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Receitas caseiras e dietas com carne crua: perigo para cães e gatos

- Atualizado no dia 16 de outubro de 2019 - 

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        Pesquisadores da Universidade de Utrecht, Holanda, publicaram em 2018 um estudo de alerta, na Vet Record (Ref.1), sobre a crescente popularidade nos últimos anos entre os donos de cães e gatos de alimentarem seus animais de estimação com dietas - comerciais ou não - à base de carne crua, as quais estão comumente sendo vendidas em petshops de vários países. Aliás, desde a década de 1990, as agencias de saúde e veterinários vêm alertando o público sobre os riscos trazidos por essas dietas, mas poucos estão dando ouvidos. Outra grande preocupação é a crescente adesão dos donos de gatos às receitas caseiras online, muitas vezes não formuladas por profissionais veterinários e geralmente deficientes em vários nutrientes essenciais.

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   RMBDs

         Com o objetivo de fornecer uma dieta mais "natural" aos seus cães e gatos, as pessoas cada vez mais estão adotando dietas 'cruas', as quais são compostas por ossos, carnes e vegetais integrais, com o mínimo de processamento e sem cozimento, e sem a presença de conservantes, flavorizantes e suplementos vitamínicos e minerais. Segundo os defensores desse tipo de dieta, os métodos atuais de processamento usados para a produção de rações comerciais destroem os nutrientes e enzimas essenciais. Nesse sentido, eles acreditam que essas rações e outros métodos artificiais de preparação da comida para os animais domésticos não suprem suas necessidades nutricionais e podem ser uma fonte de problemas crônicos de saúde, incluindo queda das funções imunes, pelagem de baixa qualidade e decréscimo de energia.

         Carnes cruas incorporadas nas dietas de cães e gatos podem ser derivadas de várias fontes, podendo ser adicionadas intencionalmente pelos donos ou adquiridas de preparações comerciais. Em qualquer um desses cenários, carnes não cozidas podem ser um veículo para a transmissão de microrganismos perigosos, e mesmo aquelas adquiridas de animais saudáveis aprovados para o consumo humano não estão nem mesmo perto de serem estéreis. Bactérias na pele e nas penas são frequentemente depositadas na superfície da carne nas casas de abates, e contaminações adicionais podem ocorrer durante a estripação, processamento e empacotamento.

        Mesmo com medidas extras de esterilização, como a pasteurização, durante o processamento, muitas bactérias nocivas ainda podem resistir nas carcaças, e enquanto algumas delas contribuem para a putrefação das carnes, outras podem ser responsáveis por graves doenças. Uma das principais preocupações é com a bactéria Salmonella spp, já existindo casos reportados de epidemias entre cães geradas pelo consumo de carnes contaminadas com esse patógeno. Casos graves e isolados também têm sido frequentemente reportados, envolvendo bactérias diversas como a Brucella suis (Ref.7, 9). E, para piorar, como essas carnes estão indo para cães e gatos, muitas vezes preocupações com a higiene são deixadas de lado e a origem das carnes podem englobar animais doentes ou mesmo corpos abandonados.

         Segundo os especialistas, quem possui um cão e/ou gato deve estar ciente dos riscos associados com as RMBDs (raw meat-based diets) - dietas baseadas em carne crua - em comparação com as convencionais rações secas ou enlatadas. As RMDBs podem expor riscos tanto para os humanos, quanto para os cães e gatos. Nesse caso, o principal risco para a saúde pública e ambiental é a contaminação desses alimentos com bactérias zoonóticas e parasitas diversos, os quais podem passar entre animais e humanos. Tanto pelo contato direto e indireto com esses animais quanto pelo contato com as carnes cruas, as pessoas podem acabar também contaminadas.

        E o mais importante: não existem significativas evidências científicas de que essas dietas tragam maiores benefícios - como é geralmente reportado - do que a alimentação convencional. E vários estudos já encontraram outros sérios riscos associados além de infecções diversas, incluindo, hipertiroidismo, fraturas dentárias e perfuração no trato intestinal. Além disso, muitas são frequentemente deficientes em nutrientes essenciais, sendo extremamente danosas para jovens animais em crescimento. Só na Holanda, cerca de 51% dos donos de cães e gatos alimentam seus animais de estimação usando parcialmente ou inteiramente esse tipo de dieta, seja de forma comercial ou caseira (geralmente compram restos de carne e partes animais diversas para a produção em casa da dieta), e na maioria das vezes não têm conhecimento do risco associado.

        Um pequeno estudo publicado ano passado na American Academy of Veterinary Nutrition (Ref.12), analisando 8 cadelas da raça Beagle, encontrou resultados sugerindo que uma alimentação RMBD ou parcialmente cozida - e nutricionalmente completas - apresentavam uma melhor digestibilidade, aproveitamento de nutrientes e resultavam em uma menor concentração de triglicerídeos no sangue (apesar de serem mais gordurosas) do que uma alimentação tradicional recomendada pelos veterinários. Porém, ficou incerto o valor desses benefícios extras e se eles superam os riscos trazidos pela maior chance de infecção, especialmente considerando que os cães analisados permaneceram muito saudáveis em todos os três tipos de dieta apresentadas. Além disso, o estudo analisou uma única raça, poucos espécimes, e sem a presença de um grupo de controle. Outro estudo com resultados muito similares foi publicado recentemente na Journal of Animal Science (Ref.13).

