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Saúde pública, cães e gatos sob sérios riscos com as dietas de carne crua

- Artigo atualizado no dia 16 de junho de 2018 - 

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        Pesquisadores da Universidade de Utrecht, Holanda, publicaram em fevereiro deste ano um estudo de alerta, na Vet Record (Ref.1), sobre a crescente popularidade nos últimos anos entre os donos de cães e gatos de alimentarem seus animais de estimação com dietas - comerciais ou não - à base de carne crua, as quais estão comumente sendo vendidas em petshops de vários países. Aliás, desde a década de 1990, as agencias de saúde e veterinários vêm alertando o público sobre os riscos trazidos por essas dietas, mas poucos estão dando ouvidos.

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   RMBDs

         Com o objetivo de fornecer uma dieta mais "natural" aos seus cães e gatos, as pessoas cada vez mais estão adotando dietas 'cruas', as quais são compostas por ossos, carnes e vegetais integrais, com o mínimo de processamento e sem cozimento. Segundo os defensores desse tipo de dieta, os métodos atuais de processamento usados para a produção de rações comerciais destroem os nutrientes e enzimas essenciais. Nesse sentido, eles acreditam que essas rações e outros métodos artificiais de preparação da comida para os animais domésticos não suprem suas necessidades nutricionais e podem ser uma fonte de problemas crônicos de saúde, incluindo queda das funções imunes, pelagem de baixa qualidade e decréscimo de energia.

         Carnes cruas incorporadas nas dietas de cães e gatos podem ser derivadas de várias fontes, podendo ser adicionadas intencionalmente pelos donos ou adquiridas de preparações comerciais. Em qualquer um desses cenários, carnes não cozidas podem ser um veículo para a transmissão de microrganismos perigosos, e mesmo aquelas adquiridas de animais saudáveis aprovados para o consumo humano não estão nem mesmo perto de serem estéreis. Bactérias na pele e nas penas são frequentemente depositadas na superfície da carne nas casas de abates, e contaminações adicionais podem ocorrer durante a estripação, processamento e empacotamento.

        Mesmo com medidas extras de esterilização, como a pasteurização, durante o processamento, muitas bactérias nocivas ainda podem resistir nas carcaças, e enquanto algumas delas contribuem para a putrefação das carnes, outras podem ser responsáveis por graves doenças. Uma das principais preocupações é com a bactéria Salmonella spp, já existindo casos reportados de epidemias entre cães geradas pelo consumo de carnes contaminadas com esse patógeno. Casos graves e isolados também têm sido frequentemente reportados, envolvendo bactérias diversas como a Brucella suis (Ref.7, 9). E, para piorar, como essas carnes estão indo para cães e gatos, muitas vezes preocupações com a higiene são deixadas de lado e a origem das carnes podem englobar animais doentes ou mesmo corpos abandonados.

         Segundo os especialistas, quem possui um cão e/ou gato deve estar ciente dos riscos associados com as RMBDs (raw meat-based diets) - dietas baseadas em carne crua - em comparação com as convencionais rações secas ou enlatadas. As RMDBs podem expor riscos tanto para os humanos, quanto para os cães e gatos. Nesse caso, o principal risco para a saúde pública e ambiental é a contaminação desses alimentos com bactérias zoonóticas e parasitas diversos, os quais podem passar entre animais e humanos. Tanto pelo contato direto e indireto com esses animais quanto pelo contato com as carnes cruas, as pessoas podem acabar também contaminadas.

        E o pior: não existem significativas evidências científicas de que essas dietas tragam maiores benefícios - como é geralmente reportado - do que a alimentação convencional. E vários estudos já encontraram riscos associados, incluindo infecções diversas, hipertiroidismo, fraturas dentárias e perfuração no trato intestinal. Além disso, muitas são frequentemente deficientes em nutrientes essenciais, sendo extremamente danosas para jovens animais em crescimento. Só na Holanda, cerca de 51% dos donos de cães e gatos alimentam seus animais de estimação usando parcialmente ou inteiramente esse tipo de dieta, seja de forma comercial ou caseira (geralmente compram restos de carne e partes animais diversas para a produção em casa da dieta), e na maioria das vezes não têm conhecimento do risco associado.

        Um pequeno estudo publicado ano passado na American Academy of Veterinary Nutrition (Ref.12), analisando 8 cadelas da raça Beagle, encontrou resultados sugerindo que uma alimentação RMBD ou parcialmente cozida - e nutricionalmente completas - apresentavam uma melhor digestibilidade, aproveitamento de nutrientes e resultavam em uma menor concentração de triglicerídeos no sangue (apesar de serem mais gordurosas) do que uma alimentação tradicional recomendada pelos veterinários. Porém, ficou incerto o valor desses benefícios extras e se eles superam os riscos trazidos pela maior chance de infecção, especialmente considerando que os cães analisados permaneceram muito saudáveis em todos os três tipos de dieta apresentadas. Além disso, o estudo analisou uma única raça, poucos espécimes, e sem a presença de um grupo de controle.

