A Tabela Chinesa de Gravidez é realmente eficaz para prever o sexo do bebê?
- Atualizado no dia 22 de outubro de 2024 -
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Grande parte dos pais quer saber qual o sexo do bebê no momento em que ficam cientes da gravidez. Além disso, é também o sonho de muitos pais conseguirem, de alguma forma, escolher o sexo do bebê antes mesmo da gravidez efetiva. Esse desejo é ainda mais forte em sociedades onde, infelizmente, existe uma preferência maior por filhos do sexo masculino, como ocorre na China, devido a razões culturais e socioeconômicas específicas. Seja qual for a razão, existe uma popular ferramenta que alega ser capaz de tais proezas apenas com base na idade da mãe no dia da concepção e o mês em que essa última ocorreu: a Tabela Chinesa da Gravidez. Mas será que esse método - oriundo da Medicina Tradicional Chinesa - realmente cumpre o que promete?
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HISTÓRIA E FUNCIONAMENTO
Segundo diversas fontes que propagam essa tabela, esta teve origem na Dinastia Qing (1644-1912), a última dinastia imperial da China. Ela teria sido usada pelos imperadores como guia para que esses pudessem escolher o sexo dos seus futuros filhos, ou seja, ter certeza que haveria um filho homem para garantir a continuidade da linhagem real vigente. Para usá-la, a mãe precisa saber sua idade no dia da concepção correspondente no calendário lunar chinês. Com essa data em mãos, e seguindo a tabela (imagem abaixo), ficaria fácil determinar o sexo do bebê desde o início da gravidez ou até mesmo escolher o sexo do bebê, bastando apenas preferir determinados dias para a realização da relação sexual. Diversos sites e blogs que disponibilizam a tabela afirmam que a sua taxa de acerto é acima de 90%, com alguns inclusive dizendo que o valor pode alcançar incríveis 99,99%.
Tal ferramenta é mais do que tentadora para muitos pais, especialmente quando tantas fontes dizem que ela é bastante eficaz. Porém, existe alguma lógica científica por trás dela ou é apenas mais uma superstição associada à medicina tradicional chinesa? Vamos começar definindo o que determina o sexo do bebê na fertilização (momento em que o espermatozoide fecunda o oócito/óvulo).
Os gametas sexuais são produzidos no corpo através de divisões meióticas, sendo, portanto, células haploides, estas as quais possuem apenas um tipo de cada cromossomo do indivíduo (no caso humano, 23 no total, dos 46 iniciais). O gameta que o corpo feminino produz, nos ovários, é o óvulo [oócito] e o gameta que o corpo masculino produz, nos testículos, é o espermatozoide. Quando um óvulo é fecundado por um espermatozoide, ambos os gametas se fundem e os 23 cromossomos de cada um se somam para formar os 46 necessários para o desenvolvimento de um indivíduo humano saudável (23 pares). Bem, e o que isso tudo tem a ver com o sexo do bebê?
Quem determina o sexo do bebê é o espermatozoide, isso porque as células que originam esse gameta possuem os cromossomos sexuais X e Y, já que partem do corpo masculino (46,XY). O óvulo terá origem de uma célula contendo apenas o cromossomo sexual X, sendo o XX determinante do sexo feminino (46,XX). Portanto, no momento em que a célula que dará origem ao espermatozoide é dividida por meiose, separando os pares de cromossomos, metade dos espermatozoides produzidos no testículo terão apenas um único cromossomo X e a outra metade terá apenas um cromossomo Y. Quando um deles se funde ao óvulo, estará carregando um desses cromossomos para se juntar ao X do gameta feminino.
Quem determina o sexo do bebê é o espermatozoide, isso porque as células que originam esse gameta possuem os cromossomos sexuais X e Y, já que partem do corpo masculino (46,XY). O óvulo terá origem de uma célula contendo apenas o cromossomo sexual X, sendo o XX determinante do sexo feminino (46,XX). Portanto, no momento em que a célula que dará origem ao espermatozoide é dividida por meiose, separando os pares de cromossomos, metade dos espermatozoides produzidos no testículo terão apenas um único cromossomo X e a outra metade terá apenas um cromossomo Y. Quando um deles se funde ao óvulo, estará carregando um desses cromossomos para se juntar ao X do gameta feminino.
