hidrogênio e carbono) e de impurezas como enxofre, oxigênio, nitrogênio e metais pesados. Esse material é produzido a partir da decomposição principalmente de algas, animais, plantas e plânctons em rochas sedimentares submetidas a altas temperaturas e pressões em grandes profundidades e virtualmente na ausência de oxigênio molecular (02). Esse é um processo que leva longos milhares e milhões de anos para ocorrer. Devido a diferenças geográficas e períodos de formação, o óleo cru extraído de diferentes países/áreas podem ter perfis químicos significativamente diferentes, especialmente em termos de densidade (baixa, intermediária ou alta).


   TOXICIDADE

          Devido ao seu perfil tóxico - incluindo a presença de benzeno, tolueno, xileno, benzopireno e poliaromáticos, todos cancerígenos, e de metais tóxicos (chumbo, níquel e cádmio em especial) -, a ingestão, inalação e contato com a pele de óleo cru devem ser evitados ao máximo. Podemos listar os efeitos mais comuns dessas interações (curto prazo):

I. A inalação de vapores liberados do óleo cru podem causar:

- Dificuldade respiratória
- Dores de cabeça
- Tontura e confusão
- Náusea
- Tosse, irritação e asma
- Pneumonite química (inflamação dos pulmões)

II. Contato com a pele (sintomas podem aparecer em até 24 horas após o contato):

- Erupções cutâneas, vermelhidão
- Irritação cutânea (dermatite de contato do tipo irritativa), queimação e inchaço

III. Contato com os olhos:

- Irritação ocular

IV. Ingestão de pequenas quantidades:

- Irritação estomacal
- Vômito
- Diarreia

Já a exposição a longo prazo a baixos níveis de óleo cru pode causar:

- Danos pulmonares, hepáticos e renais
- Infertilidade
- Supressão do sistema imune
- Alteração dos níveis hormonais
- Desordens sanguíneas
- Mutações genéticas (o que pode levar a cânceres, apesar do óleo cru não ser oficialmente classificado como um carcinogênico)

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   PREVENÇÃO DE RISCOS

          Para reduzir os riscos após exposição, idealmente procure seu médico caso acredite que a contaminação afetou sua saúde de alguma forma. No geral, sempre:

- Lave suas mãos com sabão ou detergente após lidar com compostos químicos dessa natureza.

- Não use solventes, gasolina, querosene, diesel ou outros produtos similares para limpar esse tipo de material da pele.

- Caso óleo cru caia nos olhos, lave com água por cerca de 15 minutos, ou melhor ainda, com soro fisiológico se disponível.

- Se você engolir, não tente vomitar, já que o óleo pode entrar no pulmão.

- Evite lidar com o material em local fechado, e, em caso de grandes quantidades de vapores inalados que levem a dificuldade respiratória, dor/aperto no peito e/ou tontura, procure atenção médica imediatamente.

- Idosos, crianças, grávidas e pessoas com baixa imunidade e com doenças crônicas devem evitar ao máximo os locais contaminados com o óleo cru.


> Se você é um voluntário ou profissional atuando na limpeza das praias, tente sempre usar luvas de látex, máscaras de gás, botas, óculos de proteção e roupas que cubram seus braços e pernas para lidar com o óleo cru. Luvas do tipo 'cirúrgica' não devem ser usadas porque, em contato com o óleo aquecido (especialmente presente nas areias quentes das praias), podem ser romper. Óculos, botas e calças também ajudam a proteger contra micropartículas de petróleo dissolvidas na água (tóxicas e facilmente absorvidas pela pele).


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   CASOS REPORTADOS

          Ao longo do litoral Nordestino, já tem sido reportado vários casos de intoxicação após a exposição ao óleo cru. Para citar um exemplo, pessoas que ajudaram a remover o óleo encontrado nas praias de Pernambuco - estado onde na última semana foram recolhidas quase 1000 toneladas de resíduos - relataram ter sentido diversos sintomas após o contato com a substância. Ao menos 19 ficaram em observação após serem socorridas em São José da Coroa Grande e em Ipojuca, no litoral Sul, relatando dor de cabeça, enjoo, vômitos, erupções e pontos vermelhos na pele.