          E aqui entra também a questão: se você comer um ovo cru, provavelmente irá aproveitar um pouco mais dos seus nutrientes, mas será que os riscos compensam? Um ovo cozido também é saudável, muito nutritivo e, principalmente, seguro.

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   REPORTE DE CONTAMINAÇÕES

         Um dos primeiros estudos de alta qualidade analisando o nível de contaminação das dietas cruas disponíveis no mercado foi publicado em 2002, no Canadian Veterinary Journal (Ref.3), e buscou a presença de Salmonella spp. nos ossos e carnes cruas (derivadas de galinhas), e nas fezes de cães consumindo-as. Salmonella foi isolada de 80% das amostras da dieta e de 30% das amostras de fezes, indicando que esses animais e esses alimentos eram uma perigosa fonte de contaminação ambiental.

        Desde então, diversos outros estudos foram publicados adereçando o problema. Um estudo de 2005 (Ref.4) analisando 25 produtos comerciais do tipo (englobando pedaços de carnes variadas) para cães e gatos encontrou que todos eles apresentavam coliformes fecais em substancial quantidade; a perigosa bactéria Escherichia coli foi identificada em 64% deles; Salmonella spp. foi detectada em 20%; e  Clostridium perfringens em 20%.

         Já no estudo mencionado no início deste artigo (Ref.1), pesquisadores analisaram 35 produtos comercias RMBD congelados, de oito marcas diferentes e amplamente disponíveis na Holanda. Como resultado, os pesquisadores isolaram a bactéria E. coli 0157 de oito deles (23%), espécies de Listeria em 15 produtos (43%) e espécies de Salmonella em sete produtos (20%). Tanto as infecções por E. coli 0157 quanto por Salmonella estão ligadas a graves complicações em humanos. De quatro produtos (11%), foi encontrado o parasita Sarcoystis cruzi e outros quatro continham a Sarcocystis tenella. Em dois produtos (6%), Toxoplasma godii foi encontrado. O gênero Sarcoystis não são zoonóticas, mas impõem riscos para animais domésticos. Já a T. gondii é uma perigosa zoonose que causa bastante problema na área de saúde pública.

          E em um estudo mais recente (2019), realizado por pesquisadores da Universidade de Zurich, Suíça, e publicado no periódico Royal Society Open Science (Ref.15), foram analisadas 51 produtos baseados em dietas de carne crua provenientes de oito diferentes fornecedores. As carnes associadas - incluindo carnes de vaca, galinha, cavalo ou carneiro - tinham origem da Suíça ou da Alemanha. Investigando amostras dessas carnes visando detectar a presença de enterobactérias (família que inclui os perigosos gêneros Salmonella e Shigella, e a espécie E. coli) e de cepas não-patogênicas diversas, os pesquisadores encontraram que quase três quartos (72,5%) das amostras tinham níveis de enterobactérias que excediam o limite estabelecido pelas regulações da União Europeia para a segurança alimentar de animais domésticos. Além disso, cepas resistentes a antibióticos foram identificadas em 63% das amostras. A Salmonella - gênero patogênico que infecta tanto humanos quanto cães e gatos - foi encontrada em 4% das amostras.

          Especialistas reforçam que as pessoas devem lavar bem as mãos ao lidar com esses produtos baseados em carne crua e terem ciência de que fornecê-los para seus cães e/ou gatos é garantir um risco extra de contaminação para esses animais e também para pessoas em contato direto com esses animais, especialmente crianças muito novas, idosos e indivíduos imunossuprimidos. E tratamento com antibióticos para cepas resistentes de superbactérias pode ter pouca efetividade. No geral, veterinários nutricionistas fortemente recomendam contra tais dietas.

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   RECEITAS CASEIRAS

          Outra grande preocupação é com a crescente oferta na internet de receitas caseiras para a preparação de comidas voltadas aos gatos, as quais são mutias vezes preparadas e recomendadas por não-profissionais veterinários.

          Nesse sentido, um estudo publicado no Journal of the American Veterinary Medical Association (Ref.14), e realizado por pesquisadores da Universidade da Califórnia, EUA, resolveu investigar 114 dessas receitas encontradas em sites diversos. O resultado das análises encontrou que 40% das receitas nem ao menos eram acompanhadas por instruções de alimentação. E entre as 94 receitas que forneciam informações suficientes para uma avaliação nutricional, nenhuma delas fornecia todos os nutrientes essenciais recomendados para gatos adultos. Mesmo receitas caseiras online formuladas por veterinários eram nutricionalmente deficientes, mas bem menos do que aquelas criadas por não-veterinários.