Como base nessas informações, fica então a pergunta: como a idade da mulher ou dia/mês lunar irão interferir na escolha do espermatozoide que irá fecundar o óvulo se o esperma contém, a princípio, quantidades iguais de espermatozoides X e Y? Essa é a primeira pista de incoerência da tabela chinesa.
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> Tecnicamente, antes da fecundação, o "óvulo" é chamado de oócito. Sugestão de leitura: Processo de ovulação humana flagrado ao vivo durante uma histerectomia
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INCOERÊNCIAS DA TABELA CHINESA DA GRAVIDEZ
A ideia de um filtro natural no corpo feminino selecionando espermatozoides carregando ou não o cromossomo Y antes deste fecundar o óvulo não é suportada por evidência científica (!). Além disso, podemos citar alguns fatos óbvios que derrubam a confiabilidade da tabela:
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INCOERÊNCIAS DA TABELA CHINESA DA GRAVIDEZ
A ideia de um filtro natural no corpo feminino selecionando espermatozoides carregando ou não o cromossomo Y antes deste fecundar o óvulo não é suportada por evidência científica (!). Além disso, podemos citar alguns fatos óbvios que derrubam a confiabilidade da tabela:
1. Existência de gêmeos, trigêmeos e outras gravidezes múltiplas com sexos diferentes: Se a tabela chinesa fosse realmente confiável, esse método também teria que prever quando houvesse a gestação de dois ou mais fetos em uma mesma gravidez com sexos diferentes, algo que ocorre em situações em que dois ou mais óvulos são fecundados e implantados no útero (dizigóticos), ou, em raríssimos casos, quando gêmeos monozigóticos sofrem mutações durante a divisão do zigoto inicial (geralmente envolvendo a supressão do cromossomo Y em casos da síndrome de Klinefelter - XXY - ou no genótipo feminino - 45,X). E considerando que em torno de 3% dos nascimentos ao redor do mundo são de gravidezes múltiplas, e que grande parte das vezes os bebês envolvidos são de sexos diferentes, isso não é algo que se deva desprezar.
2. Dia da concepção: Esse é o problema mais grave. Como já mencionado em um artigo prévio (Depois da relação sexual, quanto tempo até engravidar?) o espermatozoide pode fecundar o óvulo pouco tempo depois da ejaculação, ou sobreviver dentro do trato reprodutor feminino por até 5 ou 6 dias, esperando uma ovulação. Portanto, dependendo se a mulher ovulou ou não, a fertilização poderá ocorrer em qualquer dia dentro de quase 1 semana. E mais: a gravidez [concepção] não ocorre logo depois da fertilização, e, sim, vários dias depois. Como, então, saber o dia exato da concepção? Nesse sentido, a tabela fica muito pouco confiável frente ao período fértil feminino. Além disso, caso o casal não estiver planejando uma gravidez, a estimativa do dia da concepção fica ainda mais difícil.
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(!) Importante realçar que é errônea a ideia de que o trato reprodutor feminino é passível ao avanço (ou "corrida") dos espermatozoides. O trato reprodutivo feminino atua de forma crucial e ativa na capacitação e triagem dos espermatozoides. Para mais informações: Três mitos esclarecidos: Ciclo menstrual de 28 dias, corrida dos espermatozoides e exclusividade masculina da próstata
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ESTUDOS CIENTÍFICOS
Para esclarecer de vez a alegada eficácia da Tabela Chinesa, em 2010 o Dr. Eduardo Villamor da Escola de Saúde Pública U-M e colaboradores na Suécia (Hospital e Instituto Karolinska) e Boston (Escola de Saúde Pública de Harvard) (Ref.2) analisaram 2,8 milhões de nascimentos na Suécia entre os anos de 1973 e 2006, concluindo que apostar nessa tabela para predizer o sexo do bebê é tão confiável quanto jogar cara ou coroa, ou seja, uma probabilidade próxima de 50%.