          Em reportagem no G1 (Ref.7), um dos intoxicados pelos óleo cru, Antônio Carlos Barbosa, relatou: "Minha família vive da pesca e turismo, por isso, fui ajudar. Senti, no mesmo dia, vermelhidão e muita ardência na pele, justamente nos braços, porque não usei luvas ou qualquer proteção. Fui ao hospital, tomei um antialérgico e logo melhorei".

          Já o coordenador da Defesa Civil de São José da Coroa Grande, Ivan Aguiar, também sentiu os efeitos do contato com o óleo. Ele participou da operação para retirada do óleo desde o primeiro dia e, no segundo, passou mal e precisou ser socorrido.

          “No começo, tivemos que atuar sem equipamentos de proteção. Senti muitas cólicas abdominais e náuseas a ponto de ter que ir para o hospital. Na madrugada da sexta-feira (18/10), não aguentei e fui”, disse Ivan.

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   ORIGEM DO ÓLEO (HIPÓTESES)

          A origem do vazamento pode estar em um ponto a 700 km do litoral de Alagoas e de Sergipe, segundo um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) reportado pelo Ministério do Meio Ambiente. As hipóteses mais prováveis estão relacionadas a vazamentos provocados ou acidentais em embarcações que navegam por águas internacionais. Entre elas podemos listar:

1. Vazamento acidental do óleo durante a operação de transferência dessa mistura orgânica entre navios (ship-to-ship). Não é a principal hipótese, porque pelos padrões das manchas isso teria que ter ocorrido em alto-mar, enquanto que o ship-to-ship geralmente não ocorre em tal área.

2. Naufrágio de navio petroleiro, mas essa também é uma hipótese remota, porque um desastre do tipo dificilmente ficaria sem exposição.

3. Derramamento acidental ou intencional de petróleo de um navio (danos no casco, por exemplo). Independentemente se foi um acidente ou não, seria um cenário de crime cometido por não ter sido reportado.

          Os navios de interesse trafegando pela região da costa brasileira totalizam 1060 segundo a Marinha (Ref.8), além de navios não devidamente identificados. Essa dificuldade em se identificar a causa do vazamento é potencializada pelo despreparo das autoridades (governo) competentes para lidar com o problema e pelas características físico-químicas do petróleo derramado.

          Mais recentemente, a Polícia Federal tem focado no principal suspeito: o 'Bouboulina', um navio petroleiro Grego que passou na costa Nordeste no final de julho, carregando 1 milhão de barris de óleo cru da Venezuela para a Malásia (Ref.13). De acordo com as investigações, o navio passou pelo mesmo ponto pensado ser o ponto inicial do vazamento (~700-730 km longe da costa do estado da Paraíba). Os investigadores estimam que cerca de 2,5 milhões de toneladas de óleo cru podem ter vazado do navio, acidentalmente ou intencionalmente. A companhia responsável pelo navio, porém, nega qualquer envolvimento.


REFERÊNCIAS
  1. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21402869
  2. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3644738/
  3. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK531269/
  4. https://www.cdc.gov/nceh/oil_spill/docs/Light_Crude_Oil_and_Your_Health.pdf
  5. https://toxtown.nlm.nih.gov/chemicals-and-contaminants/crude-oil
  6. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4847237/
  7. https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2019/10/24/queimacao-na-pele-nausea-e-colica-voluntarios-que-procuraram-medicos-relatam-intoxicacao-apos-contato-com-oleo.ghtml
  8. CMA - Audiência sobre manchas de óleo nas praias do Nordeste (17/10/2019) - Senado Federal, com autoridades máximas da Marinha e do Ibama
  9. https://www.mma.gov.br/informma/item/15649-governo-realiza-todas-as-a%C3%A7%C3%B5es-para-conter-%C3%B3leo-na-praia.html
  10. https://oglobo.globo.com/sociedade/oleo/cientistas-rebatem-governo-apontam-riscos-nas-praias-nos-peixes-do-nordeste-24054953
  11. https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2019/11/01/governo-diz-que-peixe-foge-do-oleo-mas-biologos-pedem-cautela-no-consumo.htm
  12. https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/10/25/biologos-alertam-para-o-risco-de-contaminacao-de-peixes-em-praias-poluidas-pelo-oleo.ghtml
  13. https://www.sciencemag.org/news/2019/11/mysterious-oil-spill-threatens-marine-biodiversity-haven-brazil