          E aqui entra também a questão: se eu comer um ovo cru, provavelmente irei aproveitar mais dos seus nutrientes, mas será que os riscos compensam?

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   REPORTE DE CONTAMINAÇÕES

         Um dos primeiros estudos de alta qualidade analisando o nível de contaminação das dietas cruas disponíveis no mercado foi publicado em 2002, no Canadian Veterinary Journal (Ref.3), e buscou a presença de Salmonella spp. nos ossos e carnes cruas (derivadas de galinhas), e nas fezes de cães consumindo-as. Salmonella foi isolada de 80% das amostras da dieta e de 30% das amostras de fezes, indicando que esses animais e esses alimentos eram uma perigosa fonte de contaminação ambiental.

        Desde então, diversos outros estudos foram publicados adereçando o problema. Um estudo de 2005 (Ref.4) analisando 25 produtos comerciais do tipo (englobando pedaços de carnes variadas) para cães e gatos encontrou que todos eles apresentavam coliformes fecais em substancial quantidade; a perigosa bactéria Escherichia coli foi identificada em 64% deles; Salmonella spp. foi detectada em 20%; e  Clostridium perfringens em 20%.

         Em um estudo mais recente, e mencionado no início deste artigo (Ref.1), pesquisadores analisaram 35 produtos comercias RMBD congelados, de oito marcas diferentes e amplamente disponíveis na Holanda. Como resultado, os pesquisadores isolaram a bactéria Escherichia coli 0157 de oito deles (23%), espécies de Listeria em 15 produtos (43%) e espécies de Salmonella em sete produtos (20%). Tanto as infecções por E. coli 0157 quanto por Salmonella estão ligadas a graves complicações em humanos. De quatro produtos (11%), foi encontrado o parasita Sarcoystis cruzi e outros quatro continham a Sarcocystis tenella. Em dois produtos (6%), Toxoplasma godii foi encontrado. O gênero Sarcoystis não são zoonóticas, mas impõem riscos para animais domésticos. Já a T. gondii é uma perigosa zoonose que causa bastante problema na área de saúde pública.

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   CONCLUSÃO

          Além de estarem sendo expostos aos riscos de várias infecções - e com pouca ou nenhuma evidência científica de significativos benefícios em relação à alimentação tradicional -, os animais domésticos nesse tipo de dieta crua estão sob maiores riscos de serem infectados com superbactérias - aquelas resistentes aos antibióticos - do que animais em uma dieta convencional e recomendada pelos veterinários. Lembre-se que os animais para corte em fazendas são tratados com significativas quantidades de antibióticos, especialmente os bovinos, algo que acaba selecionando cepas mais resistentes.

          Um dos grandes problemas é que as pessoas tendem a antropomorfizar seus animais de estimação, por estarem muito ligados a eles, e acabam os tratando como "filhos". Nesse sentido, muitos donos ficam preocupados em fornecer aos seus animais uma alimentação, atividades e até mesmo vestuário que seja similar aos seus gostos, deixando de lado as evidências científicas e a biologia única do seu companheiro de estimação. Aí, acabam escolhendo incorporar algo mais 'natural' e orgânico, ou que pareça mais apetitoso sob o olhar humano, ignorando que as rações e dietas tradicionais especializadas já contêm tudo o que o animal precisa.

          Os especialistas já pedem que esses produtos venham com avisos de alerta em suas embalagens e, que, no mínimo, as pessoas que ainda assim optem por essas dietas de carne crua para os seus animais de estimação pelo menos se higienizem com maior cuidado ao lidar com elas. E antes de embarcar nessas dietas, consulte primeiro um veterinário responsável.



REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://veterinaryrecord.bmj.com/content/182/2/50.full
  2. https://avmajournals.avma.org/doi/abs/10.2460/javma.2001.219.1222?cookieSet=1
  3. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC339295/
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1140397/
  5. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1716752/
  6. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2684052/
  7. https://wwwnc.cdc.gov/eid/article/24/6/pdfs/17-1887.pdf
  8. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/zph.12323
  9. https://bmcvetres.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12917-017-1143-z
  10. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/B9780128118351000014
  11. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/zph.12389
  12. https://academic.oup.com/jas/advance-article-abstract/doi/10.1093/jas/sky235/5035020?redirectedFrom=fulltext