Ora, mas é claro que a probabilidade é próxima de 50%. Se, virtualmente, metade dos espermatozoides indo fecundar o óvulo carregam o cromossomo Y e a outra metade o cromossomo X, as chances de algum representante de cada um desses grupos ser responsável pela fertilização é, à princípio, praticamente igual. E esse é o motivo também da Tabela Chinesa ser tão popular, já que '50%' é uma probabilidade alta e garantirá resultados positivos na metade das vezes. Porém, se você jogar uma moeda para o alto e apostar em cara ou coroa, também terá a mesma chance de acerto. Assim, muitos que usam essa tabela e obtêm um resultado positivo, acabam caindo no erro de atribuir a proeza ao método chinês, fomentando a superstição.
Os pesquisadores apenas fizeram o estudo por curiosidade, devido à grande popularidade da tabela, e já esperavam tal resultado. De qualquer forma, é uma prova científica de que o método não funciona.
INTERVENÇÃO ARTIFICIAL
Um estudo publicado em 2019 na PLOS Biology (Ref.14) descreveu um tratamento químico simples e reversível que pode segregar os espermatozoides carregando o cromossomo X daqueles carregando o Y, e permitindo uma dramática alteração da razão normal 50/50 entre machos e fêmeas. O método foi aplicado em ratos, mas provavelmente pode ser aplicado em outros mamíferos, incluindo humanos.
Ao contrário do cromossomo Y, o qual carrega poucos genes, o cromossomo X carrega vários genes, alguns dos quais permanecem ativos no espermatozoide maduro. Nos ratos, por exemplo, o Y codifica apenas 700 genes, enquanto o X codifica mais de 3 mil. Nesse sentido, os autores no novo estudo encontraram que 492 genes estão ativos somente no espermatozoide X, dos quais 18 codificam receptores, os quais respondem ao estímulo de ligantes.
Focando em um par de receptores chamado 'receptores 7 e 8 do tipo Toll' (TLR7/8), os pesquisadores encontraram que um composto (R848) que se liga a ambos os receptores diminuía a motilidade do espermatozoide sem prejudicar a habilidade ou viabilidade de fertilização dessa célula. O efeito foi mostrado ser devido ao comprometimento da produção de energia (interferência na glicólise) dentro do espermatozoide e pode ser revertido pela remoção do R848 do meio.
Tratamento do esperma dos ratos com o R848 (retardante-X) - permitindo facilmente a separação dos espermatozoides mais rápidos dos mais lentos -, seguido por fertilização in vitro com os espermatozoides mais rápidos, resultaram em proles constituídas por 90% de machos (XY). Quando os mais lentos foram usados, 83% dos filhotes foram constituídos por fêmeas (XX).
Existem outros procedimentos que podem ser usados para separar os espermatozoides X e Y, mas todos são ainda complicados, financeiramente custosos e estão associados com riscos de danos ao DNA dos espermatozoides. Mais recentemente, uma técnica baseada no editor genético CRISPR-Cas9 - visando o gene Topoisomerase 1 (TOP1), crucial para a divisão celular - permitiu efetividade de 100% no nascimento exclusivo ou de ratos fêmeas ou ou de ratos machos, com a estratégia provavelmente reprodutível para qualquer outra espécie com cromossomos sexuais diferenciados e, aparentemente, mostrando-se segura (Ref.15).
CONCLUSÃO
A Tabela Chinesa da Gravidez não funciona e pode passar falsas expectativas para os pais. Não planeje mudanças na casa (como pintar o quarto, compra de roupas, etc.) com base apenas nesse método supersticioso. A única forma de saber o sexo do bebê é através dos métodos clínicos específicos, e já com uma gravidez em curso. Tentar prever o sexo do bebê antes mesmo da concepção e com alta acuracidade, é apostar em um lançamento de dados ou de moedas.
