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O óleo de coco emagrece e cura doenças?

- Artigo atualizado no dia 25 de agosto de 2018 -

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        O óleo de coco foi, por muito tempo, acusado de fazer mal à saúde por causa da sua grande quantidade de gorduras saturadas (geralmente em torno de 90-92%), mesmo sendo bastante consumido em regiões tropicais, como no Sri Lanka, sem demonstrar efeitos negativos na população. Há alguns anos, contudo, a injusta má fama foi corrigida e hoje o óleo de coco não é tido mais como um vilão. Porém, as pessoas começaram a exagerar e inventar potenciais benefícios desse alimento.

         Primeiro de tudo: a gordura saturada do coco não é a mesma encontrada na gordura saturada dos animais. Ela é formada principalmente por cadeias médias de ácido graxo - em especial do ácido láurico (~48%) -, enquanto a animal é formada, majoritariamente, por gorduras saturadas de longas cadeias. Ou seja, o metabolismo das duas é bem diferente, com as cadeias médias sendo digeridas e metabolizadas mais rapidamente. Independentemente disso, já estão surgindo evidências científicas de que as gorduras saturadas, seja o tipo que for, não parecem trazer significativos danos à saúde a longo prazo em moderação, porém sem também trazer quaisquer benefícios (1). No entanto, estudos clínicos continuam mostrando que o consumo de gorduras saturadas aumentam os níveis de LDL (colesterol "ruim") (2) no sangue. Inclusive, entre esses estudos clínicos, o consumo de óleo de coco também mostrou aumentar os níveis de LDL em comparação com o consumo de óleos vegetais menos ricos em ácido graxo saturado, algo reforçado por uma revisão da literatura acadêmica realizada recentemente pela Associação Americana de Cardiologia (Ref.22). É válido também ressaltar estudos clínicos de alta qualidade que mostram uma boa relação entre o consumo desse óleo com uma modesta melhora dos parâmetros saudáveis do perfil sanguíneo de humanos, como o HDL (colesterol "bom") (Ref.23).


        No geral, o consenso científico hoje ainda considera toda gordura saturada como prejudicial à saúde em quantidades que vão do moderado ao excesso, com o consumo devendo manter-se o mais baixo possível até o mínimo recomendado. Sobre o óleo de coco, em específico, os resultados de estudos que avaliam seu consumo com a razão colesterol/HDL e LDL/HDL são ainda inconsistentes.



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            Algumas pesquisas sugerem certos POTENCIAIS benefícios associados ao consumo do óleo de coco, porém, grande parte delas ainda se baseiam em testes com ratos ou experimentos in vitro. Assim, a maioria dos benefícios para humanos estão no campo hipotético. Afirmar que esse óleo é bom para o Alzheimer, controle da hipertensão, controle do colesterol, cicatrização de feridas, etc., é um grave erro. O óleo de coco tem sido divulgado, em diversos veículos populares e não-acadêmicos de mídia, como integrante de uma dieta preventiva para doenças crônicas, como quadros neuro-degenerativos, obesidade e dislipidemia, bem como para outras funções tais como imunomodulação e tratamento antimicrobiano, sem que nada disso tenha um bom suporte científico (em algumas alegações, nenhum suporte científico).  Incluir óleo de coco na dieta não constitui problema nenhum, mas o povo tem que parar de tratá-lo como um remédio. Já existem cápsulas, suplementos e diversos outros produtos com esse óleo baseados em uma ciência inexistente, feita apenas para arrancar dinheiro dos consumidores desavisados. Só que isso não para por aí. Muitos canais de notícia e/ou de promoção comercial de produtos, especialmente na internet, vem reportando que esse óleo é excelente para o emagrecimento, algo sem nenhuma evidências científica significativa.