          A maioria das receitas encontradas eram deficientes na concentração de três ou mais nutrientes, com algumas apresentando quantidades inadequadas de até 19 nutrientes essenciais. Além disso, várias receitas tinham severas deficiências, fornecendo menos do que 50% das recomendações para diversos nutrientes essenciais, incluindo colina, ferro, zinco, tiamina, vitamina E e manganês. Apenas cinco receitas caseiras encontradas, todas formuladas por veterinários, atendiam todas as quantidades recomendadas de nutrientes essenciais, incluindo macro- e micro-nutrientes, com exceção de colina.

          O mais preocupante é que 7% das receitas analisadas possuíam em suas formulações ingredientes potencialmente tóxicos para os gatos, incluindo alho, cebola e alho-poró. E algumas receitas incluíam também carnes cruas, sem mencionarem os riscos associados a esse tipo de alimento. E outras incluíam também ossos, sem mencionarem que esses precisam ser moídos antes de serem dados aos gatos para não haver riscos de cortes gastrointestinais.

           Muitos donos de gatos - e também de cães - estão optando por essas receitas caseiras por temerem opções comerciais (associando 'industrial/comercial' com 'não-saudável') - mesmo esses produtos sendo aprovados por agências de saúde veterinária - e também com base na errônea ideia de que o que eles acham que é bom para o gato de fato é saudável para o gato. Aliás, está ficando comum vegetarianos e veganos empurrarem dietas vegetarianas para seus gatos - um animal essencialmente carnívoro! - sem nem ao menos consultarem um veterinário.

          Os autores do estudo recomendam que os donos de gatos que optem por receitas caseiras procurem um profissional veterinário devidamente certificado para que este oriente na preparação da comida, incluindo instruções de como melhor alimentar o gato (quantidades, horários, etc.). Receitas online podem ser extremamente perigosas.

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   CONCLUSÃO

          Além de estarem sendo expostos aos riscos de várias infecções - e com pouca ou nenhuma evidência científica de significativos benefícios em relação à alimentação tradicional - e de subnutrição, os animais domésticos alvos de dietas com carne crua ou de receitas caseiras mal formuladas estão sob maiores riscos de serem infectados com superbactérias - aquelas resistentes aos antibióticos - do que animais em uma dieta convencional e recomendada pelos veterinários. Lembre-se que os animais para corte em fazendas são tratados com significativas quantidades de antibióticos, especialmente os bovinos, algo que acaba selecionando cepas mais resistentes.

          Um dos grandes problemas é que as pessoas tendem a antropomorfizar seus animais de estimação, por estarem muito ligados a eles, e acabam os tratando como "filhos". Nesse sentido, muitos donos ficam preocupados em fornecer aos seus animais uma alimentação, atividades e até mesmo vestuário que seja similar aos seus gostos, deixando de lado as evidências científicas e a biologia única do seu companheiro de estimação. Aí, acabam escolhendo incorporar algo mais 'natural' e orgânico, ou que pareça mais apetitoso sob o olhar humano, ignorando que as rações e dietas tradicionais especializadas já contêm tudo o que o animal precisa.

          Nesse sentido, outro raciocínio bastante presente é que como os cães e gatos domésticos evoluíram de canídeos e felídeos selvagens carnívoros, a dieta de carne crua seria a mais ideal por simular o máximo o estado natural dos ancestrais desses animais. Porém, o pessoal se esquece que, no meio selvagem, os canídeos e felídeos caçam o próprio alimento, não são ofertados com carnes de procedência suspeita e de animais já há muito tempo mortos.

          Em relação às dietas com carnes cruas comerciais, os especialistas já pedem que esses produtos venham com avisos de alerta em suas embalagens e, que, no mínimo, as pessoas que ainda assim optem por essas dietas de carne crua para os seus animais de estimação pelo menos se higienizem com maior cuidado ao lidar com elas. E antes de embarcar nessas dietas, consulte primeiro um veterinário responsável.



REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://veterinaryrecord.bmj.com/content/182/2/50.full
  2. https://avmajournals.avma.org/doi/abs/10.2460/javma.2001.219.1222?cookieSet=1
  3. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC339295/
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1140397/
  5. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1716752/
  6. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2684052/
  7. https://wwwnc.cdc.gov/eid/article/24/6/pdfs/17-1887.pdf
  8. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/zph.12323
  9. https://bmcvetres.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12917-017-1143-z
  10. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/B9780128118351000014
  11. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/zph.12389
  12. https://academic.oup.com/jas/advance-article-abstract/doi/10.1093/jas/sky235/5035020?redirectedFrom=fulltext
  13. https://academic.oup.com/jas/advance-article-abstract/doi/10.1093/jas/sky235/5035020?redirectedFrom=fulltext
  14. https://avmajournals.avma.org/doi/10.2460/javma.254.10.1172
  15. https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rsos.191170