Artigos Recomendados:
REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
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ESTUDOS CIENTÍFICOS
Para esclarecer de vez a alegada eficácia da Tabela Chinesa, em 2010 o Dr. Eduardo Villamor da Escola de Saúde Pública U-M e colaboradores na Suécia (Hospital e Instituto Karolinska) e Boston (Escola de Saúde Pública de Harvard) (Ref.2) analisaram 2,8 milhões de nascimentos na Suécia entre os anos de 1973 e 2006, concluindo que apostar nessa tabela para predizer o sexo do bebê é tão confiável quanto jogar cara ou coroa, ou seja, uma probabilidade próxima de 50%.
Ora, mas é claro que a probabilidade é próxima de 50%. Se, virtualmente, metade dos espermatozoides indo fecundar o óvulo carregam o cromossomo Y e a outra metade o cromossomo X, as chances de algum representante de cada um desses grupos ser responsável pela fertilização é, à princípio, praticamente igual. E esse é o motivo também da Tabela Chinesa ser tão popular, já que '50%' é uma probabilidade alta e garantirá resultados positivos na metade das vezes. Porém, se você jogar uma moeda para o alto e apostar em cara ou coroa, também terá a mesma chance de acerto. Assim, muitos que usam essa tabela e obtêm um resultado positivo, acabam caindo no erro de atribuir a proeza ao método chinês, fomentando a superstição.
Os pesquisadores apenas fizeram o estudo por curiosidade, devido à grande popularidade da tabela, e já esperavam tal resultado. De qualquer forma, é uma prova científica de que o método não funciona.
Corroborando essa conclusão, um estudo retrospectivo prévio e menos robusto, publicado em 2009 no periódico American Journal of Obstetrics and Gynecology (Ref.4), analisou os registros de nascimento do Hospital Geral de Massachusetts entre 1 de janeiro de 1995 até 30 de junho de 2008 (próximo de 40 mil partos), e também chegou à mesma conclusão: a Tabela Chinesa não é melhor em predizer o sexo do bebê do que jogar uma moeda para cima. A acuracidade encontrada foi de 50,4%.
Por fim, um estudo publicado em 2017 no periódico Statistical Methods in Medical Research (Ref.5), investigando as tendências de nascimentos dentro da população europeia, também não encontrou nenhuma relação significativa entre o período de concepção e a determinação do sexo do bebê. Nesse caso, o estudo não explorou a questão da Tabela Chinesa em específico; apenas realizou uma análise epidemiológica geral.
É POSSÍVEL, DE ALGUMA FORMA, PREVER A PROBABILIDADE DE NASCIMENTO EM RELAÇÃO AO SEXO ANTES MESMO DA CONCEPÇÃO?
Os custos de reprodução para uma mãe humana são diferentes se ela dá a luz a um filho ao invés de uma filha. De acordo com a hipótese de Trivers-Willard, a evolução natural deveria promover as fêmeas que, tendo a habilidade de investir no sexo mais custoso, são também capazes de ajustar o sexo do bebê de acordo. Portanto, é possível que a condição biológica da mãe (a qual é conectada com sua capacidade de reprodução), possa ser uma boa ferramenta de previsão do sexo do bebê em determinadas situações. Nesse sentido, os machos são mais custosos de serem gerados do que fêmeas. Certos mamíferos, por exemplo, já mostraram que dão luz a mais filhotes machos do que fêmeas caso a mãe esteja bem alimentada, seja bem massiva ou seja dominante no território.
Em relação aos humanos, essa hipótese foi explorada em um estudo de 2002, conduzido por pesquisadores do Departamento de Antropologia da Universidade de Wroclaw, na Polônia. Os autores do estudo analisaram 227 mães saudáveis de Wroclaw que tiveram uma segunda gravidez e, com base na massa corporal do primeiro bebê gerado, foi encontrado que havia uma maior probabilidade de que o segundo bebê seria do sexo masculino caso o primeiro tenha sido do sexo feminino e com uma relativa grande massa corporal. A "maior probabilidade" aqui não quer dizer que mais machos sejam gerados pós-fertilização do que fêmeas e, sim, que são maiores as chances de um indivíduo do sexo masculino chegar ao final da gestação e nascer com sucesso, já que a mãe estaria mais saudável para gerá-lo e sustentá-lo (a ponto de parir um bebê do sexo feminino mais massivo).