            Se você for no Google e procurar por 'óleo de coco' quase todos os resultados de busca glorificam de uma maneira mentirosa esse alimento, enfatizando o seu suposto poder de promover a perda de gordura corporal. Apenas dois nos 20 primeiros resultados de pesquisa tratam do assunto com seriedade (um da Sociedade Brasileira de Endocrinologia (Ref.5) e outro do R7 (Ref.6)), os quais desmistificam esse mito). Não existe real evidência científica em afirmar que o óleo de coco, em específico, queima gordura e promove perda de peso significativa. Ele deve ser considerado como uma fonte calórica extra, que, se consumida em excesso, pode até contribuir para o ganho de peso. Muitas celebridades também aparecem dizendo que perderam uma montanha de massa corporal adiposa com ele, o que aquece ainda mais os boatos. E ainda existe o fator 'propaganda', onde muitos famosos dizem inverdades sobre o óleo de coco, por exemplo, para promover uma marca. Anúncios do tipo "Conheça o óleo que queima a gordura do seu corpo" são enganosos e configuram um crime aos direitos do consumidor.  Se você está emagrecendo, é porque está fazendo uma dieta com menos calorias (através de uma reeducação alimentar), com a ajuda ou não de atividades físicas.

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          No máximo, existem estudos que mostram que a SUBSTITUIÇÃO das gorduras de cadeias longas (como a provinda de fontes animais) e das insaturadas com gorduras de cadeias médias (como a do óleo de coco) pode diminuir o acúmulo de gordura, mas em valores muito baixos (2), como mostrado no estudo de revisão da  Ref.19. Alguns estudos também mostram que existe a promoção de uma pequena perda na circunferência abdominal caso programas de dietas hipocalóricas e atividades físicas estejam sendo praticados em conjunto, mas sem isso influenciar no IMC (índice de massa corporal). E olha que essa última observação só foi feita caso outros fatores estejam juntos, algo que induz a erros de análise.  Mesmo nesses casos, existem controvérsias, com muitos estudos também mostrando que essa substituição não possui nenhum suporte científico significativo para um maior emagrecimento, como evidenciado no artigo de revisão da Ref.21. Assim, afirmar que o óleo de coco promove grandes perdas de gordura corporal é, simplesmente, um absurdo. Na verdade, já é um erro afirmar que ele promove qualquer substancial emagrecimento. E o triste é ver várias drogarias, de renome ou não, manipulando pílulas de óleo de coco e afirmando, com a maior certeza do mundo, que elas promovem a perda de peso e melhoram a saúde do indivíduo. Nesse caso, não estamos falando nem de uma substituição lipídica e, sim, de um suplemento alimentar, o qual será somado à sua dieta. Faz algum sentido nisso? No máximo, você estará adicionando mais calorias na sua alimentação ingerindo essas pílulas.


Isso é propaganda enganosa! Essa matéria apenas visa a promoção de produtos patrocinadores

          Segundo conclusão recente da Associação Brasileira de Nutrologia (Ref.24), levando em conta a robusta associação entre consumo de ácidos graxos saturados e o risco de doenças cardiovasculares e a ausência de grandes estudos bem controlados relativos ao óleo de coco em humanos:

1. óleo de coco não deve ser prescrito na prevenção ou no tratamento da obesidade;
2. o óleo de coco não deve ser prescrito na prevenção ou no tratamento de doenças neuro-degenerativas;
3. o óleo de coco não deve ser prescrito como nutriente antimicrobiano;
4. o óleo de coco não deve ser prescrito como imunomodulador.



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        Uma última coisa a ser dita sobre o assunto é em relação à afirmação de que o óleo de coco é o melhor óleo vegetal a ser utilizado nas frituras. Não, qualquer óleo será praticamente a mesma coisa se for usado para frituras. Cada óleo vai possuir uma propriedade benéfica diferenciada quando consumido PURO, ou caso seja submetido a um baixo aquecimento. O de coco, porém, possui uma melhor durabilidade, já que sua gordura possui mais cadeias saturadas, as quais são menos propensas a oxidarem à TEMPERATURA AMBIENTE. Ou seja, se você usá-lo para fritar, ele será degradado e perderá, praticamente, todas as suas propriedades benéficas, assim como qualquer outro óleo. A maior durabilidade dele é apenas uma questão de ´conserva no armário´.

        Conclusão: O óleo de coco não parece fazer mal se consumido com muita moderação, possui certos nutrientes benéficos para o corpo e apenas SUGESTIVAS propriedades terapêuticas/preventivas para certos problemas crônicos (nada minimamente comprovado). Isso porém, pode ser aplicado para diversos outros tipos de óleos vegetais comestíveis, sendo que os que possuem maior proporção de gorduras poli-insaturadas se mostram bem mais saudáveis. E, não, o óleo de coco não emagrece.