O motivo para apenas a massa corporal dos bebês do sexo feminino ser um indicador da habilidade da mãe em investir em uma próxima criança, pelo menos nesse estudo, pode envolver fatores como sistema imunológico da mãe e índices de abortos espontâneos, mas nada foi concluído. E, lembrando, o estudo em questão envolveu uma amostragem pequena (número relativamente pequeno de participantes), ou seja, os achados não são suportados por um robusto conjunto de dados.
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É POSSÍVEL, DE ALGUMA FORMA, PREVER A PROBABILIDADE DE NASCIMENTO EM RELAÇÃO AO SEXO ANTES MESMO DA CONCEPÇÃO?
Os custos de reprodução para uma mãe humana são diferentes se ela dá a luz a um filho ao invés de uma filha. De acordo com a hipótese de Trivers-Willard, a evolução natural deveria promover as fêmeas que, tendo a habilidade de investir no sexo mais custoso, são também capazes de ajustar o sexo do bebê de acordo. Portanto, é possível que a condição biológica da mãe (a qual é conectada com sua capacidade de reprodução), possa ser uma boa ferramenta de previsão do sexo do bebê em determinadas situações. Nesse sentido, os machos são mais custosos de serem gerados do que fêmeas. Certos mamíferos, por exemplo, já mostraram que dão luz a mais filhotes machos do que fêmeas caso a mãe esteja bem alimentada, seja bem massiva ou seja dominante no território.
Em relação aos humanos, essa hipótese foi explorada em um estudo de 2002, conduzido por pesquisadores do Departamento de Antropologia da Universidade de Wroclaw, na Polônia. Os autores do estudo analisaram 227 mães saudáveis de Wroclaw que tiveram uma segunda gravidez e, com base na massa corporal do primeiro bebê gerado, foi encontrado que havia uma maior probabilidade de que o segundo bebê seria do sexo masculino caso o primeiro tenha sido do sexo feminino e com uma relativa grande massa corporal. A "maior probabilidade" aqui não quer dizer que mais machos sejam gerados pós-fertilização do que fêmeas e, sim, que são maiores as chances de um indivíduo do sexo masculino chegar ao final da gestação e nascer com sucesso, já que a mãe estaria mais saudável para gerá-lo e sustentá-lo (a ponto de parir um bebê do sexo feminino mais massivo).
O motivo para apenas a massa corporal dos bebês do sexo feminino ser um indicador da habilidade da mãe em investir em uma próxima criança, pelo menos nesse estudo, pode envolver fatores como sistema imunológico da mãe e índices de abortos espontâneos, mas nada foi concluído. E, lembrando, o estudo em questão envolveu uma amostragem pequena (número relativamente pequeno de participantes), ou seja, os achados não são suportados por um robusto conjunto de dados.
Na maioria das espécies dioicas - ou seja, onde diferentes sexos estão em indivíduos distintos -, especialmente mamíferos, a razão macho:fêmea é de aproximadamente 0,5, significando que números praticamente iguais de machos e fêmeas nascem em uma população. Essa paridade é comumente explicada pelo Princípio de Fisher, uma ideia que pode ser traçada até Charles Darwin no século XIX e, particularmente, ao biólogo e estatístico Ronald Fisher (1890-1962).
Segundo o princípio de Fisher, a seleção natural favorece variantes genéticas que aumentam as taxas de nascimento do "sexo raro". Ou seja, se menos machos do que fêmeas nascem ou compõem uma população, seleção natural irá favorecer genótipos que aumentam o número de machos, e vice-versa. Devido ao fato do número total de filhotes é o mesmo para todos os machos de uma população combinados e para todas as fêmeas da população combinadas, quando a população possui mais machos do que fêmeas, na média uma fêmea possui mais filhotes e, portanto, maior aptidão do que um macho. Se o investimento parental nos filhotes machos se iguala àquele em filhotes fêmeas, quanto menor a razão sexual dos filhotes de um genótipo, mais apto é esse genótipo - sofrendo pressão seletiva até a razão alcançar ~0,5.
A longo prazo, esse mecanismo de balanço acaba resultando em números aproximadamente iguais de machos e de fêmeas (razão de ~0,5 para cada sexo). O modelo adaptativo por trás desse raciocínio é comumente referido como "o mais celebrado argumento na biologia evolucionária", e é a explicação prevalente para a evolução da razão sexual em torno de 0,5. Nos humanos, essa razão varia de 0,52 até 0,54, dependendo da população analisada.
Demonstração prática do princípio de Fisher tem sido documentada em algumas espécies sob condições laboratoriais ou naturais. No entanto, a maioria dessas espécies usam determinação sexual não-cromossômica (ex.: variação de temperatura em certos peixes, eliminação do genoma paterno em certas moscas e haplodiploidia em formigas). Em espécies que usam determinação sexual cromossômica (ex.: sistema XY em mamíferos e sistema ZW em aves), evidência para o princípio de Fisher é escassa. Seria a razão ~0,5 nos humanos e outros mamíferos fruto de simples segregação aleatória dos cromossomos X e Y durante a meiose nos machos?
Para o princípio de Fisher funcionar no cenário de determinação sexual cromossômica, é preciso existir mutações que influenciam a razão entre os sexos.
Um recente estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Michigan, EUA, trouxe a primeira relevante evidência de mutação suportando o princípio de Fisher em humanos (Ref.16). Analisando informações genéticas do UK Biobank - um grande banco de dados biomédico contendo informações genéticas e fenotípicas de ~500 mil participantes Britânicos -, os pesquisadores identificaram uma mudança de nucleotídeo único chamada rs144724107 que mostrou estar associada um aumento de 10% de probabilidade no nascimento de um indivíduo do sexo feminino em vez de um indivíduo do sexo masculino. Essa variante mostrou-se rara entre os participantes do UK Biobank: cerca de 0,5% do total e prevalência de apenas 0,25% em indivíduos com ancestralidade europeia.
Em específico, o raro alelo rs144724107 estava associado com uma redução de 19% na razão entre sexos no nascimento, significando que a probabilidade de que uma gravidez resulte em um indivíduo do sexo feminino aumenta de 0,480 em pessoas que não carregam esse alelo para 0,577 em pessoas heterozigotas para esse alelo. Porém é incerto se o potencial efeito pró-XX desse alelo é materno ou paterno.
A mudança de nucleotídeo identificada é localizada próxima do gene ADAMTS14, membro da família de genes ADAMTS que codificam proteases extracelulares e que estão envolvidos nos processos de espermatogênese e de fertilização.
O estudo também identificou dois genes (RLF e KIF20B) que parecem também influenciar a razão entre sexos. O gene KIF20B está ligado a funções de citocinese e provavelmente está envolvido na produção de gametas.
Portanto, se variantes genéticas comprovadamente favorecerem um determinado sexo em humanos, é possível saber se um casal específico terá menor ou maior probabilidade de produzir uma menina ou um menino caso os genótipos dos integrantes desse casal sejam investigados.
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> Identificar genes e variantes genéticas ligadas ao Princípio de Fisher pode trazer benefícios econômicos na agropecuária, onde animais de determinado sexo tendem a ser mais desejados em certos setores. Por exemplo, galinhas para a produção de ovos e vacas para a produção de leite.
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INTERVENÇÃO ARTIFICIAL
Um estudo publicado em 2019 na PLOS Biology (Ref.14) descreveu um tratamento químico simples e reversível que pode segregar os espermatozoides carregando o cromossomo X daqueles carregando o Y, e permitindo uma dramática alteração da razão normal 50/50 entre machos e fêmeas. O método foi aplicado em ratos, mas provavelmente pode ser aplicado em outros mamíferos, incluindo humanos.