OBS.: Se você procurar qualquer coisa na internet ligada à alimentação, aparecerá coisas relacionadas ao emagrecimento rápido. Não existem alimentos, ou qualquer outra pílula mágica, que faça você perder peso (gordura corporal) por si só. Perder gordura corporal é você consumir menos calorias do que gasta com as atividades físicas e metabolismo basal. A única maneira de se chegar nesse balanço favorável é através de um manejamento muito bem planejado da dieta, a qual agrade à você e à sua saúde, e uso auxiliar de atividades físicas constantes.

(1) Artigo recomendado: As gorduras saturadas são prejudiciais?

(2) A explicação para o suposto mecanismo que permite um menor acúmulo de gordura no corpo ao utilizar gorduras de cadeias médias em detrimento das de cadeia loga (seja proveniente das poli-insaturadas, saturadas ou monosaturadas) seria a maior facilidade de metabolização desses lipídios pelo corpo. Assim, ao invés de serem prontamente armazenadas na forma de gordura nas células adiposas , elas seriam aproveitadas energeticamente pelo corpo. Só que essa é uma explicação bem suspeita. Quando você usa as gorduras de cadeia média como fonte de energia, você estará, de qualquer forma, impedindo a queima das suas reservas de energia (gordura corporal e glicogênio), independentemente se você está armazenando esse nutriente sob a forma de gordura. Enquanto isso, outras fontes de caloria na dieta (sim, porque você não vai só comer óleo de coco na sua vida) estarão sendo armazenadas na forma de gordura. Qual seria a diferença, então? Por isso grande parte dos estudos clínicos não conseguem achar uma perda adiposa significativa nessa substituição, caso não exista uma reeducação alimentar concomitante. Na verdade, não existe evidência de perda de peso alguma se formos considerar o consenso científico. Haveria um fator termogênico durante a metabolização anteriormente mencionada? Bem, se sim, não existem evidências científicas ou, o mais provável, esse efeito termogênico é insignificante. E, para finalizar, o óleo de coco não é formado apenas por lipídios saturados de cadeia média. Cerca de 8% do total é de insaturadas.

Artigo relacionado: A dieta alcalina possui alguma base científica?

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1.  http://journals.lww.com/co-clinicalnutrition/Abstract/2016/03000/The_diverse_nature_of_saturated_fats_and_the_case.2.aspx
  2.  http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0009912004001201
  3.  http://www.cabdirect.org/abstracts/20103254305.html;jsessionid=74190AF939A3ED621A21C45645A9F216
  4. http://www.endocrino.org.br/polemica-do-oleo-de-coco/
  5. http://noticias.r7.com/saude/noticias/oleo-de-coco-e-pura-ilusao-para-perder-peso-e-pode-aumentar-o-colesterol-20120330.html?question=0
  6. https://search.informit.com.au/documentSummary;dn=941720183529632;res=IELNZC
  7. http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.3810/pgm.2014.11.2835 
  8. http://go.galegroup.com/ps/anonymous?id=GALE|A391596473&sid=googleScholar&v=2.1&it=r&linkaccess=fulltext&issn=19819927&p=AONE&sw=w&authCount=1&isAnonymousEntry=true
  9. http://nutritionreviews.oxfordjournals.org/content/early/2016/03/05/nutrit.nuw002.abstract 
  10. http://www.health.harvard.edu/staying-healthy/coconut-oil
  11. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18326600
  12. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25636220
  13. http://www.scopemed.org/?mno=46271 
  14. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0019483215008299
  15. https://www.researchgate.net/profile/Annie_Shirwaikar2/publication/282973020_COCONUT_OIL_-_A_REVIEW_OF_POTENTIAL_APPLICATIONS/links/5667c62608aef42b5787824d.pdf
  16. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2212267214015913
  17. http://www.nature.com/ijo/journal/v27/n1/abs/0802169a.html 
  18. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3146349/
  19. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25636220 
  20. http://www.mayoclinic.org/healthy-lifestyle/weight-loss/expert-answers/coconut-oil-and-weight-loss/faq-20058081 
  21. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/nbu.12188/full 
  22. https://www.ahajournals.org/doi/abs/10.1161/CIR.0000000000000510
  23. https://link.springer.com/article/10.1007/s00394-017-1448-5
  24. http://abran.org.br/para-publico/posicionamento-oficial-da-associacao-brasileira-de-nutrologia-respeito-da-prescricao-de-oleo-de-coco/