Ao contrário do cromossomo Y, o qual carrega poucos genes, o cromossomo X carrega vários genes, alguns dos quais permanecem ativos no espermatozoide maduro. Nos ratos, por exemplo, o Y codifica apenas 700 genes, enquanto o X codifica mais de 3 mil. Nesse sentido, os autores no novo estudo encontraram que 492 genes estão ativos somente no espermatozoide X, dos quais 18 codificam receptores, os quais respondem ao estímulo de ligantes.
Focando em um par de receptores chamado 'receptores 7 e 8 do tipo Toll' (TLR7/8), os pesquisadores encontraram que um composto (R848) que se liga a ambos os receptores diminuía a motilidade do espermatozoide sem prejudicar a habilidade ou viabilidade de fertilização dessa célula. O efeito foi mostrado ser devido ao comprometimento da produção de energia (interferência na glicólise) dentro do espermatozoide e pode ser revertido pela remoção do R848 do meio.
Tratamento do esperma dos ratos com o R848 (retardante-X) - permitindo facilmente a separação dos espermatozoides mais rápidos dos mais lentos -, seguido por fertilização in vitro com os espermatozoides mais rápidos, resultaram em proles constituídas por 90% de machos (XY). Quando os mais lentos foram usados, 83% dos filhotes foram constituídos por fêmeas (XX).
Existem outros procedimentos que podem ser usados para separar os espermatozoides X e Y, mas todos são ainda complicados, financeiramente custosos e estão associados com riscos de danos ao DNA dos espermatozoides. Mais recentemente, uma técnica baseada no editor genético CRISPR-Cas9 - visando o gene Topoisomerase 1 (TOP1), crucial para a divisão celular - permitiu efetividade de 100% no nascimento exclusivo ou de ratos fêmeas ou ou de ratos machos, com a estratégia provavelmente reprodutível para qualquer outra espécie com cromossomos sexuais diferenciados e, aparentemente, mostrando-se segura (Ref.15).
(!) Leitura recomendada: CRISPR-Cas9: A popularização da edição genética!
E DURANTE A GRAVIDEZ, COMO SABER O SEXO DO BEBÊ?
Pelo método científico, existe mais de um meio para se determinar o sexo da criança durante a gravidez:
1. Ultrassom: A ultrassonografia utiliza ondas sonoras para criar uma imagem do feto no útero e possui alta taxa de acerto a partir da 14° semana de gestação. No segundo e terceiro trimestre da gravidez, chega a ter acuracidade em torno de 99%. No primeiro trimestre, as chances de erro aumentam bastante.
2. Teste de Sexagem Fetal: É um procedimento não invasivo e sem risco para mãe e para o feto, pois requer apenas a coleta de sangue materno, devendo ser realizado a partir da 10ª semana completa de gestação (9 semanas e 7 dias). A coleta é simples e não exige nenhum preparo especial. Aqui, busca-se por fragmentos de DNA fetal de células-livres (cffDNA) liberadas pela placenta a partir da 5-7° semana de gestação e que acabam caindo na circulação sanguínea da mãe. Embora esses fragmentos de DNA do feto representem entre 3 e 6% do total de fragmentos de DNA no sangue, o método foi bastante aperfeiçoado nos últimos anos e tornou-se bastante eficaz, com uma taxa de confiabilidade em torno de 99%, variando muito pouco entre os semestres de gestação. Apesar de poder ser feito até mesmo a partir da 5° semana de gravidez, recomenda-se fazer apenas a partir da 10° semana, já que a quantidade de cffDNA aumenta na corrente sanguínea da mãe com o passar do tempo de gestação.
Existem outros métodos invasivos que coletam células do feto diretamente do útero, mas enquanto os mesmos têm eficiência de, virtualmente, 100% de acerto, envolvem significativos riscos de aborto (1-2%) e, portanto, não devem ser usados apenas para a determinação do sexo da criança motivada pela curiosidade dos pais. Esses métodos são utilizados e recomendados para a detecção de doenças diversas no feto, onde o risco-benefício é favorável.
Esses avanços científicos são importantes tanto em estudos laboratoriais quanto na agropecuária, onde existe frequentemente preferência por um sexo específico. Por exemplo, na indústria de laticínios, fêmeas (vacas) são preferencialmente requeridas, resultando anualmente no sacrifício em torno de 95 mil bezerros machos no Reino Unido, 200 mil na Alemanha e 500 mil na Austrália, e vários milhões a nível global.
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E DURANTE A GRAVIDEZ, COMO SABER O SEXO DO BEBÊ?
Pelo método científico, existe mais de um meio para se determinar o sexo da criança durante a gravidez:
1. Ultrassom: A ultrassonografia utiliza ondas sonoras para criar uma imagem do feto no útero e possui alta taxa de acerto a partir da 14° semana de gestação. No segundo e terceiro trimestre da gravidez, chega a ter acuracidade em torno de 99%. No primeiro trimestre, as chances de erro aumentam bastante.
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Nas imagens da esquerda, podemos ver circulados a genitália feminina em fetos no útero obtidas do exame de ultrassom; nas imagens da direita, temos circulado a genitália masculina |
2. Teste de Sexagem Fetal: É um procedimento não invasivo e sem risco para mãe e para o feto, pois requer apenas a coleta de sangue materno, devendo ser realizado a partir da 10ª semana completa de gestação (9 semanas e 7 dias). A coleta é simples e não exige nenhum preparo especial. Aqui, busca-se por fragmentos de DNA fetal de células-livres (cffDNA) liberadas pela placenta a partir da 5-7° semana de gestação e que acabam caindo na circulação sanguínea da mãe. Embora esses fragmentos de DNA do feto representem entre 3 e 6% do total de fragmentos de DNA no sangue, o método foi bastante aperfeiçoado nos últimos anos e tornou-se bastante eficaz, com uma taxa de confiabilidade em torno de 99%, variando muito pouco entre os semestres de gestação. Apesar de poder ser feito até mesmo a partir da 5° semana de gravidez, recomenda-se fazer apenas a partir da 10° semana, já que a quantidade de cffDNA aumenta na corrente sanguínea da mãe com o passar do tempo de gestação.
Existem outros métodos invasivos que coletam células do feto diretamente do útero, mas enquanto os mesmos têm eficiência de, virtualmente, 100% de acerto, envolvem significativos riscos de aborto (1-2%) e, portanto, não devem ser usados apenas para a determinação do sexo da criança motivada pela curiosidade dos pais. Esses métodos são utilizados e recomendados para a detecção de doenças diversas no feto, onde o risco-benefício é favorável.
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CONCLUSÃO
A Tabela Chinesa da Gravidez não funciona e pode passar falsas expectativas para os pais. Não planeje mudanças na casa (como pintar o quarto, compra de roupas, etc.) com base apenas nesse método supersticioso. A única forma de saber o sexo do bebê é através dos métodos clínicos específicos, e já com uma gravidez em curso. Tentar prever o sexo do bebê antes mesmo da concepção e com alta acuracidade, é apostar em um lançamento de dados ou de moedas.
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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
- http://ns.umich.edu/new/releases/7718-chinese-lunar-calendar-don-t-paint-the-nursery-just-yet
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20618730
- http://www.mdsaude.com/2016/07/tabela-chinesa-gravidez.html
- https://www.ajog.org/article/S0002-9378(09)01545-2/fulltext
- http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0962280217702415
- https://www.researchgate.net/publication/11499461_Can_the_sex_of_the_second_child_be_predicted_by_the_birth-weight_of_the_first_child
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3033909/
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/9450855
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11173871
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18598609
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- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3444439/
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3530251/
- https://journals.plos.org/plosbiology/article?id=10.1371/journal.pbio.3000398
- Douglas et al. (2021). CRISPR-Cas9 effectors facilitate generation of single-sex litters and sex-specific phenotypes. Nature Communications 12, 6926. https://doi.org/10.1038/s41467-021-27227-2
- Song & Zhang (2024). "In search of the genetic variants of human sex ratio at birth: was Fisher wrong about sex ratio evolution?" Proceedings of the Royal Society B, Volume 291, Issue 2033. https://doi.org/10.1098/rspb.2024.1876